Setembro de 1522. Da oficina do impressor Melchior Lotter, o Jovem, sai um livro sem versículos numerados, com vinte e uma gravuras da oficina de Cranach. O título é Das Newe Testament Deutzsch, "O Novo Testamento em alemão". Foi traduzido, em boa parte, entre dezembro de 1521 e fevereiro de 1522, num castelo, por um homem escondido sob um nome falso. Está à venda por um florim, o que a coleção Gruber, de Chicago, calcula como dois meses de salário de um mestre-escola.
Em dezembro já será preciso uma segunda edição. Mas este capítulo não é só sobre um livro de sucesso. Conta como Lutero traduziu, o que decidiu pôr e tirar, e quem, entre luteranos, católicos e outros, o criticou. É um dos pontos em que a Reforma mais se mistura com a história da Bíblia, e também um dos mais cheios de mitos.
01 — O TESTAMENTO DE SETEMBRODo grego de Erasmo ao alemão de Wittenberg
Lutero partiu do texto grego de Erasmo, na segunda edição, de 1519, e traduziu o Novo Testamento em cerca de dez ou onze semanas (as fontes divergem). Depois de voltar a Wittenberg, revisou o texto com Melanchthon e outros. A tiragem foi de três a cinco mil exemplares, segundo a coleção Gruber (outras fontes falam em três mil), e o preço, de um florim (outras dão um e meio).
O livro não trazia só o texto. Cada livro do Novo Testamento ganhou um prefácio, e algumas margens traziam notas polêmicas. As vinte e uma ilustrações foram para o Apocalipse. Elas mostram, segundo a Gruber, que a linguagem do livro de Apocalipse deve ser tomada em sentido figurado, e identificam a prostituta de Babilônia com o papa. É uma leitura de Lutero e do seu tempo, e a Igreja Católica a rejeita.
Os livros também mudaram de ordem. Lutero pôs Hebreus, Tiago, Judas e Apocalipse no fim do Novo Testamento, para marcar, segundo a Gruber, o caráter secundário que via nesses livros. Esse arranjo continua nas Bíblias luteranas alemãs. É o ponto de partida do que se chama o "cânon de Lutero", e é o assunto da seção 03.
02 — "SOMENTE" PELA FÉA palavra que Lutero acrescentou em Romanos 3.28
O ponto mais discutido da tradução é uma palavra de cinco letras. Em Romanos 3.28, a ACF diz:
Lutero traduziu: "o homem é justificado sem as obras da lei, allein pela fé" ("somente pela fé"). O texto grego não tem uma palavra para "somente" ali. Tiago diz o contrário, em termos:
Em Romanos 3.28, Paulo escreve chōris ergōn nomou (χωρὶς ἔργων νόμου), "à parte das obras da lei". O dicionário de Strong, de 1890, define chōris como "à parte, em separado". Em Tiago 2.24 aparece monon (μόνον), que Strong traduz por "meramente, somente": "não somente pela fé". Ou seja, a palavra "somente" está em Tiago, e não em Romanos. Os dois textos usam "obras" e "fé" com sentidos que as tradições leem de modos diferentes, e Lutero e seus críticos sabiam disso.
Em setembro de 1530, de Coburgo, onde esperava durante a Dieta de Augsburgo, sem poder ir porque estava sob proscrição, Lutero escreveu o Sendbrief vom Dolmetschen, "Carta aberta sobre o traduzir", em resposta a perguntas e críticas. A coleção da Taylor, em Oxford, resume a defesa: no alemão corrente, quando se afirma uma coisa e se nega outra, usa-se "somente" junto ao "não", para dizer com clareza que a segunda não vale. A tradução latina de Romanos 3.28 não tinha "somente", mas, diz Lutero, o sentido de Paulo é esse. Segundo obras de referência, ele lembra que a palavra sola já tinha sido usada antes na teologia ocidental. A Lutherbibel de 2017 ainda mantém o "allein" no texto.
Os católicos protestaram desde o início. Na margem de Romanos 3.28, o Novo Testamento católico de Hieronymus Emser (1527) diz que Paulo, ao escrever "sem as obras da lei", não quer dizer que o homem se salva só pela fé, sem boas obras, mas que se salva sem as obras da lei, isto é, sem a circuncisão e as demais cerimônias judaicas (resumo de Philip Schaff). O próprio Schaff observa que os melhores comentaristas modernos (de seu tempo) entendem a "lei" em sentido amplo, e não só cerimonial, mas escreve, como historiador protestante, que o "somente", correto como inferência, não tem lugar no texto como tradução. A tradição católica, por sua vez, define a justificação, em Trento, como remissão de pecados e também renovação interior (Capítulo 10).
⚠️ A diferença não é só de uma palavra. É de leitura do conjunto: como juntar Romanos 3 e Tiago 2. Lutero também ficou conhecido por pôr os dois em tensão: em 1522, ele escreve no prefácio ao Novo Testamento que, em comparação com os livros que mostram Cristo, Tiago é uma epístola "de palha", e acrescenta que não a tinha por apostólica. A Bíblia luterana, no entanto, trouxe Tiago, e o Livro de Concórdia (1580) o cita.
03 — O CÂNONQuatro livros no fim e os "apócrifos" entre os Testamentos
Uma acusação popular diz que "os protestantes tiraram livros da Bíblia". É uma meia-verdade, e vale ver os fatos. A Bíblia hebraica tem os livros que hoje o Antigo Testamento protestante traz. Os livros chamados deuterocanônicos (Tobias, Judite, Sabedoria, Eclesiástico, Baruque, 1 e 2 Macabeus e acréscimos a Ester e Daniel) estavam na tradução grega (a Septuaginta) e foram aceitos como Escritura pelos sínodos de Hipona (393) e Cartago (397, 419), pela carta do papa Inocêncio I (405) e, depois, pelo Concílio de Trento (1546). Jerônimo, c. 398, no prefácio aos livros de Salomão, escreveu que a Igreja lê Judite, Tobias e os Macabeus, mas não os admite entre as Escrituras canônicas, e propôs que Sabedoria e Eclesiástico fossem lidos do mesmo modo, para edificação do povo e não para confirmar a autoridade dos dogmas da Igreja (tradução minha, a partir de versões inglesas).
Lutero ficou numa posição intermediária. Na Bíblia de 1534, ele não arrancou esses livros: deixou-os entre os dois Testamentos, sob o título "Apócrifos: estes livros não são tidos como iguais à Sagrada Escritura, mas são úteis e bons de ler" (tradução minha, da página de rosto reproduzida pela coleção Gruber). Algumas obras de referência dizem que ele os "removeu" do cânon. Outras lembram que ele os imprimiu e escreveu introduções para eles. Os dois enunciados são verdadeiros em sentidos diferentes: saíram do Antigo Testamento, ficaram na Bíblia.
Mais difícil é o caso dos quatro livros do fim do Novo Testamento. Em 1522, Lutero os pôs à parte (Hebreus, Tiago, Judas, Apocalipse). Os estudiosos discutem o quanto isso significava. Johann Michael Reu defendeu que Lutero não os tinha por canônicos, leitura que é considerada controversa; outros, como Ryrie, veem nisso um juízo sobre valor doutrinário, e não sobre validade canônica. A Lutherbibel os mantém no fim até hoje.
Hoje há três posições. A católica e a ortodoxa incluem os deuterocanônicos no Antigo Testamento, com base na Septuaginta e nas decisões de concílios antigos. A tradição protestante, em geral, segue a lista hebraica, e põe os outros livros à parte, como Lutero (o artigo VI dos Trinta e Nove Artigos anglicanos, de 1563 e 1571, diz que a Igreja os lê como exemplo de vida e instrução de costumes, mas não para estabelecer doutrina; paráfrase minha). A posição judaica não inclui esses livros. A discussão é antiga, e já em Jerônimo havia as duas leituras.
⚠️ A "King James", de 1611, ainda os trazia, entre os Testamentos. Muitos protestantes só deixaram de imprimi-los em época posterior. O Capítulo 10 mostra a lista do Concílio de Trento, com as palavras dele.
04 — TRADUZIR PARA O POVO"Olhar-lhes a boca"
A tradução do Antigo Testamento foi saindo por partes: o Pentateuco em 1523, de Josué a Ester e de Jó ao Cântico em 1524, os Profetas em 1532. A Bíblia completa saiu em 1534, impressa em Wittenberg por Hans Lufft, com 124 gravuras da oficina de Cranach, segundo a Gruber. Houve uma equipe. Obras de referência citam como colaboradores Bugenhagen, Jonas, Creuziger, Melanchthon, Aurogallus e Rörer. Até a morte de Lutero, em 1546, a coleção Gruber conta treze edições da Bíblia saídas da oficina de Lufft, e 253 publicadas fora de Wittenberg.
O resumo mais famoso do método está no Sendbrief: segundo Philip Schaff, Lutero diz que ouvia a mãe em casa, as crianças na rua e o homem comum no mercado e "olhava-lhes a boca" para achar os termos mais compreensíveis. Em uma conversa à mesa registrada por seus alunos, Lutero diz: "Eu não tenho uma língua alemã própria, mas uso a língua alemã comum, para que me entendam tanto os alemães do sul como os do norte. Falo segundo a chancelaria saxônica, que seguem todos os príncipes e reis da Alemanha" (Tischreden, ed. Erlangen, 62, p. 313, na citação de Schaff; tradução minha).
Em Gênesis 1.2, a ACF diz "o Espírito de Deus se movia sobre a face das águas". A palavra hebraica é rûaḥ (רוּחַ), que Strong define como "vento; por semelhança, sopro; figuradamente, vida, ira; e, por semelhança, espírito, mas só de um ser racional". Na edição de 1534, a coleção Gruber nota que Lutero verteu "o vento de Deus se movia sobre a água", e que a revisão de 1541 o mudou. Dizer "vento" ou "Espírito" é uma escolha de tradutor a partir de uma palavra que admite as duas.
Lutero "criou" o alemão? Não. Ele escreveu na língua da chancelaria da Saxônia, e já havia, como visto no Capítulo 1, ao menos dezoito Bíblias completas em alemão antes da sua. A Bíblia dele, segundo obras de referência, "contribuiu significativamente" para o alemão padrão, o que é diferente de tê-lo inventado. Quanto aos católicos, eles traduziram em seguida: Emser (Novo Testamento, 1527, a pedido do duque Jorge da Saxônia), Johann Dietenberger (Bíblia, Mainz, 1534) e Johann Eck (Bíblia, Ingolstadt, 1537). Segundo Schaff, essas versões seguem a Vulgata e vêm com notas contra Lutero, mas copiam com frequência o texto dele, e a de Dietenberger, segundo o Museu Bíblico de Münster, foi a Bíblia mais difundida entre os católicos alemães até o século XVIII, com mais de sessenta edições. No Sendbrief, Lutero acusa o "rabiscador de Dresden" (Emser) de ter copiado o Novo Testamento dele quase palavra por palavra, tirando-lhe os prefácios e as glosas.
⚠️ Isso mostra que católicos também publicaram Bíblias em alemão, o que não combina com a ideia de que a Igreja simplesmente proibia a Bíblia em língua do povo; as restrições existiam e variavam (Capítulos 1 e 10). E mostra que as versões católicas se apoiaram, em boa parte, no texto de Lutero. A briga era sobre o texto, as notas e a autoridade de quem traduz.
Ter a Bíblia em alemão não fazia dela um livro de todas as casas. Uma Bíblia inteira custava caro. A coleção Gruber nota que o Novo Testamento de 1522 valia dois meses de salário de um mestre-escola, e uma obra de referência diz que uma Bíblia completa de 1534, sem encadernação, custava cerca de um mês de salário de um trabalhador, de modo que os principais compradores eram igrejas, pastores e escolas.
E nem todos sabiam ler. Em 1529, depois de percorrer paróquias da Saxônia como visitador, Lutero escreveu no prefácio do Catecismo Menor: o povo, sobretudo nas aldeias, não sabe nada da doutrina cristã, e muitos pastores são incapazes de ensiná-la. Todos se dizem cristãos, mas não conseguem recitar o Pai-Nosso, o Credo nem os Dez Mandamentos (tradução minha da versão inglesa de 1921). O Catecismo Menor nasceu dessa constatação, e foi escrito para ser decorado e ensinado em casa pelo chefe da família.
05 — O QUE ISSO MUDA NA LEITURAUma Bíblia em língua do povo, e quem a interpreta
Tradução e leitura são coisas diferentes. A Bíblia alemã de Lutero tornou possível ouvi-la sem passar pelo latim, e a pregação em alemão fez o resto. Mas o povo continuou a ouvi-la mais do que a lê-la, e o trabalho de ensinar a ler e a decorar virou uma tarefa de igrejas e de escolas. Em 1524, Lutero escreveu aos conselhos das cidades alemãs pedindo que criassem escolas. O Capítulo 11 mostra o que se sabe sobre a alfabetização e a Reforma, que é mais interessante do que as versões populares.
Cada decisão de tradução trouxe uma decisão de doutrina. "Somente" pela fé, "vento" ou "Espírito", Tiago no fim, Apocalipse ilustrado: tudo isso era leitura. Quem traduz interpreta, e os católicos também o fizeram, em suas versões. A pergunta que atravessa este livro, "quem interpreta?", aparece aqui com um rosto concreto: um tradutor com uma equipe, uma pena e um conjunto de convicções.
A página de rosto de 1534 traz o lema Gottes Wort bleibt ewig, que ecoa 1Pe 1.25: "a palavra do Senhor permanece para sempre". Cada geração tem de traduzi-la de novo, para as mães em casa, as crianças na rua e os homens no mercado. A Palavra permanece; o vocabulário, não.
PARA FIXARO que ficou do capítulo
Setembro de 1522
O Novo Testamento de Lutero saiu, segundo a Gruber, com três a cinco mil exemplares, por um florim, e precisou de nova edição em dezembro. Foi feito sobre o grego de Erasmo (1519).
"Allein" em Romanos 3.28
Lutero acrescentou "somente" e o defendeu no Sendbrief (1530). O grego diz "à parte das obras" Rm 3.28, e Tiago diz "não somente pela fé" Tg 2.24.
Não tirou, deslocou
Em 1534, os "apócrifos" ficaram entre os Testamentos, "úteis e bons de ler". Quatro livros do Novo Testamento foram para o fim.
Os católicos também traduziram
Emser (1527), Dietenberger (1534) e Eck (1537) fizeram Bíblias alemãs católicas, em boa parte sobre o texto de Lutero.
Próximo capítulo: Zurique. Um pregador suíço começa, em 1519, a explicar o Evangelho de Mateus versículo por versículo, e três anos depois a cidade se envolve numa briga por causa de umas salsichas na Quaresma.
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