Zurique, 9 de março de 1522, primeiro domingo da Quaresma. Na casa do impressor Christoph Froschauer, uns doze homens se sentam à mesa e comem salsicha, numa época em que a Igreja proibia carne. O pregador da cidade, Huldrych Zwingli, está lá. Segundo as obras de referência, é o único que não toca na comida. Froschauer será preso por isso e solto depois. O que é uma refeição proibida vai virar, em poucas semanas, um sermão impresso sobre o que a Bíblia manda e o que ela não manda.
É assim, por um prato de salsicha, que muitos historiadores veem começar a Reforma na Suíça. Este capítulo segue Zwingli, de uma pregação sobre Mateus até a briga de Marburgo, na qual, segundo uma tradição, Lutero escreveu com giz numa mesa as palavras "Isto é o meu corpo". Ele tenta mostrar duas coisas: a Bíblia que Zurique leu e imprimiu, e a primeira grande briga entre protestantes.
01 — O PREGADOR DE ZURIQUEMateus, versículo por versículo
Zwingli nasceu em 1.º de janeiro de 1484, em Wildhaus, no vale de Toggenburg. Em 11 de dezembro de 1518, os cônegos de Zurique o elegeram sacerdote da catedral, o Grossmünster, e em 1.º de janeiro de 1519 ele subiu ao púlpito e começou a pregar o Evangelho de Mateus, e continuou depois pelo restante do Novo Testamento. Ele seguia o livro de capítulo em capítulo, e não temas escolhidos por ele.
No fim do verão de 1519, uma epidemia de peste atingiu Zurique. Zwingli ficou na cidade, adoeceu e esteve perto de morrer. Zwingli usava o Novo Testamento em grego: em Marburgo, dez anos depois, segundo o relato de Schaff, ele leu uma passagem de um Testamento grego que ele mesmo copiara à mão e usava havia doze anos.
Em 1522 veio o episódio das salsichas. Zwingli defendeu os comensais num sermão, publicado em 16 de abril com o título Da escolha e da liberdade dos alimentos. O argumento, que vale o que vale para a Reforma suíça inteira, é que a Escritura não proíbe carne na Quaresma. Segundo a Enciclopédia de História Mundial, que traduz o texto a partir de Jackson e Preble, ele diz que usou os santos Evangelhos e o ensino dos apóstolos, e cita Tito 1.15 para dizer que, para quem tem a mente contaminada, a liberdade do Evangelho é loucura:
Para Zwingli, as proibições de alimentos eram da Lei de Moisés, e não do Evangelho, como resume o historiador Hughes Oliphant Old, citado na mesma fonte. A posição tinha uma consequência: se a Igreja não podia criar regras que a Escritura não traz, o que fazer com as outras?
Zwingli comeu a salsicha? As obras de referência o põem à mesa, mas sem comer: a Enciclopédia de História Mundial, apoiada em Diarmaid MacCulloch, diz que ele foi o único a não comer, e que defendeu o ato no domingo seguinte. A presença dele pode ter sido, para as autoridades, uma aprovação silenciosa. O que é seguro é que ele defendeu os que comeram.
⚠️ A refeição é a cena; a controvérsia é o princípio. O artigo 13 dos Artigos de Marburgo, assinado por Lutero e por Zwingli, diz que as tradições humanas, desde que não contrariem claramente a Palavra de Deus, podem ser seguidas ou abandonadas conforme sirvam à paz e ao amor. O princípio era comum aos dois; a aplicação variou de cidade em cidade.
02 — A BÍBLIA E A CIDADEDisputas, Prophezei e a Bíblia de Zurique
Em 29 de janeiro de 1523, na Primeira Disputa de Zurique, diante de uns seiscentos ouvintes, Zwingli apresentou 67 artigos. O conselho da cidade lhe permitiu continuar pregando e decidiu que todos os pregadores ensinassem de acordo com a Escritura. Na Segunda Disputa, em outubro de 1523, o tema foi as imagens e a missa. As imagens foram retiradas, de forma ordenada, a partir de 1524. Na Quinta-feira Santa de 1525, 13 de abril, Zwingli celebrou a Ceia numa nova liturgia em alemão.
Em 19 de junho de 1525 abriu a Prophezei, uma escola de estudo bíblico ligada à catedral, com Zwingli e Leo Jud entre os professores. Um grupo ligado a ela traduziu a Bíblia de Zurique, que no título promete a tradução "segundo a verdade hebraica e grega". A edição in-fólio, luxuosa e ilustrada, foi impressa por Froschauer em 1531, três anos antes da Bíblia completa de Lutero. Antes disso, Froschauer já imprimira adaptações do Novo Testamento (desde 1524) e uma Bíblia completa, barata e em formato pequeno, em 1530, quatro anos antes de Lutero.
O que essa Bíblia tem de próprio? Segundo obras de referência, o Novo Testamento, o Pentateuco e os livros históricos foram adaptados da tradução de Lutero, os profetas foram traduzidos de modo independente, com a ajuda dos "Profetas de Worms" (1527), e os livros poéticos, como os Salmos, são uma tradução nova. Leo Jud verteu os apócrifos, que estão dentro do Antigo Testamento, depois dos livros históricos. A parte de Zwingli é discutida entre os pesquisadores. A língua traz marcas do alemânico suíço. Um exemplar encadernado do in-fólio custava cerca de três florins e meio, mais da metade do salário mensal de um mestre artesão de Zurique, e a tiragem foi de pelo menos três mil exemplares.
Em Zurique, ouvir a Bíblia passou a ser uma rotina de cidade. Havia a pregação em alemão sobre o livro em curso, a escola da Prophezei, a nova liturgia da Ceia e, depois de 1524, igrejas sem imagens. Para o leigo, o contraste era forte: o que antes se via, em quadros e esculturas, passava a se ouvir.
Mas a Bíblia impressa era cara, e a leitura em casa dependia de quem sabia ler e de quem podia pagar. A mesma cidade que abria a Escritura ao povo discutia em conselho quem podia pregar e o que podia ser dito do púlpito.
03 — A CEIA"Isto é o meu corpo": o que o "é" quer dizer
Um dos textos centrais da fé cristã está em quatro lugares do Novo Testamento. Em Mateus:
O que significa "é"? A resposta dividiu a Europa. Para a Igreja Católica, como definiu o Concílio de Trento em 1551, depois da consagração Cristo está "verdadeira, real e substancialmente contido sob as espécies" do pão e do vinho, e a substância do pão se converte na do corpo, o que a Igreja chama de transubstanciação. Quem diz que Cristo está ali só "em sinal, figura ou virtude" é anátema (Sessão 13, cap. 1 e 4 e cânon 1; tradução minha da versão inglesa de Waterworth, 1848).
Lutero rejeitava a transubstanciação e a missa como sacrifício, e defendia a presença real: o corpo de Cristo está "no, com e sob" o pão. Zwingli lia o "é" como "significa". Para ele, o pão e o vinho são sinais, e Cristo está presente na fé, e não no pão. E há o texto de João 6, que cada lado leu de um jeito:
A discussão gira em torno do verbo "ser". O Novo Testamento grego diz touto estin to sōma mou (τοῦτό ἐστιν τὸ σῶμά μου), "isto é o meu corpo". Zwingli lembrava passagens em que "é" tem sentido figurado, do tipo de "Eu sou a porta" Jo 10.9 ou "Eu sou a videira verdadeira" Jo 15.1. Lutero respondia apontando para as palavras da instituição. Em Marburgo, segundo Schaff, ele negou que o discurso de João 6 tivesse a ver com a Ceia. Quem diz "é" e quem diz "significa" estão, os dois, lendo o mesmo grego.
Em 1.º de outubro de 1529, no castelo de Marburgo, o landgrave Filipe de Hesse reuniu Lutero, Melanchthon, Zwingli, Oecolampadius, Bucer e outros. Filipe queria uma aliança de príncipes protestantes diante de Carlos V, e para isso precisava de unidade na fé. Em 3 de outubro, os dez assinaram quinze artigos. Em catorze, concordaram. O décimo quinto dizia que a Ceia deve ser dada nas duas espécies, que a missa não é uma obra com que um alcance graça a outro, vivo ou morto (cláusula do texto alemão reproduzido por Schaff), que o sacramento é "sacramento do verdadeiro corpo e sangue de Jesus Cristo", e que a fruição espiritual desse corpo e sangue é necessária a todo cristão. E acrescentava: "embora não tenhamos podido, desta vez, concordar se o verdadeiro corpo e sangue de Cristo estão presentes corporalmente no pão e no vinho, cada parte deve mostrar à outra o amor cristão" (tradução minha, a partir da versão de Ellen Yutzy Glebe para a GHDI).
O que aconteceu em volta dessa assinatura é relatado por Schaff e tido como tradição. Lutero teria escrito com giz sobre a mesa, em letras grandes, Hoc est corpus meum, e apontado para elas a cada argumento de Zwingli. E, quando Zwingli lhe estendeu a mão, com lágrimas, Lutero a teria recusado, dizendo: "Vocês têm outro espírito que não o nosso". Esses relatos vêm de fontes antigas, nem sempre com referência precisa.
Lutero e Zwingli concordavam em quase tudo: em ser a Ceia dada nas duas espécies, em rejeitar a transubstanciação, em achar que o sacramento serve à fé. Os Artigos de Marburgo dizem, no artigo 14, que o batismo de crianças é correto e, no 12, que as autoridades civis são legítimas, ao contrário do que, segundo o texto, ensinam muitos "papistas e anabatistas". O Capítulo 7 vai a esses anabatistas. A GHDI conclui que os artigos não tiveram efeito sobre a briga, que se tornou um cisma dentro do que fora um grupo unido, e que acabou em duas confissões protestantes, a luterana e a reformada.
⚠️ Em Calvino (Capítulo 6), muitos historiadores veem uma posição intermediária entre os dois: Cristo realmente dado, mas pelo Espírito. A tradição católica e a luterana discordam entre si sobre a substância do pão e concordam, contra Zwingli, na presença real. A discordância sobre a Ceia continua entre as igrejas de hoje.
04 — O FIM DE ZWINGLIKappel
Zwingli morreu em 11 de outubro de 1531, na batalha de Kappel, na segunda guerra entre os cantões protestantes e os católicos, entre as cerca de quinhentas baixas de Zurique. Seu sucessor em Zurique, Heinrich Bullinger, manteve a tradição.
O que fica de Zwingli, no tema deste livro, são três coisas. A pregação contínua de um livro bíblico. A Bíblia de Zurique, saída de uma escola de línguas originais. E a pergunta, levada às últimas consequências, de quanto a Igreja pode impor sem a Bíblia dizer.
05 — O QUE ISSO MUDA NA LEITURADois protestantes, uma mesma Bíblia
Em Marburgo, o princípio de ler pela Escritura enfrentou um dos primeiros testes entre os próprios reformadores. Os dois lados leram o mesmo grego e chegaram a conclusões diferentes sobre uma frase de poucas palavras. O argumento católico clássico, que já aparece diante de Lutero em Worms, é que, sem um juiz comum, a Escritura divide. Os reformadores sustentavam que ela é clara no essencial, e a prova de que concordavam no essencial estava nos catorze artigos. O Capítulo 11 examina os dois argumentos.
Para o leitor comum, a lição era menos abstrata. Quem lia a Bíblia em Zurique ouvia um "significa". Quem a lia em Wittenberg ouvia um "é". A língua era a mesma, o texto era o mesmo, e o pastor era diferente.
Em Marburgo, em 1529, dez homens assinaram quinze artigos. No último, registraram que não concordavam, e assinaram, juntos, que cada lado devia mostrar ao outro amor cristão, "até onde a consciência de cada um permitir", e pedir a Deus que os levasse a um entendimento. Discordar de um irmão numa frase de quatro palavras é uma coisa; desistir de orar por ele é outra.
PARA FIXARO que ficou do capítulo
Mateus de ponta a ponta
Em 1.º de janeiro de 1519, Zwingli começou a pregar o Evangelho de Mateus em Zurique, e seguiu pelo Novo Testamento.
As salsichas de 1522
Um jantar na Quaresma e um sermão: a Escritura não proíbe a carne Tt 1.15. Zwingli estava presente, mas, segundo as obras de referência, não comeu.
A Bíblia de Zurique, 1531
Impressa por Froschauer três anos antes da Bíblia completa de Lutero, saiu da Prophezei, em parte adaptada de Lutero.
Marburgo, 1529
Houve acordo em catorze de quinze artigos. O décimo quinto, sobre a Ceia Mt 26.26, registra o desacordo.
Próximo capítulo: Genebra. Em julho de 1536, um jovem francês que só queria passar a noite na cidade é detido por um pregador, que lhe diz que Deus amaldiçoará seu sossego se ele não ficar.
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