A Europa da ReformaCapítulo 5 de 11 ⤓ PDF
Reprodução em preto e branco de uma pintura do século XIX: Lutero e Zwingli discutem diante de uma mesa de toalha franjada, no salão gótico do castelo de Marburgo, cercados de príncipes e teólogos
CAPÍTULO 5 DE 11

Zurique e a Ceia

Zuínglio, as salsichas, a Bíblia pregada de ponta a ponta e Marburgo

Doze homens comem salsicha na Quaresma, na casa de um impressor. O pregador da cidade está à mesa. Sete anos depois, dois reformadores leem as mesmas quatro palavras gregas, e a Reforma se divide pela primeira vez.

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Zurique, 9 de março de 1522, primeiro domingo da Quaresma. Na casa do impressor Christoph Froschauer, uns doze homens se sentam à mesa e comem salsicha, numa época em que a Igreja proibia carne. O pregador da cidade, Huldrych Zwingli, está lá. Segundo as obras de referência, é o único que não toca na comida. Froschauer será preso por isso e solto depois. O que é uma refeição proibida vai virar, em poucas semanas, um sermão impresso sobre o que a Bíblia manda e o que ela não manda.

É assim, por um prato de salsicha, que muitos historiadores veem começar a Reforma na Suíça. Este capítulo segue Zwingli, de uma pregação sobre Mateus até a briga de Marburgo, na qual, segundo uma tradição, Lutero escreveu com giz numa mesa as palavras "Isto é o meu corpo". Ele tenta mostrar duas coisas: a Bíblia que Zurique leu e imprimiu, e a primeira grande briga entre protestantes.

01 — O PREGADOR DE ZURIQUEMateus, versículo por versículo

Zwingli nasceu em 1.º de janeiro de 1484, em Wildhaus, no vale de Toggenburg. Em 11 de dezembro de 1518, os cônegos de Zurique o elegeram sacerdote da catedral, o Grossmünster, e em 1.º de janeiro de 1519 ele subiu ao púlpito e começou a pregar o Evangelho de Mateus, e continuou depois pelo restante do Novo Testamento. Ele seguia o livro de capítulo em capítulo, e não temas escolhidos por ele.

No fim do verão de 1519, uma epidemia de peste atingiu Zurique. Zwingli ficou na cidade, adoeceu e esteve perto de morrer. Zwingli usava o Novo Testamento em grego: em Marburgo, dez anos depois, segundo o relato de Schaff, ele leu uma passagem de um Testamento grego que ele mesmo copiara à mão e usava havia doze anos.

Em 1522 veio o episódio das salsichas. Zwingli defendeu os comensais num sermão, publicado em 16 de abril com o título Da escolha e da liberdade dos alimentos. O argumento, que vale o que vale para a Reforma suíça inteira, é que a Escritura não proíbe carne na Quaresma. Segundo a Enciclopédia de História Mundial, que traduz o texto a partir de Jackson e Preble, ele diz que usou os santos Evangelhos e o ensino dos apóstolos, e cita Tito 1.15 para dizer que, para quem tem a mente contaminada, a liberdade do Evangelho é loucura:

"Todas as coisas são puras para os puros, mas nada é puro para os contaminados e infiéis; antes o seu entendimento e consciência estão contaminados." Tito 1.15

Para Zwingli, as proibições de alimentos eram da Lei de Moisés, e não do Evangelho, como resume o historiador Hughes Oliphant Old, citado na mesma fonte. A posição tinha uma consequência: se a Igreja não podia criar regras que a Escritura não traz, o que fazer com as outras?

📜 Posições em debate

Zwingli comeu a salsicha? As obras de referência o põem à mesa, mas sem comer: a Enciclopédia de História Mundial, apoiada em Diarmaid MacCulloch, diz que ele foi o único a não comer, e que defendeu o ato no domingo seguinte. A presença dele pode ter sido, para as autoridades, uma aprovação silenciosa. O que é seguro é que ele defendeu os que comeram.

⚠️ A refeição é a cena; a controvérsia é o princípio. O artigo 13 dos Artigos de Marburgo, assinado por Lutero e por Zwingli, diz que as tradições humanas, desde que não contrariem claramente a Palavra de Deus, podem ser seguidas ou abandonadas conforme sirvam à paz e ao amor. O princípio era comum aos dois; a aplicação variou de cidade em cidade.

02 — A BÍBLIA E A CIDADEDisputas, Prophezei e a Bíblia de Zurique

Em 29 de janeiro de 1523, na Primeira Disputa de Zurique, diante de uns seiscentos ouvintes, Zwingli apresentou 67 artigos. O conselho da cidade lhe permitiu continuar pregando e decidiu que todos os pregadores ensinassem de acordo com a Escritura. Na Segunda Disputa, em outubro de 1523, o tema foi as imagens e a missa. As imagens foram retiradas, de forma ordenada, a partir de 1524. Na Quinta-feira Santa de 1525, 13 de abril, Zwingli celebrou a Ceia numa nova liturgia em alemão.

Em 19 de junho de 1525 abriu a Prophezei, uma escola de estudo bíblico ligada à catedral, com Zwingli e Leo Jud entre os professores. Um grupo ligado a ela traduziu a Bíblia de Zurique, que no título promete a tradução "segundo a verdade hebraica e grega". A edição in-fólio, luxuosa e ilustrada, foi impressa por Froschauer em 1531, três anos antes da Bíblia completa de Lutero. Antes disso, Froschauer já imprimira adaptações do Novo Testamento (desde 1524) e uma Bíblia completa, barata e em formato pequeno, em 1530, quatro anos antes de Lutero.

Página de rosto da Bíblia de Zurique, com título em vermelho e preto, uma árvore no centro e cenas do Gênesis nas molduras xilografadas
A Bíblia de Zurique, página de rosto — Christoffel Froschauer, Zurique (1531): Die gantze Bibel, der ursprünglichen ebraischen und griechischen Waarheyt nach auffs aller treüwlichest verteütschet ("A Bíblia inteira, vertida o mais fielmente possível para o alemão segundo a verdade original hebraica e grega"); Zentralbibliothek Zürich (e-rara). Domínio público.

O que essa Bíblia tem de próprio? Segundo obras de referência, o Novo Testamento, o Pentateuco e os livros históricos foram adaptados da tradução de Lutero, os profetas foram traduzidos de modo independente, com a ajuda dos "Profetas de Worms" (1527), e os livros poéticos, como os Salmos, são uma tradução nova. Leo Jud verteu os apócrifos, que estão dentro do Antigo Testamento, depois dos livros históricos. A parte de Zwingli é discutida entre os pesquisadores. A língua traz marcas do alemânico suíço. Um exemplar encadernado do in-fólio custava cerca de três florins e meio, mais da metade do salário mensal de um mestre artesão de Zurique, e a tiragem foi de pelo menos três mil exemplares.

👁️ Como era viver ali

Em Zurique, ouvir a Bíblia passou a ser uma rotina de cidade. Havia a pregação em alemão sobre o livro em curso, a escola da Prophezei, a nova liturgia da Ceia e, depois de 1524, igrejas sem imagens. Para o leigo, o contraste era forte: o que antes se via, em quadros e esculturas, passava a se ouvir.

Mas a Bíblia impressa era cara, e a leitura em casa dependia de quem sabia ler e de quem podia pagar. A mesma cidade que abria a Escritura ao povo discutia em conselho quem podia pregar e o que podia ser dito do púlpito.

03 — A CEIA"Isto é o meu corpo": o que o "é" quer dizer

Um dos textos centrais da fé cristã está em quatro lugares do Novo Testamento. Em Mateus:

"E, quando comiam, Jesus tomou o pão, e abençoando-o, o partiu, e o deu aos discípulos, e disse: Tomai, comei, isto é o meu corpo." Mateus 26.26

O que significa "é"? A resposta dividiu a Europa. Para a Igreja Católica, como definiu o Concílio de Trento em 1551, depois da consagração Cristo está "verdadeira, real e substancialmente contido sob as espécies" do pão e do vinho, e a substância do pão se converte na do corpo, o que a Igreja chama de transubstanciação. Quem diz que Cristo está ali só "em sinal, figura ou virtude" é anátema (Sessão 13, cap. 1 e 4 e cânon 1; tradução minha da versão inglesa de Waterworth, 1848).

Lutero rejeitava a transubstanciação e a missa como sacrifício, e defendia a presença real: o corpo de Cristo está "no, com e sob" o pão. Zwingli lia o "é" como "significa". Para ele, o pão e o vinho são sinais, e Cristo está presente na fé, e não no pão. E há o texto de João 6, que cada lado leu de um jeito:

"O espírito é o que vivifica, a carne para nada aproveita; as palavras que eu vos digo são espírito e vida." João 6.63
🔎 A palavra original

A discussão gira em torno do verbo "ser". O Novo Testamento grego diz touto estin to sōma mou (τοῦτό ἐστιν τὸ σῶμά μου), "isto é o meu corpo". Zwingli lembrava passagens em que "é" tem sentido figurado, do tipo de "Eu sou a porta" Jo 10.9 ou "Eu sou a videira verdadeira" Jo 15.1. Lutero respondia apontando para as palavras da instituição. Em Marburgo, segundo Schaff, ele negou que o discurso de João 6 tivesse a ver com a Ceia. Quem diz "é" e quem diz "significa" estão, os dois, lendo o mesmo grego.

Em 1.º de outubro de 1529, no castelo de Marburgo, o landgrave Filipe de Hesse reuniu Lutero, Melanchthon, Zwingli, Oecolampadius, Bucer e outros. Filipe queria uma aliança de príncipes protestantes diante de Carlos V, e para isso precisava de unidade na fé. Em 3 de outubro, os dez assinaram quinze artigos. Em catorze, concordaram. O décimo quinto dizia que a Ceia deve ser dada nas duas espécies, que a missa não é uma obra com que um alcance graça a outro, vivo ou morto (cláusula do texto alemão reproduzido por Schaff), que o sacramento é "sacramento do verdadeiro corpo e sangue de Jesus Cristo", e que a fruição espiritual desse corpo e sangue é necessária a todo cristão. E acrescentava: "embora não tenhamos podido, desta vez, concordar se o verdadeiro corpo e sangue de Cristo estão presentes corporalmente no pão e no vinho, cada parte deve mostrar à outra o amor cristão" (tradução minha, a partir da versão de Ellen Yutzy Glebe para a GHDI).

O que aconteceu em volta dessa assinatura é relatado por Schaff e tido como tradição. Lutero teria escrito com giz sobre a mesa, em letras grandes, Hoc est corpus meum, e apontado para elas a cada argumento de Zwingli. E, quando Zwingli lhe estendeu a mão, com lágrimas, Lutero a teria recusado, dizendo: "Vocês têm outro espírito que não o nosso". Esses relatos vêm de fontes antigas, nem sempre com referência precisa.

📜 Posições em debate

Lutero e Zwingli concordavam em quase tudo: em ser a Ceia dada nas duas espécies, em rejeitar a transubstanciação, em achar que o sacramento serve à fé. Os Artigos de Marburgo dizem, no artigo 14, que o batismo de crianças é correto e, no 12, que as autoridades civis são legítimas, ao contrário do que, segundo o texto, ensinam muitos "papistas e anabatistas". O Capítulo 7 vai a esses anabatistas. A GHDI conclui que os artigos não tiveram efeito sobre a briga, que se tornou um cisma dentro do que fora um grupo unido, e que acabou em duas confissões protestantes, a luterana e a reformada.

⚠️ Em Calvino (Capítulo 6), muitos historiadores veem uma posição intermediária entre os dois: Cristo realmente dado, mas pelo Espírito. A tradição católica e a luterana discordam entre si sobre a substância do pão e concordam, contra Zwingli, na presença real. A discordância sobre a Ceia continua entre as igrejas de hoje.

04 — O FIM DE ZWINGLIKappel

Zwingli morreu em 11 de outubro de 1531, na batalha de Kappel, na segunda guerra entre os cantões protestantes e os católicos, entre as cerca de quinhentas baixas de Zurique. Seu sucessor em Zurique, Heinrich Bullinger, manteve a tradição.

O que fica de Zwingli, no tema deste livro, são três coisas. A pregação contínua de um livro bíblico. A Bíblia de Zurique, saída de uma escola de línguas originais. E a pergunta, levada às últimas consequências, de quanto a Igreja pode impor sem a Bíblia dizer.

05 — O QUE ISSO MUDA NA LEITURADois protestantes, uma mesma Bíblia

Em Marburgo, o princípio de ler pela Escritura enfrentou um dos primeiros testes entre os próprios reformadores. Os dois lados leram o mesmo grego e chegaram a conclusões diferentes sobre uma frase de poucas palavras. O argumento católico clássico, que já aparece diante de Lutero em Worms, é que, sem um juiz comum, a Escritura divide. Os reformadores sustentavam que ela é clara no essencial, e a prova de que concordavam no essencial estava nos catorze artigos. O Capítulo 11 examina os dois argumentos.

Para o leitor comum, a lição era menos abstrata. Quem lia a Bíblia em Zurique ouvia um "significa". Quem a lia em Wittenberg ouvia um "é". A língua era a mesma, o texto era o mesmo, e o pastor era diferente.

🌱 Semente de sermão

Em Marburgo, em 1529, dez homens assinaram quinze artigos. No último, registraram que não concordavam, e assinaram, juntos, que cada lado devia mostrar ao outro amor cristão, "até onde a consciência de cada um permitir", e pedir a Deus que os levasse a um entendimento. Discordar de um irmão numa frase de quatro palavras é uma coisa; desistir de orar por ele é outra.

PARA FIXARO que ficou do capítulo

📖

Mateus de ponta a ponta

Em 1.º de janeiro de 1519, Zwingli começou a pregar o Evangelho de Mateus em Zurique, e seguiu pelo Novo Testamento.

🌭

As salsichas de 1522

Um jantar na Quaresma e um sermão: a Escritura não proíbe a carne Tt 1.15. Zwingli estava presente, mas, segundo as obras de referência, não comeu.

🖨️

A Bíblia de Zurique, 1531

Impressa por Froschauer três anos antes da Bíblia completa de Lutero, saiu da Prophezei, em parte adaptada de Lutero.

🍞

Marburgo, 1529

Houve acordo em catorze de quinze artigos. O décimo quinto, sobre a Ceia Mt 26.26, registra o desacordo.

Próximo capítulo: Genebra. Em julho de 1536, um jovem francês que só queria passar a noite na cidade é detido por um pregador, que lhe diz que Deus amaldiçoará seu sossego se ele não ficar.

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