Constantinopla, sábado, 16 de julho de 1054. Na imensa igreja de Santa Sofia, os servidores se preparam para a liturgia. Três emissários do papa, entre eles o cardeal Humbert, atravessam a nave e põem sobre o altar uma bula de excomunhão contra o patriarca Miguel Cerulário. Depois saem, e alguns relatos dizem que sacudiram o pó dos pés, como Jesus manda fazer a quem não for recebido Mt 10.14. O papa Leão IX, que os mandara, tinha morrido em abril.
Este capítulo vai ao outro lado do Mediterrâneo. Lá, a Bíblia circulava em grego, a língua em que o Novo Testamento foi escrito, num império que se dizia romano e que durou até 1453. Ele conta como esse mundo leu, ouviu e discutiu a Bíblia, a briga sobre as imagens que o abalou, os dois irmãos que deram uma Bíblia aos eslavos e o que realmente aconteceu em 1054, sem escolher lado entre Roma e Constantinopla.
14 — A BÍBLIA DE SANTA SOFIAO livro grego de um império que não caiu
Quando o Império Romano do Ocidente acabou, em 476, o do Oriente continuou. Seus habitantes se chamavam romanos, falavam grego e tinham Constantinopla por capital. Hoje os historiadores o chamam de Império Bizantino, nome dado muito depois. Justiniano, imperador de 527 a 565, reconstruiu depois de uma revolta a grande igreja da cidade, Santa Sofia, "a Sabedoria santa", inaugurada em 537. Costuma-se dizer que foi, por quase mil anos, a maior catedral do mundo.
Uma narrativa bizantina posterior, a Narração sobre Santa Sofia, dos séculos IX ou X, atribui a Justiniano uma frase ao entrar na igreja pronta: "Salomão, eu te venci". A frase é lenda, e não registro do tempo de Justiniano. Ela mostra, porém, que os bizantinos pensavam sua catedral à luz da Bíblia, como um novo Templo.
⚠️ É tradição posterior, e não Escritura nem história comprovada.
A Bíblia do Oriente era a Bíblia grega. O Antigo Testamento era a Septuaginta, que o capítulo 1 apresentou, e as Igrejas ortodoxas a usam até hoje. A Bíblia estava em toda parte, mas sobretudo na liturgia. Nas igrejas, o Evangelho era um livro luxuoso, carregado em procissão e lido em voz alta, e as leituras seguiam um calendário que percorria o ano. O pregador mais célebre desse mundo foi João, bispo de Constantinopla desde 398, chamado Crisóstomo, "boca de ouro". Ele pregava comentando versículo a versículo, e em sermões de Antioquia, onde viveu antes, insistiu para que os fiéis lessem a Bíblia em casa, e não só na igreja (Sobre Lázaro, III, 1-2; paráfrase). Morreu em 407, no exílio.
O trabalho de copiar também ficou grego. Os manuscritos do Novo Testamento em grego que sobreviveram são, em sua grande maioria, de um tipo de texto chamado bizantino, copiado sobretudo depois do século IX, quando surgiu uma escrita grega minúscula, mais rápida de escrever que as maiúsculas antigas. Foi de poucos manuscritos desse tipo, todos do século XII ou posteriores, que Erasmo tirou a primeira edição impressa do Novo Testamento grego, em 1516 (o capítulo 10 volta a isso). Qual texto grego é o melhor é discussão viva até hoje: uns defendem o texto majoritário, o bizantino, e outros preferem o texto estabelecido a partir dos manuscritos mais antigos, como o Vaticano e o Sinaítico. Este livro não escolhe.
Para o bizantino comum, a Bíblia era vista antes de ser lida. Nas igrejas bizantinas, mosaicos e afrescos de cenas bíblicas repetiam, em cor, o que o padre lia. A liturgia, longa e cantada, estava cheia de salmos e de leituras. Quem não sabia ler recebia a Bíblia por três vias: o ouvido, a imagem e a repetição. Esse jeito de a Escritura entrar na vida vai ser, no século VIII, a causa de uma briga imensa.
15 — A BRIGA SOBRE AS IMAGENSQuando um mandamento dividiu um império
Por volta de 726 ou 730, o imperador Leão III começou a atacar as imagens sagradas, os ícones. Seu filho, Constantino V, foi além: em 754, um concílio convocado por ele, em Hiereia, condenou as imagens. Os iconoclastas, "quebradores de imagens", citavam a Bíblia:
Os defensores, entre os quais o mais conhecido é João de Damasco (c. 675–749), respondiam com outra pergunta: o que a Bíblia diz sobre o Verbo que "se fez carne" Jo 1.14? Para eles, depois da encarnação, Deus podia ser representado, porque podia ser visto. Num tratado, João escreve que não adora a matéria, mas o Criador da matéria, que se fez matéria por ele (Sobre as imagens divinas I, 16; as traduções variam, e esta é paráfrase minha). Em 787, um concílio em Niceia, o sétimo ecumênico, restabeleceu o uso dos ícones e distinguiu entre adorar a Deus e "venerar" a imagem. A segunda onda iconoclasta, que começou em 815, foi revertida em 843, no que a Igreja Ortodoxa chama de "Triunfo da Ortodoxia", celebrado até hoje no primeiro domingo da Quaresma.
"Ícone" é a palavra grega eikṓn (εἰκών), que o dicionário de Strong traz como "semelhança, estátua, representação". É a mesma que a ACF traduz por "imagem" quando diz que Cristo "é imagem do Deus invisível" Cl 1.15. Os defensores dos ícones usaram esse versículo. No mandamento de Êxodo 20.4, a palavra hebraica é pesel (פֶּסֶל), que o dicionário de Strong traz como "ídolo" e a ACF verte por "imagem de escultura". A pergunta que dividiu os lados era se o mandamento proíbe toda representação ou só a que se adora. Cada lado tinha o seu versículo, e a discussão era sobre qual deles mandava no outro.
Como interpretar esse longo conflito é questão aberta. A Igreja Ortodoxa e a Católica seguem Niceia II e veneram os ícones, e entendem a decisão como fidelidade à encarnação. Parte das Igrejas da Reforma, no século XVI, voltará ao argumento de Êxodo 20 e retirará as imagens do culto; outras, como a luterana, conservarão algumas. Historiadores discutem as causas: a pressão do Islã, que recusava imagens, o poder do exército, a rivalidade entre imperador e monges. No Ocidente, a corte de Carlos Magno rejeitou o concílio de 787, em parte por causa de uma tradução latina ruim, e escreveu os Livros Carolinos, que nem aceitam o culto das imagens nem as proíbem como ornamento. A Bíblia é o campo de batalha de todos os lados, e cada um a lê pela encarnação ou pelo mandamento.
16 — A BÍBLIA EM ESLAVODois irmãos, um alfabeto e um evangelho
Foi desse mundo grego que saiu uma das maiores traduções da Bíblia da Idade Média. Em 862, o príncipe Rastislav, da Grande Morávia, pede ao imperador de Constantinopla missionários que falem a língua de seu povo. O imperador, Miguel III, manda dois irmãos de Tessalônica, cidade cercada por povos eslavos: Constantino, mais tarde chamado Cirilo, e Metódio. Em 863, os dois chegam à Morávia. Cirilo cria, para escrever a língua eslava, um alfabeto, a glagolítica, e os irmãos traduzem para o eslavo o Evangelho, os Salmos e a liturgia.
A resposta do clero germânico, que já evangelizava a região em latim, foi dura. Em Veneza, em 867, a caminho de Roma, os irmãos discutiram com defensores da "heresia trilíngue", a ideia de que Deus só podia ser louvado em hebraico, grego e latim, as três línguas do título da cruz Jo 19.20. Em Roma, o papa Adriano II os recebeu e aprovou a missão e o uso do eslavo na liturgia (a data usual é 868). Cirilo morreu em Roma em 14 de fevereiro de 869. Metódio voltou à Morávia e à Panônia como arcebispo, passou por prisão e perseguição, e morreu em 885. Depois disso, o clero latino expulsou seus discípulos, que acharam abrigo na Bulgária. De lá, o eslavo litúrgico e a Bíblia em eslavo se espalharam pelo mundo ortodoxo, até a Rússia. Um dos mais antigos livros russos datados, o Evangelho de Ostromir, é de 1056.
É um caso que não cabe em nenhuma versão simples. Quem diz que a Igreja do Ocidente sempre barrou a Bíblia na língua do povo tem de explicar por que o papa Adriano II aprovou o eslavo. Quem diz que Roma sempre a apoiou tem de explicar por que o clero latino da região combateu os irmãos por anos. O que o caso mostra é que a pergunta "em que língua?" já era política, num tempo em que cada língua pesava como uma Igreja e como um reino. O capítulo 8 retoma o assunto com os documentos do Ocidente.
Antes de traduzir o Evangelho, Cirilo teve de criar as letras com que ele seria escrito. Às vezes, para entregar o livro, é preciso primeiro fazer o alfabeto.
17 — O QUE ACONTECEU EM 1054Uma bula, um sínodo e uma divisão que levou séculos
Voltemos a Santa Sofia. A situação era tensa por razões que vinham de longe. Havia a autoridade: o bispo de Roma se via como cabeça de toda a Igreja e apoiava isso em Mateus 16.18-19, e os patriarcas orientais viam nele, no máximo, um primeiro entre iguais:
Esse texto é lido de três jeitos que continuam até hoje. Muitos católicos veem nele a base do primado do papa. Os ortodoxos reconhecem a Pedro um papel especial, e entendem que os outros bispos o têm também, e que a primazia de Roma foi de honra. Muitos protestantes entendem que a "pedra" é a confissão de Pedro, ou o próprio Cristo. Havia também a questão do Filioque: o Credo de Niceia e de Constantinopla diz que o Espírito Santo "procede do Pai", e no Ocidente, a começar pela Espanha (Toledo, 589), passou-se a dizer "e do Filho". Roma adotou o acréscimo na liturgia em 1014. Havia ainda o pão da eucaristia (fermentado no Oriente, sem fermento no Ocidente) e o celibato dos padres.
O versículo em jogo no Filioque é este: "Mas, quando vier o Consolador, que eu da parte do Pai vos hei de enviar, aquele Espírito de verdade, que procede do Pai, ele testificará de mim." Jo 15.26. O verbo grego é ekporeúomai (ἐκπορεύομαι), "sair, proceder". Os ortodoxos o leem como a origem eterna do Espírito, que vem só do Pai. Os ocidentais, que acrescentaram "e do Filho", apoiam-se em outros textos, como "Tudo quanto o Pai tem é meu" Jo 16.15, e na tradição dos Padres latinos. A maioria das Igrejas protestantes herdou o Filioque. Em todos os lados, o que se discute é o que o grego do Evangelho diz e o que dele se pode concluir.
Em 1054, o papa Leão IX mandou legados a Constantinopla, para tratar de uma aliança contra os normandos do sul da Itália e de queixas sobre os costumes do Oriente. A conversa azedou. Humbert deixou a bula no altar. O texto atingia o patriarca Miguel Cerulário e "os que o seguem", e não toda a Igreja do Oriente. Como o papa havia morrido, a autoridade dos legados é discutida, até em termos latinos. O patriarca reuniu um sínodo, em julho, que condenou Humbert e seus colegas, não o Ocidente.
Os historiadores dizem que 1054 não foi o dia da separação. Alguns contemporâneos viram nisso uma briga entre pessoas, e as relações entre as Igrejas continuaram. Para muitos estudiosos, o que tornou a ruptura praticamente irreversível foi o ano de 1204, quando os exércitos da Quarta Cruzada, a caminho do Egito, saquearam Constantinopla, o que o próximo capítulo conta. Só em 7 de dezembro de 1965, o papa Paulo VI e o patriarca Atenágoras retiraram as excomunhões de 1054, como gesto de boa vontade, sem restabelecer a comunhão plena. Cada tradição conta a ruptura com as suas palavras: os ortodoxos costumam dizer que o Ocidente se afastou da fé comum do primeiro milênio, os católicos, que o Oriente se afastou da unidade com a Sé de Pedro, e os historiadores falam de um processo de séculos, com causas políticas, culturais e teológicas.
O que temos de 1054 são documentos: o texto da bula de Humbert, as cartas de Cerulário e a decisão do sínodo. A bula excomungava pessoas, e o sínodo condenou pessoas. Nenhuma das duas peças declara uma ruptura entre as Igrejas. A data virou símbolo depois, em livros de história e em polêmicas dos dois lados.
⚠️ O gesto de 1965 desfez as sentenças de 1054, e não resolveu as diferenças de fundo: primado, Filioque e outras.
PARA FIXARO que ficou do capítulo
Santa Sofia, 537
Por séculos, a maior igreja do mundo cristão. A Bíblia do Oriente era a grega, e vinha, sobretudo, pela liturgia.
Iconoclastia, c. 726–843
Um mandamento (Êx 20.4) contra um fato (a encarnação, Jo 1.14). Niceia II, em 787, e o Triunfo da Ortodoxia, em 843.
Cirilo e Metódio, 863
Um alfabeto novo e a Bíblia em eslavo. O papa Adriano II aprovou o uso do eslavo na liturgia.
1054
Uma bula contra uma pessoa, um sínodo contra três. A ruptura veio devagar, e 1204 pesou muito. Em 1965, as sentenças foram anuladas.
Próximo capítulo: a Europa cercada. De um lado, o Islã, que tomou o Oriente cristão e a Espanha. Do outro, os cruzados, a caminho de Jerusalém com a cruz no peito e a Bíblia na boca.
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