A Europa da ReformaCapítulo 2 de 11 ⤓ PDF
Gravura de Lucas Cranach: busto de Martinho Lutero com o hábito de monge agostiniano, olhando de lado, com uma legenda em latim embaixo
CAPÍTULO 2 DE 11

Indulgências e 95 teses

De Wittenberg a Roma, entre 1517 e a bula queimada de 1520

Um professor de 33 anos escreve ao arcebispo mais poderoso da Alemanha e envia, em anexo, teses para um debate universitário. Em três anos, o debate terá virado uma bula papal e uma fogueira.

⏱ 14 min de leitura · 3 imagens em domínio público ou CC0 · 4 camadas de estudo

Wittenberg, 31 de outubro de 1517, véspera de Todos os Santos. Martinho Lutero tem 33 anos, é doutor em teologia e professor da universidade do príncipe da Saxônia. Ele escreve uma carta ao arcebispo de Mainz, Albrecht de Brandemburgo, um homem seis anos mais novo que ele e infinitamente mais poderoso. A carta é respeitosa até o exagero. Chama a si mesmo de "pó" e diz ao arcebispo que não acusa os pregadores de indulgências, que nem ouviu: o que o aflige é o que o povo entendeu deles.

Na carta vão, como anexo, umas teses para discussão. Elas têm noventa e cinco números, estão em latim e foram feitas para uma disputa universitária. Em poucos meses estarão impressas em várias cidades. Este capítulo conta como um pedido de debate virou a ruptura de uma Igreja, e quais eram, de fato, as perguntas.

01 — A CARTA E O DINHEIROUma indulgência para pagar uma dívida

Para entender o que Lutero viu, é preciso saber o que era uma indulgência. Na doutrina católica, segundo o Catecismo (n. 1471), é "a remissão, diante de Deus, da pena temporal devida por pecados cuja culpa já foi perdoada". Quem se confessava e era perdoado ainda carregava, em tese, uma pena a cumprir, nesta vida ou no purgatório. A Igreja ensinava que podia aplicar a essa pena os méritos de Cristo e dos santos, o "tesouro da Igreja". E ensinava que, em certas condições (confissão, contrição, algum ato de piedade), o fiel recebia essa remissão. Para ela, isso não era comprar o perdão dos pecados. Era um auxílio para a pena que sobrava.

O problema, na visão de Lutero e de muitos contemporâneos, estava na prática. Em 1513, Albrecht de Brandemburgo, aos 23 anos, tornou-se arcebispo de Magdeburgo e administrador de Halberstadt. Em 1514 foi eleito arcebispo de Mainz, e, como não preenchia os requisitos canônicos de idade e de formação, precisou de dispensas. Segundo obras de referência, tomou emprestados do banqueiro Jakob Fugger uns 20.000 florins para pagar a taxa de confirmação à cúria romana (o valor varia conforme a fonte). A saída, combinada com o papa Leão X, foi uma indulgência plenária para as suas terras, cuja renda seria dividida: metade para a construção da nova basílica de São Pedro em Roma, metade para Albrecht. A bula é de 31 de março de 1515. Em janeiro de 1517, Albrecht nomeou comissário da pregação o dominicano Johann Tetzel.

Gravura de Dürer: busto do cardeal Albrecht de Brandemburgo, de barrete, com a gola de pele e um fundo de inscrições
O cardeal Albrecht de Brandemburgo ("o Pequeno Cardeal") — gravura de Albrecht Dürer (1519); National Gallery of Art, Washington. Albrecht tinha 29 anos. CC0.

O que se vendia, na prática, eram cartas de indulgência. A venda era proibida em Wittenberg e em outras cidades da Saxônia, mas a campanha de Tetzel nas redondezas atraía gente de lá. Lutero, que então era pregador, conta no prefácio de 1545 que começou a dissuadir o povo de dar ouvidos aos pregadores de indulgências, confiando em que teria o papa a seu lado.

👁️ Como era viver ali

A carta a Albrecht diz o que Lutero achava que o povo pensava. Em resumo: as almas infelizes acreditam que, ao comprar cartas de indulgência, estão seguras de sua salvação; que, assim que a moeda cai no cofre, uma alma sai do purgatório; e que não há pecado tão grande que não seja absolvido (paráfrase minha, a partir da tradução inglesa de 1915). É a descrição do que Lutero ouviu, e não da doutrina oficial.

As teses trazem também as perguntas que ele diz vir dos leigos. A tese 86 pergunta por que o papa, cuja riqueza é hoje maior que a dos mais ricos Crassos, não constrói a basílica de São Pedro com o próprio dinheiro, e não com o dos pobres fiéis. A tese 90 chama essas perguntas de "argumentos muito escrupulosos dos leigos" e diz que calá-los só pela autoridade, sem responder, é expor a Igreja e o papa ao riso dos inimigos (traduções minhas).

📜 Posições em debate

Como julgar Tetzel? A Enciclopédia Católica, apoiada em historiadores católicos como Janssen e Pastor, sustenta que Tetzel ensinava corretamente a doutrina das indulgências para os vivos, mas errava ao dizer que, para os mortos, bastava o dinheiro, sem contrição nem confissão (o cardeal Caetano rejeitou essa opinião, que aparece nas teses de Tetzel em Frankfurt an der Oder). A acusação de que ele vendia o perdão de pecados ainda não cometidos, segundo essa obra, não tem apoio. Tetzel foi acusado de imoralidade e de desvio de dinheiro, acusações que a mesma obra trata como infundadas e que vinham em parte do enviado papal Karl von Miltitz, testemunha tida como pouco confiável. Lutero conta, no prefácio de 1545, que Miltitz chamou Tetzel e o abateu com ameaças pontifícias, a ponto de ele adoecer de desgosto, e que lhe escreveu uma carta de consolo antes de sua morte, em 1519.

⚠️ A Igreja Católica reconheceu depois a prática de que Lutero se queixava. O Concílio de Trento, em 4 de dezembro de 1563, manteve o uso das indulgências, mas ordenou que todos os "ganhos indevidos" ligados a elas fossem "inteiramente abolidos", por serem fonte de muitos abusos (tradução minha da versão inglesa de Waterworth, 1848). Em 1567, o papa Pio V proibiu ligar indulgências a qualquer pagamento. A doutrina continuou, e o negócio foi condenado pela própria Igreja.

02 — AS TESES"Por amor à verdade": uma disputa, não uma declaração

O texto que acompanha a carta começa assim, em latim: "Por amor à verdade e no desejo de esclarecê-la, as teses abaixo serão discutidas em Wittenberg, sob a presidência do reverendo padre Martinho Lutero, mestre em artes e em santa teologia e seu professor titular nesse lugar. Por isso, ele pede que quem não puder discutir conosco de viva voz o faça por carta, estando ausente" (tradução minha). É um convite acadêmico, e não um manifesto.

As teses vão da penitência ao purgatório, do papa ao tesouro da Igreja. Algumas, traduzidas por mim do latim, mostram o tom:

Tese 1: "Nosso Senhor e Mestre Jesus Cristo, ao dizer 'Arrependei-vos', quis que toda a vida dos fiéis fosse penitência." Aqui está o ponto de partida: o Cristo de Mateus 4.17 manda uma vida de arrependimento, e não uma série de pagamentos. Tese 21: "Erram os pregadores de indulgências que dizem que, pelas indulgências do papa, o homem fica livre de toda pena e é salvo." Tese 27: "Pregam doutrina de homens os que dizem que, assim que a moeda lançada no cofre tilinta, a alma sai voando." Tese 36: "Todo cristão verdadeiramente contrito tem remissão plena de pena e de culpa, que lhe é devida mesmo sem cartas de indulgência." Tese 43: "Deve-se ensinar aos cristãos que quem dá ao pobre ou empresta ao necessitado faz melhor do que se comprasse indulgências." Tese 62: "O verdadeiro tesouro da Igreja é o santíssimo evangelho da glória e da graça de Deus."

O que se esquece é que Lutero não nega a autoridade do papa nem as indulgências. A tese 71 diz: "Quem falar contra a verdade das indulgências apostólicas, seja anátema e maldito." A tese 42 diz que o papa não quer que se compare a compra de indulgência às obras de misericórdia. A tese 50 diz que, se o papa soubesse o que os pregadores cobravam, preferiria que a basílica de São Pedro virasse cinzas a ser construída "com a pele, a carne e os ossos de suas ovelhas". Para Lutero, o papa estava mal informado. Quando percebeu que não estava, a discussão mudou de natureza.

Primeira página impressa das 95 teses, em latim: o título 'Amore et studio elucidandae veritatis' e as primeiras doze teses numeradas na margem
As 95 teses, edição de Basileia — primeira página do folheto impresso em 1517; Universitätsbibliothek Basel (e-rara). Os números das teses estão na margem esquerda. Domínio público.
📜 Posições em debate

A cena de Lutero pregando as teses com martelo na porta da Igreja do Castelo, em Wittenberg, é a imagem mais famosa da Reforma, e é debatida. O que é firme: em 31 de outubro de 1517 ele escreveu a Albrecht e enviou as teses. O que é discutido: se afixou ou não as teses na porta da igreja, e quando.

O primeiro a falar nisso é Philipp Melanchthon, em um prefácio de 1546, depois da morte de Lutero; ele só chegou a Wittenberg em agosto de 1518. Em 1959, Hans Volz propôs que a afixação, se houve, foi depois de 31 de outubro. Em 1961, o historiador católico Erwin Iserloh defendeu que ela provavelmente não ocorreu: Lutero nunca a menciona, e a disputa anunciada nunca aconteceu. Em 2006, Martin Treu achou, num Novo Testamento anotado em Jena, uma nota escrita nos anos 1540 por Georg Rörer, secretário de Lutero, dizendo que as teses foram afixadas nas portas das igrejas de Wittenberg na véspera de Todos os Santos de 1517. Rörer também não estava lá. Para Treu, a nota torna a afixação mais provável, sem prová-la. Benjamin Hasselhorn e Mirko Gutjahr (2018) defendem que as fontes apontam com clareza para a afixação. Volker Leppin e Timothy Wengert (2015) examinaram as fontes a favor e contra e lembram que a maioria dos historiadores considera a questão de pouco peso diante do que importa; Wengert, em outro texto, está entre os que ainda acham que a afixação de fato aconteceu, e lembra que o envio das teses ao arcebispo é o fato mais bem documentado. Os estatutos da universidade previam que avisos de disputa fossem afixados nas portas das igrejas, o que torna o gesto plausível como rotina.

⚠️ A porta de bronze que se vê hoje na Igreja do Castelo foi doada em 1858, e a de madeira se perdeu no fogo. O que ninguém discute é que as teses circularam, e muito. Houve folhetos em Basileia e cartazes em Leipzig e Nuremberg, e Kaspar Nützel fez uma versão alemã em Nuremberg (dela não restou nenhum exemplar). Em 1518, o Sermão sobre a indulgência e a graça, que Lutero escreveu em alemão, foi seu primeiro grande sucesso de venda e, segundo uma obra de referência, chegou a umas vinte reimpressões.

03 — DA DISCUSSÃO AO ROMPIMENTOAugsburgo, Leipzig e a bula

Albrecht enviou as teses a Roma. Em 1518, Lutero escreveu as Resoluções, explicando cada tese, e foi convocado a Roma. O príncipe Frederico conseguiu que ele fosse ouvido na Alemanha. Em outubro de 1518, em Augsburgo, Lutero compareceu diante do cardeal Caetano, enviado do papa. Em seu prefácio de 1545, ele conta que ficou três dias na cidade antes de se apresentar, por conselho de amigos, até que lhe deram um salvo-conduto do imperador, e que o cardeal pedia que se retratasse. É o relato dele, escrito 27 anos depois.

Em 1519, Lutero e Karlstadt foram desafiados por Johannes Eck, de Ingolstadt, para um debate em Leipzig, a Pleissenburg, entre 27 de junho e 15 de julho. A pergunta deixou de ser as indulgências e passou a ser a autoridade: do papa, dos concílios, da Escritura. Segundo os relatos, Eck o pressionou até que Lutero admitiu que concílios podem errar e que, entre os artigos de Jan Hus condenados em Constança, havia ensinos cristãos. Eck então o chamou de boêmio, isto é, de herege hussita. O duque Jorge, que presidia, comentou, segundo o próprio Lutero: "Quer o papa seja papa por direito humano, quer por direito divino, ele é o papa". Em 1545, Lutero observou que, mesmo conhecendo as Escrituras de cor e já negando que o papa fosse cabeça da Igreja por direito divino, ainda não tinha tirado a consequência que depois tirou: a de que o papado vinha do diabo. É linguagem de polêmica tardia, que a Igreja Católica rejeita.

Em 15 de junho de 1520, o papa Leão X publicou a bula Exsurge Domine, que condenava 41 proposições tiradas dos escritos de Lutero e dava a ele sessenta dias para se retratar. Entre elas, a de que "queimar hereges é contrário à vontade do Espírito". Eck pressionou a comissão por uma decisão rápida. Naquele ano, Lutero publicou três tratados, À nobreza cristã da nação alemã (agosto), Do cativeiro babilônico da Igreja (outubro) e Da liberdade do cristão (novembro). Em 10 de dezembro de 1520, diante da Porta do Elster, em Wittenberg, queimou a bula, junto com livros de direito canônico. Em 3 de janeiro de 1521, Decet Romanum Pontificem o excomungou.

Sem a prensa, a discussão teria ficado no pátio da universidade.

04 — A PALAVRA POR TRÁS DA RUPTURA"A justiça de Deus"

No prefácio de 1545 às suas obras em latim, Lutero conta o que, para ele, estava por trás de tudo. Ele odiava a expressão "justiça de Deus" em Romanos 1.17, porque a aprendera como a justiça com que Deus é justo e pune os pecadores e os injustos. Escreve que, sendo um monge irrepreensível, sentia-se pecador diante de Deus e não confiava que sua satisfação o apaziguasse. Até que, meditando dia e noite sobre a ligação das palavras, entendeu: a justiça de Deus é aquela "pela qual o justo vive por dom de Deus, a saber, pela fé". E acrescenta: "Aqui senti que renascera por inteiro e que, abertas as portas, entrara no próprio paraíso" (tradução minha; Praefatio, 1545).

"Porque nele se descobre a justiça de Deus de fé em fé, como está escrito: Mas o justo viverá pela fé." Romanos 1.17
🔎 A palavra original

O grego diz dikaiosynē theou (δικαιοσύνη θεοῦ), "justiça de Deus". O dicionário de Strong, de 1890, define dikaiosynē como "equidade (de caráter ou de ato); em especial, justificação (cristã)". A pergunta que Lutero faz é gramatical: "de Deus" é a justiça que Deus tem e exerce, castigando, ou a justiça que Deus dá? Ele escolhe a segunda, que chama de "passiva", a que se recebe. Também diz que, ao ler Agostinho (Sobre o Espírito e a letra), achou, "contra a expectativa", que Agostinho interpretava de modo parecido, embora não explicasse bem a imputação.

📜 Posições em debate

Quando isso aconteceu? Lutero situa o episódio quando voltava a comentar os Salmos, por volta de 1519. Historiadores o datam em pontos diferentes, entre 1513 e 1519, e há quem veja um amadurecimento longo em vez de um momento. A "experiência da torre", em que a tradição põe a cena numa sala do mosteiro de Wittenberg, vem de relatos de conversas à mesa, e a data continua em aberto.

⚠️ O conteúdo teológico também é debatido entre as tradições. Para Lutero e os luteranos, o pecador é declarado justo por Deus, por pura graça, só pela fé. Para a Igreja Católica, como definiu o Concílio de Trento em 1547, a justificação "não é só remissão de pecados, mas também santificação e renovação do homem interior" (Sessão 6, cap. 7; tradução minha). O Capítulo 10 volta a isso com as palavras do próprio concílio. A Bíblia é lida pelos dois lados; a divergência está no que fazer com justiça, fé e obras quando se leem juntas Romanos 3 e Tiago 2.

🌱 Semente de sermão

"O justo viverá pela fé" aparece quatro vezes na Bíblia: Hc 2.4, Rm 1.17, Gl 3.11 e Hb 10.38. Para Lutero, ao entendê-la, "outra face de toda a Escritura" lhe apareceu. Qual é a frase da Bíblia que, na sua vida, mudou a forma como você lê as outras? Às vezes o que começa uma reforma não é um escândalo: é uma palavra bem lida.

05 — O QUE ISSO MUDA NA LEITURAQuem decide o que o texto quer dizer?

Nas teses, nos sermões e em Leipzig, o que está em jogo é a Bíblia. Lutero invocava as Escrituras: a tese 1 parte de Mateus 4.17 e a 62 chama o evangelho de verdadeiro tesouro. Seus adversários invocavam a tradição, os concílios e o papa, e também a Bíblia. A pergunta de fundo, que atravessa todo o livro, nasce aqui: quando duas pessoas leem o mesmo versículo e discordam, quem decide?

Essa pergunta ainda não tinha uma resposta de Lutero, só uma direção. Ela vai ganhar nome (sola scriptura) e problemas (Capítulo 11). Mas o primeiro passo já tinha sido dado: a leitura da Bíblia entrou na briga pública, em língua que o povo entendia, e foi impressa.

PARA FIXARO que ficou do capítulo

✉️

31 de outubro de 1517

A data firme é a da carta a Albrecht de Brandemburgo, com as teses em anexo. A afixação na porta da igreja é debatida pelos historiadores.

💰

Um negócio entre Roma e Mainz

A indulgência de 1515 financiava São Pedro e a dívida de Albrecht. A doutrina católica das indulgências não era a vendida por Tetzel, e o próprio Trento condenou os lucros ligados a elas (1563).

📜

Lutero não negava o papa em 1517

A tese 71 amaldiçoa quem falar contra a verdade das indulgências apostólicas. A ruptura veio em 1519–1520, em Leipzig e com a bula Exsurge Domine.

🔎

A justiça de Deus

Em Romanos 1.17, Lutero entendeu a justiça como dom Rm 1.17. Luteranos e católicos leem a justificação de formas diferentes.

Próximo capítulo: Worms, abril de 1521. Um homem excomungado é levado diante do imperador, com seus livros empilhados sobre uma mesa, e lhe perguntam se retira o que escreveu.

Leve este capítulo com você

Baixe o Capítulo 2 — Indulgências e 95 teses em PDF — diagramado, com as obras de arte e as 4 camadas de estudo, pronto pra ler offline, imprimir ou usar no preparo do sermão.

🔒 PDF do capítulo
Download liberado para assinantes do Strong Completo.
☰ Ver o sumário do livro