Belém, por volta do ano 390. É noite, e um homem bate à porta do mosteiro. Não quer ser visto. Jerônimo, um monge de uns quarenta e poucos anos, paga caro por essas visitas. O visitante é um estudioso judeu, chamado Baranina nas cartas de Jerônimo, e só aparece depois de escurecer, por medo dos outros judeus. Jerônimo vai escrever que ele lhe pareceu "um segundo Nicodemos", aquele que também procurava Jesus de noite. Os dois se debruçam, palavra por palavra, sobre o texto hebraico. Jerônimo está atrás de uma coisa que a Igreja latina não tem: um Antigo Testamento que traduza o que está escrito no original.
Este capítulo conta como nasceu a Bíblia que a Europa ocidental vai ler, ouvir e copiar por mais de mil anos, e quanto custou fazê-la. Também mostra que o livro já falava outras línguas, no Oriente e entre os povos que cercavam o império, e que o latim, no começo, era só mais uma delas.
06 — UMA BÍBLIA LATINA EM PEDAÇOSO que Roma lia antes de Jerônimo
No Ocidente, nos séculos II e III, a Bíblia foi sendo traduzida do grego para o latim por muita gente, em muitos lugares, sem plano. Os estudiosos chamam esse conjunto de Vetus Latina, o "latim antigo". Não é uma tradução: são várias, cada uma com leituras próprias. Agostinho sentiu o problema na pele. Ele escreve que os tradutores do hebraico para o grego se contam, e que os latinos "não se contam" de jeito nenhum (Sobre a doutrina cristã II, 11). Cada cidade, por vezes cada igreja, tinha o seu texto.
Por volta de 382, o bispo de Roma, Dâmaso, pede a Jerônimo que dê um jeito nos Evangelhos latinos. Jerônimo era um letrado da Dalmácia, formado em Roma, de uns trinta e cinco anos, e secretário do bispo. Na carta-prefácio, ele escreve a Dâmaso que o bispo o obriga a "fazer uma obra nova a partir da antiga" e a se sentar "como uma espécie de juiz" entre as versões espalhadas pelo mundo. E prevê a reação: quem achar o texto diferente vai gritar que ele é "falsário" e "sacrílego", por ousar mexer nos livros antigos (tradução minha). Há dúvida entre os especialistas sobre a data (382, 383 ou 384) e até sobre se Dâmaso encomendou uma edição oficial. É possível que o plano tenha crescido aos poucos, livro por livro, cada um dedicado a um amigo.
O que se sabe é que Jerônimo revisou os Evangelhos latinos comparando-os com manuscritos gregos. Quanto ao resto do Novo Testamento, é discutido o quanto é obra dele. Dâmaso morre em dezembro de 384. Jerônimo, que tinha inimigos em Roma, deixa a cidade em 385 e se instala em Belém em 386, com a nobre Paula e a filha dela, Eustóquia, que fundam ali mosteiros. Ali vai passar o resto da vida, até a morte, em 420.
07 — O PROFESSOR DA NOITEA "verdade hebraica"
Em Belém, Jerônimo toma uma decisão que lhe vai custar caro: traduzir o Antigo Testamento direto do hebraico. Até então, os cristãos latinos liam o Antigo Testamento a partir da Septuaginta, a tradução grega que os apóstolos e os pais da Igreja citavam. Jerônimo trabalha de c. 390 a c. 405. Em seus escritos, ele volta sempre à hebraica veritas, a "verdade hebraica". Dele é também a frase "A ignorância das Escrituras é ignorância de Cristo", no prólogo do comentário a Isaías (tradução minha).
Ele não esconde o preço. Na Carta 84, descreve as visitas noturnas do professor e o custo de tê-lo como mestre. Quanto ao trabalho em si, Jerônimo pede que não confundam beleza com exatidão. No prefácio de Jó (c. 394), escreve que quem quiser pode ficar com os livros velhos, escritos em pele tingida de púrpura, com letras de ouro e de prata, "mais cargas de escrita do que livros", e que deixem para ele e para os seus "folhas pobrezinhas", não tão bonitas quanto corretas (tradução minha). É o resumo da disputa: de um lado, o livro de luxo; do outro, o livro que se pode conferir.
Em Êxodo 34.29-30, quando Moisés desce do Sinai, a ACF diz que "a pele do seu rosto resplandecia". O verbo hebraico é qāran (קָרַן), que o dicionário de Strong explica como "ter chifres" e, em sentido figurado, "emitir raios". Vem de qeren, "chifre". Jerônimo traduziu "cornuta esset facies sua", algo como "o seu rosto estava cornudo". Se ele quis dizer "com chifres" ou "radiante" é discutido, mas foi a leitura "chifres" que a arte medieval seguiu: Moisés de chifres aparece em manuscritos, vitrais e até na famosa estátua de Michelangelo, em Roma. A Septuaginta, ao contrário, diz que o rosto "foi glorificado".
A tradução do hebraico trazia um problema delicado, e ele não passou despercebido. Se as Bíblias que a Igreja conhecia vinham da Septuaginta, e se a Septuaginta incluía livros que não estão na Bíblia hebraica, o que Jerônimo faria com Sabedoria, Sirácida, Judite, Tobias e os Macabeus? No prefácio a Samuel e Reis (c. 391), ele escreve que o que está fora dos livros hebreus deve ser posto entre os apócrifos, e cita Sabedoria, Sirácida, Judite e Tobias, que "não estão no cânon". Quanto aos Macabeus, diz que o primeiro livro se acha em hebraico e que o segundo é grego, "como se prova pelo próprio estilo" (tradução minha). Mesmo assim, ele traduziu Tobias e Judite, a pedido, e diz que o fez depressa.
Quem defende o cânon mais curto costuma citar esses prefácios. Quem defende o mais longo cita os concílios africanos do capítulo 1 e o uso da Igreja, e lembra que as Bíblias latinas, com os prólogos de Jerônimo e tudo, traziam esses livros. O que a frase de Jerônimo prova é, de novo, questão de cada tradição, e não terá resposta aqui.
Um episódio do tempo mostra como mexer na Bíblia mexia com a vida das pessoas. Agostinho, bispo de Hipona, conta a Jerônimo (Carta 71, §5, numeração de Agostinho) que um bispo, numa cidade africana chamada Oea, leu em público, na igreja, a tradução nova de Jerônimo. Ao chegar a uma palavra do livro de Jonas, a que o povo conhecia de outro jeito, houve um "tumulto" tamanho que o bispo pediu o parecer dos judeus da cidade. Eles disseram que o grego e o latim a que o povo estava acostumado estavam certos, e o bispo foi obrigado a corrigir a passagem "como se tivesse sido mal traduzida", para não perder o rebanho.
⚠️ Na carta, Agostinho não diz qual era a palavra. Os estudos sobre o episódio a identificam com o nome da planta que dá sombra a Jonas, em Jonas 4.6 (a ACF diz "aboboreira"): Jerônimo a traduziu por "hera", e o povo conhecia "aboboreira". Agostinho escreve, na mesma carta, que preferiria que Jerônimo traduzisse a Septuaginta para o latim, e não o hebraico. Anos depois, na Cidade de Deus (XVIII, 43), ele fala de Jerônimo como o erudito que traduziu direto do hebraico.
08 — COMO A VULGATA VENCEUDevagar, e sem decreto
É tentador contar o resto como uma vitória rápida. Não foi. Durante séculos, a Bíblia de Jerônimo conviveu com o latim antigo, e muitas Bíblias misturam os dois. O papa Gregório Magno, por volta de 595, escreve a Leandro, bispo de Sevilha, que usa como texto base a "tradução nova", mas que cita ora a nova, ora a antiga, quando o assunto pede, "já que a Sé Apostólica, que por vontade de Deus presido, usa as duas" (carta-prefácio dos Morais sobre Jó, §5; tradução minha). Nos séculos seguintes, sobretudo a partir da época de Carlos Magno (capítulo 3) e com as Bíblias de Paris do século XIII (capítulo 6), o texto de Jerônimo se torna o padrão do Ocidente.
E o nome? "Vulgata" quer dizer "a de uso comum", e no tempo de Jerônimo era o apelido da edição corrente: a Septuaginta, e depois as versões latinas antigas, e não o trabalho dele. O nome só passa à Bíblia de Jerônimo bem depois: há usos espaçados na Idade Média (Roger Bacon, no século XIII, é citado como exemplo) e ele só se generaliza a partir do século XVI. No Concílio de Trento (1546), a Igreja Católica declarou que a "antiga e vulgata edição" devia valer como autêntica em leituras públicas, debates, pregações e comentários. Trento é assunto de outro livro desta série. Para este, vale saber que o que a Idade Média chama de "a Bíblia" é, no Ocidente, esse texto.
Cada tradução é uma escolha, e as escolhas de Jerônimo viraram vocabulário. Em Mateus 3.2, o verbo grego é metanoéō (μετανοέω), que o dicionário de Strong descreve como "pensar de outro modo, repensar". O latim de Jerônimo diz paenitentiam agite, que se pode ler como "fazei penitência", e foi muitas vezes assim lido, na Igreja medieval, em ligação com o sacramento da penitência. Nas Bíblias em português, hoje, de várias famílias, aparecem "arrependei-vos" (como na ACF), "convertei-vos" e "fazei penitência". É comum, entre estudiosos de várias tradições, reconhecer que o grego fala de uma mudança de mente. O que se discute, e muito, é como isso se liga ao que cada Igreja ensina a fazer depois.
09 — OUTRAS BÍBLIAS, OUTRAS LÍNGUASQuando o latim era só mais uma
A Bíblia de Jerônimo não era a única, e nem a primeira, a falar a língua de um povo. No Oriente, os cristãos de língua síria liam, desde o século II, uma harmonia dos quatro Evangelhos num só relato, o Diatessaron, de Taciano. Por volta do século V, bispos como Teodoreto de Ciro mandaram trocá-lo pelos Evangelhos separados: Teodoreto conta que recolheu mais de duzentos exemplares nas igrejas de sua diocese. A Bíblia síria que acabou prevalecendo, a Peshitta ("a simples", ou "a comum"), guarda, segundo alguns especialistas, vestígios de leituras do Diatessaron, e é usada até hoje por igrejas siríacas. A origem e a data dela são discutidas.
Na Armênia, a tradição atribui a Mesrope Mashtots a invenção do alfabeto, por volta de 405, e o começo de uma Bíblia armênia nas décadas seguintes. O copta, no Egito, e o georgiano também têm Bíblias antigas. Os detalhes e as datas desses textos são assunto de especialistas, e nenhum deles é o foco deste livro.
Mais perto do Ocidente medieval, há o caso dos godos. O bispo Úlfila (c. 311–383) foi missionário entre eles e traduziu a Bíblia para a língua gótica, criando para isso um alfabeto. O historiador Filostórgio, que escreve no século V e só sobrevive em resumo, diz que Úlfila traduziu tudo, menos os livros dos Reis, porque estes são cheios de guerras e os godos já eram guerreiros demais. Hoje se pensa que a tradução foi feita por mais de uma pessoa, talvez sob a direção dele. Do que restou dessa Bíblia, o manuscrito mais famoso é o chamado Códice Argênteo ("de prata"), de que sobraram cerca de 188 folhas, com os Evangelhos, escrito em letras de prata e ouro sobre pergaminho tingido de púrpura, provavelmente em Ravena, no começo do século VI. Está hoje em Uppsala, na Suécia.
Para a maioria, a Bíblia no século V era uma voz, e não um objeto. Podia ser o latim de um bispo em Hipona, o grego de uma liturgia em Antioquia, o siríaco de uma vila na Mesopotâmia, o gótico de uma igreja ariana na Itália de Teodorico. Os livros de luxo, em púrpura e prata, eram raros. O livro de verdade eram as palavras que se repetiam de cor, em cada culto. É por isso que as traduções importavam tanto: elas decidiam quem entendia o que ouvia.
Jerônimo enfrentou críticas de colegas e até de Agostinho por querer ler o que estava escrito. Pagou em tempo, em dinheiro e em amizades. Quem quer a Palavra sem enfeite costuma pagar o preço de quem a quer exata.
PARA FIXARO que ficou do capítulo
Belém, c. 390–405
Jerônimo traduz o Antigo Testamento do hebraico, com ajuda de um professor judeu que ia de noite.
Latim antigo, depois Vulgata
Antes dele, cada igreja tinha sua versão. A de Jerônimo só vira padrão com os séculos, e só depois recebe o nome "Vulgata".
O cânon do Antigo Testamento
Jerônimo chama Sabedoria, Sirácida, Judite e Tobias de "apócrifos", e os mesmos livros estão nas Bíblias latinas. As tradições leem isso de modo diferente.
Muitas línguas
Siríaco, armênio, copta, gótico: a Bíblia já falava muitas línguas antes do ano 500, e o latim era só mais uma.
Próximo capítulo: quando o império desaba, o livro passa para os mosteiros. Um copista, uma pena, um pergaminho e a Bíblia que atravessa o mar até Roma.
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