Colônia, 1525. Na oficina do impressor Peter Quentell, a prensa trabalha num livro em inglês, o que não é comum numa cidade alemã. Já chegou à folha K quando um visitante, o teólogo católico Johannes Cochlaeus, que manda imprimir ali um comentário seu, faz os operários beberem e descobre o segredo: três mil exemplares de um Novo Testamento em inglês, que mercadores ingleses vão contrabandear para a Inglaterra. Ele corre ao senador Herman Rinck, que consegue do conselho da cidade uma ordem de suspensão. Os dois ingleses, Tyndale e seu companheiro, pegam as folhas já impressas e sobem o Reno de barco até Worms.
Quem conta isso é Cochlaeus, adversário dos reformadores, em livro de 1549, e esse relato é o que a literatura usa para a cena. Este capítulo segue o tradutor e o rei: um homem que não conseguiu fazer a Bíblia em inglês dentro da Inglaterra, e um rei que, anos depois, mandou pôr a Bíblia em inglês em toda igreja, com muito do texto de um homem queimado fora da Inglaterra.
01 — O TRADUTOR"Não havia lugar em toda a Inglaterra"
William Tyndale nasceu por volta de 1494, provavelmente em Gloucestershire. Estudou em Oxford (Magdalen Hall, mestre em 1515) e em Cambridge. Antes de 1522, foi capelão e preceptor na família de sir John Walsh. Foi ali, segundo John Foxe (1563), que numa discussão à mesa com um clérigo ele teria dito que, "se Deus me poupar a vida, antes de muitos anos farei que um rapaz que conduz o arado saiba mais da Escritura do que tu". A frase vem do relato de Foxe, publicado mais de quatro décadas depois da cena: é tradição, e não registro da época.
Em 1523, foi a Londres buscar apoio. O bispo Cuthbert Tunstall recusou, dizendo que sua casa estava cheia. Foxe, citando Tyndale, escreve que ele entendeu que "não havia lugar no palácio do bispo de Londres para traduzir o Novo Testamento, e que também não havia lugar para isso em toda a Inglaterra". Na primavera de 1524 ele deixou o país.
O Novo Testamento completo saiu em 1526, em Worms, na oficina de Peter Schöffer, o Jovem, em formato pequeno. Do trabalho de Colônia, em formato maior, sobrevive um fragmento (de Mateus 1.1 a 22.12), hoje na Biblioteca Britânica. Da edição de Worms sobrevivem três exemplares, em St. Paul's (incompleto), na Biblioteca Britânica (exemplar que esteve no Bristol Baptist College, sem a página de rosto) e em Stuttgart (o único que conserva a página de rosto). Tyndale usou como base o Novo Testamento grego de Erasmo, e a versão latina e a Bíblia alemã de Lutero.
No epílogo da edição de 1526, que a reimpressão de George Offor (1836) reproduz, Tyndale pede ao leitor que venha "com uma mente pura e, como diz a Escritura, com um olho simples às palavras de saúde e de vida eterna", e pede aos doutos que perdoem a rudeza do trabalho, porque, diz, não tinha ninguém para copiar e nem recebeu ajuda de inglês de ninguém que tivesse interpretado o mesmo antes. Ele o considera "uma coisa que não tem sua forma completa, como nascida antes do tempo, começada antes que acabada" (tradução minha, da ortografia original do século XVI).
As escolhas de Tyndale que mais incomodaram foram três. O grego ekklēsia (ἐκκλησία), que Strong define como "uma convocação, isto é, uma reunião popular, em especial uma congregação religiosa", ele traduziu por "congregation", e não "church". Presbyteros (πρεσβύτερος), "mais velho; como substantivo, um ancião", virou "senior" e depois "elder", e não "priest". E agapē (ἀγάπη), "amor, isto é, afeição ou benevolência", virou "love", e não "charity". A Vulgata trazia ecclesia, presbyter (e seniores) e caritas, e o inglês da Igreja dizia "church", "priest" e "charity". Em português, a ACF traz, no texto, "anciãos" em Atos 20.17 e "amor" em 1 Coríntios 13.13, e "igreja" para ekklēsia.
Thomas More, o chanceler católico, acusou Tyndale de mentir ao traduzir: segundo obras de referência, More falava em cerca de mil falsas traduções, e Tunstall dizia ter achado mais de dois mil erros. Numa passagem de More reproduzida por Offor, as três "heresias" são: Tyndale chama "os sacerdotes da Igreja de Cristo" de "seniores", chama a Igreja de "congregação", e chama a caridade sempre de "amor". Segundo obras de referência, essas escolhas desafiavam doutrinas católicas sobre a Igreja, o clero, a missa e a confissão. Elas listam também metanoeite traduzido por "repent", e não "do penance", a questão do Capítulo 1.
⚠️ A acusação dos mil erros e a resposta de Tyndale são, no fundo, a mesma briga sobre a autoridade da tradução latina e sobre o sentido de palavras-chave. Segundo as mesmas obras, a acusação formal contra Tyndale foi de heresia luterana, e não a tradução em si.
02 — A FOGUEIRA DE LIVROSContrabando, Tunstall e Antuérpia
O Novo Testamento chegou à Inglaterra em fardos de mercadoria. Em outubro de 1526, o bispo Tunstall o condenou: num mandado, citado por Offor, chama a tradução de "veneno pestífero e perniciosíssimo" e manda entregar, em trinta dias, sob pena de excomunhão e suspeita de heresia, todos os exemplares do Novo Testamento em inglês. Tunstall mandou comprar e queimar em público os que achou.
Uma tradição, que aparece na crônica de Edward Hall (1548) e em Foxe, conta o final irônico dessa história: Tunstall teria comprado os exemplares de um mercador, Packington, amigo de Tyndale, e Tyndale teria usado o dinheiro para pagar dívidas e imprimir uma edição melhor. Offor a reproduz; é relato de cronista, sem confirmação em documento da época.
Tyndale seguiu para Antuérpia. Lá imprimiu o Pentateuco, em 1530 (restam nove exemplares), e uma versão revista do Novo Testamento, em 1534. Em 1535, foi traído por Henry Phillips e preso na casa dos mercadores ingleses de Antuérpia. Ficou no castelo de Vilvoorde, perto de Bruxelas. Foi condenado como herege em 1536 por defender ideias luteranas, estrangulado e queimado no começo de outubro daquele ano. A data tradicional é 6 de outubro, mas os historiadores a discutem. Segundo Foxe, suas últimas palavras foram: "Senhor, abre os olhos do rei da Inglaterra".
Ter um Novo Testamento em inglês, em 1527, era arriscado. Offor lembra que, em 24 de fevereiro de 1527, Sebastian Harris, cura de Kensington, foi processado por heresia por ter o Novo Testamento em inglês. Offor lembra também John Pykas, que em 1527 contou ter comprado, em Colchester, de um mercador lombardo, um Novo Testamento em inglês por quatro xelins (Offor nota que ele não diz se o livro era impresso). A Bíblia, em inglês, era um objeto de risco e de preço.
03 — O REIDo Defensor da Fé ao chefe da Igreja
Henrique VIII escrevera contra Lutero e recebera, por isso, do papa Leão X, o título de "Defensor da Fé". Em 1527, queria anular o casamento com Catarina de Aragão, a tia do imperador Carlos V. O papa Clemente VII, que decidiria o caso, tornou-se, naquele mesmo ano, prisioneiro do imperador. Em 6 de maio de 1527, tropas de Carlos V, em boa parte sem soldo, tomaram Roma e a saquearam por meses. Clemente refugiou-se no Castelo de Sant'Angelo e se rendeu em 6 de junho, prometendo um resgate de 400.000 ducados. As estimativas de mortos variam de 6 mil a 12 mil, e a população da cidade teria caído de uns 55 mil para uns 10 mil, segundo obras de referência. Clemente nunca concedeu a anulação.
Por que a Inglaterra rompeu com Roma? Narrativas diferentes dão pesos diferentes: algumas ressaltam o desejo do rei de ter um herdeiro homem e o impasse com o papa, depois do saque de Roma; outras, a longa tradição inglesa de limitar o poder do papa; outras, o papel de ministros reformadores como Thomas Cromwell e Thomas Cranmer. O Ato de Supremacia, de 1534, fez do rei o chefe da Igreja da Inglaterra.
⚠️ Os dados do saque vêm de resumos de referência, e uma das afirmações populares, a de que soldados luteranos foram os mais violentos, é dada como alegação. O saque foi obra de tropas de um imperador católico contra um papa.
O mesmo Henrique, que fora Defensor da Fé contra Lutero, abriu a porta da Bíblia em inglês. Em 1535 saiu a Bíblia de Miles Coverdale, a primeira Bíblia inteira impressa em inglês. Em 1537 saiu a Bíblia de Matthew, que, segundo obras de referência, era na verdade de John Rogers e combinava o Novo Testamento de Tyndale com as partes do Antigo que ele traduzira. Thomas Cromwell obteve aprovação para ela, como medida provisória.
Em 1538, Cromwell mandou que os clérigos providenciassem "um livro da Bíblia inteira, do maior volume, em inglês" para cada igreja. Em 1539 saiu a Great Bible, a "Bíblia Grande", preparada por Coverdale por encomenda de Cromwell e autorizada pelo rei: a primeira Bíblia inglesa de autorização real. A primeira edição, de 2.500 exemplares, foi começada em Paris, e até 1541 passaram de 9.000 exemplares, com sete edições. Ela se apoiava no trabalho de Tyndale, de que tirou o que os bispos achavam censurável. Como o Antigo Testamento de Tyndale era incompleto, Coverdale traduziu o restante sobretudo da Vulgata e de traduções alemãs. A segunda edição trazia um prefácio de Thomas Cranmer, de 1540, que incentivava a leitura da Escritura.
O texto de um tradutor queimado em 1536 estava, em boa parte, nas Bíblias postas nas igrejas inglesas por ordem do rei três anos depois.
04 — QUEM PODIA LERA lei de 1543
A porta se abriu, e depois se estreitou. Em 12 de maio de 1543, o Parlamento aprovou o Ato para o Avanço da Verdadeira Religião, que visava suprimir a posse e a leitura das traduções de Tyndale pelos "mais baixos" e os comentários que espalhavam doutrinas contrárias à teologia de Henrique, sobre eucaristia e batismo, segundo obras de referência. Clérigos, nobres, a pequena nobreza e comerciantes mais ricos podiam ler a Bíblia em inglês. Não podiam as mulheres abaixo da pequena nobreza, nem criados, aprendizes e, em geral, os pobres. Nobres e damas da pequena nobreza só podiam lê-la em particular. A lei foi revogada em 1547, sob Eduardo VI. Em 1546, segundo a página de referência sobre a Great Bible, já se proibira tudo o que não fosse ela.
Em Neemias 8, o povo ouve a lei lida por horas, e os levitas "leram no livro, na lei de Deus; e declarando, e explicando o sentido, faziam que, lendo, se entendesse" Ne 8.8. Tyndale quis que o menino do arado e a Inglaterra inteira entendessem. Traduzir é fazer que, lendo, se entenda: o trabalho de quem ensina não termina quando o texto está no idioma do povo.
05 — O QUE ISSO MUDA NA LEITURAQuem lia, em que língua, com que palavras
O caso inglês mostra, numa só história, as perguntas do livro. Em que língua se lia: a Vulgata em latim, e depois o inglês, vindo do grego. Quem lia: primeiro, sobretudo os clérigos e quem tivesse licença; depois, com a Bíblia posta em toda igreja por ordem do rei, muito mais gente; e, por uma lei de 1543, só os de cima. Como se traduzia: com palavras que mexiam em doutrina, e que Tyndale e More discutiram. E quem decidia: o papa, o rei, o tradutor, o bispo. Cada uma dessas respostas foi dada, em alguma época, por alguém.
Na Inglaterra, como na Alemanha, motivos religiosos e políticos se misturaram, e os historiadores discutem a proporção. Um tradutor queimado, um rei que mudou de ideia, um ministro que obteve a aprovação e uma lei que fechou o que outra abrira.
PARA FIXARO que ficou do capítulo
Colônia e Worms
Em 1525, Tyndale fugiu de Colônia com folhas impressas, segundo Cochlaeus. Em 1526, saiu em Worms o primeiro Novo Testamento em inglês traduzido do grego.
"Congregation", "elder", "love"
Três palavras que More atacou. A ACF traz "anciãos" At 20.17 e "amor" 1Co 13.13.
Roma saqueada, 1527
O papa prisioneiro do imperador não anulou o casamento de Henrique. Em 1534, o Ato de Supremacia fez do rei o chefe da Igreja.
A Bíblia Grande, 1539
Autorizada pelo rei e posta em toda igreja desde 1538. Tyndale, queimado em 1536, tinha escrito boa parte do texto. Em 1543, uma lei limitou quem podia lê-la.
Próximo capítulo: de Genebra a Westminster. Uma rainha católica manda queimar pastores, centenas de ingleses fogem para Genebra, e de lá sai a Bíblia de Genebra, que os peregrinos do Mayflower levarão, antes de a de 1611 chegar.
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