SOBRE ESTE LIVROA Europa da Reforma, em poucos minutos
Estrasburgo, por volta de 1466. Da oficina do impressor Johannes Mentelin sai a primeira Bíblia inteira impressa em alemão, meio século antes de Lutero escrever uma linha contra as indulgências. Em 1648, na Paz de Vestfália, quem sabia ler na Europa podia ter uma Bíblia em alemão, em holandês, em inglês ou em francês, e a Europa estava dividida em três confissões reconhecidas. O que aconteceu entre uma data e outra é o assunto deste livro.
Não é uma história só de Lutero, e não é uma história só de teologia. É a história de como um livro foi impresso, traduzido, proibido, queimado, comentado, ensinado a crianças e disputado em concílios, em dietas e em campos de batalha. Cada capítulo abre dentro de uma cena e responde a uma pergunta prática: quem lia a Bíblia nessa época, em que língua, quem a traduzia e quem tinha o direito de dizer o que ela significava. Se você ler só esta página, já sai com o essencial.
O que veio antes. A Bíblia não estava trancada. Havia Bíblias impressas em latim desde o século XV e em alemão desde 1466, e em 1516 Erasmo publicou o primeiro Novo Testamento em grego a chegar aos leitores (Capítulo 1). O que havia eram restrições, mais duras em alguns lugares do que em outros, e uma geração de eruditos decidida a voltar às fontes.
A virada. Em 1517, Lutero escreve ao arcebispo de Mainz sobre as indulgências (Capítulo 2). Em abril de 1521, em Worms, diante do imperador, recusa-se a retratar (Capítulo 3). Em setembro de 1522 sai o Novo Testamento em alemão (Capítulo 4). Zuínglio, em Zurique, e Calvino, em Genebra, seguem caminhos próprios, e em Marburgo dois reformadores leem o mesmo grego e discordam sobre uma frase de poucas palavras (Capítulos 5 e 6). Os anabatistas leem de outro modo e pagam o preço (Capítulo 7).
A Inglaterra e a Bíblia em toda igreja. Tyndale foge de Colônia com folhas impressas, é executado em 1536, e anos depois o rei que o combateu manda pôr a Bíblia em inglês nas igrejas (Capítulo 8). Depois vêm a Bíblia de Genebra, de 1560, e a de 1611, a do rei Tiago (Capítulo 9).
A resposta de Roma. Em 8 de abril de 1546, o Concílio de Trento decide, com as próprias palavras, o que a Igreja Católica recebe como Escritura e qual latim vale nas lições públicas, e o Índice regula a leitura em língua do povo. O capítulo mostra o que Trento decidiu e o que não decidiu (Capítulo 10).
O que ficou. De Augsburgo, em 1555, à noite de São Bartolomeu, em 1572, e à Paz de Vestfália, em 1648, a Europa discute com a espada o que a Bíblia diz. O livro fecha com a pergunta que sobrou (quem decide, se todos apelam à Escritura?), com o que se sabe sobre escola e leitura, e com uma ponte curta até Almeida e o português (Capítulo 11).
O que as fontes dizem. Cada tradição é descrita com as próprias palavras e os próprios textos: o decreto de Trento, a Fórmula de Concórdia, a Confissão de Westminster, as cartas de Lutero. O que os historiadores de hoje estabelecem vem separado do que cada lado afirma. Mitos conhecidos (as 95 teses pregadas na porta, o "Aqui estou", a Bíblia proibida em língua do povo, os livros que Lutero "tirou", "a Igreja proibia a Bíblia", "a Reforma criou a alfabetização") são examinados um a um, e o livro diz o que as fontes sustentam e o que não sustentam. As sombras do século aparecem tanto quanto as luzes.
Como isso muda sua leitura. Você vai ver que "Bíblia em língua do povo" não nasceu em 1517, que cada tradução foi também uma decisão (que livros, que notas, que palavras), e que a pergunta "quem tem autoridade para dizer o que a Bíblia significa?" tem respostas antigas, que continuam em uso. Vai ler a Almeida e a Bíblia de Genebra sabendo de onde vêm.
ANTES DE COMEÇARO mapa para não se perder
Antes de entrar nas cenas, fixe estes seis cartões.
Onde
A Europa central e ocidental: o Império de língua alemã, a Suíça, a França, os Países Baixos, a Inglaterra, a Itália de Trento.
Quando
De 1466 (a primeira Bíblia alemã impressa) a 1648 (a Paz de Vestfália). O centro do livro é o século XVI.
Por que importa na Bíblia
É nesse século que se decidem as traduções que a maioria dos leitores de hoje conhece de longe: a de Lutero, a de Genebra, a do rei Tiago, e, por tabela, a que chega ao português.
Três respostas sobre a autoridade
Luteranos e reformados dizem que só a Escritura é juiz; a Igreja Católica diz que a Escritura e a tradição são lidas sob o magistério. O Capítulo 11 as ouve nas próprias palavras.
Um mito para desarmar
"A Igreja proibia a Bíblia" mistura épocas e lugares. Houve Bíblias católicas em língua do povo antes e depois de Trento, e houve regras de licença. O Capítulo 10 separa uma coisa da outra.
A prova que não existe
Que Lutero pregou as 95 teses na porta da igreja é uma tradição debatida; o que as fontes sustentam é a carta a Albrecht de Brandemburgo, de 31 de outubro de 1517 (Capítulo 2).
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