A Europa da ReformaCapítulo 10 de 11 ⤓ PDF
Pintura: a nave de uma catedral gótica com duas fileiras de bispos de mitra branca sentados em bancos, o altar ao fundo e soldados de armadura em primeiro plano
CAPÍTULO 10 DE 11

Trento

Como a Igreja Católica respondeu: o cânon, a Vulgata e o Índice

Em 8 de abril de 1546, bispos reunidos em Trento recebem uma lista de livros, dizem qual latim vale nas lições públicas e declaram anátema quem rejeitar. O capítulo conta o que o concílio decidiu, com as palavras dele, e o que não decidiu.

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Trento, 8 de abril de 1546. Na quarta sessão do concílio, lê-se um decreto sobre as Escrituras. Os padres conciliares escrevem que o sínodo, "tendo sempre diante dos olhos" que, "removidos os erros, a própria pureza do Evangelho seja preservada na Igreja", recebe e venera "com igual afeto de piedade e reverência" todos os livros do Antigo e do Novo Testamento, "bem como as ditas tradições". Depois vem uma lista, e, no fim da lista, um anátema.

É a resposta católica à pergunta que corre por todo este livro: o que é a Bíblia, em que língua vale, quem a explica e quem a lê. Este capítulo mostra o que Trento decidiu, com as palavras do próprio concílio, o que não decidiu, o que o Índice de livros proibidos fez com as traduções em língua do povo e como a Igreja Católica, depois, mudou de tom. É um capítulo sobre uma Igreja que também leu e explicou a Bíblia, e que discordou de seus adversários com textos e com regras.

01 — O DECRETO DE 8 DE ABRIL DE 1546Escritura, tradição, cânon e Vulgata

O Concílio de Trento foi convocado pelo papa Paulo III. Abriu em 13 de dezembro de 1545, na cidade de Trento, no norte da Itália, e se reuniu em três períodos (1545–47, 1551–52 e 1562–63), encerrando-se em 4 de dezembro de 1563, depois de vinte e cinco sessões. Começou com cerca de trinta bispos, e, segundo uma obra de referência, quando passaram os decretos mais importantes não havia mais de uns sessenta prelados. A maioria dos protestantes não participou. Delegados de Brandemburgo, Württemberg e Estrasburgo estiveram presentes, sob um salvo-conduto melhorado.

O decreto da quarta sessão tem duas partes. A primeira lista os livros "recebidos" pelo sínodo. No Antigo Testamento, inclui Tobias, Judite, Sabedoria, Eclesiástico, Baruque e dois livros dos Macabeus. No Novo, os catorze escritos de Paulo, entre eles Hebreus, mais Tiago, Judas e o Apocalipse: os quatro livros que Lutero pusera no fim (Capítulo 4) estão na lista. E acrescenta: "Mas, se alguém não receber como sagrados e canônicos os ditos livros, inteiros e com todas as suas partes, como se costumava lê-los na Igreja Católica e como estão na antiga edição latina vulgata, [...] seja anátema" (tradução minha, da versão inglesa de Waterworth, 1848).

A segunda parte trata da edição e do uso. Diz que a antiga edição vulgata, "pelo uso de tantos anos", "seja tida como autêntica" "nas lições públicas, nas disputas, nos sermões e nas exposições", e que ninguém se atreva a rejeitá-la. Proíbe que, "em matéria de fé e de costumes", alguém, "apoiado em sua própria habilidade", interprete a Escritura "contra o sentido que a santa madre Igreja [...] sustentou e sustenta", ou "contra o consenso unânime dos Padres". E manda que ninguém imprima livros sobre matérias sagradas sem nome do autor nem sem exame e aprovação do ordinário, sob pena de anátema e multa; quem fizer circular manuscritos sem exame sofre as mesmas penas dos impressores, e quem os tiver ou ler, se não revelar os autores, "será tido como autor" deles.

🔎 A palavra original

"Tradição" traduz o grego paradosis (παράδοσις), que o dicionário de Strong, de 1890, define como "transmissão, isto é, concretamente um preceito; em especial, a lei tradicional judaica". Vem do verbo paradidōmi, "entregar, transmitir". A palavra é usada nos dois sentidos, e as tradições a leem de modos diferentes. Para quem defende que há tradição apostólica normativa, o texto é 2 Tessalonicenses 2.15. Para quem defende que as tradições humanas não podem invalidar a Escritura, é Marcos 7.8-9.

"Então, irmãos, estai firmes e retende as tradições que vos foram ensinadas, seja por palavra, seja por epístola nossa." 2 Tessalonicenses 2.15
"Porque, deixando o mandamento de Deus, retendes a tradição dos homens; como o lavar dos jarros e dos copos; e fazeis muitas outras coisas semelhantes a estas." Marcos 7.8
📜 Posições em debate

A leitura católica. O decreto diz que a "verdade e a disciplina" estão contidas "nos livros escritos e nas tradições não escritas", recebidas dos apóstolos e "ditadas ou pela palavra do próprio Cristo ou pelo Espírito Santo", e que o sínodo as venera "com igual afeto de piedade e reverência". Para a Igreja Católica, a Igreja é quem julga do verdadeiro sentido da Escritura. A leitura protestante. Na posição reformada clássica, a Escritura é a norma, e a tradição só vale quando concorda com ela. O luterano Martin Chemnitz respondeu a Trento com um longo Exame do Concílio de Trento (1565–73), e Calvino, ainda em 1547, com um Antídoto às atas das primeiras sessões. O que Trento não diz. Não declara a Vulgata superior ao hebraico e ao grego: diz que ela é "autêntica" para uso nas lições públicas, nos sermões e nas disputas. E não proíbe ler a Bíblia.

⚠️ Os católicos veem no decreto a proteção do texto contra erros e interpretações privadas. Os protestantes veem nele o limite da Escritura pela Igreja. As duas leituras partem do mesmo texto. Em 1965, o Vaticano II disse, na Dei Verbum, que as traduções devem ser feitas "especialmente a partir dos textos originais".

02 — O ÍNDICEA Bíblia em língua do povo, entre a licença e a proibição

Trento não definiu uma política comum sobre a leitura da Bíblia em língua do povo. Um verbete católico sobre a Bíblia explica que, segundo as autoridades católicas, nem todas as versões eram próprias para leitura, nem todos estavam habilitados a ler, e a leitura mal feita causava desordens. Alguns bispos queriam proibir. Outros, de regiões sob influência protestante, objetavam que Cristo falava ao povo na língua dele. A discussão não resolveu o assunto.

Página de rosto do Índice dos livros proibidos de 1564, com o título em latim e, embaixo, o brasão papal com as chaves e a tiara
Índice dos livros proibidos, 1564 — Veneza, 1564: Index librorum prohibitorum, cum regulis confectis per Patres a Tridentina Synodo delectos, auctoritate Sanctiss. D. N. Pii IIII Pont. Max. comprobatus ("com regras feitas pelos Padres escolhidos pelo Sínodo de Trento, aprovado pela autoridade do santíssimo Pio IV"). Domínio público.

O que veio foram os índices. A Sorbonne publicara o seu em 1544, com muitas traduções da Bíblia para línguas do povo. O Índice romano, de Paulo IV, de 1559, e o de 1564, aprovado por Pio IV com as regras elaboradas depois de Trento, trouxe dez regras. A quarta, segundo o verbete católico, dizia que a posse e a leitura de um livro da Bíblia dependiam de aprovação prévia do bispo ou do inquisidor, depois de consultado o pároco ou o confessor. Clemente VIII, em 1596, determinou, em nota à regra, que a licença só poderia ser dada pela Santa Sé (o verbete católico fala também de um endurecimento sob Sisto V, em 1590, mas o Índice daquele ano foi impresso e nunca promulgado). A regra foi suavizada mais tarde: Bento XIV, em 1757, permitiu as versões aprovadas pela Santa Sé ou publicadas com notas dos Padres da Igreja ou de estudiosos católicos.

Os tradutores da Bíblia de 1611 já conheciam essa história. No prefácio, escrevem que Roma só dá a Escritura em língua do povo com licença escrita e que "pareceu demais a Clemente VIII que houvesse licença alguma", de modo que ele "anula a concessão de Pio IV". É uma leitura protestante, e a sequência de regras, de 1564 a 1596, que o verbete católico dá, a confirma.

📜 Posições em debate

A justificativa católica da época era pastoral: nem toda versão servia, nem todo leitor estava preparado, e a leitura mal feita gerava desordem. A crítica protestante, nas palavras dos tradutores de 1611, é que a Igreja de Roma tem medo da luz da Escritura. A leitura católica de hoje aparece na Dei Verbum (1965), n. 22: "O acesso fácil à Sagrada Escritura deve ser garantido a todos os fiéis" (tradução minha da versão inglesa). Em 14 de junho de 1966, uma notificação do Vaticano disse que o Índice já não tinha força de lei eclesiástica, embora mantivesse sua força moral.

⚠️ A frase "a Igreja proibia a Bíblia" mistura épocas e lugares. Não houve proibição geral. Houve, a partir de 1559 e 1564, regras que exigiam licença para ler a Bíblia em língua do povo, mais duras em algumas épocas e em alguns países. Antes disso, como vimos, houve Bíblias católicas em língua do povo, e depois também: a Douai-Reims em inglês (Capítulo 9), a de Antonio Martini em italiano (Novo Testamento em 1769–71 e Antigo em 1776–81) e a de Sacy em francês (1672–93).

👁️ Como era viver ali

Para a maioria dos católicos, o contato com a Bíblia continuou sendo a missa, o sermão e a catequese. O Concílio de Trento, na quinta sessão (17 de junho de 1546), mandou que nas catedrais e nas igrejas maiores houvesse um professor de Sagrada Escritura, "para que o tesouro celeste dos livros sagrados [...] não fique abandonado". Mandou também que os bispos preguem pessoalmente o Evangelho e que os párocos, ao menos aos domingos e festas, alimentem o povo "com palavras saudáveis", "ensinando o que é necessário a todos para a salvação". O texto diz que a pregação do Evangelho "não é menos necessária à república cristã que a sua leitura".

Na França, em Port-Royal, houve quem dissesse que ler a Bíblia era obrigação do cristão leigo. A Bíblia "de Sacy", traduzida de 1672 a 1693, foi a lida por gente comum. E, depois da revogação do Edito de Nantes, em 1685, segundo o verbete católico, distribuíram-se mais de um milhão de livros aos "recém-convertidos", e metade eram exemplares do Novo Testamento de Amelote, dos Salmos e da Imitação de Cristo.

03 — A JUSTIÇA DE DEUS, DE NOVOTrento e a justificação

Na sexta sessão (13 de janeiro de 1547), Trento tratou da questão que, para Lutero, estava por trás de tudo (Capítulo 2). Definiu que a justificação "não é só remissão de pecados, mas também santificação e renovação do homem interior" (cap. 7). E condenou, no cânon 9, quem dissesse que "só pela fé o ímpio é justificado", de modo a querer dizer que nada mais é necessário para obter a graça da justificação e que não é preciso que ele se prepare por movimento de sua vontade; e, no cânon 11, quem dissesse que os homens são justificados "ou pela só imputação da justiça de Cristo, ou pela só remissão dos pecados, com exclusão da graça e da caridade que se derrama nos corações pelo Espírito Santo e lhes é inerente" (tradução minha da versão de Waterworth).

A distância entre as duas formulações tem história recente. Em 31 de outubro de 1999, em Augsburgo, a Federação Luterana Mundial e a Igreja Católica assinaram a Declaração Conjunta sobre a Doutrina da Justificação. Nela confessam juntos: "Somente pela graça, na fé na obra salvífica de Cristo e não por algum mérito nosso, somos aceitos por Deus e recebemos o Espírito Santo, que renova os nossos corações ao mesmo tempo que nos habilita e chama para as boas obras" (n. 15; tradução minha). E declaram que as condenações mútuas de antigamente "não se aplicam às doutrinas católica e luterana da justificação, como são apresentadas na Declaração Conjunta".

🌱 Semente de sermão

No caminho de Gaza, o eunuco etíope lia Isaías e Filipe perguntou: "Entendes tu o que lês?" Ele respondeu: "Como poderei entender, se alguém não me ensinar?" At 8.30-31. O texto agrada, ao mesmo tempo, ao católico, que vê aí a necessidade de um mestre, e ao protestante, que vê um leitor que lê a Escritura no seu carro e pede ajuda. Os dois têm razão em parte, e o trecho de Atos 8 conta uma ajuda que dura uma conversa, e não uma proibição de ler.

04 — A VULGATA REVISTASisto, Clemente e o texto latino

Depois de Trento, a Igreja também cuidou do texto latino. Depois de muitos incidentes, em que o cardeal Roberto Belarmino teve papel importante, Clemente VIII promulgou, em 9 de novembro de 1592, a Vulgata revista, chamada "sixto-clementina", segundo o verbete católico.

A distinção importa. A Vulgata é "autêntica" para o uso público, e não é o original. Em 1965, a Dei Verbum (n. 22) lembrou que a Igreja sempre deu lugar de honra à Septuaginta e à Vulgata, e pediu traduções adequadas e corretas "especialmente a partir dos textos originais", e, se for o caso, em cooperação com os "irmãos separados".

05 — O QUE ISSO MUDA NA LEITURAUma Igreja que lê com guia

O leitor católico, depois de Trento, lia a Bíblia dentro de uma Igreja que dizia ter o direito de dizer o que ela significa, tinha um texto latino de referência, regras sobre as traduções e uma liturgia cheia de leituras. O leitor protestante lia com a pergunta de quem tinha esse direito. Entre os dois, houve pontos em comum que a polêmica esconde: a lista dos 27 livros do Novo Testamento é a mesma, os credos antigos são os mesmos, e católicos e protestantes imprimiram, cada um por conta própria, Bíblias em várias línguas.

E houve diferenças que nenhum concílio e nenhuma declaração apagaram: o cânon do Antigo Testamento, o peso da tradição, o papel do magistério. Este capítulo tentou mostrá-las com os textos e as datas, sem caricatura de nenhum lado.

PARA FIXARO que ficou do capítulo

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8 de abril de 1546

Trento recebe os livros, inclusive os deuterocanônicos, e a Vulgata "como autêntica", sem a pôr acima do original. Escritura e tradição são veneradas "com igual afeto".

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O Índice, 1559 e 1564

Regra IV: licença do bispo ou do inquisidor para ler a Bíblia em língua do povo. Mais dura em 1596; suavizada em 1757; sem força de lei desde 1966.

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Pregar e ensinar

Na quinta sessão (1546), Trento exige professores de Escritura nas catedrais e pregação regular dos bispos e párocos.

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Augsburgo, 1999

Luteranos e católicos declaram em comum que somos aceitos "somente pela graça" e que as condenações antigas não se aplicam às doutrinas como ali apresentadas.

Próximo capítulo: as guerras. De Augsburgo, em 1555, à Paz de Vestfália, em 1648, a Europa discute com a espada o que a Bíblia diz, e o livro fecha com os frutos e os problemas da sola scriptura e a ponte para Almeida.

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