Os FilisteusCapítulo 1 de 11 ⤓ PDF
Vista de Gaza, com a cidade no alto da colina e capitéis antigos caídos em primeiro plano; litografia colorida de David Roberts
CAPÍTULO 1 DE 11

Quem eram

Povos do mar, cinco cidades e uma origem em debate

Antes de ver os filisteus cruzando a Bíblia, é preciso saber quem eram: de onde chegaram, onde se fixaram e o que sobrou deles, fora do texto bíblico, em pedra, em cerâmica e em DNA.

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Medinet Habu, no Egito, ano 8 do faraó Ramessés III. A parede de um templo conta um dia de batalha. No mar, navios sem remos, com a proa em forma de cabeça de ave, se enroscam uns nos outros. Em terra, carroças puxadas por bois, pesadas, levam mulheres e crianças. E há homens com uma coroa de penas eretas, escudo redondo e espada longa. Os textos do templo dão o nome deles: peleset.

É a mais antiga menção segura desse nome fora da Bíblia. A Bíblia o diz em hebraico: pelishtim, os filisteus. Este capítulo percorre três coisas: o que os relevos egípcios dizem, de onde esse povo veio e as cinco cidades onde ele se fixou. No fim, uma linha do tempo marca onde a Bíblia cruza cada época.

01 — OS HOMENS QUE VIERAM DO MARMedinet Habu e o ano 8 de Ramessés III

Ramessés III reinou, na cronologia convencional, de c. 1186 a c. 1155 a.C. Seu templo funerário, em Medinet Habu, na margem oeste de Tebas, tem uma das paredes mais lidas da arqueologia bíblica. Ali estão gravados os combates do ano 8 de seu reinado, por volta de 1177 a.C. O texto fala de povos que "fizeram uma conspiração em suas ilhas" e diz que "nenhuma terra pôde resistir às suas armas" (tradução minha, a partir da edição de Edgerton e Wilson, 1936). A lista de terras que caíram diante deles inclui Hatti, no centro da atual Turquia, e Alasia, que muitos identificam com Chipre. É o retrato de um mundo antigo que desaba, e o faraó se apresenta como o único que ficou de pé.

Entre os invasores, os textos nomeiam os Peleset, os Tjeker, os Shekelesh, os Denyen e os Weshesh. Os historiadores os chamam, em conjunto, de Povos do Mar. O nome é moderno, e a lista é do próprio faraó. Quase todo estudioso concorda que peleset é o nome egípcio dos filisteus: o nome hebraico é parente dele.

Desenho de Lepsius do segundo pilone de Medinet Habu: o faraó diante do deus Amon e três fileiras de prisioneiros estrangeiros
Medinet Habu, segundo pilone — desenho de Karl Richard Lepsius, Denkmäler aus Aegypten und Aethiopien, Abt. III, prancha 211 (1859). O faraó apresenta prisioneiros a Amon; a fileira de baixo, de coroa de penas, é a que a identificação usual dá aos Peleset. Domínio público.

Um segundo documento, o Papiro Harris I, foi escrito logo depois da morte do faraó, em nome dele. Ali ele se gaba: "Eu matei os Denyen em suas ilhas; os Tjeker e os Peleset foram reduzidos a cinzas" (tradução minha). A mesma passagem diz que os Sherden e os Weshesh foram trazidos prisioneiros e assentados em fortalezas. Repare no que o papiro não diz: que os Peleset foram postos em Canaã.

🏺 O que a pá encontrou

Muitos livros ensinam que Ramessés III derrotou os filisteus e os instalou, como soldados a serviço do Egito, nas cidades da costa de Canaã. Essa versão ("modelo tradicional") se apoia em três pilares: Medinet Habu, o Papiro Harris e a cerâmica filisteia achada em Canaã logo depois. Estudiosos como Donald Redford argumentam, ao contrário, que os Peleset ficaram fortes e independentes, tolerados pelo Egito. E há uma proposta minoritária, de Dan'el Kahn, que leva a campanha do ano 8 para o norte, e não para a costa filisteia.

⚠️ O relevo prova que um grupo chamado Peleset lutou contra o Egito por volta de 1177 a.C. Ele não prova onde esse grupo foi parar, nem que o faraó o assentou em Canaã. Relevos de templo também são propaganda real: o faraó sempre vence. Que os Peleset e os filisteus da Bíblia sejam o mesmo povo é a posição quase unânime, mas a rota entre uma coisa e outra é uma reconstrução.

🔎 A palavra original

O hebraico chama o povo de Pelishtim (פְּלִשְׁתִּים) e a terra de Pelesheth (פְּלֶשֶׁת). O dicionário de Strong, de 1890, liga o nome a um verbo que quer dizer "rolar", "migrar", daí o sentido de "migrantes". Muitos estudiosos desconfiam dessa explicação, e o sentido original do nome não é conhecido. O que se sabe é que o egípcio peleset e o acádio Palastu, usado pelos assírios, são parentes do hebraico. O nome que o próprio povo usava para si não chegou até nós.

Um detalhe de tradução: nas passagens em que a ACF diz "Filístia" (por exemplo, Êx 15.14 e Is 14.29), a Bíblia inglesa King James escreveu "Palestina". É o mesmo vocábulo hebraico. Voltaremos a esse nome no Capítulo 11.

02 — DE ONDE VIERAMCaftor, o mar e o debate

A Bíblia dá uma resposta curta e a repete em vários livros. Na tabela dos povos, os filisteus saem da linhagem de Mizraim, o Egito:

"A Patrusim e a Casluim (donde saíram os filisteus) e a Caftorim." Gênesis 10.14

Moisés, no Deuteronômio, lembra que gente vinda de Caftor já se fixara na região de Gaza: "os caftorins, que saíram de Caftor, destruíram os aveus, que habitavam em Cazerim até Gaza, e habitaram no lugar deles" Dt 2.23. E os profetas ligam os filisteus à mesma origem: eles são "o remanescente da ilha de Caftor" Jr 47.4. O texto mais surpreendente está em Amós:

"Não me sois, vós, ó filhos de Israel, como os filhos dos etíopes? diz o Senhor: Não fiz eu subir a Israel da terra do Egito, e aos filisteus de Caftor, e aos sírios de Quir?" Amós 9.7

Onde fica Caftor? O Egito tinha um nome para uma terra do mar, Keftiu, e a maioria dos estudiosos liga Caftor a Creta, ou ao mundo egeu de modo geral. Há outras propostas, como Chipre e a Cilícia. Ninguém sabe ao certo. A Bíblia dá a origem, mas nenhuma rota, e é por isso que as pessoas procuram a resposta na terra.

🏺 O que a pá encontrou

Nas cidades da costa, por volta de 1175 a.C., aparece de repente um tipo de cerâmica que não existia ali. Os arqueólogos a chamam de Micênico IIIC, porque imita, em barro local, os vasos do mundo grego. Mais tarde vem a cerâmica bicroma filisteia, pintada em preto e vermelho sobre fundo branco. Junto dela surgem coisas do cotidiano de estilo egeu: fogões circulares com seixos no centro da sala, pesos de tear parecidos com os de sítios micênicos e figuras de uma deusa sentada num trono, a chamada Ashdoda, que Moshe Dothan achou em Asdode.

⚠️ Cerâmica não é gente. Os objetos mostram contato e influência do mundo egeu, e a maioria dos arqueólogos lê isso como migração. Outros preferem imaginar elites e mercenários de origens variadas, que adotaram costumes egeus. A maior parte do debate é sobre quantos vieram e quando, mais do que sobre se vieram.

Desenho de guerreiros com coroa de penas e escudos redondos no relevo de Medinet Habu
Guerreiros com coroa de penas e escudos redondos — desenho do relevo de Medinet Habu publicado por Arthur Evans (1921), legendado "Pulasati (Philistines) and Tsakkaras". Domínio público.

Em 2019, uma equipe do Instituto Max Planck, com a expedição Leon Levy que escava em Asquelom, publicou na revista Science Advances o DNA de dez pessoas enterradas ali: três da Idade do Bronze, quatro bebês da primeira fase da Idade do Ferro (sepultados em jarros, sob o piso de casas do século XII a.C.) e três de uma fase posterior. Os bebês mostram, além da herança local, uma contribuição de ancestralidade do sul da Europa. Nas pessoas posteriores, esse sinal não aparece mais: segundo os autores, foi diluído em no máximo dois séculos, pelo contato com a população local.

🏺 O que a pá encontrou

O DNA reforça a ideia de que houve migração e de que ela foi absorvida cedo. Os próprios autores dizem que a fonte exata é incerta: Creta, a Península Ibérica e a Sardenha foram testadas nos modelos, mas faltam amostras antigas para apontar um lugar. Daniel Master, que codirigiu a escavação de Asquelom, observou que o sinal genético pode refletir casamentos com os grupos levantinos vizinhos.

⚠️ São dez indivíduos, de uma única cidade. O estudo não diz "de onde vieram os filisteus" nem "quem eles eram" como povo. Diz que, num ponto do século XII a.C., em Asquelom, surgiu uma ancestralidade que antes não estava lá.

Isso combina com outro fato. Se a língua dos filisteus era diferente, ela quase não deixou texto. A única inscrição longa, de Ecrom (c. séc. VII a.C.), é escrita em alfabeto fenício e num dialeto cananeu próximo do fenício. Os nomes dos governantes ali, Yair, Ada, Yasid e Padi, são considerados semitas pela maioria dos estudiosos. Só o último, Ikausu, nome que corresponde ao Aquis da Bíblia, é visto por vários deles como nome de origem estrangeira. Tudo indica que, com o passar dos séculos, os filisteus passaram a escrever na língua de seus vizinhos e a pôr nomes locais nos filhos. Voltaremos a essa inscrição no Capítulo 2.

🌱 Semente de sermão

O Senhor pergunta a Israel: "Não fiz eu subir [...] aos filisteus de Caftor?" Am 9.7 Israel tinha o hábito de pensar que a história de Deus era só a sua. Amós diz que o Deus do Êxodo também conduziu os inimigos, de um mar distante até a costa de Canaã. Deus conhece o endereço de gente que você só enxerga como adversário.

03 — A PENTÁPOLECinco cidades, cinco príncipes

Os filisteus nunca foram um reino com um só rei. A Bíblia os mostra sempre como cinco cidades, cada uma com seu governante:

"Cinco príncipes dos filisteus, e todos os cananeus, e sidônios, e heveus que habitavam nas montanhas do Líbano desde o monte de Baal-Hermom, até à entrada de Hamate." Juízes 3.3

A lista completa está em Josué: "o gazeu, e o asdodeu, o asqueloneu, o giteu, e o ecroneu" Js 13.3. São cinco nomes: Gaza, Asdode, Ascalom (ou Asquelom), Gate e Ecrom. Quando os filisteus devolvem a arca, mandam uma oferta em ouro por cidade, "por Asdode uma, por Gaza outra, por Ascalom outra, por Gate outra, por Ecrom outra" 1Sm 6.17. Os estudiosos chamam esse conjunto de pentápole, "cinco cidades".

Cada uma tem lugar conhecido hoje, e quase todas viraram sítio arqueológico:

Gaza, no sul, é a porta do Egito. Fica onde a estrada da costa deixa o deserto. A cidade continua habitada até hoje, e por isso a camada filisteia dela é a menos conhecida das cinco. Asquelom é um porto aberto ao mar, ao norte de Gaza, hoje um parque nacional onde a expedição Leon Levy escavou por três décadas. Asdode fica mais ao norte, perto da costa, num tel (a colina formada por camadas de ruínas). Ecrom é a cidade do interior mais ao norte, no sítio chamado Tel Miqne. E Gate, a cidade de Golias, é hoje identificada com Tell es-Safi, na base das colinas de Judá, a cerca de 8 km de Ecrom. A identificação de Gate foi discutida por décadas, e hoje é a mais aceita.

Quem governava cada cidade é chamado, em hebraico, seren. O dicionário de Strong traduz por "eixo" e, em sentido figurado, "par" (as Bíblias em português põem "príncipe"). A palavra lembra a grega týrannos, "tirano". É só hipótese, e muitos linguistas pensam que as duas vêm de uma língua da Anatólia.

👁️ Como era viver ali

Imagine uma casa filisteia do século XI a.C. Na sala principal, um fogão redondo, com seixos no chão, onde se cozinha e se aquece o ambiente: um traço egeu. No canto, o tear com pesos de barro. Os jarros de beber têm bico com um filtro, que segura a cevada da cerveja. O vinho vem em grandes taças. A carne pode ser de porco: os ossos mostram muito porco em Asquelom e em Ecrom na primeira fase. Mas o zooarqueólogo Justin Lev-Tov alerta que osso de porco não basta para dizer quem alguém era, e o consumo caiu muito depois (em Asquelom, quase não havia porco no tempo de Nabucodonosor).

A vida era de porto e de planície: comércio por mar, trigo, vinho e, séculos depois, uma indústria de azeite em Ecrom, com mais de cem lagares achados. Para um israelita da serra, os filisteus eram o povo da planície, rico e bem armado. Para eles mesmos, eram gente de porto e de comércio.

LINHA DO TEMPOOs filisteus inteiros, com a Bíblia marcada

Datas aproximadas, na cronologia convencional. O símbolo 📖 marca onde o texto bíblico cruza cada época. A "cronologia baixa" de alguns arqueólogos rebaixa algumas dessas datas em décadas, e ela aparece onde faz diferença.

c. 1208 a.C. — Estela de Merneptá
O faraó diz ter tomado Ascalom, Gezer e outras cidades, e cita "Israel". Ascalom já era, então, uma cidade cananeia sob o Egito, antes de qualquer filisteu.
c. 1177 a.C. — Ano 8 de Ramessés III
Os Povos do Mar, entre eles os Peleset, atacam o Egito. Medinet Habu e o Papiro Harris contam a vitória do faraó.
c. 1175 a.C. em diante — Cerâmica de tipo egeu
Surge nas cidades da costa a cerâmica Micênica IIIC e, depois, a bicroma. É o que os arqueólogos chamam de cultura material filisteia. 📖 Nesse mundo vivem Sangar e Sansão (Jz 3.31; 13–16).
c. 1050 a.C. — Ebenézer e Afeque
📖 Israel perde a arca em batalha (1Sm 4). As datas de Eli, Saul e Davi são as mais discutidas; o Capítulo 7 volta a isso.
c. 1010 a.C. — Gilboa
📖 Morrem Saul e seus filhos diante dos filisteus (1Sm 31).
c. 1010–970 a.C. — Davi e os filisteus
📖 Davi serve Aquis, rei de Gate (1Sm 27), e depois derrota os filisteus (2Sm 5; 8).
séc. X–IX a.C. — Gate cresce
Em Tell es-Safi, um caco desse tempo traz uma inscrição com dois nomes parecidos com "Golias". Não é o Golias da Bíblia: é só um indício de que nomes assim eram usados ali.
c. 830 a.C. — Hazael, de Damasco, contra Gate
📖 2Rs 12.17. A camada de destruição de Tell es-Safi é ligada a esse cerco.
c. 734 a.C. — Tiglate-Pileser III
O rei assírio toma Gaza, e o rei dela, Hanunu, foge para o Egito. 📖 Em Judá reina Acaz, e os filisteus invadem cidades da planície (2Cr 28.18).
712–711 a.C. — Sargão II e Asdode
📖 Isaías 20.1. Asdode é tomada pelo exército assírio.
701 a.C. — Senaqueribe
O rei assírio devolve Padi ao trono de Ecrom e entrega cidades de Judá aos reis de Asdode, Ecrom e Gaza. 📖 2Rs 18–19.
1ª metade do séc. VII a.C. — Ecrom
Ikausu (Aquis), filho de Padi, dedica um templo e deixa uma inscrição com cinco governantes em sequência.
604 a.C. — Nabucodonosor
A Crônica Babilônica diz que ele tomou Ascalom e a deixou em ruínas. 📖 Jr 47; Sf 2.4.
332 a.C. e depois
Alexandre toma Gaza, e os filisteus deixam de aparecer como povo nas fontes. O nome "Palestina", já usado por Heródoto, continua como nome da região em grego e latim.

PARA FIXARO que ficou do capítulo

🌊

Do mar, em 1177 a.C.

Os Peleset aparecem em Medinet Habu, no ano 8 de Ramessés III. A pedra prova a luta, mas não diz onde eles foram parar.

🏝️

Caftor, provavelmente Creta

A Bíblia dá a origem em Caftor Am 9.7. A cerâmica e o DNA de Asquelom apontam para o mundo egeu, com debate sobre quanto e quando.

5️⃣

Cinco cidades, cinco príncipes

Gaza, Asdode, Ascalom, Gate e Ecrom, cada uma com seu governante Js 13.3. Nunca houve um rei dos filisteus para todos.

🗣️

Gente que virou local

Tudo indica que, com o tempo, escreviam como os cananeus e usavam nomes semitas. Só alguns nomes, como Aquis, parecem de fora.

Próximo capítulo: no que os filisteus acreditavam, de Dagom a Baal-Zebube, e o que a Bíblia diz quando um deus cai de cara no chão.

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