Marselha, por volta do ano 600. Contaram ao bispo Sereno que havia gente adorando imagens de santos em sua diocese, e ele mandou quebrá-las. O caso chega ao papa Gregório Magno, que lhe escreve (Cartas XI, 13, na numeração da edição inglesa de Barmby; no registro de Gregório, é a de número 10 do livro XI). Louva Sereno por proibir a adoração, e o repreende por ter quebrado as imagens. E explica: "o que a escrita apresenta aos que leem, a pintura apresenta aos ignorantes que a contemplam" (tradução minha, a partir da versão inglesa).
A frase de Gregório teve uma vida longa na Igreja da Idade Média. Este último capítulo faz três coisas. Mostra como a Bíblia chegava a quem não lia: pela imagem, pelo teatro e pelo culto. Julga a "Idade das Trevas" à luz do que o livro viu. E responde, em poucas linhas, às perguntas que ele se fez desde o começo: quem tinha acesso ao texto, em que línguas, como era copiado, ensinado e pregado. No fim, vêm as curiosidades, os versículos-chave e a ponte para o resto da série.
43 — O LIVRO DOS QUE NÃO LEEMVitrais, paredes, teatro e uma Bíblia "dos pobres"
A carta de Gregório não é só uma teoria de arte. A historiadora Barbara Crostini, num artigo de 2022 (European Review), sustenta que a carta é também uma teoria da iconoclastia, voltada a proteger o uso das imagens pela comunidade. Seja como for, a ideia se espalhou: nas paredes e nos vitrais, a Bíblia era vista. Os vitrais da catedral de Chartres, do começo do século XIII, trazem uma janela, a do Bom Samaritano, em que a parábola de Lucas Lc 10.30-35 aparece rodeada de cenas do Gênesis. É leitura em sentidos, como a do capítulo 6: o viajante ferido é Adão, e o samaritano, Cristo. Quem não lia latim via a Queda e a cura numa só janela.
A imagem de abertura deste capítulo vem de um saltério inglês, o de Luttrell (c. 1325–35), feito para um proprietário rural: nas margens dos salmos aparecem, ao lado de cenas sagradas, pastores, ovelhas e camponeses.
Havia mais. Em York, na Inglaterra, as corporações de ofício encenavam, em carroças pelas ruas, uma série de dramas bíblicos, do dia da Criação ao Juízo Final. O ciclo, de cerca de 48 cenas, aparece em registros desde 1376 e continuou a ser feito até 1569. Era uma festa gratuita para a cidade inteira, em inglês, ligada à festa do Corpo de Deus. Entre os séculos XIV e XVI, vários lugares da Europa tiveram dramas assim, e eles mostram que a Bíblia chegava ao povo em língua do povo, em forma de espetáculo, e não só pelo latim da igreja.
E havia a Bíblia dos pobres (Biblia pauperum), um livro de imagens, em que cenas do Novo Testamento aparecem cercadas de cenas do Antigo que as "prefiguram". O Museu Victoria e Albert explica que ela foi composta provavelmente por volta do meio do século XIII, em círculos monásticos da atual Áustria e do sul da Alemanha, e que se conhecem mais de oitenta versões manuscritas, de c. 1300 ao fim do século XV. O nome é uma designação posterior: só aparece em livro impresso em 1769, e é hoje tido por impróprio. A obra pode ter sido feita para o clero pobre ou como ajuda à meditação, e não, como se diz, para os pobres que não sabiam ler.
A frase "as imagens eram a Bíblia dos analfabetos" é repetida em todo manual. Ela vem de Gregório, e tem uma ponta de verdade: muita gente aprendia a história bíblica olhando. Mas ela não conta tudo. Os vitrais eram muitas vezes desenhados com a orientação de clérigos, em programas teológicos que só os instruídos liam por inteiro, e o povo via sobretudo as cenas. E o que a Igreja Ortodoxa e a Católica tratam como um dom, algumas Igrejas da Reforma, como as reformadas, tratarão no século XVI como risco de idolatria, e retirarão as imagens dos templos. A Bíblia vista não era a mesma coisa que a Bíblia lida.
⚠️ É tradição, e não Escritura. A frase de Gregório é um documento, e como cada tradição a usa é questão de leitura.
44 — O ANO DA IGREJAMissa, confissão, peste e um Apocalipse impresso
A vida cristã seguia um calendário. No domingo, a missa, em latim, com as leituras de uma Epístola e de um Evangelho, o sermão, quando havia, e o canto de salmos. Para quem tivesse um livro de horas, havia a oração do dia, em oito horas, como o capítulo 8 viu. Em 1215, o Concílio de Latrão IV, no cânon 21, mandou que todo fiel, de ambos os sexos, se confessasse ao menos uma vez por ano e comungasse na Páscoa. Os dias de festa, a Quaresma, as procissões e as peregrinações marcavam o ano. Do que a Bíblia contava, o povo conhecia provavelmente sobretudo as partes que cabiam nesse calendário: o Natal, a Paixão, a Páscoa, e as figuras dos santos.
Em 1347 a peste chegou à Europa, e até 1351 matou, segundo as estimativas, de um terço a mais da metade da população, conforme a região (as cifras variam muito). Costuma-se observar que a experiência da peste pesou na religiosidade, com mais procissões, mais missas pelos mortos e mais imagens da morte e do juízo. As imagens do Apocalipse, o último livro da Bíblia, davam figura a esse medo: o cavalo amarelo, a Morte, "e o inferno o seguia", e o poder de matar "com espada, e com fome, e com peste" Ap 6.8. Em 1498, o gravador Albrecht Dürer publicou em Nuremberg uma série de quinze gravuras do Apocalipse, cuja imagem mais famosa são os Quatro Cavaleiros.
Para a maioria, o contato com a Bíblia era ouvido e visto, e vinha em porções: uma epístola e um evangelho por domingo, os salmos, as imagens, os sermões. Era um texto da comunidade, mais do que de cada pessoa. Isso ajuda a entender por que a ideia de "ter uma Bíblia em casa" pesava menos do que hoje: o texto vivia na igreja, e o que se levava para casa eram frases, orações e imagens. É nesse mundo que as traduções, a imprensa e os pregadores de que este livro falou fizeram diferença.
45 — A "IDADE DAS TREVAS"O que sobra do rótulo
A ideia de que a Idade Média foi uma era de escuridão vem de longe. Petrarca, no século XIV, falou de trevas entre a glória de Roma e o seu tempo: era um modo de dizer que a cultura antiga se perdera e podia ser reencontrada. O historiador da Igreja César Barônio usou, em 1602, a expressão latina saeculum obscurum, "século obscuro", para um período turbulento dos séculos X e XI. No século XVII o termo, em inglês, passou a ser aplicado à Idade Média em geral. Muitos historiadores hoje evitam a expressão, por achá-la enganosa, e a restringem, quando a usam, ao começo do período, pela escassez de fontes.
O que este livro viu confirma a cautela. Em mil anos, houve manuscritos de uma beleza que ainda espanta, como o Amiatino e o Códice Argênteo. Houve mosteiros que copiaram, Carlos Magno que mandou corrigir, universidades, glosas, concordâncias. Houve Jerônimo, Cassiodoro, Beda, Tomás. Houve Bíblias em dezenas de línguas, e a imprensa de Mogúncia, que nasceu nesse mundo, e não fora dele. Mas houve também pouca gente capaz de ler, livros caríssimos, proibições regionais de traduções, perseguição de leigos que pregavam sem licença, queima de livros e de pessoas, massacres de judeus no Reno e em Jerusalém. É um tempo que tem luzes e tem sombras, e as duas listas são verdadeiras. O erro é escolher só uma.
A palavra "medieval" vem do latim medium aevum, "idade do meio". É palavra de humanistas, a partir do século XV, que se viam como quem reencontrava a Antiguidade e tratavam os séculos de permeio como um intervalo. Quem viveu em 1100 não sabia que vivia "no meio". É mais uma palavra de quem olhava de fora.
46 — O QUE ISSO MUDA NA SUA LEITURACinco respostas e seis passagens
O livro começou com uma pergunta, e dá agora cinco respostas curtas, com os limites que cada uma tem.
Quem tinha acesso ao texto? Poucos o tinham em mãos: clérigos, monges, universitários, ricos. A maioria o ouvia na igreja, e o via nas paredes, nos vitrais e nos palcos. Isso mudou devagar, com a imprensa, a partir de 1455, e com as traduções.
Em que línguas? Em grego no Oriente bizantino, em latim no Ocidente e, desde cedo, em muitas outras: siríaco, armênio, gótico, eslavo, árabe, inglês antigo, francês, catalão, tcheco, alemão, italiano, holandês. O latim, que fora língua do povo no tempo de Jerônimo, virou, com os séculos, língua de escola e de culto.
Como era copiado? À mão, em pergaminho, com custo altíssimo, em mosteiros e depois em oficinas leigas. Havia reformas, como a de Carlos Magno, para corrigir os erros, e a tarefa era tida como trabalho sagrado.
Como era ensinado? Pelos quatro sentidos, pelas glosas, pelas Sentenças, nas universidades, com a Bíblia no começo do currículo. O sentido literal era a base, e os espirituais, o desenvolvimento.
Como era pregado? Em sermões a partir de um versículo, em língua do povo, por padres, frades e, por vezes, por leigos sem licença, que a Igreja ora acolheu, ora condenou. As proibições existiram, regionais e dirigidas a traduções e a pregadores sem mandato, e não a uma "Bíblia para todos".
Seis passagens ganham, depois deste livro, um sentido a mais. Neemias 8.8, a lei lida e explicada: um leitor e um explicador, o desenho do culto medieval (capítulo 3). Romanos 10.17, "a fé é pelo ouvir, e o ouvir pela palavra de Deus" Rm 10.17: era assim que a maioria a recebia. Atos 8.30-31, o eunuco que pergunta quem lhe explique (capítulos 1 e 6). Mateus 7.6, a "pérola" que um cônego de Leicester não queria ver nas mãos dos leigos (capítulo 9). Gálatas 4.24, a "alegoria" que Paulo usa e que os mestres desenvolveram (capítulo 6). E Mateus 25.35-36, a fome, a sede, a prisão, no marfim de um saltério de Jerusalém (capítulo 5).
Jesus perguntou ao doutor da lei: "Como lês?" Mil anos de história respondem de mil jeitos: ouvindo, copiando, comentando, traduzindo, imprimindo, recusando, proibindo, pregando. A pergunta de Jesus não era só "o que está escrito", mas "como você lê". Quem a ouve hoje, com a Bíblia no bolso e no telefone, deve a cada homem e mulher desta história uma resposta honesta.
VOCÊ SABIA?Curiosidades sobre a Europa medieval e a Bíblia
Peles e pesos
O Códice Amiatino tem pouco mais de mil folhas e pesa mais de 34 quilos. Uma estimativa fala de 515 peles de animais para ele.
Letras de prata
O Códice Argênteo, gótico, foi escrito em prata e ouro sobre pergaminho púrpura, provavelmente em Ravena, no começo do século VI.
Moisés com chifres
A Vulgata traduziu qāran por cornuta Êx 34.29. Daí os chifres do Moisés de Michelangelo.
Capítulos de c. 1200, versículos de 1551
Quem numerou a Bíblia não foi quem a escreveu: Langton (capítulos, atribuição mais aceita) e Estienne (versículos).
Cædmon e Beda
Um homem simples cantou o Gênesis em inglês, e Beda morreu ditando uma tradução de João.
Correntes de bibliotecas
Serviam para evitar roubo e deixar ler no local. O conjunto de Hereford que se visita hoje foi montado em 1611.
30 florins
O preço de uma Bíblia de Gutenberg, equivalente a uns três anos do salário de um escrivão.
1965
Paulo VI e Atenágoras anularam as excomunhões de 1054, e, em 1999, João Paulo II lamentou a morte de Jan Hus.
PARA LEVAR NA BÍBLIAOito versículos-chave
PARA FIXARO que ficou do livro
A Bíblia vista
Imagens, vitrais, teatro e a "Bíblia dos pobres" levaram o texto a quem não lia. Era outra coisa que a Bíblia lida.
Nem trevas, nem ouro
Luzes e sombras convivem: manuscritos magníficos e pouca leitura, universidades e fogueiras.
"Como lês?"
A pergunta de Lc 10.26 atravessa os mil anos: ouvir, copiar, comentar, traduzir, proibir, imprimir.
Proibido, de fato
Normas regionais contra traduções e pregadores sem mandato, e Bíblias em línguas vulgares em muitos lugares.
Na série Povos e Mundos da Bíblia, este livro termina na véspera de 1517. O que vem depois, as 95 teses, a Bíblia em alemão, em inglês e, mais tarde, em português, é o assunto de A Europa da Reforma. E, para quem quer entender o mundo em que o Novo Testamento nasceu, os livros sobre Roma e sobre A Filosofia Grega mostram o que ele encontrou.
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