Basileia, outono de 1515. Na oficina do impressor Johann Froben, a prensa começa a trabalhar num livro grosso, de página dupla: grego numa coluna, latim na outra. Vai rodar até 1.º de março de 1516. Quem o preparou tem pressa, e o próprio Erasmo de Roterdã admitirá depois que a edição saiu mais "precipitada" do que revisada. Mas é o primeiro Novo Testamento em grego a chegar às mãos dos leitores na Europa impressa.
Das edições seguintes desse livro sairão, anos mais tarde, o Novo Testamento alemão de Lutero e o inglês de Tyndale. Este capítulo é o "antes". Mostra o que já existia em 1517, quando Lutero ainda era um professor pouco conhecido: Bíblias impressas em língua do povo, restrições de um lado e de outro, e uma geração de eruditos decidida a voltar ao texto original.
01 — UM LIVRO FEITO COM PRESSAO Novo Testamento de Erasmo, 1516
Desde a Bíblia de Gutenberg, impressa em latim por volta de 1455, a prensa já tinha produzido muitas Bíblias. Todas as de maior circulação traziam a mesma tradução: a Vulgata, o latim que Jerônimo preparou no século IV. O que faltava no mercado era o texto grego do Novo Testamento, na língua em que os apóstolos escreveram. Em 1514 o cardeal Cisneros mandou imprimir um, na Espanha, mas o volume do Novo Testamento ficou esperando a conclusão do Antigo, e a chamada Poliglota Complutense só começou a ser distribuída por volta de 1521.
Froben, um impressor ambicioso, viu a brecha. Erasmo, o humanista mais famoso da Europa, aceitou a tarefa. O resultado, publicado em 1516 com o título Novum Instrumentum e dedicado ao papa Leão X, tinha o grego à esquerda e, à direita, uma versão latina nova, feita por Erasmo e diferente da Vulgata em muitos pontos. As Anotações, publicadas junto, explicavam por que ele mudara o que mudara.
O trabalho tinha limites que o próprio autor reconhecia. Erasmo não encontrou um manuscrito grego com o Novo Testamento inteiro e montou o texto com poucos manuscritos, a maioria medieval. No Apocalipse, o único que tinha vinha sem a última folha, e ele preencheu o fim traduzindo de volta para o grego, a partir do latim da Vulgata, versículos que o manuscrito não trazia (a maior parte dos estudiosos fala nos últimos versículos do livro, de Ap 22.16 em diante; a extensão exata é discutida). Centenas de erros de impressão passaram. Nas edições seguintes, de 1519, 1522, 1527 e 1535, ele corrigiu muita coisa.
Em Mateus 3.2, a Vulgata dizia poenitentiam agite, "fazei penitência". O grego traz metanoeite (μετανοεῖτε), do verbo metanoeō (μετανοέω). O dicionário de Strong, de 1890, define o verbo como "pensar de outro modo, ou depois; reconsiderar" e o substantivo metanoia como remorso e, por extensão, reversão de uma decisão. Em latim, "fazer penitência" lembrava um ato, e as obras de penitência eram parte do sistema de confissão e satisfação que a Igreja ensinava. O grego aponta para uma virada de mente e de rumo.
Isso já tinha sido notado antes de Erasmo. O humanista italiano Lorenzo Valla (c. 1407–1457) escreveu Anotações sobre o Novo Testamento em que questionava a tradução da Vulgata nesse ponto. Erasmo encontrou o manuscrito de Valla em Lovaina, em 1504, e o publicou em 1505. Em 1518, na carta a Staupitz que acompanha as Resoluções das 95 teses, Lutero conta que a palavra "penitência" era das mais amargas da Escritura para ele, até que, graças aos eruditos que ensinam grego e hebraico, aprendeu que o grego dizia metanoia (resumo da carta, na tradução inglesa de 1915). Ele não nomeia Erasmo nem Valla nessa passagem.
02 — AD FONTESVoltar às fontes
O lema dos humanistas era ad fontes, "às fontes". Para os letrados do tempo, isso significava ler os clássicos em grego e latim e, no caso da Bíblia, ler o Antigo Testamento em hebraico e o Novo em grego, em vez de depender só da tradução latina. Foi essa a ambição de Valla, de Erasmo e de Cisneros. Ela mexeu com os mestres das universidades, que viam em Jerônimo e na Vulgata uma base segura, e deu aos reformadores a ferramenta de que precisavam.
Erasmo não queria só eruditos lendo. No prefácio ao Novo Testamento de 1516, chamado Paraclesis, "exortação", ele escreveu que gostaria que as mulheres lessem os Evangelhos e as cartas de Paulo, que essas Escrituras fossem traduzidas para todas as línguas, até para escoceses, irlandeses, turcos e sarracenos, e que o lavrador as cantasse enquanto conduz o arado e o tecelão enquanto trabalha (parafraseio uma tradução inglesa antiga modernizada, e não o texto latino). Esse desejo de uma Bíblia para todos é anterior a Lutero. A diferença é que Erasmo o queria dentro de uma Igreja que se reformasse por dentro, e foi acusado por teólogos conservadores de mexer com o texto sagrado.
Um dos casos mais citados é 1 João 5.7-8, o chamado Comma Johanneum (a "cláusula joanina"), a frase sobre "três que testificam no céu". Erasmo não a incluiu na edição de 1516 nem na de 1519, porque não a achava em manuscritos gregos. Ela entrou na terceira edição, de 1522, depois que lhe mostraram um manuscrito grego que a trazia, hoje conhecido como Codex Montfortianus, que muitos estudiosos datam de cerca de 1520. Erasmo continuou duvidando de que o trecho fosse original. A ACF mantém o versículo no texto; muitas traduções modernas o deixam em nota ou o omitem.
⚠️ O exemplo mostra uma coisa e não prova outra. Mostra que o texto grego que chegou aos tradutores do século XVI foi se firmando aos poucos, e que os próprios editores o discutiam. Não resolve a questão da inspiração: só mostra como o texto foi estabelecido. As edições críticas modernas partem de muito mais manuscritos do que Erasmo conheceu.
03 — A BÍBLIA ANTES DE LUTEROO que já existia em língua do povo
Uma das lendas populares é que Lutero "descobriu" a Bíblia, ou que ninguém a conhecia antes dele. Lutero mesmo disse, já velho, em conversas à mesa anotadas por seus alunos, que só aos vinte anos viu uma Bíblia. A Enciclopédia Católica (1910) julgava essa frase, tomada ao pé da letra, contrária a fatos demonstráveis. É o tipo de relato de memória em que alguém resume com exagero o que sentiu. O que os documentos mostram é mais simples.
A primeira Bíblia impressa em alemão saiu em Estrasburgo em 1466, da oficina de Johannes Mentelin, a partir de uma tradução do século XIV. Até 1522, segundo o New Cambridge History of the Bible, houve cerca de quatorze edições da Bíblia inteira em alto-alemão e pelo menos quatro em baixo-alemão (Colônia, Lübeck e Halberstadt). Uma contagem citada por Arblaster, Juhász e Latré (2002) fala em cerca de noventa edições, em alemão, de Evangelhos e de leituras para os domingos e festas. Em Delft saiu, em 1477, um Antigo Testamento em holandês. Em Veneza, Nicolò Malermi publicou em agosto de 1471 a primeira Bíblia italiana impressa. Na Inglaterra, circulavam em manuscrito as Bíblias da tradição de Wycliffe.
Isso não quer dizer que a Bíblia estivesse "ao alcance de todos". Livros custavam caro, poucos sabiam ler e a linguagem de várias dessas traduções era antiquada, como lembra a mesma Enciclopédia Católica. Mas não quer dizer o contrário. Havia leitores, havia impressores e havia mercado.
Para a maioria dos europeus de 1500, a Bíblia era algo que se ouvia. Na missa, as leituras vinham em latim. O sermão, em língua do povo, explicava um trecho. A igreja era um livro de pedra e vidro: vitrais, esculturas, pinturas e peças de teatro religioso contavam as histórias de Gênesis à Paixão para quem não sabia ler. Quem tinha algum dinheiro e letras rezava com um livro de horas, que trazia Salmos e trechos dos Evangelhos.
Quantos sabiam ler? As estimativas variam muito conforme o método. Para a Alemanha do tempo da Reforma, a estimativa clássica de Engelsing fica abaixo de 1% da população. Outros estudos, para outras populações, dão números maiores, e não há contagem direta. Em qualquer dos números, saber ler era coisa de poucos, e quase sempre de homens.
A Igreja proibia a Bíblia? A resposta honesta é: depende do lugar, da época e do que se chama de "proibir". Nenhuma lei geral da Igreja medieval proibiu os fiéis de ouvirem ou lerem a Escritura. O que houve foram normas locais contra traduções feitas sem licença, em geral por medo de heresia, e as Bíblias alemãs impressas antes de 1522 são prova de que o mercado funcionava mesmo assim.
Dois exemplos. Na Inglaterra, as Constituições de Oxford (redigidas em 1407 e publicadas em 1409 para toda a província de Canterbury) exigiam aprovação do bispo ou de um concílio provincial para novas traduções da Escritura em língua do povo. Os estudiosos discutem até hoje o alcance dessa regra: se atingia só a tradução, só a leitura ou também a posse. Em Mainz, o arcebispo Berthold von Henneberg publicou em 1486 um edito de censura prévia à impressão de livros religiosos, sobretudo em traduções para o alemão, alegando, segundo a Enciclopédia Católica, que o alemão não era capaz de expressar com correção as ideias religiosas. O edito não impediu novas edições da Bíblia alemã.
⚠️ Depois da Reforma, a Igreja Católica endureceu as regras para a leitura da Bíblia em língua do povo, e o Capítulo 10 descreve isso com as palavras das próprias normas. Dizer que "a Igreja proibia a Bíblia" em 1500 mistura as duas épocas. Dizer que não havia restrição nenhuma ignora as Constituições de Oxford e o edito de Mainz.
04 — O QUE ISSO MUDA NA LEITURADois leitores, uma mesma página
Em 1516, havia dois tipos de leitor da Bíblia na Europa. Um lia em latim, na tradução de Jerônimo, comentada por séculos de teólogos. Outro lia ou ouvia em língua do povo, numa tradução que dependia da latina. O livro de Erasmo abriu uma terceira possibilidade: o leitor com formação podia olhar o grego e perguntar se o latim dizia a mesma coisa. Quando isso aconteceu com a palavra "penitência", a pergunta deixou de ser só de filologia.
Erasmo e Lutero acabaram em lados opostos. Erasmo, que nunca deixou a Igreja de Roma, discordou de Lutero sobre o livre-arbítrio em De libero arbitrio (1524), e Lutero respondeu em De servo arbitrio (1525). Mas o Novo Testamento que Lutero traduziria no Wartburg, em 1521-22, partiu do grego de Erasmo (a segunda edição, de 1519, segundo a literatura sobre a Bíblia de Lutero).
Uma única palavra grega, metanoia, mudava o tom de toda uma vida cristã: de uma lista de coisas a fazer para uma virada do coração. Quando você prega "arrependei-vos" Mt 3.2, o que a congregação ouve: uma obra ou uma volta? O que a igreja ouve depende da tradução, e da tradição, que a precedeu.
PARA FIXARO que ficou do capítulo
O grego impresso, em 1516
O Novum Instrumentum de Erasmo foi o primeiro Novo Testamento em grego a chegar aos leitores. Saiu com pressa e com erros, e foi corrigido nas edições seguintes.
Metanoia, não só "penitência"
Valla e Erasmo questionaram o latim poenitentiam agite Mt 3.2. Lutero conta, em 1518, que a descoberta do grego mudou o que a palavra significava para ele.
A Bíblia já falava alemão
Mentelin imprimiu a primeira Bíblia alemã em 1466. Até 1522 houve cerca de quatorze edições em alto-alemão e pelo menos quatro em baixo-alemão.
Restrições locais, não uma lei única
Houve normas contra traduções sem licença (Oxford, 1407–1409; Mainz, 1486). Não houve, na Idade Média, uma proibição geral de ler a Escritura.
Próximo capítulo: Wittenberg, 1517. Um professor escreve ao arcebispo de Mainz sobre o que se prega em nome do papa. Ele ainda não sabe que a carta, e as teses que a acompanham, vão parar nas prensas de meia Europa.
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