Toulouse, novembro de 1229. A guerra do sul da França acabou em abril, com a submissão do conde, e um legado do papa, o cardeal Romano, reúne bispos para arrumar o que sobrou. Os cânones que eles redigem tratam de heresia: como achá-la, quem denuncia, quem julga. No meio da lista está um parágrafo curto sobre livros. É um dos textos mais citados da história da Bíblia medieval, e também um dos mais mal lidos.
Este capítulo tenta ler os documentos como eles são. Quatro mitos andam juntos: que a Igreja medieval proibia a Bíblia a todos, que só havia Bíblia em latim, que os leigos nada podiam ler e que quem lia era queimado. Cada um tem uma ponta de verdade e um erro maior. Nada aqui é para defender nem para acusar ninguém: é o que dizem os textos e o que historiadores acadêmicos hoje afirmam.
31 — O QUE OS TEXTOS DIZEMToulouse, Tarragona, Metz
O cânon 14 do concílio de Toulouse (1229), que se lê nas atas publicadas por Mansi (vol. 23, col. 197–198), diz, em tradução minha: "Proibimos também que se permita aos leigos ter os livros do Antigo ou do Novo Testamento, a não ser talvez o Saltério, ou o Breviário para o ofício divino, ou as Horas da Bem-Aventurada Virgem, se alguém quiser tê-los por devoção. Mas proibimos com todo o rigor que tenham esses livros traduzidos em língua vulgar."
Isso é uma proibição, e é preciso dizê-lo. Mas observe o desenho: ela vale para leigos, e não para o clero; deixa o Saltério e as Horas da Virgem, que eram os livros de devoção do povo; e proíbe sobretudo as traduções. O contexto é uma província que acabava de passar por uma cruzada contra os cátaros e onde também havia valdenses. O concílio foi regional, e não ecumênico. O latim do final fala dos "livros acima mencionados" (praemissos libros): o texto admite ser lido como todos os livros bíblicos citados no começo do cânon ou só como os livros de devoção que ele acabara de permitir. Em 1246, o concílio provincial de Béziers foi além (cap. 36, Mansi, vol. 23, col. 724): manda que os leigos não tenham livros teológicos nem em latim, e que nem eles nem os clérigos os tenham em língua vulgar.
Cinco anos depois, em 1234, em Tarragona, na Espanha, uma assembleia em que o rei Jaime I de Aragão reuniu bispos e os mestres do Templo e do Hospital fixou normas contra a heresia (Mansi, vol. 23, col. 329). O cânon 2 diz, em tradução minha: "Também se estabelece que ninguém tenha livros do Antigo ou do Novo Testamento em romance. E, se alguém os tiver, que os entregue ao bispo do lugar, dentro de oito dias, para serem queimados; se não o fizer, clérigo ou leigo, seja tido por suspeito de heresia até se justificar." É o mais duro dos textos medievais sobre o assunto, vale para clérigos e leigos, e também é regional.
Trinta anos antes de Toulouse, em 1199, o papa Inocêncio III já escrevera aos fiéis de Metz. O bispo informara que leigos, homens e mulheres, tinham mandado traduzir para o francês os Evangelhos, as cartas de Paulo, o Saltério e os Morais sobre Jó, de Gregório Magno, e que se reuniam em segredo para discuti-los e pregar uns aos outros. Na carta (a decretal Cum ex iniuncto), o papa diz que o desejo de entender as Escrituras não é proibido, mas louvável; condena as reuniões secretas, o desprezo pelos padres e a pregação sem mandato; e afirma que nenhum simples e sem instrução deve presumir tocar a "sublimidade" da Escritura ou pregá-la a outros, lembrando a besta que tocava o monte e era apedrejada Êx 19.12-13. Ameaça "severidade eclesiástica" a quem não se emendar. A carta não manda proibir a tradução nem destruir livros: a objeção é à pregação sem mandato e às reuniões escondidas.
E há mais dois documentos que o resto deste livro encontra: as Constituições de Oxford, de 1407–09, na Inglaterra (capítulo 9), e o edito de Bertoldo de Henneberg, arcebispo de Mogúncia, de 1486, contra traduções não autorizadas de textos religiosos para o alemão, que ele achava ser uma língua pobre demais para isso (capítulo 10).
Qual o alcance dessas normas? O historiador belga Wim François resume, num estudo, que a Igreja católica do fim da Idade Média não proibiu a leitura da Bíblia em língua vulgar, e que não havia política central de Roma sobre isso: as proibições foram regionais e visavam traduções não autorizadas, com o argumento de conter heresia e violência. Ele ressalva que houve medidas de censura na Inglaterra e na Espanha. Isso não quer dizer que as normas fossem inofensivas: onde valiam, possuir uma Bíblia em língua do povo podia levantar suspeita, como o próprio texto de Tarragona mostra.
⚠️ Os dois lados têm razão em parte. Houve proibições escritas, e houve normas que limitavam e não proibiam. O que decidia, na prática, era o bispo local, e a aplicação variava de lugar para lugar e de época para época.
32 — O QUE CIRCULAVA COM LICENÇABíblias em línguas do povo, antes de 1500
O mito mais forte é o de que não existia Bíblia em língua do povo. É falso, e a lista é longa, embora desigual. Em inglês antigo, o rei Alfredo mandou pôr, antes de suas leis, trechos da lei de Moisés, a começar pelos Dez Mandamentos (por volta de 900). Por volta de 990, existem os Evangelhos em saxão ocidental e a tradução dos primeiros livros do Antigo Testamento. Em francês, há uma Bíblia completa no fim do século XIII, e partes dela aparecem na popular Bíblia Histórica. Em catalão, circulam salmos e, no século XIV, uma Bíblia inteira. Em tcheco, a Bíblia inteira foi traduzida por volta de 1360. Em italiano, em 1471 saem as primeiras Bíblias completas impressas. Em holandês, os Irmãos da Vida Comum, no século XIV, estimulavam leigos a ler os Evangelhos na língua do povo, e em 1477 sai impresso o Antigo Testamento em holandês (a Bíblia de Delft, sem os Salmos). Em alemão, a primeira Bíblia impressa é de 1466, e antes de Lutero houve cerca de dezoito edições completas (as contagens variam de dezessete a dezoito).
Esse quadro vem de sínteses da literatura, e os detalhes de cada tradução são assunto de especialistas. O quadro geral, porém, está firme: quando Lutero publica seu Novo Testamento, em 1522, já havia Bíblias em alemão impressas. O capítulo 10 retoma isso.
Um caso mostra bem o paradoxo. Em 1369, o imperador Carlos IV, a pedido do papa Urbano V, baixou um decreto contra a tradução e a leitura da Escritura em alemão (pelo que dizem os estudos, no quadro da repressão a beguinos e beguinas). Cerca de vinte anos depois, em Praga, seu filho Venceslau IV, rei da Boêmia e dos romanos, encomendou uma Bíblia em alemão, a Bíblia de Venceslau, uma obra de luxo, de 1.214 folhas e centenas de miniaturas, que ficou inacabada e hoje está em Viena. A imagem de abertura deste capítulo é dela: a Torre de Babel, o episódio bíblico sobre a diversidade das línguas Gn 11.1-9, pintado num livro em língua do povo. Os estudiosos não mostram que o filho quis desafiar o pai, e esse fato fica, apenas, como contraste.
Do lado inglês, Tomás More, católico fiel e adversário de Lutero e de Tyndale, sustentou em 1529 que havia Bíblias inglesas anteriores a Wycliffe, que ele dizia ter visto em bibliotecas de casas nobres. Os historiadores de hoje discutem o quanto isso é verdade, e é o assunto do próximo capítulo. A afirmação mostra, ao menos, que no século XVI católicos e protestantes sabiam que houvera Bíblias em inglês antes da Reforma, e brigavam sobre o que significavam.
"Vulgar" vem do latim vulgus, "o povo". A mesma raiz está em duas expressões que este livro já usou: a Vulgata, a Bíblia "de uso comum" (capítulo 2), e as traduções in vulgari, "na língua do povo". No século IV, a Bíblia latina de Jerônimo estava na língua que o povo falava. No século XIII, nem o latim nem o povo eram os mesmos: o latim virara língua de escola, de Igreja e de lei, e as pessoas falavam francês, occitano, catalão. É por isso que "uma Bíblia em língua vulgar" passou a querer dizer uma Bíblia que não era a Vulgata.
Para a maioria, o livro de Deus que se podia ter em casa, quando se podia ter algum, era o Saltério ou o Livro de Horas: uma coleção de salmos, orações e leituras, em latim, que seguia o dia, em oito horas de oração, da manhã à noite. Os livros de horas foram, segundo os especialistas, os livros mais comuns entre os leigos do fim da Idade Média, e o próprio concílio de Toulouse os deixa de fora da proibição. Muitos tinham ilustrações de cenas bíblicas. Quem sabia ler o latim, ou ao menos as letras, aprendia ali os versículos. Quem não sabia lia as figuras. O capítulo 11 volta a isso.
33 — OS MITOS, UM POR UMO que se sustenta e o que não
"A Igreja proibia a Bíblia a todos." Não há uma proibição geral. Há normas regionais e de épocas diferentes contra traduções não autorizadas e contra a pregação de leigos, em contextos de heresia. Os textos de 1229, 1234 e 1246 são duros, mas locais.
"Só havia Bíblia em latim." Não: a lista acima mostra traduções em muitas línguas, de manuscritos e, depois de 1466, impressas. O que havia era pouco acesso, por causa do custo e da leitura, mais do que proibição.
"A Bíblia era acorrentada para ninguém ler." As correntes ficavam em bibliotecas, como a de Hereford, na Inglaterra (o conjunto que hoje se vê foi montado em 1611), para impedir roubo e permitir a leitura no local. A corrente prova que o livro era valioso, e não que fosse vedado. Ela também prendia o leitor à estante, o que limitava onde se lia.
"A Igreja queimava quem lia a Bíblia." Não se encontra uma política de punir pela leitura da Bíblia como tal. Houve queima de livros e de pessoas condenadas por heresia, como Jan Hus e vários lolardos (capítulo 9), e em alguns processos a posse de textos em língua vulgar contava como indício. Entre uma coisa e outra há uma distância que a frase popular apaga. E, no sentido contrário, quem defende a Igreja não pode usar essa distância para apagar as execuções que houve.
A Bíblia valenciana, impressa em 1478, é a primeira Bíblia impressa em catalão. A tradição diz que a Inquisição queimou todos os exemplares e prendeu um dos tradutores. O que o catálogo de incunábulos registra é outra coisa: que o único exemplar substancial que se conhecia foi destruído por um incêndio em Estocolmo, em 1697, e que hoje só se conhece uma folha, a do colofão, guardada na Hispanic Society, em Nova York. Quanto ao tradutor, as atribuições variam entre estudiosos.
⚠️ O destino da edição é tradição incerta. O que está comprovado é a impressão e a perda. A lenda de que "a Inquisição destruiu tudo" é repetida em muitas obras sem fonte direta.
34 — COMO CADA TRADIÇÃO LÊ ISSOE o que fica de pé
Muitos protestantes, desde o século XVI, contam essa história como a de uma Bíblia tirada do povo, e veem em 1229, 1234 e 1407 a prova. Muitos apologistas católicos respondem com a lista de Bíblias permitidas, com o caráter regional das normas e com a ausência de uma proibição papal geral, e dizem que o que a Igreja combatia eram as traduções suspeitas e a pregação sem mandato. A Igreja Ortodoxa tem outra história: nela, a Bíblia foi traduzida para o eslavo desde os tempos de Cirilo e Metódio (capítulo 4), e a leitura que se valoriza é a da liturgia. Os historiadores acadêmicos, por sua vez, dizem algo mais modesto: a Bíblia na Idade Média foi lida de forma que não se encaixa em nenhum dos dois lados.
O historiador David Lawton, que estudou a Bíblia em inglês da época, escreve que na Idade Média ocidental havia "pouco ou nenhum sentido" de que a Bíblia devesse bastar-se a si mesma, e que foi "um período sem fundamentalistas no sentido moderno" (tradução minha). A ideia é que a Bíblia era lida junto com a liturgia, as glosas e a tradição, e não sozinha. A leitura pessoal da Bíblia, que o protestantismo transformou em dever, não ocupava o mesmo lugar na vida cristã católica. Isso não prova que fosse proibida. Prova que era outra coisa.
Resumindo o que se sustenta: houve proibições escritas, regionais, de traduções e de livros para leigos (1229, 1234, 1246, 1407–09, 1486); houve, na mesma época, Bíblias em muitas línguas, com licença e às vezes com luxo; a maioria das pessoas ouvia a Bíblia, em vez de lê-la, por razões de custo, de alfabetização e de costume; e houve execuções de hereges, em que livros em língua vulgar às vezes entravam como prova. Cada uma dessas frases é verdadeira. Os mitos nascem quando se usa só uma.
"Seca-se a erva, e cai a flor, porém a palavra de nosso Deus subsiste eternamente." Is 40.8 Os concílios proibiam, os copistas copiavam, os tradutores traduziam, os censores queimavam. A palavra passou por tudo isso e chegou a nós. Quem lê a história com honestidade vê que a Bíblia teve guardiães, e teve muros, e teve os dois ao mesmo tempo.
PARA FIXARO que ficou do capítulo
Toulouse, 1229, cânon 14
Proíbe leigos de ter livros bíblicos (exceto Saltério, Breviário e Horas da Virgem) e, com rigor, em língua vulgar. Regional, contra a heresia.
Tarragona, 1234
Manda entregar ao bispo, em oito dias, os livros bíblicos em romance, para serem queimados; quem não o fizesse seria suspeito de heresia.
Metz, 1199
O papa elogia o desejo de entender a Escritura e critica reuniões secretas e a pregação de quem não foi mandado.
Muitas línguas
Bíblias em inglês antigo, francês, catalão, tcheco, italiano, holandês e alemão antes de 1500, muitas com licença.
Bíblia acorrentada
Correntes contra roubo, em bibliotecas. Provam o valor do livro, e não que ele fosse vedado.
Próximo capítulo: a Inglaterra de Wycliffe e a Boêmia de Hus. O que aconteceu quando uma Bíblia em língua do povo foi associada à heresia, e o que foi dito e feito em Constança.
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