Genebra, verão de 1536. Um francês de vinte e poucos anos entra na cidade sem querer ficar. Quer só passar a noite: o caminho mais direto para Estrasburgo está fechado pela guerra, e ele pretende estudar em paz. Publicou em março, em Basileia, um livro pequeno, e tomou o cuidado de não dizer a ninguém que era o autor. Mas alguém o reconhece e avisa o pregador da cidade, Guilherme Farel. Farel corre atrás dele.
O resto, quem conta é o próprio João Calvino, vinte anos depois, no prefácio de seu comentário aos Salmos (1557). Este capítulo parte dessa noite e percorre o que ele fez de Genebra: um livro que não parou de crescer, uma Igreja organizada, uma Bíblia explicada versículo por versículo e duas coisas que o seguem até hoje, a predestinação e o caso Serveto.
01 — A NOITE EM GENEBRA"Deus amaldiçoará o seu retiro"
Calvino escreve que Farel o deteve em Genebra "não tanto por conselho e exortação quanto por uma terrível imprecação, que senti como se Deus tivesse posto do céu a sua mão poderosa sobre mim". Farel soube que ele queria dedicar-se a estudos privados, e, como as súplicas não adiantavam, "proferiu uma imprecação: que Deus amaldiçoasse o meu retiro e a tranquilidade dos estudos que eu buscava, se eu me retirasse e recusasse ajuda quando a necessidade era tão urgente". Calvino diz que ficou tão aterrado que desistiu da viagem (tradução minha, a partir da versão inglesa de Beveridge, 1845).
Ele já era autor da Institutio Christianae Religionis, as Institutas da religião cristã. O mesmo prefácio explica por que a escreveu: na França, cristãos que ele chama de fiéis eram queimados vivos, e circulavam panfletos que diziam que só eram castigados anabatistas e sediciosos, que ameaçavam a religião e a ordem. Calvino diz que decidiu responder, para defender os mortos e para que outras nações tivessem compaixão dos que sofreriam depois. Por isso o livro, que era "só um pequeno tratado com um resumo das principais verdades da religião cristã", abria com um prefácio ao rei da França.
A primeira edição tinha seis capítulos. A segunda, de 1539, era umas três vezes maior. A definitiva, de 1559, tem quatro livros e oitenta capítulos, e cada livro corresponde a uma parte do Credo dos Apóstolos. É um livro que cresceu junto com o autor. No prefácio da edição final, Calvino diz que seu objetivo foi preparar quem se destina ao ministério para o estudo da "Sagrada Escritura", dando-lhe uma introdução fácil a ela e mostrando o que procurar na Bíblia e a que tema referir cada coisa (tradução minha, a partir de Beveridge). O livro se apresenta como porta de entrada para a Bíblia, e não como substituto dela.
02 — GENEBRA E ESTRASBURGOExpulso, chamado de volta e uma igreja por escrito
Em janeiro de 1537, Calvino e Farel apresentaram ao conselho da cidade artigos de organização da Igreja. Na Páscoa de 1538, depois de se recusarem a administrar a Ceia com pão sem fermento, como o conselho ordenara, foram expulsos. Calvino foi para Estrasburgo, onde pastoreou uma igreja de refugiados franceses sob Martin Bucer, e em agosto de 1540 casou-se com Idelette de Bure, uma viúva com dois filhos. Em 13 de setembro de 1541 voltou a Genebra, e em 20 de novembro o conselho aprovou suas Ordonnances ecclésiastiques, as Ordenanças eclesiásticas. Elas previam quatro ofícios: pastores, doutores, presbíteros e diáconos.
Pelas Ordenanças nasceu o Consistório, um tribunal da Igreja composto de presbíteros e pastores. Só julgava questões eclesiásticas, e a cidade é que podia chamar alguém a comparecer. Sua pena mais grave era a excomunhão.
A Genebra de Calvino foi uma teocracia? Os historiadores discordam. Uns veem uma cidade em que a Igreja ditava a vida pública. Outros lembram que o Consistório só julgava matérias eclesiásticas, que a cidade tinha seu próprio governo e conselho, e que Calvino só se tornou cidadão em 1559. Há ainda quem lembre o contexto: cidades católicas e protestantes do século XVI regulavam costumes e crenças.
⚠️ Os números que se repetem sobre "o rigor de Genebra" (quantos punidos, quantas penas) precisam de fonte, e a maioria das versões populares não a traz. Este livro não repete nenhum.
Ouvir Calvino era ouvir a Bíblia em doses grandes. Segundo a literatura, ele pregou mais de duas mil vezes em Genebra, e só sobre o Deuteronômio foram cerca de duzentos sermões, entre março de 1555 e julho de 1556. Os ouvintes acompanhavam um livro de ponta a ponta, durante um ano ou mais, em francês.
Em 5 de junho de 1559 abriu a Academia de Genebra, depois Universidade de Genebra. Dentro de cinco anos, segundo uma estimativa citada em obras de referência, tinha cerca de 1.200 alunos no nível básico e 300 no superior. Entre 1555 e 1562, Calvino enviou mais de cem pastores à França, embora o conselho de Genebra negasse responsabilidade oficial por eles.
03 — A BÍBLIA SEGUNDO CALVINO"O testemunho interior do Espírito"
Além dos sermões, Calvino escreveu comentários sobre a maior parte dos livros da Bíblia. E nas Institutas dedicou um capítulo inteiro, I.7, a uma pergunta que atravessa este livro: o que faz a Escritura ser Escritura? O título do capítulo já traz a resposta: "O testemunho do Espírito é necessário para dar plena autoridade à Escritura. A impiedade de pretender que a credibilidade da Escritura dependa do juízo da Igreja".
Ali, ele diz que as palavras de Deus "não obterão pleno crédito nos corações dos homens até serem seladas pelo testemunho interior do Espírito", e que a Escritura, "trazendo consigo a sua própria evidência, não se digna submeter-se a provas e argumentos, mas deve a plena convicção ao testemunho do Espírito" (tradução minha, a partir de Beveridge; Institutas I.7.4-5). Para fundamentar, cita Isaías:
As duas respostas, a reformada e a católica, não respondem exatamente à mesma pergunta. Calvino trata da credibilidade da Escritura: ela não depende de a Igreja a aprovar, e sim de o Espírito Santo a confirmar nos corações dos fiéis. O Concílio de Trento, na quarta sessão (1546), trata da interpretação: diz que a ninguém é lícito, em matéria de fé e de costumes, interpretar a Escritura contra o sentido que a Igreja "sustentou e sustenta", à qual cabe "julgar do verdadeiro sentido e interpretação das sagradas Escrituras", nem contra o consenso unânime dos Padres (tradução minha da versão de Waterworth). Um argumento católico recorrente, além disso, é que foi a Igreja que, nos primeiros séculos, reconheceu quais livros eram canônicos (Capítulo 4).
⚠️ Em resumo: na tradição reformada, o cristão lê o texto com o Espírito, e a Igreja o ajuda; na católica, a Igreja é a intérprete autorizada, e o cristão lê dentro dela. Cada lado costuma acusar o outro de pôr, no limite, outra coisa acima da Palavra, e cada um responde que não.
04 — A PREDESTINAÇÃOTrês textos, três leituras
Poucos temas ligam tanto o nome de Calvino a uma ideia quanto a predestinação, e poucos são mais mal contados. Vale ver o que ele escreveu, o que as outras tradições escreveram e o que a Bíblia diz.
Em Efésios 1.5 e Romanos 8.29-30, o verbo é proorizō (προορίζω), que Strong define como "limitar de antemão, isto é, figuradamente, predeterminar". Em Efésios 1.4, "elegeu" é eklegomai (ἐκλέγομαι), "selecionar". E em Romanos 8.29, "dantes conheceu" é proginōskō (προγινώσκω), "conhecer de antemão, isto é, prever". Muitas discussões sobre predestinação giram em torno da distinção entre "prever" e "predeterminar". Há quem leia que Deus escolhe com base no que prevê, e quem leia que a escolha é anterior e não depende do que ele prevê.
Nas Institutas (III.21.5), Calvino define: "Por predestinação entendemos o decreto eterno de Deus, pelo qual determinou consigo mesmo o que queria que acontecesse com cada homem. Nem todos são criados em condições iguais; uns são preordenados para a vida eterna, outros para a condenação eterna; e, conforme cada um foi criado para um ou outro desses fins, dizemos que foi predestinado para a vida ou para a morte". O título do capítulo diz o mesmo: Deus "predestinou uns para a salvação e outros para a destruição". Em III.23.7 ele reconhece o peso: "decretum quidem horribile, fateor", "o decreto, admito, é terrível", e acrescenta que é impossível negar que Deus soubesse, antes de criar o homem, qual seria o seu fim, e o soubesse porque assim o decretara (tradução minha, a partir de Beveridge).
Mas o mesmo Calvino escreve, em III.24.5, que Cristo é o espelho em que devemos, e podemos sem engano, contemplar a nossa eleição: se estamos em comunhão com Cristo, temos prova suficiente de que estamos escritos no livro da vida. A doutrina, para ele, não era para especular sobre os réprobos, mas para assegurar os crentes.
Os luteranos. A Fórmula de Concórdia (1577) diz que a eleição de Deus "não se estende ao mesmo tempo sobre os piedosos e os ímpios, mas só sobre os filhos de Deus", e que "toda preparação para a condenação vem do diabo e do homem, pelo pecado, e de modo algum de Deus, que não quer que homem algum seja condenado" (Declaração Sólida, art. XI, 5 e 81; tradução minha da versão inglesa). Fundamenta-se em 2 Pedro 3.9 e Ezequiel 33.11. Os católicos. O Concílio de Trento condenou, em 1547, quem dissesse que a graça da justificação só é alcançada pelos predestinados à vida, e que os outros, chamados mas sem graça, são "predestinados ao mal por poder divino" (Sessão 6, cânon 17; tradução minha da versão de Waterworth). O texto não cita nomes. Calvino e a tradição reformada afirmam a eleição incondicional, como acima.
⚠️ As três posições leem os mesmos textos: Romanos 9.18, "compadece-se de quem quer, e endurece a quem quer", e 1 Timóteo 2.4, "quer que todos os homens se salvem". Cada tradição dá mais peso a um dos dois. No século seguinte, a disputa voltou, entre reformados, na Holanda (Sínodo de Dort, 1618–19), tema do Capítulo 11.
05 — SERVETOO dia 27 de outubro de 1553
Miguel Serveto, um espanhol, médico e teólogo, publicara em 1531 Sobre os erros da Trindade e em 1553 a Restituição do cristianismo, em que rejeitava a Trindade como a Igreja a formulara. Calvino e ele se escreveram a partir de meados dos anos 1540, sob pseudônimos (Serveto assinava Michel de Villeneuve; Calvino, Charles d'Espeville). Em 13 de fevereiro de 1546, Calvino escreveu a Farel que, se Serveto fosse a Genebra, e desde que a autoridade dele valesse algo, "eu jamais permitirei que saia vivo" (vivum exire nunquam patiar).
Em fevereiro de 1553, Guilherme de Trie, francês refugiado em Genebra, denunciou Serveto como herege numa carta a um parente em Lyon, na França (as fontes dão 16 ou 26 de fevereiro). Em 4 de abril, a autoridade católica o prendeu, e ele fugiu três dias depois. Em 17 de junho foi condenado à revelia e queimado em efígie. Em 13 de agosto de 1553 assistiu a um sermão de Calvino, em Genebra, foi reconhecido e preso. Zurique, Berna, Basileia e Schaffhausen foram consultadas e se mostraram a favor da condenação. No fim de outubro o conselho o condenou à fogueira. Calvino e outros pastores pediram a decapitação, em vez do fogo, e o conselho recusou. Serveto foi queimado em Champel em 27 de outubro. Suas últimas palavras, segundo o relato, foram: "Jesus, Filho do Deus eterno, tem piedade de mim".
Quanto Calvino é responsável? Os artigos de acusação em Genebra foram redigidos por ele, e o acusador formal foi seu secretário, Nicolas de la Fontaine. Calvino negou ter organizado a denúncia que levou à prisão de Serveto em Vienne, mas admitiu ter provocado a prisão em Genebra, e cartas de Serveto a ele foram usadas no processo de Vienne; os historiadores debatem a extensão de sua culpa. Seus defensores costumam argumentar que a execução foi decisão do conselho civil, depois de consultar outras cidades, e que a heresia era punida com a morte por católicos e protestantes. O próprio Calvino defendeu o ato num escrito de 1554, a Defensio orthodoxae fidei.
A resposta mais famosa foi a de Sebastian Castellio, que escreveu em 1554, em Basileia, o Contra libellum Calvini, publicado só em 1612: "Hominem occidere non est doctrinam tueri, sed est hominem occidere", "matar um homem não é defender uma doutrina, é matar um homem" (tradução minha).
⚠️ O caso mostra as duas coisas de uma vez: um reformador que escreveu comentários bíblicos de enorme influência e que aprovou matar um homem por heresia. Os dois fatos são verdadeiros. A própria bula contra Lutero, em 1520, condenara a ideia de que queimar hereges contraria o Espírito (Capítulo 2), e o Capítulo 7 mostra o que aconteceu com os anabatistas.
06 — O QUE ISSO MUDA NA LEITURAA Bíblia por livros e a Ceia no meio do caminho
O que Calvino pôs nas mãos do leitor foi um método: um livro de cada vez, em sermões, em comentários e na escola, com as Institutas como roteiro. Muitas igrejas reformadas mantêm até hoje a pregação sequencial de livros bíblicos.
Na Ceia, Calvino ocupou, na leitura de muitos historiadores, uma posição intermediária entre Lutero e Zwingli, como o Capítulo 5 antecipou. Ele rejeitava a transubstanciação e a missa como sacrifício e escreveu que "Cristo desce a nós tanto pelo sinal externo como pelo seu Espírito, para vivificar verdadeiramente as nossas almas pela substância da sua carne e do seu sangue" (IV.17.24). Sobre o modo, confessa: "é um mistério alto demais para o meu entendimento compreender ou para as minhas palavras exprimirem; para falar com mais clareza, eu o sinto mais do que o entendo" (IV.17.32; tradução minha, a partir de Beveridge).
Calvino queria só uma vida quieta de estudos, e foi detido por um homem que lhe disse que Deus amaldiçoaria o seu sossego. Ele mesmo diz que, no começo, não quis assumir a obrigação de nenhum ofício em particular. At 17.11 diz que os bereanos receberam a palavra "examinando cada dia nas Escrituras se estas coisas eram assim". Um chamado pode vir como incômodo, e a primeira resposta saudável a ele é voltar ao texto.
PARA FIXARO que ficou do capítulo
Uma noite que virou quase trinta anos
Calvino queria passar uma noite em Genebra em 1536; Farel o deteve com uma imprecação. Ele contou isso em 1557.
Um livro que cresceu
As Institutas: seis capítulos em 1536, oitenta em 1559. Nasceram como defesa dos protestantes franceses perseguidos.
A Bíblia livro a livro
Mais de duas mil pregações em Genebra e comentários sobre a maior parte dos livros. A autoridade da Escritura vem, para ele, do testemunho do Espírito Is 59.21.
Predestinação e Serveto
Três tradições leem Efésios 1 e Romanos 9 de modos diferentes. Em 1553, Serveto foi queimado em Genebra, e Calvino pedira a decapitação.
Próximo capítulo: os anabatistas. Em 21 de janeiro de 1525, numa casa de Zurique, um homem pede a outro que o batize, e a cidade que lia a Bíblia de Zwingli decide, um ano depois, que isso é crime punível com a morte.
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