A Europa da ReformaCapítulo 9 de 11 ⤓ PDF
Xilogravura: os israelitas acampados diante do mar Vermelho e, em primeiro plano, a cavalaria e os carros dos egípcios
CAPÍTULO 9 DE 11

De Genebra ao rei Tiago

A Bíblia de Genebra, Elizabeth e a tradução de 1611

Um editor da Bíblia é queimado em 1555. Seus colegas, no exílio em Genebra, terminam uma Bíblia com notas e versículos numerados. Meio século depois, um rei que não gosta das notas manda fazer outra.

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Smithfield, Londres, 4 de fevereiro de 1555. John Rogers é queimado. Ele é, segundo a tabela dos executados do reinado de Maria Tudor, o primeiro. Rogers fora o editor da Bíblia de 1537, que saiu sob o nome de "Thomas Matthew" e juntava o Novo Testamento de Tyndale às partes do Antigo que Tyndale traduzira. Dezoito anos depois, a Bíblia que ele ajudara a pôr em inglês já não valia como defesa.

Este capítulo vai de Smithfield a Genebra e de Genebra a Westminster. Conta como exilados ingleses fizeram a Bíblia que os puritanos e os peregrinos do Mayflower usaram, como um rei que reprovava as notas dela mandou fazer outra, a de 1611, e como os católicos ingleses, no exílio, fizeram a sua. E tenta mostrar o que cada uma dessas Bíblias trazia nas margens, que é onde as brigas apareciam.

01 — A RAINHA E AS FOGUEIRASMaria Tudor, 1553–1558

Maria I reinou de 1553 a 1558 e devolveu a Inglaterra à obediência do papa. O Parlamento restabeleceu as leis contra a heresia, e a partir de 20 de janeiro de 1555 a Inglaterra pôde punir legalmente quem se opusesse à fé católica. Rogers foi o primeiro queimado. Thomas Cranmer, o arcebispo de Canterbury que escrevera o prefácio da Great Bible, foi queimado em 21 de março de 1556, diante do Balliol College, em Oxford. As fontes variam sobre o total de executados: pelo menos 280 queimados, segundo fontes da época, e a lista chega a 287 pessoas (56 delas mulheres), mais uns trinta mortos na prisão, segundo uma obra de referência. Foxe, em seu Atos e monumentos, de 1563, fala em trezentas, e chega a listar 312 que foram queimadas, enforcadas ou morreram ou adoeceram na prisão.

📜 Posições em debate

Como julgar o reinado? A fonte mais citada é o livro de Foxe, escrito do lado protestante. Os registros judiciais, segundo uma obra de referência, trazem acusações e sentenças, e boa parte do contexto vem de relatos dos acusados ou de seus defensores. Os católicos de então viam nas execuções a aplicação de leis antigas contra a heresia, e os protestantes viam mártires. Os dois lados puniam dissidentes: obras de referência lembram que Eduardo VI e Elizabeth I, protestantes, também perseguiram anabatistas (Capítulo 7), e o Capítulo 10 mostra a Inquisição e o Índice.

⚠️ Os números aqui são os mais baixos e mais altos que a literatura traz, e variam conforme a definição de "mártir" e a fonte. Nenhum deles é uma contagem fechada.

02 — A BÍBLIA DOS EXILADOSGenebra, 1557–1560

Muitos protestantes ingleses fugiram do reino. Frankfurt foi, em 1554, o centro dos exilados na Europa, e a maioria acabou em Genebra, onde Calvino incentivava uma revisão da Bíblia francesa. William Whittingham, um dos primeiros a chegar a Frankfurt, concluiu em 1557 uma revisão do Novo Testamento de Rogers e de Tyndale que trazia, pela primeira vez em inglês, versículos numerados, segundo a divisão do Novo Testamento grego de Robert Estienne, publicado em Genebra. Com o apoio de Calvino e de Beza e a ajuda financeira do mercador John Bodley, Whittingham, Anthony Gilby e outros terminaram a Bíblia inteira, impressa em Genebra em 1560 (o prefácio é de 10 de abril).

A Bíblia de Genebra foi, segundo obras de referência, a primeira Bíblia inglesa completa traduzida inteiramente das línguas originais e a primeira impressa em tipo romano, que é o tipo de letra de hoje, e não o gótico. Apoiou-se bastante em Tyndale. Saiu em quarto, com notas laterais de teor calvinista e puritano. Foi impressa na Inglaterra a partir de 1575–76, e teve, segundo uma estimativa, mais de 150 edições, a última provavelmente em 1644. Na Escócia, a primeira Bíblia impressa, em 1579, foi uma Bíblia de Genebra, e uma lei do mesmo ano exigia que as famílias com recursos tivessem uma. Os peregrinos levaram exemplares no Mayflower, em 1620.

🔎 A palavra original

A Bíblia de Genebra ganhou o apelido de "Bíblia das calças", Breeches Bible, por causa de Gênesis 3.7. A ACF diz que Adão e Eva "coseram folhas de figueira, e fizeram para si aventais". A palavra hebraica é chagorah (חֲגֹרָה, plural chagorot), derivada do verbo "cingir", que Strong define como "um cinto (para a cintura)". O dicionário lista, nas Bíblias inglesas, "avental, armadura, cinto". A Genebra traduziu por "breeches", calças curtas, e a de 1611 por "aprons", aventais. É um caso pequeno e é típico: uma palavra rara e uma decisão de tradutor.

📜 Posições em debate

As notas da Genebra eram o que a tornava útil e perigosa. Elas explicavam o texto para o leitor leigo, de um ponto de vista calvinista e puritano, que os anglicanos reprovavam. O rei Jaime I, que sucedeu a Elizabeth, objetava às notas, e não à tradução. Ele chamou muitas delas de "muito parciais, falsas, sediciosas". Segundo obras de referência, o mais provável (é inferência, não declaração do rei) é que ele visse como sediciosas as referências a reis como "tiranos" e o tom anticlerical.

⚠️ Um comentário de margem era, ao mesmo tempo, ajuda de leitura e interpretação imposta. É a pergunta do Capítulo 3 de novo: quando a Bíblia chega a uma pessoa já acompanhada de uma explicação, quem decidiu o que ela diz?

03 — O REIHampton Court, 1604, e a Bíblia de 1611

Elizabeth subiu ao trono em 1558. Em 1568, a Igreja da Inglaterra lançou a sua Bíblia, a dos Bispos, mas a Genebra continuava popular entre os leigos. Em janeiro de 1604, o rei Jaime, que governava a Escócia e agora a Inglaterra, convocou a Conferência de Hampton Court. Ali se propôs uma nova tradução, e Jaime objetou às notas da Genebra que considerava sediciosas, entre elas as de Êxodo 1.19 e de 2 Crônicas 15.16. Segundo as obras de referência, a nota de Êxodo 1.19 elogiava a desobediência civil das parteiras hebreias ao faraó, e a de 2 Crônicas 15.16 criticava o rei Asa por não ter mandado matar a própria mãe, Maaca; o que o rei via de sedicioso nelas é, em boa parte, leitura dos historiadores.

"E as parteiras disseram a Faraó: É que as mulheres hebréias não são como as egípcias; porque são vivas, e já têm dado à luz antes que a parteira venha a elas." Êxodo 1.19

Foram aprovados 54 tradutores, mas o trabalho foi feito por 47, em seis equipes, duas em Westminster, duas em Oxford e duas em Cambridge. Trabalharam de fins de 1604 a 1608. Em janeiro de 1609, uma comissão geral de revisão se reuniu no Stationers' Hall. A Bíblia dos Bispos era o guia principal, e os tradutores podiam consultar Tyndale, Coverdale, a Bíblia de Matthew, a Great Bible e a de Genebra. Foram orientados a evitar notas marginais sempre que possível. O Novo Testamento seguiu o Textus Receptus, o Antigo, o texto massorético, e os apócrifos, a Septuaginta e a Vulgata.

Robert Barker, impressor do rei, publicou em 1611 a primeira edição completa, em fólio, que se vendia sem encadernação por dez xelins ou encadernada por doze. A página de rosto diz que a Bíblia foi "traduzida de novo das línguas originais, e, com as traduções anteriores, diligentemente comparada e revista, por mandado especial de Sua Majestade", "designada para ser lida nas igrejas".

Página de rosto gravada: acima, os doze apóstolos e os quatro evangelistas; nos nichos laterais, Moisés com as tábuas e Arão, o sumo sacerdote; no centro, o título The Holy Bible, 1611
A Bíblia do rei Jaime, página de rosto — gravura de Cornelis Boel; Robert Barker, Londres, 1611. Moisés e Arão ladeiam o título; no alto, o Espírito Santo e o nome divino em hebraico. Domínio público.
📜 Posições em debate

A Bíblia de 1611 foi "autorizada"? Não há registro de autorização formal. F. F. Bruce supõe que talvez tenha sido autorizada por ordem do conselho privado, mas os registros do conselho de 1600 a 1613 foram destruídos num incêndio. Também se discute quanto ela deve a Tyndale: o estudo de Jon Nielson e Royal Skousen (1998) estima que 84% do Novo Testamento é idêntico, palavra por palavra, ao dele, e cerca de 76% da parte do Antigo que ele traduziu. Estimativas anteriores variavam muito, de uns 18% a 90%. Segundo Metzger, cerca de 20% vêm diretamente da Genebra, e estudiosos veem ainda influência do Novo Testamento de Reims.

⚠️ Esses números são estimativas, e o texto bíblico dá pouca margem de variação: em muitos versículos, qualquer tradução fiel acaba parecida. O que é certo é que a Bíblia de 1611 foi um trabalho de revisão sobre muitas anteriores, como os próprios tradutores dizem.

04 — O PREFÁCIO"Fazer de uma boa tradução uma melhor"

O prefácio de 1611, The Translators to the Reader, "Os tradutores ao leitor", é um dos textos mais citáveis da história da Bíblia (a edição de Goodspeed, de 1935, com a grafia modernizada, está na CCEL). Os tradutores dizem que nunca pensaram, desde o princípio, que precisavam fazer uma tradução nova, nem fazer de uma má uma boa, mas "fazer de uma boa uma melhor, ou, de muitas boas, uma principal boa, não justamente a ser contestada". E explicam por que se traduz: "Tradução é o que abre a janela, para deixar entrar a luz; o que quebra a casca, para que comamos o miolo; o que afasta a cortina, para que olhemos o Santo dos Santos; o que remove a tampa do poço, para que cheguemos à água" (tradução minha). Sem tradução para a língua do povo, os não instruídos são como crianças junto ao poço de Jacó, sem balde.

Dizem também que querem que a Escritura "fale como ela mesma, na língua de Canaã, para que seja entendida até pelo mais vulgar". E afirmam uma coisa que vale para qualquer Bíblia: que "a mais modesta tradução da Bíblia em inglês, feita por homens da nossa profissão [...], contém a palavra de Deus, e mais, é a palavra de Deus", como o discurso do rei, traduzido para outras línguas, continua sendo o discurso do rei.

No prefácio, os tradutores também deixam alternativas na margem, "onde o texto não é tão claro", porque a diversidade de sentidos "deve fazer bem, e é necessária", e citam Crisóstomo e Agostinho: tudo o que é necessário é manifesto, e nas coisas claramente postas na Escritura se acham as que dizem respeito à fé, à esperança e à caridade. E o prefácio é duro com Roma. Segundo os tradutores, a Igreja de Roma só dá a Escritura em língua do povo com licença escrita, e Clemente VIII teria anulado a concessão de Pio IV. O Capítulo 10 olha essas regras de perto.

👁️ Como era viver ali

Para o leitor inglês de 1611, a Bíblia ainda era um objeto grande e caro: o fólio custava dez xelins sem encadernação. A Bíblia de Genebra tinha edições em quarto, em oitavo e até em formatos minúsculos (o menor Novo Testamento era em 32º), e a Bíblia do rei, depois, entrou na liturgia: o Livro de Oração Comum, de 1662, adotou a versão de 1611 para as epístolas e os evangelhos. A Genebra continuou a ser impressa, provavelmente até 1644. O texto-padrão de hoje é a edição de Benjamin Blayney, de Oxford, de 1769.

05 — A OUTRA BÍBLIA INGLESAReims e Douai

Enquanto os protestantes disputavam as margens, os católicos ingleses fizeram a sua Bíblia no exílio. O Colégio Inglês de Douai, fundado em 1568 pelo cardeal William Allen para católicos ingleses que fugiam da Reforma, produziu a versão de Douai-Reims. Gregory Martin fez a maior parte do Novo Testamento, impresso em Reims em 1582. O Antigo Testamento, atrasado por falta de dinheiro, saiu em Douai em dois volumes, 1609 e 1610. A tradução foi feita a partir da Vulgata latina, que o Concílio de Trento declarara autêntica, embora os tradutores digam que consultaram o hebraico e o grego. Seu estilo é marcado pelo latim, porque os tradutores deram prioridade à Vulgata palavra por palavra. Seu Novo Testamento, segundo obras de referência, aproveitou muito a redação de Tyndale, via Coverdale. O prefácio dos tradutores diz que os leitores devem usá-la "com licença de seu superior espiritual".

A edição paralela de William Fulke, de 1589, tornou o texto de Reims acessível na Inglaterra, e os estudiosos discordam sobre quanto a Bíblia de 1611 lhe deve: de uma influência extensa a uma pequena. Em 1749–52, Richard Challoner revisou a versão, usando muito a de 1611, e tirou a maior parte das notas.

06 — O QUE ISSO MUDA NA LEITURATrês Bíblias, três margens

No começo do século XVII, circulavam em inglês três tipos de Bíblia: a de Genebra, com notas puritanas; a de 1611, com margens só de leituras alternativas; e a de Reims, com notas católicas. Cada uma respondia de um jeito à pergunta de quem explica o texto: o leitor com um comentário reformado ao lado; o leitor com as alternativas na margem e a liturgia da Igreja; o leitor com licença de seu superior espiritual.

O que ficou da Bíblia de 1611 é, antes de tudo, uma língua. Os tradutores deixaram também um critério que católicos e protestantes ainda podem aproveitar: a exatidão importa, e a necessidade de que o povo entenda importa tanto quanto ela.

🌱 Semente de sermão

"A entrada das tuas palavras dá luz, dá entendimento aos símplices" Sl 119.130. Os tradutores de 1611 dizem que traduzir é abrir a janela. Mas uma janela precisa de quem a limpe de tempos em tempos. Toda geração herda uma Bíblia traduzida e precisa decidir se vai lê-la com os olhos limpos.

PARA FIXARO que ficou do capítulo

🔥

John Rogers, 1555

O editor da Bíblia de Matthew foi o primeiro queimado no reinado de Maria Tudor. Contas dos executados vão de 280 a 312, e todas têm incertezas.

🇨🇭

A Bíblia de Genebra, 1560

Feita por exilados, com versículos numerados desde o Novo Testamento de 1557, em tipo romano e com notas calvinistas. Os peregrinos a levaram no Mayflower.

👑

Hampton Court, 1604

O rei Jaime reprova as notas da Genebra e manda fazer outra. Quarenta e sete tradutores, seis equipes, um fólio em 1611, a dez xelins sem encadernação.

⛪

Reims e Douai

Os católicos ingleses, no exílio, fazem a sua Bíblia a partir da Vulgata: Novo Testamento em 1582 e Antigo em 1609–10.

Próximo capítulo: Trento. Em abril de 1546, num concílio que quase nenhum protestante frequentou, bispos votam a lista dos livros da Bíblia e dizem qual tradução latina deve valer nas aulas, nos sermões e nas disputas.

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