Constança, nas margens do lago, 5 de junho de 1415. Um padre tcheco de mais de quarenta anos está diante de um concílio de cardeais, bispos e doutores. Chama-se Jan Hus. Pediram que se submeta a uma lista de erros que lhe atribuem. Ele responde, segundo os relatos, que se retratará se lhe mostrarem, pela Bíblia, onde errou. Um mês depois, em 6 de julho, será degradado do sacerdócio e entregue às autoridades civis, que o queimarão.
Para entender essa cena, é preciso voltar um pouco, à Inglaterra e a um doutor de Oxford que morreu uns trinta anos antes. Este capítulo mostra como a Bíblia em inglês e a pregação em tcheco acabaram em processos, em fogueiras e em uma guerra, o que a Igreja condenou e o que não condenou, e o que cada tradição cristã vê nesses homens. Os documentos são mais claros do que as lendas, dos dois lados.
35 — O DOUTOR DE OXFORDJohn Wycliffe e a autoridade da Escritura
John Wycliffe nasceu por volta de 1328 (a data é discutida) em Yorkshire, estudou em Oxford, foi ordenado padre em 1351 e se doutorou em teologia em 1372. Em 1374, recebeu a paróquia de Lutterworth, que manteve até a morte. Seus primeiros problemas vêm de um livro sobre o poder civil e a propriedade, Do domínio civil, c. 1376–77: o papa Gregório XI mandou à Inglaterra, em maio de 1377, uma bula contra suas teses. Por volta de 1378, ele escreve Da verdade da Sagrada Escritura, onde afirma que toda a verdade necessária à fé está na Escritura e que "toda a Escritura é uma só palavra de Deus" (tradução minha). Para ele, o sentido que o Espírito Santo deu primeiro é o literal, e a Escritura, e não o papa e os clérigos, é o guia seguro.
A partir de 1380, ele passa a atacar a doutrina da transubstanciação. Em 1382, num sínodo em Londres, chamado "do terremoto" porque a terra tremeu durante a reunião, de 24 proposições atribuídas a ele, dez foram declaradas heréticas e catorze, erradas. Ele se retirou para Lutterworth e morreu ali, depois de um derrame durante a missa, em 31 de dezembro de 1384. Em 4 de maio de 1415, o Concílio de Constança o declarou herege, proibiu seus escritos e mandou desenterrar seus restos. A ordem foi cumprida em 1428: os ossos foram queimados e as cinzas, jogadas no rio Swift, em Lutterworth.
Uma ressalva é importante. A tradução da Bíblia não aparece entre as teses condenadas em 1377 nem na condenação de 1415. O que a Igreja condenou foram ensinamentos sobre a Eucaristia, a autoridade da Igreja e a posse de bens, e esses três temas são os que cada tradição ainda hoje lê de modo diferente. Muitos protestantes veem Wycliffe como "estrela da manhã da Reforma", expressão posterior a ele. Católicos o veem como alguém que negou doutrinas da Igreja. Historiadores como Anne Hudson o estudam como um pensador que criou um movimento duradouro, e discutem o quanto ele próprio fez da Bíblia que leva seu nome.
36 — A BÍBLIA INGLESADuas versões, 250 cópias e uma lei de 1407
A Bíblia wycliffita foi a primeira Bíblia inteira em inglês. Foi traduzida da Vulgata, em duas fases. A Versão Antiga, dos anos 1380, é muito literal, e segue a ordem das palavras do latim, e poucas cópias sobreviveram. A Versão Posterior, de uns dez anos depois, a reescreve em inglês corrente, e tornou-se o texto padrão. Segundo Hudson, foi obra coletiva, provavelmente começada em Oxford. Wycliffe a inspirou, mas é provável que não tenha traduzido. O nome de Nicolau Hereford ligado a parte do Antigo Testamento é conjectura, e o de João Purvey como autor da segunda versão aparece só em 1729, num palpite.
Para quem não gostou, Henrique Knighton, cônego de Leicester, resumiu a queixa em sua crônica, escrita nos anos 1390 (em tradução minha, a partir de uma versão em inglês moderno): Wycliffe, ao traduzir assim a Bíblia, fez dela "propriedade das massas, comum a todos". E por isso, "a pérola do Evangelho é lançada aos porcos e pisada". A "joia" do clero, escreve, "virou brinquedo dos leigos". A imagem vem de Jesus:
A Bíblia wycliffita foi lida por muita gente. Hudson conta cerca de 250 cópias, inteiras ou em partes, o maior número de qualquer obra inglesa medieval. E nem todas estavam em mãos de hereges: o rei Henrique VI possuiu uma e a deu a um mosteiro cartuxo de Londres.
Em 1401, uma lei do rei da Inglaterra, Do herege a queimar (De heretico comburendo), tratou a heresia como crime contra a coroa e mandou queimar livros de lolardos. Em 1407, em Oxford, o arcebispo Thomas Arundel redigiu constituições, promulgadas em 1409 para toda a província de Cantuária. A sétima, Periculosa ("é coisa perigosa"), citando Jerônimo, diz, em resumo e em tradução minha: que ninguém, por sua própria autoridade, traduza texto da Sagrada Escritura para o inglês, em livro, folheto ou tratado, nem se leia livro assim feito no tempo de Wycliffe ou depois, sob pena de excomunhão maior, até que o bispo diocesano, ou um concílio provincial, aprove a tradução.
Como ler essa lei é discussão aberta entre historiadores. Para Anne Hudson, ela proibiu traduzir sem licença e mandou confiscar as cópias existentes que não fossem aprovadas, de modo que a posse virou "sério indício de heresia", e por isso a tradução nunca foi impressa por Caxton ou por Wynkyn de Worde. Para Henry Ansgar Kelly, que a releu recentemente, ela regulamentou a tradução em vez de proibi-la, e deixou valer as versões aprovadas, o que se parece com o que Tomás More dizia em 1529. Como More, Kelly nota que a constituição não proibia ler uma tradução aprovada. Outros destacam que o uso e a cópia caíram no século XV, porque as traduções passaram a ser ligadas aos lolardos.
⚠️ A lei existe, e o texto fala em aprovação do bispo. Quanto ao que ela fez na prática, há duas leituras, e o leitor honesto fica com as duas. A prática variou, e houve leigos, e até nobres e clérigos, que continuaram a possuir a Bíblia em inglês.
37 — O PREGADOR DE PRAGAJan Hus, o idioma tcheco e Constança
Os tchecos tinham uma Bíblia inteira em sua língua desde cerca de 1360. Em Praga, desde 1391, funcionava a Capela de Belém, fundada para que se pregasse em tcheco. Jan Hus, nascido por volta de 1370 numa família camponesa, foi ordenado em 1400, e em 1402 era reitor da universidade e pregador na Capela de Belém. Conheceu os escritos de Wycliffe, de que defendeu algumas teses em 1399, e, segundo várias obras de história, traduziu para o tcheco o Trialogus, de Wycliffe. Não adotou todas as ideias do inglês: pelo que a maioria dos estudiosos diz, nunca negou, por exemplo, a transubstanciação.
Seus problemas começaram quando a Igreja proibiu muitos livros de Wycliffe, em 1403, e os queimou, em 1410, e quando Hus atacou, em 1412, a venda de indulgências para financiar uma cruzada do papa João XXIII. Excomungado (as datas variam) e com a cidade sob interdito, deixou Praga em 1412. Escreveu Sobre a Igreja (1413). Em 1414, o Concílio de Constança, convocado para pôr fim ao Grande Cisma, em que havia três papas rivais, o chamou. Ele foi com um salvo-conduto do rei Segismundo, chegou em 3 de novembro e, em 28 de novembro, foi preso. Passou meses preso, em mosteiro e no castelo de Gottlieben. Em 5 e 8 de junho de 1415, foi interrogado. Foi lida uma lista de trinta e nove acusações. Pediram que confessasse erros e os renegasse. Ele se recusou a negar o que dizia nunca ter ensinado, e a violar a consciência.
Em 6 de julho de 1415, foi condenado, degradado e entregue ao poder civil, e queimado. Segundo os relatos, ele disse, no fim: "Deus é minha testemunha de que as coisas de que me acusam eu nunca preguei" (paráfrase minha de relatos antigos). A frase "Ó santa simplicidade!", que teria dito a uma velha que punha lenha na fogueira, é anedota sem fonte. O mesmo se diz da profecia do "ganso", que só aparece em escritos posteriores. As cinzas, segundo a tradição, foram jogadas no Reno, para que não fossem veneradas. Em 1416, foi queimado também o seu discípulo Jerônimo de Praga.
O salvo-conduto de Segismundo é um dos pontos mais debatidos. Ele existiu, e Hus foi preso mesmo assim. Costuma-se dizer que o concílio sustentou que não se deve fé a hereges. A discussão sobre o que o rei sabia e quis é antiga. Em 17 de dezembro de 1999, o papa João Paulo II, num simpósio em Roma, expressou, segundo o texto do discurso publicado pelo Vaticano, "profundo pesar" pela morte cruel de Hus, e louvou sua coragem moral.
⚠️ O que fica de pé: o julgamento foi do concílio, a execução foi da autoridade civil, e Hus pediu que lhe mostrassem o erro pela Escritura. Católicos, protestantes e tchecos leem esses fatos de modos diferentes.
38 — O QUE VEIO DEPOISUm cálice, quatro artigos e uma Bíblia tcheca
Enquanto Hus estava em Constança, um colega seu, Jakoubek de Stříbro, começou em Praga a dar aos leigos o cálice na comunhão, e não só o pão, o que a prática da Igreja romana não fazia. O argumento era um texto do Evangelho, que ele lia ao pé da letra:
O Concílio de Constança condenou a prática. A Igreja católica explica que Cristo está inteiro em cada uma das espécies, e que a Igreja pode regular o modo de comungar. Os hussitas, chamados também utraquistas, de sub utraque specie, "sob as duas espécies", respondiam com Mateus 26 e com João 6.53, "se não comerdes a carne do Filho do homem, e não beberdes o seu sangue, não tereis vida em vós mesmos". Em 1419, com a morte do rei Venceslau IV, rebentou a guerra. Os hussitas apresentaram em 1420 os Quatro Artigos de Praga: a pregação livre da Palavra de Deus em todo o reino, a comunhão sob as duas espécies, a pobreza do clero e a punição dos pecados públicos. O rei Segismundo os recusou e pediu uma cruzada ao papa Martinho V. Os hussitas venceram várias delas. Em 1436, o Concílio de Basileia e os hussitas moderados firmaram os Compactata, que lhes deixaram o cálice.
A primeira reivindicação dos Quatro Artigos, a livre pregação da Palavra de Deus, é a mais próxima do tema deste livro. Ela diz respeito a quem prega e em que língua. Foi também a continuação do que Hus e Wycliffe tinham feito: pôr a Bíblia no centro, e discutir quem decide o que ela quer dizer. Mais tarde, de comunidades ligadas ao movimento hussita nasceu a Unidade dos Irmãos (1457), e dessa tradição saiu a Bíblia de Kralice, tcheca, impressa entre 1579 e 1593.
Em Mateus 26.27, o grego diz píete ex autoû pántes (πίετε ἐξ αὐτοῦ πάντες), "bebei dele todos". O verbo é pínō (πίνω), "beber", e pâs (πᾶς) quer dizer "todos, cada um". Os utraquistas liam o "todos" como todos os cristãos. A leitura católica, a que o concílio seguia, entende que Jesus falava aos apóstolos presentes, e que a Igreja pode decidir como os fiéis comungam. Os dois lados citam a mesma palavra.
Quase tudo o que se sabe de leigos que liam a Bíblia em inglês ou em tcheco vem de processos: registros de bispos e de inquisidores, que anotam quem foi denunciado, o que possuía e o que dizia. Isso distorce o quadro. Quem lia sem ser denunciado não deixou rastro, e os documentos mostram, sobretudo, os casos que deram problema. Por isso é difícil dizer quantos leigos liam a Bíblia, e é prudente evitar tanto o "quase ninguém" quanto o "todo mundo".
Os cristãos de Bereia, em Atos, eram "mais nobres" porque recebiam a palavra "examinando cada dia nas Escrituras se estas coisas eram assim" At 17.11. Hus pediu o mesmo ao concílio: que lhe mostrassem o erro pelo texto. Uma Igreja que examina é fiel. Um fiel que examina também precisa estar disposto a ser examinado.
PARA FIXARO que ficou do capítulo
Wycliffe, c. 1328–1384
A Escritura como autoridade final. Condenado por teses sobre a Eucaristia, o poder da Igreja e os bens, e não, em 1377 e 1415, pela Bíblia inglesa.
A Bíblia wycliffita
Duas versões, da Vulgata, feitas por vários colaboradores. Cerca de 250 cópias, algumas de donos ortodoxos.
Oxford, 1407–09
Constituições de Arundel: tradução só com aprovação do bispo. Hudson vê proibição e confisco. Kelly vê regulamentação.
Hus, 6 de julho de 1415
Pediu que lhe mostrassem o erro pela Bíblia. Foi queimado pela autoridade civil, depois de condenado pelo concílio.
O cálice e os Quatro Artigos
Mt 26.27 lido à letra pelos utraquistas. Primeiro artigo: pregação livre da Palavra, em 1420.
Próximo capítulo: a oficina de Mogúncia. Por volta de 1455, um artesão faz a Bíblia mais famosa da história, e o livro passa a ser feito em série.
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