Clermont, no centro da França, 27 de novembro de 1095. O papa Urbano II fala a bispos, cavaleiros e gente do povo e pede que socorram os cristãos do Oriente. Não restou transcrição do discurso. Cinco cronistas o contam anos depois, cada um a seu modo, e nenhum é a transcrição exata. Em um deles, Roberto, o Monge, a multidão responde com um grito só: "É a vontade de Deus!".
Este capítulo é difícil e precisa ser. De um lado, o Islã, que em um século chegou da Arábia à Espanha e a Jerusalém. Do outro, duzentos anos de Cruzadas, em que um papa, reis, monges e camponeses atravessaram o Mediterrâneo com uma cruz no ombro e a Bíblia na boca. Cada tradição cristã, e cada leitor, lê essa história de modo diferente. O que segue procura dizer o que os documentos dizem, e o que os historiadores hoje afirmam e discutem, sem lenda negra e sem lenda rosa.
18 — O ISLÃ DO OUTRO LADO DO MARDo deserto a Espanha, e a Bíblia no meio
Maomé morre em 632. Nas décadas seguintes, exércitos árabes conquistam a Síria, a Palestina, o Egito e a Pérsia. Jerusalém se rende por volta de 638, e perto de 691–692 é construída na Esplanada do Templo a Cúpula da Rocha. Em 711, vindos do norte da África, eles cruzam o estreito de Gibraltar e tomam a maior parte da Espanha, que fica conhecida como Al-Andalus. Em 732, perto de Tours ou de Poitiers, as tropas de Carlos Martel enfrentam uma força muçulmana. Durante séculos esse combate foi contado como o dia em que a Europa foi salva. Muitos historiadores de hoje o veem como um choque menor, cuja importância foi inflada por leituras posteriores (a de Gibbon, no século XVIII, é a mais citada), e não como uma virada.
O Alcorão fala da Torá, dos Salmos e do Evangelho (Injil) como livros que Deus deu a Moisés, a Davi e a Jesus. Para a teologia muçulmana, porém, os textos que judeus e cristãos tinham em mãos, segundo uma corrente de seus estudiosos, haviam sido alterados com o tempo, tema que cristãos e judeus rejeitam. Na prática, os cristãos e os judeus sob o governo muçulmano, os dhimmis, podiam manter sua fé, pagando um imposto próprio e sob restrições, que variaram com o tempo e o lugar. Com isso, a Bíblia também falou árabe. Um dos mais antigos manuscritos datados de textos do Novo Testamento em árabe (Atos e cartas) é de 867, traduzido do siríaco, e hoje está no mosteiro de Santa Catarina, no Sinai (Sinai árabe 151).
A palavra árabe para o Evangelho, Injīl, vem do grego euangélion (εὐαγγέλιον), a "boa notícia", que o dicionário de Strong traz sob o número G2098. Os estudiosos discutem por qual língua ela passou no caminho (o etíope e o siríaco são os candidatos). É um sinal de como a Bíblia cristã viajou pelas línguas do Oriente muito antes das Cruzadas.
A vida em Al-Andalus é tema de uma discussão antiga. Para alguns historiadores, ela foi um modelo de convívio entre muçulmanos, cristãos e judeus, a chamada convivência. Para outros, o termo embeleza uma relação marcada por desigualdade legal e por momentos de violência. Estudiosos como Mark Cohen defendem um meio-termo: nem uma utopia de tolerância, nem uma perseguição constante. O que importa aqui, para quem estuda como os livros sagrados foram lidos, é o contato entre eles. Na Espanha, depois que o rei de Castela tomou Toledo, em 1085, cristãos passaram a traduzir para o latim textos árabes de ciência e de filosofia. Em 1143, Roberto de Ketton traduziu o Alcorão para o latim, por encomenda de Pedro, o Venerável, abade de Cluny, com o objetivo de refutá-lo. Mas, para refutar, foi preciso ler o livro do outro.
19 — O APELO DE CLERMONTCinco versões e a Bíblia nelas
O contexto é este: em 1071, os turcos seljúcidas venceram os bizantinos em Manzikert e avançaram pela Anatólia. O imperador Aleixo I pediu ajuda ao Ocidente. Urbano II, no concílio de Clermont, transformou o pedido numa convocação para uma peregrinação armada a Jerusalém. As cinco versões do discurso, de Fulcher de Chartres, de Roberto, o Monge, de Balderico de Dol, de Guiberto de Nogent e da Gesta Francorum, divergem bastante. Fulcher, que provavelmente estava lá, escreveu por volta de 1101, e nele o papa promete a remissão imediata dos pecados a quem for. A aclamação "É a vontade de Deus", nessa coletânea (a de Fordham), aparece só na versão de Roberto, escrita talvez vinte e cinco anos depois.
Interessa ver como a Bíblia entra. Roberto cita a promessa de Jesus sobre quem deixa casa e família, e Jesus sobre tomar a cruz. A Gesta Francorum cita o segundo. Balderico cita um salmo, e Guiberto, uma profecia de Lucas sobre Jerusalém:
Outras passagens, nas outras versões, foram o Salmo 45.3, "Cinge a tua espada à coxa, ó valente" Sl 45.3, e Lucas 21.24, "Jerusalém será pisada pelos gentios, até que os tempos dos gentios se completem" Lc 21.24. São versículos que cada leitor cristão lê hoje à luz de sua tradição. Nas versões do discurso, funcionam como chamada.
Existe também uma carta do próprio Urbano II, de dezembro de 1095, sobre a expedição, que a mesma coletânea acrescenta às cinco versões. As crônicas foram escritas depois do sucesso da primeira cruzada e contam o apelo à luz do que aconteceu. Por isso os historiadores as usam como testemunho do que os cruzados pensavam e do que se lembrava depois, e não como a voz exata do papa.
⚠️ A promessa de "remissão dos pecados" é descrita nas fontes. O que ela significava, teologicamente, é debate: para os católicos, é a doutrina da indulgência, que se firmou ao longo do século XII; os reformadores do século XVI contestarão essa doutrina, e isso é assunto do livro sobre a Reforma.
20 — O RENO E JERUSALÉMO que aconteceu em 1096 e 1099
Antes de os exércitos principais saírem, bandos de pregadores e de gente armada seguiram pelo Reno. Em 1096, em Spira, Worms e Mogúncia, atacaram comunidades judaicas, e o conde Emicho de Leiningen é o chefe mais citado. Os números variam entre as fontes, e as mortes bem documentadas passam de mil e seiscentas, com estimativas bem maiores. Os bispos reagiram de maneiras diferentes: o de Spira abrigou a maioria dos judeus em seu palácio e os salvou, e em Mogúncia o arcebispo os abrigou na residência, mas os agressores acabaram atacando também ali. Muitos judeus escolheram morrer a ser batizados à força, e os textos hebraicos da época chamam essa morte de santificação do Nome.
Em 15 de julho de 1099, depois de um cerco de cinco semanas, os cruzados entram em Jerusalém. O que se seguiu foi uma matança de muçulmanos e de judeus. O cronista Raimundo de Aguilers, que estava lá, descreve a cena sem remorso e como vitória divina. Segundo relatos, muitos judeus foram queimados na sinagoga, e o governador fatimida, Iftikhar, saiu com os seus por negociação. Quanto aos números, as fontes divergem muito: de uns três mil mortos (numa fonte muçulmana contemporânea) a uns setenta mil (Ibn al-Athir, que escreveu mais de um século depois), numa cidade de uns trinta mil habitantes. A maioria dos historiadores vê os números maiores como exagero. Não há contagem segura, e quem apresenta um número como fato está além das fontes.
Os cruzados fundaram o Reino Latino de Jerusalém, que durou, com altos e baixos, até 1291. A igreja do Santo Sepulcro foi reconstruída por eles e consagrada em 1149. Por volta de 1119 surgiu a ordem dos Templários, nome tirado do Templo de Salomão, que os cristãos de então associavam à mesquita de Al-Aqsa, onde a ordem se alojou. O Saltério de Melisenda, da figura acima, nasceu nesse mundo: num reino em guerra, um livro de salmos com uma capa que lembra Mateus 25.
O mesmo reino que nasceu da conquista de 1099 produziu esse livro de misericórdia, e as duas coisas fazem parte da história.
Para muitos europeus do século XI, o Oriente era um nome de livro: Belém, o Jordão, o Calvário. Ir a Jerusalém era pisar no texto. Muitos foram por devoção, e muitos morreram no caminho, de fome, doença ou batalha. Os que chegaram viam, pela primeira vez, o lugar do que o padre lia. Era um modo de a Bíblia entrar na vida: pelos pés. Mas, para os que viviam ali, muçulmanos, judeus e cristãos orientais, os cruzados eram uma força estrangeira.
21 — DE SALADINO A ACREMais de um século de idas e vindas
Em 1144, os muçulmanos tomaram Edessa, um dos Estados fundados pelos cruzados, e o papa pediu a Segunda Cruzada. Bernardo de Claraval, o monge mais respeitado da época, a pregou em 1146. Foi o mesmo Bernardo que, nesse ano, interveio quando um monge, Rodolfo, pregava contra os judeus do Reno: escreveu cartas e foi à Alemanha pedir que o povo não os atacasse. Anos antes, em louvor aos Templários, ele tinha escrito que o soldado de Cristo que mata um malfeitor "não é matador de homens, mas, por assim dizer, matador do mal" e que "o cristão se gloria da morte do pagão, porque Cristo é glorificado" (Em louvor da nova milícia, entre 1120 e 1136, cap. 3; tradução minha, a partir da versão inglesa de Greenia). No mesmo trecho, diz que não devem ser mortos os pagãos se houver outro jeito de impedi-los. A Segunda Cruzada fracassou em 1148, diante de Damasco.
Em 2 de outubro de 1187, depois da derrota cristã em Hattin, Saladino tomou Jerusalém. As fontes dizem que ele permitiu a saída dos que pagaram resgate. A Terceira Cruzada (1189–92), com Ricardo Coração de Leão, não retomou a cidade, mas obteve um acordo para os peregrinos. Em 1204, os cruzados da Quarta Cruzada, que deviam ir ao Egito, acabaram por saquear Constantinopla, a maior cidade cristã do Oriente. Costuma-se dizer que o papa Inocêncio III reprovou o desvio e o saque, mas acabou aceitando o resultado. Em 1229, o imperador Frederico II, excomungado, recuperou Jerusalém por tratado com o sultão do Egito, sem batalha. Luís IX da França foi derrotado e preso no Egito (1250) e morreu em Túnis, em 1270. Em 1291, Acre, o último grande reduto cristão, caiu diante dos mamelucos.
Houve também a chamada Cruzada das Crianças, em 1212. Os relatos falam de bandos de jovens, na França e na Alemanha, que seguiram dois líderes, o pastor Estêvão e o alemão Nicolau. As fontes são poucas e de segunda mão. Os historiadores observam que o latim pueri cobre de crianças a adolescentes, e que adultos acompanharam esses grupos. A cena clássica, de milhares de crianças vendidas como escravas, é tratada como lenda por parte dos estudiosos.
22 — AS CRUZADAS E A BÍBLIAOs mesmos versículos, leituras opostas
Esse é o ponto que interessa a um livro sobre a Bíblia: os dois lados citam o texto. Há textos que, na Idade Média, foram lidos a favor do poder armado a serviço da Igreja e dos príncipes: Romanos 13.4, em que a autoridade "não traz debalde a espada", e as "duas espadas" de Lucas 22.38 Lc 22.38, imagem que o próprio Bernardo usou em outro tratado. Os críticos de hoje citam Mateus 5.44, "Amai a vossos inimigos", e Mateus 26.52, "todos os que lançarem mão da espada, à espada morrerão".
Entre cristãos de hoje, é possível distinguir três posições, e cada uma se apoia em tradição e em Escritura. Há quem veja as Cruzadas como defesa legítima de peregrinos e de cristãos do Oriente, ainda que cheia de excessos. Há quem as veja como uma ruptura com o Evangelho, que não admite guerra em nome de Cristo, o que é um traço histórico de grupos pacifistas, como os menonitas e os quakers. E há quem diga que foi um fenômeno de seu tempo que não cabe em nenhuma das duas respostas. Os historiadores acadêmicos discutem o peso de cada motivação: a devoção, a penitência, a busca de terra e de poder, a política dos reinos. A leitura corrente é que houve de tudo, em proporções que mudam de uma cruzada a outra, e que as fontes latinas, gregas, árabes e hebraicas contam a mesma história de jeitos que não se encaixam sem esforço.
A mesma Bíblia foi levada a Jerusalém por mãos armadas e foi posta, no marfim de um saltério, a serviço da misericórdia. Ela pode ser citada por quem fere e por quem cuida. A pergunta de quem a abre não é só "o que o texto diz", mas "a quem eu o aponto".
PARA FIXARO que ficou do capítulo
Islã e Bíblia
A Bíblia foi traduzida para o árabe (Sinai árabe 151, 867). Em 1143, Roberto de Ketton traduziu o Alcorão para o latim.
Clermont, 1095
Cinco versões do discurso de Urbano II, nenhuma literal. A Bíblia entra com Mt 19.29, Mt 16.24, Sl 45.3 e Lc 21.24.
1096 e 1099
Ataques a judeus no Reno e matança em Jerusalém. Os números das fontes são exagerados, e o fato, nos dois casos, é duro e documentado.
Saltério de Melisenda
Um livro de luxo do Reino Latino, c. 1131–44, com uma capa que lembra Mt 25: visitar o preso, dar de comer.
1187, 1204, 1291
Saladino toma Jerusalém, os cruzados saqueiam Constantinopla, Acre cai. O que se chama "Cruzadas" durou perto de dois séculos.
Próximo capítulo: da guerra para a sala de aula. No mesmo século em que os cruzados partem, os mestres de Paris começam a ensinar a Bíblia de um jeito novo, com perguntas, glosas e quatro sentidos para cada versículo.
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