Monkwearmouth e Jarrow, no norte da Inglaterra, por volta do ano 700. O abade Ceolfrido mandou fazer três Bíblias completas, uma para cada um dos dois mosteiros e uma para o papa. Diz-se que, para isso, o mosteiro precisou de terras a mais, onde criar o gado cujas peles viram as folhas. Cada folha é raspada, cortada, riscada e preenchida à mão, letra por letra. Em 716, o abade, já velho, parte para Roma levando um dos três volumes. Não chega: morre no caminho, em Langres, na Borgonha, a 29 de setembro. A Bíblia continua a viagem sem ele.
Este capítulo é sobre os homens que copiaram o livro enquanto o mundo antigo se desfazia: os mosteiros, a Regra que mandava ler, os monges das ilhas que escreveram Evangelhos tão bonitos quanto exatos e o imperador que quis, por decreto, livros sem erros. É também o capítulo em que, no norte da Europa, a Bíblia começa a ser posta na língua do povo, e os dois lados dessa história precisam ficar juntos.
10 — TRÊS BÍBLIAS E UM ABADEO Códice Amiatino
Das três Bíblias de Ceolfrido sobreviveu uma inteira, a que viajou. Chama-se Códice Amiatino, porque passou séculos no mosteiro de Monte Amiata, na Toscana, e hoje está na Biblioteca Laurenciana, em Florença. Tem pouco mais de mil folhas de pergaminho (1.030 ou 1.040, conforme a contagem), pesa mais de 34 quilos e mede uns 49 por 34 centímetros. O estudioso Christopher de Hamel estima que as peles de 515 animais foram usadas para fazê-lo (Richard Gameson lembra que é só uma aproximação). É a mais antiga Vulgata quase completa, em um só volume, que sobreviveu. Hoje se aceita que ela foi feita em Wearmouth–Jarrow, entre a encomenda de 692 e a viagem de 716. Quem a ligou aos três volumes que Beda menciona foi Giovanni Battista de Rossi, em 1888.
Um detalhe revela a história do livro. A página de dedicatória dizia que o presente vinha de "Ceolfrido, abade, dos anglos". Em algum momento do caminho, o nome foi raspado e trocado por "Pedro, dos lombardos", e por muito tempo os estudiosos acharam que o manuscrito era italiano. O erro só foi desfeito quando se percebeu o que estava por baixo da raspagem. É o tipo de pista que só um livro de pele permite: o texto apagado ainda deixa marca.
A miniatura de Esdras, no começo do Antigo Testamento, é a mais conhecida do códice. O Esdras da Bíblia "era escriba hábil na lei de Moisés" Ed 7.6 e "tinha preparado o seu coração para buscar a lei do Senhor e para cumpri-la e para ensinar" Ed 7.10. Para os monges, ele era o retrato do copista: quem guarda o livro e o ensina. De Hamel a chama de "a mais antiga pintura inglesa a que se pode dar uma data absoluta". O armário aberto, os livros encadernados e o escriba com o livro no colo podem ter vindo de um modelo italiano: o códice grande que Cassiodoro, fundador de um mosteiro no sul da Itália, mandara fazer no século VI, e que a biblioteca de Jarrow possuía. Os especialistas ainda discutem o quanto da imagem foi copiado desse modelo.
O Amiatino prova duas coisas: que no começo do século VIII, num canto distante do mundo latino, um mosteiro tinha pele, tinta, escribas e dinheiro para fazer uma Bíblia completa em escala de luxo, e que ela seguia o texto de Jerônimo, com os livros que o capítulo 2 descreveu. Ele não prova, sozinho, que toda a Europa tinha a mesma Bíblia. Muito pelo contrário: quase todos os códices desse tempo são partes, Evangelhos, Salmos ou cartas, e uma Bíblia inteira em um volume era uma raridade.
⚠️ A ligação do códice com Cassiodoro, e a participação de Beda na obra, são hipóteses de pesquisadores. O que se documenta é a encomenda de três Bíblias por Ceolfrido (Beda, História dos Abades), a viagem de 716 e a localização atual do manuscrito.
11 — A REGRA E O LIVROBento, Cassiodoro e o trabalho de copiar
O que fez os mosteiros guardarem livros não foi uma lei sobre cópia. Foi uma lei sobre tempo. A Regra de Bento, escrita na Itália por volta de meados do século VI, manda que os monges alternem oração, trabalho manual e leitura. O capítulo 48 abre dizendo que "o ócio é inimigo da alma" e marca horas de leitura em cada estação. Aos domingos, todos devem ocupar-se com a leitura, e na Quaresma cada monge recebe "um livro da biblioteca", que deve ler "do começo ao fim" (tradução minha, a partir da versão inglesa de Doyle). O capítulo 18 manda recitar os 150 salmos a cada semana. E o último, o 73, encerra a Regra com uma pergunta: que página ou que palavra dos livros inspirados do Antigo e do Novo Testamento não é a norma mais reta para a vida humana (rectissima norma, no latim)?
Isso cria uma demanda: um mosteiro de verdade precisa de livros, e livros se copiam. Quem pôs isso em palavras foi Cassiodoro, um alto funcionário do rei godo da Itália que, por volta de 550, se retira para o mosteiro de Vivarium, na Calábria. Em suas Instituições, ele elogia o copista: o ofício, escreve (I, 30), é pregar com a mão e abrir línguas com os dedos, e "Satanás recebe tantas feridas quantas são as palavras do Senhor que se copia" (tradução minha). Em Vivarium, mandou fazer um grande códice de toda a Bíblia, o chamado Códice Maior, que, segundo a pesquisa, chegou depois a Jarrow.
No Salmo 1.2, a ACF diz do homem feliz: "Antes tem o seu prazer na lei do Senhor, e na sua lei medita de dia e de noite." O verbo hebraico é hāgāh (הָגָה), que o dicionário de Strong traz como "murmurar, resmungar (de prazer ou de raiva)" e, daí, "ponderar". Quem medita, no hebraico, sussurra o texto. Os monges medievais liam muitas vezes assim, em voz baixa, repetindo as palavras, e chamavam esse hábito de "ruminar" a Escritura (o estudo clássico é o de Jean Leclercq). Isso quer dizer que o texto entrava pela boca e pelo ouvido, e não só pelos olhos. Não se deve exagerar: a leitura silenciosa também existia na Antiguidade, e os estudiosos discutem quanto.
Copiar era trabalho de corpo. Escrevia-se com pena, num lugar que muitas vezes era frio, às vezes à luz de vela. Os copistas deixaram queixas nas margens e no fim dos livros. Num exemplar do século VIII do Cuidado Pastoral, de Gregório Magno, hoje em Paris, um deles escreveu que "três dedos escrevem, mas o corpo inteiro trabalha" e pediu ao leitor que rezasse por ele. A frase se repete em outros livros, o que mostra que virou um lema do ofício. Cassiodoro tratava a cópia como trabalho sagrado, e os escribas parecem ter concordado: cansava, e valia.
Fazer uma Bíblia inteira era obra de muitas mãos e de muito tempo, e nem todo mosteiro tinha pele, tinta e escribas para isso. A maioria dos livros bíblicos que os monges liam era feita de partes, o Saltério, os Evangelhos, os Profetas, e era assim que a Escritura circulava.
12 — AS ILHASEvangelhos de luxo e uma tradução entre as linhas
No norte da Europa, nas ilhas Britânicas, a Bíblia foi aprendida como língua estrangeira. Irlandeses e ingleses não falavam latim em casa, e talvez por isso inventaram jeitos de facilitar a leitura. Segundo o historiador Paul Saenger, foram os escribas das ilhas que ajudaram a espalhar o espaço entre as palavras, que o latim antigo escrevia emendadas (como na página do Códice Vaticano, do capítulo 1). Também fizeram dos Evangelhos obras de arte: os Evangelhos de Lindisfarne, feitos na ilha de Lindisfarne por volta de 715–720 e hoje na Biblioteca Britânica, e o Livro de Kells, de cerca de 800, hoje em Dublin, com páginas inteiras de letras entrelaçadas, como o monograma de Cristo (Chi-Rho) da fol. 34r.
No mesmo mundo, a Bíblia começa a ganhar tradução para o inglês, e dois relatos mostram como. O primeiro é de Beda, o monge de Jarrow, que escreveu a História Eclesiástica do Povo Inglês (IV, 24). Nela, conta a história de Cædmon, um homem simples, ligado ao mosteiro de Whitby, que não sabia cantar e recebeu o dom de fazê-lo. Os monges lhe explicavam passagens da Escritura, e ele, depois de ruminá-las, as devolvia em versos na língua do povo. O poema de Cædmon que sobreviveu em inglês antigo é pequeno, um hino à criação, e costuma ser apontado como um dos mais antigos poemas em inglês.
O segundo está na carta de Cutberto, discípulo de Beda, sobre a morte do mestre, em 735. Beda estava doente e continuou a trabalhar até o fim, ditando a tradução do Evangelho de João para o inglês. Quando só faltava uma frase, o jovem escriba lhe diz: "Amado mestre, ainda falta uma frase" (tradução minha, a partir da versão inglesa de Peter Meadows). Beda manda escrever, e morre logo depois. A tradução de Beda não sobreviveu. A tradução dos Evangelhos inteiros em inglês que costuma ser apontada como a mais antiga que sobreviveu foi escrita entre as linhas dos Evangelhos de Lindisfarne por um padre chamado Aldred, por volta de 950–970, em letra menor, em cima de cada palavra do latim.
Há muita lenda sobre monges copistas. A mais famosa é a do Codex Gigas, um livro enorme do século XIII, feito na Boêmia, a que se chama "Bíblia do Diabo". Conta-se que um monge, condenado a ser emparedado vivo, prometeu copiá-lo numa só noite e pediu ajuda ao diabo. A lenda é bem posterior ao livro. O que se pode afirmar vem dos manuscritos e dos relatos da época, como os de Beda e de Cutberto.
⚠️ Tradição, e não Escritura nem história comprovada.
13 — O IMPERADOR E OS LIVROS CORRIGIDOSCarlos Magno e o texto sem erros
Em 25 de dezembro do ano 800, o papa coroa Carlos Magno imperador em Roma. O rei dos francos já tinha sentido um problema nos mosteiros do seu reino: os copistas erravam, e os erros se acumulavam de cópia em cópia. Numa carta a um abade, o de Fulda, Carlos Magno diz que as cartas que lhe chegavam dos mosteiros tinham bons sentimentos e linguagem tosca, e teme que quem escreve mal entenda mal as Escrituras (a chamada Epistola de litteris colendis, c. 784–800; paráfrase).
Em 789, a Admonitio generalis, um grande decreto de reforma, manda que cada mosteiro e cada bispado tenha escola, onde se ensinem salmos, canto e gramática. O capítulo 72 (na numeração da edição dos MGH) manda corrigir os livros "católicos", porque, escreve o rei, muitas vezes, quando querem pedir bem a Deus, "pedem mal, por causa de livros sem correção". Manda também que os meninos não estraguem os textos ao ler ou ao copiar, e que, quando for preciso escrever um Evangelho, um saltério ou um missal, o façam homens de idade madura, com todo o cuidado. Tradução minha.
O resultado foi uma reforma da própria escrita, a letra "carolíngia", mais clara, com letras bem separadas, que se espalhou pelos mosteiros do reino e foi base da letra que usamos hoje. Alcuíno, um monge inglês chamado à corte, assumiu em 796 a abadia de São Martinho de Tours, onde se fizeram Bíblias que serviram de modelo a outras. O esforço de Alcuíno em Tours e o de Teodulfo, em Orléans, deixaram textos mais cuidados da Vulgata. Uniformidade total, porém, nunca houve: os erros voltaram a se acumular com o tempo, e é isso que o capítulo 6 retoma.
Para o povo comum, nada disso mudava o dia a dia: quase ninguém abria um livro. O que mudava era o que se ouvia. O padre lia o Evangelho em latim, na missa. O pregador explicava, quando explicava, em língua do povo. É o mesmo desenho de Neemias 8, onde se leu a lei ao povo e, "declarando, e explicando o sentido, faziam que, lendo, se entendesse" Ne 8.8: um leitor e um explicador. A maior parte da Bíblia que um camponês franco conhecia vinha da liturgia e dos sermões, e era isso o que as escolas de Carlos Magno queriam melhorar: que o padre soubesse ler direito o que lia.
Entre os mosteiros que copiavam e o imperador que mandava corrigir, havia a mesma intuição: quem lê errado, reza errado. Beda, nos últimos dias de vida, ainda ditava uma tradução de João para o inglês. Copiar, corrigir e traduzir eram três jeitos de dizer a mesma coisa: o texto importa.
PARA FIXARO que ficou do capítulo
O Códice Amiatino
Pouco mais de mil folhas, mais de 34 quilos, feito em Wearmouth–Jarrow c. 700–716: a mais antiga Vulgata quase completa, em um só volume, que sobreviveu.
A Regra de Bento
Pôs a leitura na rotina diária. Cada monge recebia na Quaresma um livro da biblioteca para ler do começo ao fim.
"Três dedos escrevem"
O lema dos copistas: o trabalho de escrever cansava o corpo inteiro. A cópia foi tratada como obra sagrada.
789: Carlos Magno
Manda ter escolas e corrigir os livros, porque "pedem mal" os que rezam por livros sem correção.
Cædmon e Beda
Bíblia em verso, em inglês antigo, e uma tradução de João que Beda ditava até morrer, em 735.
Próximo capítulo: Constantinopla. Enquanto o Ocidente aprendia a copiar, o Oriente cristão tinha a Bíblia grega, uma capital imensa e uma briga sobre imagens que quase partiu a Igreja, antes da ruptura de 1054.
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