Davi está na fortaleza. Lá embaixo, no vale de Refaim, os acampamentos filisteus se espalham. Eles vieram todos de uma vez, assim que ouviram que ele foi ungido rei de todo o Israel 2Sm 5.17-18. Davi não parte. Antes, pergunta ao Senhor se deve subir, e o Senhor responde que sim, e que os entregará 2Sm 5.19.
É o começo do reinado, e o primeiro que vem cobrar é a Filístia. Este capítulo segue o que acontece depois: duas batalhas no vale, uma cidade tomada, uma guarda de soldados de Gate a serviço do rei, quatro "filhos do gigante" e um copo de água que ninguém bebeu.
32 — O VALE DE REFAIMDuas batalhas, duas ordens diferentes
Muitos historiadores leem a cena como política. Até então, Davi podia passar por um vassalo conveniente, que reinava em Judá (Capítulo 7). Agora ele é rei de todas as tribos e, portanto, um rival. Os filisteus sobem para pará-lo. O vale de Refaim fica a sudoeste de Jerusalém, numa das vias que sobem da planície para essa região.
A primeira vitória é frontal, e Davi a atribui a Deus com uma imagem de água: o Senhor rompe os inimigos como a água rompe um dique. O nome do lugar guarda isso. Crônicas completa o fim: "E deixaram ali seus deuses; e ordenou Davi que se queimassem a fogo" 1Cr 14.12. Os filisteus tornam a subir ao vale. Desta vez, o Senhor não manda subir.
E Davi faz como foi ordenado: "feriu os filisteus desde Geba, até chegar a Gezer" 2Sm 5.25. O Senhor muda de plano de uma batalha para a outra. A fórmula que funcionou na primeira não vale para a segunda.
O nome Ba'al P'ratsim (בַּעַל פְּרָצִים) quer dizer "o senhor das brechas", "possuidor de rupturas", segundo Strong. A palavra paratz (פָּרַץ), "romper, abrir brecha", aparece no verso de Davi, na forma que a ACF traduz por "rompeu". Chama atenção que o nome do lugar carrega a palavra Ba'al ("senhor"): a localidade era, ao que tudo indica, um lugar com nome cananeu. Davi dá a ele um sentido novo, o de brecha aberta pelo Senhor.
E as "amoreiras" do versículo 23 são, no hebraico, bakha (בָּכָא), que Strong define como "a árvore do pranto, talvez o bálsamo". A tradução da árvore é incerta.
33 — GATE E O FIM DO TEMPO DE AMEAÇA"Metegue-Ama"
Uma frase curta resume o que vem depois: "E sucedeu depois disto que Davi feriu os filisteus, e os sujeitou; e Davi tomou a Metegue-Ama das mãos dos filisteus" 2Sm 8.1. Crônicas escreve o mesmo versículo de modo diferente: "e tomou a Gate, e os lugares da sua jurisdição, da mão dos filisteus" 1Cr 18.1. A expressão Metheg ha-Ammah é rara. Strong a traduz como "freio da metrópole" e a chama de apelido de Gate. Muitos estudiosos entendem o trecho assim: Davi tomou o "freio", o controle, da cidade-mãe e dos lugares dela. É uma leitura plausível, e a versão de Crônicas vai por esse caminho.
O quadro muda. Os filisteus passam de ameaça a povo submetido, e estão entre os povos de quem Davi tomou despojos que consagrou ao Senhor 2Sm 8.11-12. Mas "sujeitar" não é destruir. No tempo de Salomão, o texto diz que ele "dominava [...] desde o rio até à terra dos filisteus, e até ao termo do Egito; os quais traziam presentes, e serviram a Salomão" 1Rs 4.21, e que o limite sul da área era Gaza 1Rs 4.24. Os filisteus continuam em suas cidades, com seus governantes.
Um detalhe mostra isso. Quando os dois servos de Simei fogem, no começo do reinado de Salomão, vão para "Aquis, filho de Maaca, rei de Gate", e Simei atravessa a fronteira para buscá-los 1Rs 2.39-40. Gate ainda tem rei, e o rei se chama Aquis. É o nome do rei do tempo de Davi, "filho de Maoque" (1Sm 27.2), com o nome do pai escrito de modo um pouco diferente (Maoque em Samuel, Maaca em Reis). Pode ser a mesma pessoa, ou um sucessor com o mesmo nome. O texto não resolve.
34 — A GUARDA DE DAVIQuereteus, peleteus e o giteu que não quis voltar
O que há de mais estranho no reinado de Davi, para quem conheceu os filisteus do capítulo anterior, é a lista dos homens de confiança dele. Junto aos comandantes, aparece o nome de Benaia, "sobre os quereteus e peleteus" 2Sm 8.18, e os dois grupos escoltam o rei em vários momentos importantes: na fuga de Absalão 2Sm 15.18, na caçada a Seba 2Sm 20.7, 23 e na unção de Salomão 1Rs 1.38.
O hebraico escreve Kereti (כְּרֵתִי) e Peleti (פְּלֵתִי). O dicionário de Strong trata os dois como títulos de função: "executor, guarda de corpo" e "mensageiro, correio". Mas há uma razão para dúvida. Os profetas usam Kereti como nome de um povo da costa filisteia: "arrancarei os quereteus, e destruirei o restante da costa do mar" Ez 25.16 e "Ai dos habitantes da costa do mar, a nação dos quereteus" Sf 2.5. A tradução grega antiga, nesses versículos, escreve "cretenses". E, nos dias de Ziclague, já aparecia uma região de queretitas no sul 1Sm 30.14. Muitos estudiosos concluem que os quereteus eram gente de origem egeia, talvez cretense, a serviço de Davi, e que "peleteus" pode ser uma forma abreviada de "filisteus". É uma hipótese com apoio nos textos, mas não é uma certeza.
A mesma cena de 2 Samuel 15 traz outro filisteu, que o rei tenta dispensar. Davi está fugindo de Jerusalém, e diante dele passam "todos os giteus, seiscentos homens que vieram de Gate a pé". O rei diz a Itai, o chefe deles: "Por que irias tu também conosco? Volta-te, e fica-te com o rei, porque és estrangeiro, e também desterrado de teu lugar. Ontem vieste, e te levaria eu hoje conosco a caminhar?" 2Sm 15.18-20. A resposta de Itai é uma das promessas mais lindas da Bíblia, e vem de um homem de Gate:
Davi diz: "Vem, pois, e passa adiante". Itai passa, com todos os seus homens e as crianças 2Sm 15.22. Em outras palavras: os seiscentos homens de Gate passam a ser os homens do rei.
E tem Obede-Edom. Quando a arca é levada de Quiriate-Jearim para Jerusalém e a primeira tentativa dá errado, Davi a deixa na casa de "Obede-Edom, o giteu". Ela fica três meses ali, "e abençoou o Senhor a Obede-Edom, e a toda a sua casa" 2Sm 6.10-12. O texto de Samuel o chama de "giteu", isto é, de Gate. Mas Crônicas põe o mesmo nome entre os porteiros e músicos do santuário (1Cr 15.18, 21, 24), e o chama de "filho de Jedutum" 1Cr 16.38. Por isso muitos entendem que ele era levita, de Gate-Rimom, uma das cidades dos levitas Js 21.24-25, e não filisteu. Outros mantêm que era de Gate, a cidade dos filisteus. O texto não decide.
Para um soldado de Gate, servir a Davi significava deixar a cidade e o rei de antes, e viver, nas palavras de Davi, como "estrangeiro e desterrado". É uma vida de soldado estrangeiro a serviço de outro rei, que depende da palavra dele. O que Itai promete é bem mais que um contrato: "aí estará também o teu servidor". O texto não diz por que ele fez essa escolha, mas mostra o resultado: seiscentos homens, e as crianças com eles, caminhando à frente de um rei em fuga.
35 — OS FILHOS DO GIGANTEQuatro lutas em Gobe e Gate
Um bloco de 2 Samuel 21, que reúne episódios sem datas, junta quatro lutas com os "filhos do gigante" 2Sm 21.15-22. No primeiro, o próprio Davi "se cansou". Isbi-Benobe, cuja lança pesava trezentos siclos de cobre, "intentou ferir a Davi", e Abisai o salva e o mata. Os soldados de Davi fazem um juramento: "Nunca mais sairás conosco à peleja, para que não apagues a lâmpada de Israel" 2Sm 21.15-17. O texto mostra, ali, um Davi cansado, protegido pelos seus.
Em seguida, em Gobe, Sibecai mata Safe. Depois vem o versículo que mais intriga quem lê com atenção:
Aqui a Bíblia parece se contradizer: quem matou Golias? Em 1 Samuel 17, é Davi. Aqui, é El-Hanã. O texto paralelo de Crônicas resolve de um jeito: "El-Hanã, filho de Jair, feriu a Lami, irmão de Golias, o giteu" 1Cr 20.5. As propostas costumam ser três:
A primeira: Crônicas preserva o texto correto, e em Samuel, ao copiar, o escriba perdeu uma palavra ("o irmão de"), de modo que o versículo passou a dizer que El-Hanã matou o próprio Golias. É a leitura que muitos estudiosos conservadores seguem, e algumas Bíblias, como a King James, acrescentam "o irmão de" ao versículo de Samuel.
A segunda: o texto de Crônicas é uma harmonização antiga, feita para encaixar o versículo de Samuel em 1 Samuel 17. Muitos estudiosos críticos pensam assim: para eles, o versículo de Samuel é o original e guarda outra tradição.
A terceira: havia dois guerreiros de Gate chamados Golias, e o segundo morreu nas mãos de El-Hanã.
O último dos quatro tem seis dedos em cada mão e seis em cada pé, "vinte e quatro ao todo", "injuriava a Israel; porém Jônatas, filho de Simei, irmão de Davi, o feriu" 2Sm 21.20-21. O resumo do texto é: "Estes quatro nasceram ao gigante em Gate; e caíram pela mão de Davi e pela mão de seus servos" 2Sm 21.22.
Nenhum achado confirma nem refuta essas lutas. A palavra "gigante" que a ACF usa vem do hebraico rapha (רָפָא), que Strong traduz por "gigante" e liga ao nome Refaim, um dos povos antigos de Canaã. Em Gate, as escavações de Tell es-Safi mostraram uma cidade grande e fortificada, onde os séculos X e IX a.C. foram de prosperidade, até a destruição por volta de 830 a.C. (Capítulo 9). É o cenário, não a prova, de uma tradição de campeões gateus.
⚠️ A discussão sobre quem matou Golias é um problema de transmissão do texto. Não há achado que a decida. O que o leitor honesto pode fazer é saber que há três saídas e que nenhuma é decisiva.
36 — A ÁGUA DE BELÉMO copo derramado
No meio da lista dos "poderosos" de Davi, 2 Samuel 23 guarda uma das histórias mais belas da Bíblia, e ela tem os filisteus ao fundo. É o tempo da sega. A "multidão dos filisteus" está no vale de Refaim, e "a guarnição dos filisteus em Belém", na cidade natal de Davi 2Sm 23.13-14. O texto não explica o contexto, e a ordem dos fatos é discutida. Davi está num lugar forte, e sente saudade:
A razão está no versículo seguinte: "Guarda-me, ó Senhor, de que tal faça; beberia eu o sangue dos homens que foram com risco da sua vida?" 2Sm 23.17. Duas outras histórias do mesmo bloco têm os filisteus como fundo. Eleazar, que "feriu os filisteus, até lhe cansar a mão e ficar a mão pegada à espada", e Samá, que ficou sozinho num pedaço de terra cheio de lentilhas e defendeu o campo 2Sm 23.9-12. Nos dois casos, o texto repete a mesma frase: "o Senhor efetuou um grande livramento".
Davi consulta o Senhor duas vezes antes da mesma guerra, e ouve duas respostas diferentes: "sobe", e depois "não subirás; rodeia". A obediência de ontem não vira fórmula para hoje: é preciso perguntar de novo. E o copo derramado em Belém é o contrário da vitória de Refaim: um rei que, sendo o mais forte do lugar, trata uma água ganha com sangue como oferta, e não como bebida.
PARA FIXARO que ficou do capítulo
Refaim: duas batalhas, dois planos
Primeiro de frente, em Baal-Perazim. Depois pela retaguarda, ao som de passos nas amoreiras 2Sm 5.20, 23-24.
Gate sujeita, mas não destruída
Davi toma o "freio" da cidade 2Sm 8.1. Mesmo assim, Gate ainda tem rei no tempo de Salomão 1Rs 2.39.
Giteus a serviço do rei
Quereteus, peleteus e os seiscentos de Itai, de Gate, protegem Davi. "Aí estará também o teu servidor" 2Sm 15.21.
Quem matou Golias?
Davi em 1 Samuel 17, El-Hanã em 2 Samuel 21.19 e "o irmão de Golias" em 1 Crônicas 20.5. Há três explicações, e nenhuma é decisiva.
Próximo capítulo: os reis de Judá e os filisteus, de Salomão a Ezequias, com os assírios batendo à porta.
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