Worms, 17 de abril de 1521. No salão, o imperador Carlos V, de 21 anos, os eleitores e os príncipes do Império. No meio, uma mesa com uma pilha de livros. Diante dela, um monge agostiniano de 37 anos que veio de Wittenberg sob salvo-conduto. Um oficial do arcebispo de Trier, Johann von Eck, faz duas perguntas, uma de cada vez: são seus estes livros? O senhor os mantém ou os retira?
São duas perguntas e uma resposta que ainda se discute. A resposta de Lutero, no dia seguinte, está entre as frases mais citadas do século XVI e entre as mais discutidas. Este capítulo conta o que se sabe do que ele disse, o que o imperador respondeu, o que foi feito dele depois e como um homem que desapareceu da vista pública passou dez meses escondido num castelo, onde traduziu o Novo Testamento.
01 — A MESA DE LIVROSUm salvo-conduto e duas perguntas
Depois da bula, em tese ao imperador e à Dieta só cabia aplicar a condenação de Roma e declarar Lutero fora da lei. Mas eles lhe ofereceram uma audiência, o que, segundo a coleção GHDI (German History in Documents and Images), não tinha precedente na história do Império. A Dieta fora aberta por Carlos V em Worms no início de 1521. A convocação saiu em 6 de março, com um salvo-conduto de vinte e um dias, e Frederico, o Sábio, eleitor da Saxônia, tinha obtido a garantia de passagem segura. Havia razão para o cuidado: Jan Hus foi queimado em Constança, em 1415, apesar de um salvo-conduto do rei Sigismundo (futuro imperador).
Lutero chegou em 16 de abril. No dia 17, foi levado ao salão. A literatura fala em cerca de 25 títulos na mesa, entre eles, provavelmente, as 95 teses e Da liberdade do cristão. Eck perguntou se os livros eram dele e se os retirava. Lutero pediu tempo para responder à segunda pergunta, e o imperador concedeu um dia.
No dia 18, falou primeiro em alemão e depois em latim. O texto que circulou impresso em folhetos diz que ele repartiu os livros em três tipos. No primeiro, havia obras que tratavam de fé e de vida de modo evangélico e simples, que até os adversários reconheciam úteis. Retirar esses seria condenar a verdade que todos confessam. No segundo, havia os livros contra o papado, que, segundo ele, esmagava as consciências e devorava os bens da nação alemã. Retirá-los seria abrir as portas a mais tirania. No terceiro, havia os escritos contra adversários particulares. Aqui Lutero reconhece uma culpa: diz que foi mais amargo e mais veemente nesses do que convinha à sua condição de cristão e de religioso, mas que também não pode retirá-los (tradução minha, a partir da versão inglesa de Hillerbrand, 1964).
02 — A RESPOSTA"Cativa à Palavra de Deus"
O oficial do Império reclamou que ele não dera uma resposta clara e que não havia o que discutir sobre o que os concílios já tinham decidido. Pediu uma resposta simples: retira ou não? Segundo o folheto, Lutero respondeu "sem chifres e sem dentes":
"A menos que eu seja convencido pelo testemunho da Escritura ou por razão evidente (pois não confio nem no papa nem nos concílios sozinhos, já que é patente que muitas vezes erraram e se contradisseram), estou convencido pelas Escrituras que citei, e minha consciência é cativa à Palavra de Deus. Por isso não posso nem quero retratar-me, pois é difícil, inútil e perigoso fazer algo contra a consciência. Deus me ajude. Amém."
É uma tradução minha, a partir do texto do folheto reproduzido na coleção GHDI. Duas coisas pedem cuidado. Na frase, Lutero diz que não confia no papa nem nos concílios "sozinhos" e põe ao lado da Escritura a "razão evidente". Ele não diz "só a Escritura". E ele se oferece para ser convencido: pede que lhe mostrem o erro "com escritos evangélicos e proféticos" e promete ser o primeiro a lançar seus livros ao fogo.
Lutero cita no discurso essa cena do Senhor diante do sumo sacerdote como modelo de quem aceita ser contestado. E cita Mateus 10.34 para dizer que a Palavra de Deus traz divisão: "não vim trazer paz, mas espada".
A frase mais famosa, "Aqui estou, não posso fazer diferente", não consta no texto do folheto reproduzido pela GHDI, que termina com "Deus me ajude. Amém". Segundo Roland Bainton, a mais antiga versão impressa do discurso acrescentou as palavras, que podem ser autênticas, porque os ouvintes podem ter estado emocionados demais para anotá-las. Lyndal Roper escreve que, se Lutero não as disse, foi a frase que logo ficou famosa. Para uma síntese luterana (Michigan District, LCMS), elas aparecem nos primeiros relatos impressos e não nas anotações manuscritas da Dieta. Scott Hendrix, em artigo da Christian History, acrescenta que, há cerca de meio século, a maioria dos estudiosos acha que Lutero provavelmente não as disse. A Britannica traz a frase como tradição.
⚠️ O que é seguro: Lutero recusou a retratação diante do imperador, invocando Escritura, razão e consciência. O que é discutido: as palavras exatas. Também é seguro que o imperador entendeu a recusa e respondeu no dia seguinte.
O imperador respondeu na manhã seguinte, numa declaração que, segundo a Christian History Institute, escreveu de próprio punho. Ele lembra que seus antepassados, imperadores cristianíssimos, reis católicos da Espanha e arquiduques da Áustria, foram fiéis filhos da Igreja de Roma, e que está decidido a manter o que eles estabeleceram, especialmente o que foi ordenado no Concílio de Constança. E escreve: "É certo que um único monge erra em sua opinião, que é contrária ao que toda a cristandade mantém há mais de mil anos". Para defender isso, diz estar resolvido a usar seus domínios, seus amigos, seu corpo, seu sangue, sua vida e sua alma (tradução minha a partir da versão de Hillerbrand).
Os dois discursos mostram duas formas de pensar a autoridade. Para Lutero, a Escritura e a razão pesam mais que as decisões de papas e concílios, que podem errar. Para Carlos V, mil anos de decisões da Igreja pesam mais que a opinião de um monge. A edição da GHDI resume que Lutero defendia a autoridade autônoma e exclusiva da Bíblia e que Carlos defendia as tradições da Igreja. Teólogos católicos viram nessa posição um problema: se a consciência de cada um pode julgar o que a Escritura diz, quem decide quando duas consciências discordam? Os reformadores darão sua resposta, e o Capítulo 11 a examina.
⚠️ Tanto a leitura de que Worms é o início da sola scriptura quanto a objeção católica de que isso desfaz a autoridade da Igreja são interpretações posteriores. O que as fontes mostram é só a frase acima e a resposta do imperador.
03 — O EDITO E O CASTELOUm proscrito que sumiu
Em maio de 1521, em nome da Dieta, Carlos V publicou o Edito de Worms. O texto declara Lutero "um membro cortado da Igreja de Deus, cismático obstinado e herege manifesto", proíbe que alguém lhe dê hospedagem, comida ou bebida e manda que, onde quer que seja encontrado, seja preso e entregue ao imperador. O mesmo vale para seus amigos e partidários, cujos bens poderiam ser tomados. E proíbe que alguém compre, venda, leia, guarde, copie ou imprima qualquer escrito dele, em alemão ou em latim (tradução minha da versão de Hillerbrand). A GHDI observa que a lei serviu de base para a coerção do movimento, com maior ou menor eficácia, pelo resto da década.
No caminho de volta, em maio de 1521, Lutero desapareceu. Era uma encenação: homens de Frederico, o Sábio, simularam um assalto e o levaram, em segredo, ao castelo de Wartburg, em Eisenach. Ali ele ficou até março de 1522, disfarçado de cavaleiro e chamado "Junker Jörg", o fidalgo Jorge.
Do castelo, Lutero escrevia e traduzia. As fontes divergem sobre quanto durou a tradução do Novo Testamento: dez ou onze semanas. O que vem a seguir é assunto do Capítulo 4. Aqui basta o quadro: um homem condenado pela Igreja e posto fora da lei pelo Império, escondido sob nome falso num castelo de seu príncipe.
Do lado de fora, a notícia de Worms corria impressa. A GHDI lembra que o confronto "voou pelo Império em asas de papel impresso" (o termo alemão para folheto, Flugschrift, quer dizer "escrito voador"), e que o interesse público foi sem precedente.
Uma lenda diz que, no Wartburg, Lutero atirou um tinteiro no diabo, que tentava distraí-lo, e que a mancha de tinta ainda está na parede. A Christian History mostra que a lenda é tardia. A primeira versão, do fim do século XVI, tinha o diabo, vestido de monge, jogando o tinteiro em Lutero. Em 1650, um livro fala numa mancha de tinta na parede, e a história passa a ser a de Lutero jogando o tinteiro. Em 1713, já se mostrava a visitantes a mancha, que mais tarde aparece em outros lugares onde ele morou e era retocada. A versão dos irmãos Grimm é de 1818.
⚠️ Não se conhece relato do próprio Lutero sobre o episódio, e a Christian History o classifica como lenda.
04 — O TEXTO E A OUTRA FACE DO EDITOA Palavra "fez tudo"
Enquanto Lutero estava fora, o movimento escapou das mãos dele em Wittenberg. Andreas Karlstadt e outros mudaram o culto e atacaram as imagens, e houve desordem. Em março de 1522, Lutero voltou e, a partir de 9 de março, pregou uma série de oito sermões, os de Invocavit. No segundo, segundo a tradução inglesa de Luther's Works (vol. 51, p. 77), ele disse: "Eu apenas ensinei, preguei e escrevi a Palavra de Deus; fora isso, não fiz nada. E, enquanto eu dormia, ou bebia cerveja de Wittenberg com meus amigos Filipe e Amsdorf, a Palavra enfraqueceu tanto o papado que nenhum príncipe ou imperador lhe causou tais perdas. Eu não fiz nada: a Palavra fez tudo" (tradução minha, a partir da inglesa).
Lutero atribuía à Palavra, e não a si, o que estava mudando a Europa. Para ele e para seus adversários, a disputa era sobre a Bíblia; a diferença estava em quem tinha o direito de interpretá-la.
Do outro lado do Império, o Edito começava a ser cumprido onde havia quem o cumprisse. O Edito foi aplicado sobretudo nos Países Baixos dos Habsburgo, segundo a literatura. Em 1.º de julho de 1523, em Bruxelas, dois frades agostinianos de Antuérpia, Hendrik Voes e Johann van den Esschen, foram queimados, e são tidos como os primeiros mártires protestantes. Lutero escreveu sobre eles a sua primeira canção, uma balada, Ein neues Lied wir heben an ("Uma nova canção entoamos"), datada de 1523 por alguns e de 1524 por outros.
Pedro e João, diante do conselho: "Julgai vós se é justo, diante de Deus, ouvir-vos antes a vós do que a Deus" At 4.19. A frase serve a Lutero em Worms, a Carlos V diante de seu império e ao pastor diante do conselho da igreja. Quem a usa precisa também aceitar o pedido de Lutero ao Império: "convençam-me pelas Escrituras". Consciência cativa à Palavra pede, de quem fala, um texto na mão.
05 — O QUE ISSO MUDA NA LEITURAA Bíblia na disputa pública
Em Worms, a Bíblia deixou de ser matéria de universidade e foi para o Império. Dali em diante, perguntar "o que a Escritura diz?" passou a ser uma questão política e legal: o Edito proibia livros, os príncipes decidiam quem pregava o quê, e a leitura da Bíblia em língua do povo, que logo viria, entrou nesse campo de força. Os príncipes que protegeram Lutero tinham razões de fé e razões de Estado, e a historiografia as discute.
O Edito de Worms nunca foi aplicado de modo uniforme: houve lugares onde os partidários de Lutero foram perseguidos e lugares onde foram protegidos. A mesma frase de Lutero, "consciência cativa à Palavra", era também uma frase sobre o leitor: aquilo que ele lê o obriga. O Capítulo 4 mostra o que ele pôs nas mãos desse leitor.
PARA FIXARO que ficou do capítulo
Uma mesa de livros
Em 17 e 18 de abril de 1521, Lutero reconheceu seus livros e recusou retratá-los sem ser convencido "pela Escritura ou por razão evidente".
"Aqui estou": debatido
As palavras finais mais famosas não estão no folheto da GHDI. Bainton diz que a primeira versão impressa as acrescentou; Roper, que, se não foram ditas, ficaram famosas.
O imperador respondeu por mil anos
Carlos V, em declaração própria, defendeu o que a cristandade mantinha havia mais de mil anos e prometeu agir contra o "herege notório".
Dez meses no Wartburg
Escondido por seu príncipe sob o nome de Junker Jörg, Lutero fez ali a tradução do Novo Testamento para o alemão. A história do tinteiro é lenda tardia.
Próximo capítulo: a Bíblia em alemão. Do Testamento de setembro de 1522 à Bíblia completa de 1534, com as escolhas que Lutero fez ao traduzir e as que seus críticos católicos e protestantes lhe apontaram.
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