A Europa da ReformaCapítulo 7 de 11 ⤓ PDF
Gravura de Jan Luyken: sobre o gelo de um fosso, um homem de chapéu estende as mãos a outro que caiu na água e luta para sair; ao fundo, uma igreja e dois homens na margem
CAPÍTULO 7 DE 11

Os anabatistas

Rebatismo em Zurique, Münster e as fogueiras de todos os lados

Em Zurique, em janeiro de 1525, um homem pede a outro que o batize. Dois anos depois, o primeiro deles é afogado no rio da cidade. A história de quem leu o Novo Testamento ao pé da letra e foi perseguido por todos os lados.

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Zurique, 21 de janeiro de 1525. Quatro dias antes, em disputa pública, o conselho da cidade declarara Zwingli vencedor sobre quem defendia o batismo só de adultos. Agora, na casa de Felix Manz e de sua mãe, os irmãos se reúnem de novo. Georg Blaurock pede a Conrad Grebel que o batize. Grebel o batiza, e Blaurock batiza os outros. Há quem chame esse momento de a primeira igreja da Reforma radical.

Dois anos depois, Manz seria afogado no rio da mesma cidade, por ordem do conselho de Zurique. Este capítulo é sobre quem eram esses cristãos, por que a Bíblia que Zwingli lia os levou a outras conclusões e como católicos, luteranos e reformados responderam, quase sempre pela força. Conta também 1525, o ano em que a Bíblia chegou às mãos dos camponeses, e Münster, o episódio que as polêmicas usam para desacreditar um movimento inteiro.

01 — A PERGUNTABatizar quem e quando?

A discussão parece pequena, e não é. Se o batismo é só para quem crê, a Igreja é uma comunidade de convertidos, e não de todos os nascidos numa cidade. Se vale para as crianças, a Igreja se confunde com a sociedade. A pergunta mexia com o poder de príncipes e conselhos, e por isso foi tratada como assunto de ordem pública. Os adversários chamaram esses cristãos de anabatistas, "rebatizadores". Eles diziam que não rebatizavam, porque o batismo de criança, para eles, não era batismo.

"Portanto ide, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; Ensinando-os a guardar todas as coisas que eu vos tenho mandado." Mateus 28.19-20
"Quem crer e for batizado será salvo; mas quem não crer será condenado." Marcos 16.16
🔎 A palavra original

O verbo é baptizō (βαπτίζω), que o dicionário de Strong, de 1890, define como "imergir, submergir; encharcar", usado no Novo Testamento só para a ablução cerimonial, em especial para o batismo cristão. A outra palavra que pesa nessa discussão é oikos (οἶκος), "casa", que Strong explica como "habitação; por implicação, família". Em Atos 16.15 e 16.33, Lídia é batizada "ela e a sua casa", e o carcereiro de Filipos "ele e todos os seus". Para quem defende o batismo de crianças, esses textos abrem a possibilidade de crianças na casa. Para quem o rejeita, a palavra foi pregada "a todos os que estavam em sua casa", e o carcereiro, "na sua crença em Deus, alegrou-se com toda a sua casa" At 16.32-34; o texto não menciona nenhuma criança. Os dois leem o mesmo texto, e o texto não diz se havia crianças.

📜 Posições em debate

Os anabatistas suíços. A Confissão de Schleitheim, de 24 de fevereiro de 1527, diz no primeiro artigo que o batismo se dá a todos os que aprenderam arrependimento e emenda de vida e creem que seus pecados foram tirados por Cristo, e a quem o pede. "Isto exclui todo batismo de crianças, a suprema e principal abominação do papa" (tradução minha, da versão inglesa de Wenger; o texto cita Mateus 28, Marcos 16 e Atos 2, 8, 16 e 19). Os luteranos. A Confissão de Augsburgo (1530), art. IX, ensina que o batismo é necessário à salvação, que as crianças devem ser batizadas, e condena "os anabatistas, que rejeitam o batismo de crianças e dizem que as crianças se salvam sem o batismo". Os católicos. O Catecismo (n. 1252) diz que a prática do batismo de crianças é uma "tradição imemorial", com testemunho explícito desde o século II. Os reformados. No artigo 14 dos Artigos de Marburgo, Zwingli assinou, com Lutero, que o batismo de crianças é correto, e quem o defende costuma apontar Colossenses 2.11-12 (batismo e circuncisão).

⚠️ Os quatro lados leem Mateus 28 e Atos 16. Cada um tem uma história de leitura, e a Igreja primitiva não resolveu a questão de forma que os dois lados aceitem. A discussão continua entre as igrejas de hoje.

02 — 1525A Bíblia nas mãos dos camponeses

No mesmo ano em que Zurique discutia o batismo, outros leitores da Bíblia fizeram outro pedido. Em março de 1525, em Memmingen, representantes de camponeses da Alta Suábia adotaram os Doze Artigos, que logo foram impressos mais de vinte e cinco mil vezes em dois meses, segundo uma obra de referência. O prefácio diz que o Evangelho não é causa de revolta e que os camponeses querem que ele lhes seja ensinado como guia de vida. O primeiro artigo pede que cada comunidade possa escolher e demitir seu pastor, que deve ensinar "o Evangelho puro e simples, sem nenhuma adição, doutrina ou ordenança dos homens". O terceiro diz que, como Cristo os redimiu pelo seu sangue, "é conforme à Escritura que sejamos livres", contra a servidão (tradução minha, a partir da versão inglesa).

E a conclusão faz uma promessa que lembra Worms: se algum artigo não estiver de acordo com a Palavra de Deus, "desistiremos dele de bom grado, quando for provado, por uma clara explicação da Escritura, que é contrário à Palavra de Deus". Os camponeses ofereciam o mesmo teste que Lutero pedira ao imperador em 1521.

"Toda a alma esteja sujeita às potestades superiores; porque não há potestade que não venha de Deus; e as potestades que há foram ordenadas por Deus." Romanos 13.1

A resposta de Lutero cita esse texto. Em maio de 1525, no panfleto Contra as hordas de camponeses assassinos e ladrões, ele começa dizendo que, no livro anterior, não ousara julgar os camponeses, "pois tinham se oferecido para serem corrigidos e instruídos", mas que depois eles passaram à violência, o que mostrava que os pretextos dos Doze Artigos, "sob o nome do Evangelho, eram só mentiras". Em seguida: "Por isso, quem puder, fira, mate e esfaqueie, em segredo ou às claras, lembrando que nada pode ser mais venenoso, danoso e diabólico que um rebelde. É como quando se tem de matar um cão raivoso" (tradução minha, a partir da versão inglesa reproduzida na Universidade Estadual da Califórnia, Fresno). E põe nos lábios do príncipe, citando Romanos 13, a oração de quem recebeu de Deus a espada contra os malfeitores.

📜 Posições em debate

Thomas Müntzer comandou os rebeldes na batalha de Frankenhausen, em 15 de maio de 1525, perdida por eles; os historiadores discordam sobre quanto ele influenciou a revolta. As estimativas falam em até cem mil mortos entre uns trezentos mil rebeldes mal armados (Blickle, 1981, citado em obras de referência). O escrito de Lutero foi muito criticado; segundo uma síntese de referência, ele escreveu depois uma carta aberta em sua defesa e disse que os nobres foram duros demais na repressão.

⚠️ O que não se discute: camponeses e Lutero citaram o Evangelho, e a Escritura serviu, ao mesmo tempo, de pedido de justiça e de justificativa de repressão. O texto que cada um usou não decidiu a questão entre eles. Foi a espada.

03 — O RIO E A CONFISSÃOZurique, Schleitheim e Rottenburg

Em 7 de março de 1526, o conselho de Zurique decretou que o rebatismo de adultos era punível com afogamento. Em 5 de janeiro de 1527, Felix Manz foi o primeiro a morrer assim. Segundo o relato resumido em obras de referência, às três da tarde foi levado da prisão a um barco, louvou a Deus e pregou à multidão, e foi afogado no Limmat, com as mãos amarradas atrás dos joelhos e uma vara passada entre eles. O conselho e Zwingli o acusavam de se recusar obstinadamente a recuar de seu erro; um pastor reformado foi no barco para calá-lo e oferecer a retratação. Sua propriedade foi confiscada.

👁️ Como era viver ali

Entre os anabatistas, a morte tinha rosto de gente comum. A mãe e o irmão de Manz o animaram a manter-se firme, segundo a biografia. Michael Sattler, ex-monge beneditino, foi preso em maio de 1527 com a esposa, Margaretha. A sentença: arrancar a língua, dilacerar com tenazes em brasa e queimar. Os homens do grupo foram decapitados, as mulheres, inclusive Margaretha, afogadas. A execução de Sattler, em 20 de maio, foi decidida por autoridades católicas, em Rottenburg. A mesma doutrina era perseguida por quem se dizia católico, luterano ou reformado.

Sattler tinha presidido, em fevereiro de 1527, a reunião de Schleitheim, que adotou sete artigos: o batismo, o banimento (a disciplina), a ceia, a separação do mal, os pastores, a espada e o juramento. O sexto diz que "a espada é ordenada por Deus fora da perfeição de Cristo", que castiga os maus e protege os bons, e que "na perfeição de Cristo só se usa o banimento" (tradução minha). Para eles, o cristão não empunha a espada nem jura. O artigo sobre o juramento cita Mateus 5.34, e os historiadores veem em Schleitheim, em boa parte, uma leitura do Sermão do Monte, e não de uma revolução.

"Eu, porém, vos digo que de maneira nenhuma jureis; nem pelo céu, porque é o trono de Deus;" Mateus 5.34

04 — MÜNSTERO reino que acabou numa gaiola

Em janeiro de 1534, seguidores de Jan Matthys entraram em Münster, na Vestfália, e introduziram o batismo de adultos. Mais de mil adultos foram rebatizados em pouco tempo. Em fevereiro, os anabatistas tomaram a prefeitura, o rebatismo passou a ser obrigatório e todos os bens foram declarados comuns. Em abril, Matthys morreu numa investida, convencido de ser um segundo Gideão. Jan van Leiden o sucedeu, reivindicou autoridade régia e impôs a poligamia. O príncipe-bispo Franz von Waldeck sitiou a cidade por um ano. Em 24 de junho de 1535, ela caiu, e em janeiro de 1536 os líderes foram torturados e executados na praça, com os corpos expostos em gaiolas na torre da igreja de São Lamberto, onde as gaiolas ainda estão.

📜 Posições em debate

O que Münster prova sobre os anabatistas? Calvino conta, no prefácio de 1557 (Capítulo 6), que panfletos diziam que só eram castigados anabatistas e sediciosos, que ameaçavam a religião e a ordem: a palavra servia de acusação. Mas Münster foi um episódio de um grupo específico, e os Irmãos Suíços já tinham rejeitado a espada em Schleitheim, sete anos antes. Depois de Münster, autoridades católicas e luteranas endureceram a repressão, e o movimento nunca mais teve peso político, segundo uma síntese de referência. Menno Simons, um padre católico frísio nascido em 1496, deixou a Igreja em 12 de janeiro de 1536 e juntou-se aos anabatistas. Ele rejeitava a violência de Münster como contrária à Escritura. Seus seguidores passaram a ser chamados menonitas.

⚠️ O número de 3.000 mortos no cerco vem de uma só fonte da época. A história das dezesseis esposas de Jan de Leiden é contada com ressalvas: a decapitação de uma delas, Elisabeth Wandscherer, por ele, pode ter-lhe sido atribuída falsamente depois da morte.

05 — PERSEGUIÇÃO E MEMÓRIAQuem matou, quantos, o que se lembra

A Dieta de Speyer de 1529 fixou, segundo Schaff, a morte para todo rebatizado, por espada, fogo ou outro meio. A Britannica diz que a pena foi imposta com o concurso de católicos e luteranos. A Confissão de Augsburgo, de 1530, condena os anabatistas no artigo IX (batismo de crianças) e no XVI, onde reprova "os anabatistas que proíbem aos cristãos esses ofícios civis". Jakob Hutter, líder de um grupo anabatista na Morávia e no Tirol, foi queimado em Innsbruck em 25 de fevereiro de 1536. Os huteritas, que levam seu nome, praticam a comunhão de bens.

Quantos morreram? Ninguém sabe. A Cambridge History of Christianity (que se apoia em levantamentos como o de Claus-Peter Clasen) fala em perto de quinhentas execuções conhecidas ou prováveis na Europa central, incluindo a Suíça e a Boêmia, na primeira década depois de 1525. Para o período todo, uma síntese que cita Brad Gregory fala em algo entre 2.000 e 4.000 executados na Europa do Norte e central, e o número real é incognoscível, porque muitas execuções não foram registradas. O Martyrs Mirror (1660), de Thieleman van Braght, reúne relatos de milhares de mártires, da Antiguidade ao século XVII.

Frontispício gravado: duas mulheres alegóricas, uma com as tábuas da lei e outra radiante com crianças, e ao fundo fogueiras e cruzes; no alto, o título em holandês sobre um pano
Frontispício do Martyrs Mirror — segunda edição, Amsterdã, 1685, de Thieleman van Braght: Het bloedig tooneel of martelaars-spiegel der doops-gesinde of weereloose christenen ("O teatro sangrento, ou espelho dos mártires dos cristãos batizados, ou sem defesa"), gravura de Daniël Penning a partir de desenho de Laurens Vincentsz. van der Vinne; Rijksmuseum, Amsterdã (RP-P-1982-1176). CC0.
🏺 O que as fontes dizem

A história mais conhecida do Martyrs Mirror é a de Dirk Willems. Segundo o relato, preso em Asperen em 1569, ele fugiu pelo gelo de um fosso, e o guarda que o perseguia caiu na água. Willems voltou para salvá-lo e foi recapturado. Sete juízes o condenaram, e ele foi queimado em 16 de maio de 1569. A gravura de abertura deste capítulo é de Jan Luyken, da edição de 1685. O relato do resgate vem do próprio martirológio, que também reproduz o texto da sentença; as obras de referência não citam registro judicial independente do resgate. É uma lembrança viva na tradição menonita, e, como fonte histórica, pede cuidado.

👁️ Como era viver ali

Em julho de 2010, em Stuttgart, a Federação Luterana Mundial adotou uma declaração que pede perdão a Deus e aos irmãos menonitas pela perseguição luterana aos anabatistas, e pelos argumentos teológicos que a apoiaram. Os menonitas acolheram o gesto. O gesto veio de três décadas de diálogo, iniciado em 1980, quando representantes menonitas perguntaram como os luteranos podiam celebrar um documento que condenava os ensinos deles.

06 — O QUE ISSO MUDA NA LEITURAUma Bíblia lida em comunidade, e quem decide

Os anabatistas leram a Bíblia como quem toma ao pé da letra o Sermão do Monte e os textos sobre batismo. Menno Simons, segundo uma biografia de referência, conta que dúvidas sobre a transubstanciação o levaram, por volta de 1526 ou 1527, a estudar a Bíblia a sério, que ele não conhecia, e que decidiu apoiar-se só na Escritura. Ludwig Hätzer e Hans Denck, ligados aos círculos radicais, publicaram em Worms em 1527 uma tradução dos Profetas que Zwingli usou muito na Bíblia de Zurique.

O custo foi alto. As autoridades viam nos anabatistas uma ameaça à ordem, como mostram os mandatos de Zurique e de Speyer. Os anabatistas, por sua vez, liam que na Igreja de Cristo só se usa a disciplina da exclusão, o "banimento", sem pôr ninguém à morte (Schleitheim, art. VI), e por isso não podiam aceitar a pena de morte contra hereges. A pergunta de quem interpreta a Escritura, e com que autoridade, volta no Capítulo 11.

🌱 Semente de sermão

No fim de Mateus 28, a ordem do texto é: "fazei discípulos [...] batizando-os [...] ensinando-os a guardar todas as coisas que eu vos tenho mandado" Mt 28.19-20. Igrejas que discordam sobre quando batizar concordam em que o ensino vem junto. Que a discussão sobre a data do batismo não nos faça esquecer o fim do versículo.

PARA FIXARO que ficou do capítulo

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21 de janeiro de 1525

Grebel batiza Blaurock em Zurique. Em 7 de março de 1526, o conselho decreta o afogamento para os rebatizados. Felix Manz morre assim em 5 de janeiro de 1527.

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Schleitheim, 1527

Sete artigos, entre eles o batismo só de crentes, a espada e o juramento Mt 5.34. Sattler foi executado por autoridades católicas em 20 de maio.

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Os Doze Artigos

Camponeses pedem em 1525 um pastor escolhido pela comunidade e prometem desistir de qualquer artigo que a Escritura refute. Lutero escreve contra eles em maio.

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Münster e a repressão

O reino de Jan van Leiden (1534–35) acabou em gaiolas na torre. A repressão veio de católicos, luteranos e reformados, e os números variam de milhares.

Próximo capítulo: Inglaterra. Um tradutor foragido, em Colônia, vê a prensa parar porque a polícia chegou; ele pega as folhas já impressas do Novo Testamento em inglês e foge rio acima.

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