Os FilisteusCapítulo 9 de 11 ⤓ PDF
O anjo do Senhor sobre o acampamento do exército assírio, com soldados e cavalos caídos; gravura de Gustave Doré
CAPÍTULO 9 DE 11

Reis de Judá e impérios

De Eliseu a Ezequias, com a Assíria batendo à porta

Quando o reino se divide, a Filístia deixa de ser o assunto principal da Bíblia e vira um dos vizinhos que pesam na balança. E logo aparece quem pesa mais: a Assíria. Neste capítulo, um refúgio, um cerco e três reis assírios.

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Sete anos. A mulher volta da terra dos filisteus e vai direto ao palácio, "a clamar ao rei pela sua casa e pelas suas terras" 2Rs 8.3. A casa e os campos tinham ficado sem dono. Na sala do rei, naquele exato momento, Geazi conta como o profeta Eliseu ressuscitou o filho de uma mulher. Eis que a mulher entra: "Ó rei meu senhor, esta é a mulher, e este o seu filho" 2Rs 8.5.

A cena é um dos retratos mais humanos da Bíblia, e a terra dos filisteus faz parte dela como refúgio. Este capítulo percorre o que acontece com a Filístia no tempo dos reis de Israel e de Judá, até a Assíria chegar à costa.

37 — SETE ANOS EM TERRA FILISTEIAUma sunamita no exílio

O profeta avisa a mulher: "Levanta-te e vai, tu e a tua família, e peregrina onde puderes peregrinar; porque o Senhor chamou a fome, a qual também virá à terra por sete anos" 2Rs 8.1. Ela obedece e "peregrinou na terra dos filisteus sete anos" 2Rs 8.2. A Bíblia não explica por que ela escolheu a Filístia, nem como foi recebida. Conta só o que importa: sobreviveu, e quando volta, o rei lhe dá "um oficial" com uma ordem: "Faze-lhe restituir tudo quanto era seu, e todas as rendas das terras desde o dia em que deixou a terra até agora" 2Rs 8.6.

Repare em uma coisa que o texto deixa passar sem comentário. A região que, nos capítulos anteriores, foi a terra do inimigo, aqui é o abrigo de uma israelita em tempo de fome. Já tinha sido assim com Isaque em Gerar, em outra fome Gn 26.1. A fronteira entre os povos não era uma muralha. Gente passava de um lado para o outro quando a vida exigia.

🌱 Semente de sermão

"Levanta-te e vai", disse o Senhor pela boca do profeta. O texto põe a mulher na sala no instante exato em que Geazi conta a história dela, e muitos leitores veem nisso a mão de Deus. O Deus que manda você sair também cuida do dia em que você volta, e até as "rendas das terras" dos anos de ausência entram na conta.

38 — GIBETOM, HAZAEL E O FIM DE GATEUm cerco que se repete e uma cidade que cai

Uma cidade filisteia, Gibetom, aparece duas vezes como alvo dos reis de Israel. Nadabe, filho de Jeroboão, a cerca quando Baasa o mata ali, e toma o trono 1Rs 15.27. Anos depois, "o povo estava acampado contra Gibetom, que era dos filisteus" quando chega a notícia de que Zinri matou o rei, e o exército proclama Onri, o general, como novo rei no próprio acampamento 1Rs 16.15-16. Duas vezes, na história de Israel, uma coroa é decidida diante de uma cidade filisteia.

Mais ao sul, os filisteus pesam de outro modo. No tempo de Jeosafá, "alguns dentre os filisteus traziam presentes a Jeosafá, e prata como tributo" 2Cr 17.11. Depois dele, o sinal inverte: sob Jeorão, "despertou o Senhor contra Jeorão o espírito dos filisteus e dos árabes", que levaram os bens do palácio, os filhos e as mulheres do rei, e só deixaram o caçula 2Cr 21.16-17. Com Uzias, a balança volta: ele "quebrou o muro de Gate, o muro de Jabne, e o muro de Asdode; e edificou cidades em Asdode, e entre os filisteus" 2Cr 26.6. E sob Acaz, os filisteus avançam de novo sobre as cidades da campina e do sul de Judá e "habitaram ali" 2Cr 28.18.

Entre esses reis, um nome vindo de fora muda a história de Gate:

"Então subiu Hazael, rei da Síria, e pelejou contra Gate, e a tomou; depois Hazael resolveu marchar contra Jerusalém." 2 Reis 12.17

Hazael era rei de Aram-Damasco, no norte (a ACF traduz "Síria"). O que o texto diz é só isso, uma frase. O versículo seguinte mostra que o rei Joás, de Judá, preferiu pagar a Hazael com o ouro do templo, e Hazael se afastou de Jerusalém 2Rs 12.18.

🏺 O que a pá encontrou

É em Tell es-Safi que o versículo de 2 Reis ganha uma imagem. A equipe de Aren Maeir achou, desde os anos 1990, uma camada de destruição por incêndio em toda a cidade, com casas queimadas e restos humanos. A datação por carbono-14 a coloca por volta de 830 a.C., a época de Hazael. Em volta da cidade existe uma trincheira de cerco de mais de um quilômetro e meio (os relatos falam em cerca de 2,5 km), e, em 2021, a equipe anunciou uma brecha de uns nove metros nas fortificações, que interpreta como o ponto em que os atacantes entraram. Maeir disse que o motivo da guerra é incerto, talvez o controle das rotas do sul.

⚠️ O achado combina muito bem com 2 Reis 12.17, mas a Bíblia não menciona trincheira nem brecha, e a ligação com Hazael é uma interpretação, ainda que bem apoiada. Algo que o achado mostra: Gate era uma cidade grande e forte o bastante para exigir um cerco desses.

Há uma pista curiosa nos profetas, que o Capítulo 10 retoma. Nas listas de cidades filisteias que os profetas citam em seus oráculos (Amós 1, Sofonias 2, Jeremias 25, Zacarias 9), o nome de Gate deixa de aparecer. Os nomes são Gaza, Asdode, Ascalom e Ecrom, quatro. Muitos estudiosos ligam isso ao que aconteceu a Gate por volta de 830 a.C. Pode ser. Mas Gate ainda aparece em outros textos tardios: Uzias quebra seu muro, e Amós a cita como exemplo de uma cidade grande 2Cr 26.6; Am 6.2. É uma pista, e não uma prova.

39 — A ASSÍRIA CHEGA À COSTATiglate-Pileser, Sargão e a "ilha"

No século VIII a.C., a Assíria vira o ator principal. O rei Acaz, de Judá, pressionado por seus vizinhos, escreve a Tiglate-Pileser: "Eu sou teu servo e teu filho; sobe, e livra-me" 2Rs 16.7. O rei assírio aceita e ataca Damasco 2Rs 16.9. Os anais assírios mostram que, em 734 a.C., ele também desceu pela costa filisteia. O rei de Gaza, Hanunu, não aguentou e fugiu para o Egito. Gaza foi tomada e saqueada, e Hanunu depois voltou e foi mantido no trono como vassalo. Os anais dizem que ele voltou, tomado pelo esplendor terrível do deus Assur, e os historiadores desconfiam que ele esperava ajuda do Egito, que nunca veio.

Duas décadas depois, a cena se repete em Asdode:

"No ano em que Tartã, enviado por Sargom, rei da Assíria, veio a Asdode, e guerreou contra ela, e a tomou." Isaías 20.1

É o único versículo da Bíblia que cita o rei assírio Sargão II pelo nome. O texto segue com uma ação profética: Isaías anda "nu e descalço" por três anos, como "sinal e prodígio sobre o Egito e sobre a Etiópia" Is 20.2-3. A mensagem é que os aliados em quem a Filístia e Judá confiavam seriam levados presos. E o oráculo termina com uma voz da própria costa: "Então os moradores desta ilha dirão naquele dia: Vede que tal é a nossa esperança, à qual fugimos por socorro, para nos livrarmos da face do rei da Assíria! Como pois escaparemos nós?" Is 20.6.

🔎 A palavra original

A ACF traduz por "ilha" a palavra hebraica 'i (אִי). Strong a explica como "um lugar habitável, terra seca, costa, ilha". Em Isaías 20.6 muitos entendem "costa" ou "litoral", e os "moradores desta costa" são os filisteus e seus vizinhos, que tinham apostado no Egito. O título de Tartan (תַּרְתָּן, "Tartã" na ACF) não é nome de pessoa: é o título do general em chefe do exército assírio, turtanu em acádio.

🏺 O que a pá encontrou

Nas escavações de Asdode, nos anos 1960, a equipe de Moshe Dothan achou fragmentos de uma estela de Sargão II. Os anais do rei contam a mesma campanha de Isaías 20: Asdode tinha um rei assírio de confiança, Azuri, que conspirou, foi deposto e trocado por um irmão; depois um tal Yamani tomou o trono, fortificou a cidade e procurou o apoio do Egito. Sargão mandou o exército, e Asdode foi tomada, em 712 ou 711 a.C.

⚠️ A estela de Sargão prova que o rei assírio esteve em Asdode, e que a Bíblia tem razão ao citá-lo. Ela não fala de Isaías. As datas variam nos livros: 713 para a deposição de Azuri e 712 ou 711 para a tomada da cidade, conforme o autor.

40 — 701 A.C.Senaqueribe, Ecrom e o rei preso

Ezequias, de Judá, entra no quadro como o rei que "se rebelou contra o rei da Assíria, e não o serviu", e que "feriu os filisteus até Gaza, como também os seus termos" 2Rs 18.7-8. O texto bíblico não diz por que ele atacou os filisteus. Um texto assírio dá pelo menos parte do contexto.

O Prisma de Taylor, de Senaqueribe, descreve a campanha de 701 a.C. e inclui a Filístia. Em minha tradução, para três episódios:

Ascalom. "Sidqia, rei de Ascalom, que não se curvou ao meu jugo, eu o arranquei de lá e o levei à Assíria." E pôs outro rei no trono, que pagasse tributo.

Ecrom. Os chefes da cidade "lançaram Padi, o seu rei, em grilhões", porque ele continuava fiel ao juramento feito à Assíria, "e o entregaram a Ezequias, de Judá", que o manteve preso. Chamaram, depois, o exército do Egito e da Núbia. Senaqueribe os derrotou em Elteque, tomou Timna e Ecrom, e executou os oficiais, cujos corpos pendurou em estacas em volta da cidade. Devolveu Padi ao trono.

Os despojos. As cidades que ele tirou de Ezequias foram entregues a "Mitinti, rei de Asdode, Padi, rei de Ecrom, e Silibel, rei de Gaza".

O livro de Reis não menciona Padi. A Bíblia só conta o que tocou Judá: Senaqueribe sobe, toma as cidades fortificadas, Ezequias paga "trezentos talentos de prata e trinta talentos de ouro" 2Rs 18.13-14, e o rei assírio manda o Rabsaqué, de Laquis, a Jerusalém 2Rs 18.17. O desfecho, na Bíblia, é: "saiu o anjo do Senhor, e feriu no arraial dos assírios a cento e oitenta e cinco mil deles", e Senaqueribe volta a Nínive 2Rs 19.35-36. O Prisma, que é um documento de propaganda real, diz que Ezequias ficou preso em Jerusalém "como um pássaro numa gaiola" e pagou um tributo enorme, e nada sobre a morte do exército.

👁️ Como era viver ali

Imagine Ecrom em 701. A cidade tem um rei que jurou lealdade à Assíria e uma elite que prefere a aliança com o Egito e com Ezequias. O que o Prisma conta é um golpe: os próprios oficiais prendem o rei e o mandam para Jerusalém como moeda de troca. Quando o exército assírio chega, quem ficou? Os que tomaram partido, executados. Os que tinham culpa menor, presos. O resto, soltos, e o rei de volta ao trono. É o roteiro de qualquer cidade-estado esmagada entre dois impérios: dividida por dentro e usada por fora.

🏺 O que a pá encontrou

O Prisma de Taylor, assim chamado porque o coronel R. Taylor o comprou em 1830, está no Museu Britânico, e há um quase idêntico no Instituto Oriental de Chicago. Os nomes Padi e Ikausu, de Ecrom, reaparecem em outros textos: uma lista de Esarhaddon, de c. 673–672 a.C., cita Manassés, rei de Judá, ao lado de Ikausu, rei de Ecrom, Mitinti de Ascalom, Silibel de Gaza e Ahimilki de Asdode, entre vinte e dois reis que mandam material de construção a Nínive. Ikausu é o filho de Padi da inscrição de Ecrom (Capítulo 2).

⚠️ As inscrições assírias são propaganda de um rei vencedor e devem ser lidas com a mesma cautela que as egípcias. Quando coincidem com a Bíblia em nomes, lugares e fatos (Ezequias, Ecrom, o tributo), reforçam o quadro. Quando divergem, como no desfecho do cerco de Jerusalém, nenhum dos dois textos decide sozinho.

PARA FIXARO que ficou do capítulo

🧳

A Filístia como refúgio

Uma sunamita passa sete anos ali, em tempo de fome, e volta para a casa e as terras 2Rs 8.2, 6.

🔥

Gate cai por volta de 830 a.C.

2 Reis 12.17 e a camada de destruição de Tell es-Safi combinam. Gate some das listas de cidades dos profetas.

🦅

Três reis assírios, três campanhas

Tiglate-Pileser em Gaza (734), Sargão em Asdode (712/711, Is 20.1) e Senaqueribe em Ecrom e Ascalom (701).

⛓️

Padi, o rei de Ecrom preso em Jerusalém

Só o Prisma de Taylor conta isso: os oficiais de Ecrom entregaram o rei a Ezequias. A Bíblia não menciona.

Próximo capítulo: os profetas que falaram contra a Filístia, de Amós a Zacarias, e o dia em que Nabucodonosor derrubou Ascalom.

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