A Europa MedievalCapítulo 5 de 11 ⤓ PDF
Pintura de Delacroix: cruzados a cavalo entram em Constantinopla entre mulheres suplicantes, com a cidade e o mar ao fundo
CAPÍTULO 5 DE 11

O Islã e as Cruzadas

Do deserto a Jerusalém, cinco versões de um discurso e a Bíblia dos dois lados

Em Clermont, em 1095, um papa pede socorro para o Oriente, e uma multidão responde. O capítulo conta o Islã que chegou à Espanha, o que os cronistas dizem do apelo, o que aconteceu no Reno em 1096 e em Jerusalém em 1099, e como a Bíblia foi citada pelos dois lados.

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Clermont, no centro da França, 27 de novembro de 1095. O papa Urbano II fala a bispos, cavaleiros e gente do povo e pede que socorram os cristãos do Oriente. Não restou transcrição do discurso. Cinco cronistas o contam anos depois, cada um a seu modo, e nenhum é a transcrição exata. Em um deles, Roberto, o Monge, a multidão responde com um grito só: "É a vontade de Deus!".

Este capítulo é difícil e precisa ser. De um lado, o Islã, que em um século chegou da Arábia à Espanha e a Jerusalém. Do outro, duzentos anos de Cruzadas, em que um papa, reis, monges e camponeses atravessaram o Mediterrâneo com uma cruz no ombro e a Bíblia na boca. Cada tradição cristã, e cada leitor, lê essa história de modo diferente. O que segue procura dizer o que os documentos dizem, e o que os historiadores hoje afirmam e discutem, sem lenda negra e sem lenda rosa.

18 — O ISLÃ DO OUTRO LADO DO MARDo deserto a Espanha, e a Bíblia no meio

Maomé morre em 632. Nas décadas seguintes, exércitos árabes conquistam a Síria, a Palestina, o Egito e a Pérsia. Jerusalém se rende por volta de 638, e perto de 691–692 é construída na Esplanada do Templo a Cúpula da Rocha. Em 711, vindos do norte da África, eles cruzam o estreito de Gibraltar e tomam a maior parte da Espanha, que fica conhecida como Al-Andalus. Em 732, perto de Tours ou de Poitiers, as tropas de Carlos Martel enfrentam uma força muçulmana. Durante séculos esse combate foi contado como o dia em que a Europa foi salva. Muitos historiadores de hoje o veem como um choque menor, cuja importância foi inflada por leituras posteriores (a de Gibbon, no século XVIII, é a mais citada), e não como uma virada.

O Alcorão fala da Torá, dos Salmos e do Evangelho (Injil) como livros que Deus deu a Moisés, a Davi e a Jesus. Para a teologia muçulmana, porém, os textos que judeus e cristãos tinham em mãos, segundo uma corrente de seus estudiosos, haviam sido alterados com o tempo, tema que cristãos e judeus rejeitam. Na prática, os cristãos e os judeus sob o governo muçulmano, os dhimmis, podiam manter sua fé, pagando um imposto próprio e sob restrições, que variaram com o tempo e o lugar. Com isso, a Bíblia também falou árabe. Um dos mais antigos manuscritos datados de textos do Novo Testamento em árabe (Atos e cartas) é de 867, traduzido do siríaco, e hoje está no mosteiro de Santa Catarina, no Sinai (Sinai árabe 151).

🔎 A palavra original

A palavra árabe para o Evangelho, Injīl, vem do grego euangélion (εὐαγγέλιον), a "boa notícia", que o dicionário de Strong traz sob o número G2098. Os estudiosos discutem por qual língua ela passou no caminho (o etíope e o siríaco são os candidatos). É um sinal de como a Bíblia cristã viajou pelas línguas do Oriente muito antes das Cruzadas.

A vida em Al-Andalus é tema de uma discussão antiga. Para alguns historiadores, ela foi um modelo de convívio entre muçulmanos, cristãos e judeus, a chamada convivência. Para outros, o termo embeleza uma relação marcada por desigualdade legal e por momentos de violência. Estudiosos como Mark Cohen defendem um meio-termo: nem uma utopia de tolerância, nem uma perseguição constante. O que importa aqui, para quem estuda como os livros sagrados foram lidos, é o contato entre eles. Na Espanha, depois que o rei de Castela tomou Toledo, em 1085, cristãos passaram a traduzir para o latim textos árabes de ciência e de filosofia. Em 1143, Roberto de Ketton traduziu o Alcorão para o latim, por encomenda de Pedro, o Venerável, abade de Cluny, com o objetivo de refutá-lo. Mas, para refutar, foi preciso ler o livro do outro.

19 — O APELO DE CLERMONTCinco versões e a Bíblia nelas

O contexto é este: em 1071, os turcos seljúcidas venceram os bizantinos em Manzikert e avançaram pela Anatólia. O imperador Aleixo I pediu ajuda ao Ocidente. Urbano II, no concílio de Clermont, transformou o pedido numa convocação para uma peregrinação armada a Jerusalém. As cinco versões do discurso, de Fulcher de Chartres, de Roberto, o Monge, de Balderico de Dol, de Guiberto de Nogent e da Gesta Francorum, divergem bastante. Fulcher, que provavelmente estava lá, escreveu por volta de 1101, e nele o papa promete a remissão imediata dos pecados a quem for. A aclamação "É a vontade de Deus", nessa coletânea (a de Fordham), aparece só na versão de Roberto, escrita talvez vinte e cinco anos depois.

Interessa ver como a Bíblia entra. Roberto cita a promessa de Jesus sobre quem deixa casa e família, e Jesus sobre tomar a cruz. A Gesta Francorum cita o segundo. Balderico cita um salmo, e Guiberto, uma profecia de Lucas sobre Jerusalém:

"E todo aquele que tiver deixado casas, ou irmãos, ou irmãs, ou pai, ou mãe, ou mulher, ou filhos, ou terras, por amor de meu nome, receberá cem vezes tanto, e herdará a vida eterna." Mateus 19.29
"Então disse Jesus aos seus discípulos: Se alguém quiser vir após mim, renuncie-se a si mesmo, tome sobre si a sua cruz, e siga-me." Mateus 16.24

Outras passagens, nas outras versões, foram o Salmo 45.3, "Cinge a tua espada à coxa, ó valente" Sl 45.3, e Lucas 21.24, "Jerusalém será pisada pelos gentios, até que os tempos dos gentios se completem" Lc 21.24. São versículos que cada leitor cristão lê hoje à luz de sua tradição. Nas versões do discurso, funcionam como chamada.

🏺 O que a pá encontrou

Existe também uma carta do próprio Urbano II, de dezembro de 1095, sobre a expedição, que a mesma coletânea acrescenta às cinco versões. As crônicas foram escritas depois do sucesso da primeira cruzada e contam o apelo à luz do que aconteceu. Por isso os historiadores as usam como testemunho do que os cruzados pensavam e do que se lembrava depois, e não como a voz exata do papa.

⚠️ A promessa de "remissão dos pecados" é descrita nas fontes. O que ela significava, teologicamente, é debate: para os católicos, é a doutrina da indulgência, que se firmou ao longo do século XII; os reformadores do século XVI contestarão essa doutrina, e isso é assunto do livro sobre a Reforma.

20 — O RENO E JERUSALÉMO que aconteceu em 1096 e 1099

Antes de os exércitos principais saírem, bandos de pregadores e de gente armada seguiram pelo Reno. Em 1096, em Spira, Worms e Mogúncia, atacaram comunidades judaicas, e o conde Emicho de Leiningen é o chefe mais citado. Os números variam entre as fontes, e as mortes bem documentadas passam de mil e seiscentas, com estimativas bem maiores. Os bispos reagiram de maneiras diferentes: o de Spira abrigou a maioria dos judeus em seu palácio e os salvou, e em Mogúncia o arcebispo os abrigou na residência, mas os agressores acabaram atacando também ali. Muitos judeus escolheram morrer a ser batizados à força, e os textos hebraicos da época chamam essa morte de santificação do Nome.

Em 15 de julho de 1099, depois de um cerco de cinco semanas, os cruzados entram em Jerusalém. O que se seguiu foi uma matança de muçulmanos e de judeus. O cronista Raimundo de Aguilers, que estava lá, descreve a cena sem remorso e como vitória divina. Segundo relatos, muitos judeus foram queimados na sinagoga, e o governador fatimida, Iftikhar, saiu com os seus por negociação. Quanto aos números, as fontes divergem muito: de uns três mil mortos (numa fonte muçulmana contemporânea) a uns setenta mil (Ibn al-Athir, que escreveu mais de um século depois), numa cidade de uns trinta mil habitantes. A maioria dos historiadores vê os números maiores como exagero. Não há contagem segura, e quem apresenta um número como fato está além das fontes.

Capa de marfim talhado com turquesas, com seis medalhões circulares, cada um mostrando uma figura que socorre outra, entre folhagens, aves e animais
Capa do Saltério de Melisenda — marfim entalhado e incrustado de pedras (turquesas e outras), Jerusalém (c. 1131–44); Biblioteca Britânica, Egerton MS 1139. Os seis medalhões trazem, em latim, legendas das obras de misericórdia de Mateus 25 (a de baixo, à direita: "Estive na prisão, e viestes a mim"). O livro costuma ser ligado à rainha Melisenda, do Reino Latino de Jerusalém. CC0.

Os cruzados fundaram o Reino Latino de Jerusalém, que durou, com altos e baixos, até 1291. A igreja do Santo Sepulcro foi reconstruída por eles e consagrada em 1149. Por volta de 1119 surgiu a ordem dos Templários, nome tirado do Templo de Salomão, que os cristãos de então associavam à mesquita de Al-Aqsa, onde a ordem se alojou. O Saltério de Melisenda, da figura acima, nasceu nesse mundo: num reino em guerra, um livro de salmos com uma capa que lembra Mateus 25.

"Porque tive fome, e destes-me de comer; tive sede, e destes-me de beber; era estrangeiro, e hospedastes-me; estava nu, e vestistes-me; adoeci, e visitastes-me; estive na prisão, e foste me ver." Mateus 25.35-36

O mesmo reino que nasceu da conquista de 1099 produziu esse livro de misericórdia, e as duas coisas fazem parte da história.

👁️ Como era viver ali

Para muitos europeus do século XI, o Oriente era um nome de livro: Belém, o Jordão, o Calvário. Ir a Jerusalém era pisar no texto. Muitos foram por devoção, e muitos morreram no caminho, de fome, doença ou batalha. Os que chegaram viam, pela primeira vez, o lugar do que o padre lia. Era um modo de a Bíblia entrar na vida: pelos pés. Mas, para os que viviam ali, muçulmanos, judeus e cristãos orientais, os cruzados eram uma força estrangeira.

21 — DE SALADINO A ACREMais de um século de idas e vindas

Em 1144, os muçulmanos tomaram Edessa, um dos Estados fundados pelos cruzados, e o papa pediu a Segunda Cruzada. Bernardo de Claraval, o monge mais respeitado da época, a pregou em 1146. Foi o mesmo Bernardo que, nesse ano, interveio quando um monge, Rodolfo, pregava contra os judeus do Reno: escreveu cartas e foi à Alemanha pedir que o povo não os atacasse. Anos antes, em louvor aos Templários, ele tinha escrito que o soldado de Cristo que mata um malfeitor "não é matador de homens, mas, por assim dizer, matador do mal" e que "o cristão se gloria da morte do pagão, porque Cristo é glorificado" (Em louvor da nova milícia, entre 1120 e 1136, cap. 3; tradução minha, a partir da versão inglesa de Greenia). No mesmo trecho, diz que não devem ser mortos os pagãos se houver outro jeito de impedi-los. A Segunda Cruzada fracassou em 1148, diante de Damasco.

Em 2 de outubro de 1187, depois da derrota cristã em Hattin, Saladino tomou Jerusalém. As fontes dizem que ele permitiu a saída dos que pagaram resgate. A Terceira Cruzada (1189–92), com Ricardo Coração de Leão, não retomou a cidade, mas obteve um acordo para os peregrinos. Em 1204, os cruzados da Quarta Cruzada, que deviam ir ao Egito, acabaram por saquear Constantinopla, a maior cidade cristã do Oriente. Costuma-se dizer que o papa Inocêncio III reprovou o desvio e o saque, mas acabou aceitando o resultado. Em 1229, o imperador Frederico II, excomungado, recuperou Jerusalém por tratado com o sultão do Egito, sem batalha. Luís IX da França foi derrotado e preso no Egito (1250) e morreu em Túnis, em 1270. Em 1291, Acre, o último grande reduto cristão, caiu diante dos mamelucos.

Houve também a chamada Cruzada das Crianças, em 1212. Os relatos falam de bandos de jovens, na França e na Alemanha, que seguiram dois líderes, o pastor Estêvão e o alemão Nicolau. As fontes são poucas e de segunda mão. Os historiadores observam que o latim pueri cobre de crianças a adolescentes, e que adultos acompanharam esses grupos. A cena clássica, de milhares de crianças vendidas como escravas, é tratada como lenda por parte dos estudiosos.

Litografia colorida da fachada da igreja do Santo Sepulcro, com cúpulas e uma torre, palmeiras em primeiro plano e três homens em trajes turcos sentados à direita
Igreja do Santo Sepulcro, Jerusalém — litografia colorida de David Roberts (desenho de 1839; Louis Haghe), da série The Holy Land; Cleveland Museum of Art (1927.103). A fachada de arcos é a da reconstrução dos cruzados, de 1149. CC0.

22 — AS CRUZADAS E A BÍBLIAOs mesmos versículos, leituras opostas

Esse é o ponto que interessa a um livro sobre a Bíblia: os dois lados citam o texto. Há textos que, na Idade Média, foram lidos a favor do poder armado a serviço da Igreja e dos príncipes: Romanos 13.4, em que a autoridade "não traz debalde a espada", e as "duas espadas" de Lucas 22.38 Lc 22.38, imagem que o próprio Bernardo usou em outro tratado. Os críticos de hoje citam Mateus 5.44, "Amai a vossos inimigos", e Mateus 26.52, "todos os que lançarem mão da espada, à espada morrerão".

"Eu, porém, vos digo: Amai a vossos inimigos, bendizei os que vos maldizem, fazei bem aos que vos odeiam, e orai pelos que vos maltratam e vos perseguem." Mateus 5.44

Entre cristãos de hoje, é possível distinguir três posições, e cada uma se apoia em tradição e em Escritura. Há quem veja as Cruzadas como defesa legítima de peregrinos e de cristãos do Oriente, ainda que cheia de excessos. Há quem as veja como uma ruptura com o Evangelho, que não admite guerra em nome de Cristo, o que é um traço histórico de grupos pacifistas, como os menonitas e os quakers. E há quem diga que foi um fenômeno de seu tempo que não cabe em nenhuma das duas respostas. Os historiadores acadêmicos discutem o peso de cada motivação: a devoção, a penitência, a busca de terra e de poder, a política dos reinos. A leitura corrente é que houve de tudo, em proporções que mudam de uma cruzada a outra, e que as fontes latinas, gregas, árabes e hebraicas contam a mesma história de jeitos que não se encaixam sem esforço.

🌱 Semente de sermão

A mesma Bíblia foi levada a Jerusalém por mãos armadas e foi posta, no marfim de um saltério, a serviço da misericórdia. Ela pode ser citada por quem fere e por quem cuida. A pergunta de quem a abre não é só "o que o texto diz", mas "a quem eu o aponto".

PARA FIXARO que ficou do capítulo

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Islã e Bíblia

A Bíblia foi traduzida para o árabe (Sinai árabe 151, 867). Em 1143, Roberto de Ketton traduziu o Alcorão para o latim.

📣

Clermont, 1095

Cinco versões do discurso de Urbano II, nenhuma literal. A Bíblia entra com Mt 19.29, Mt 16.24, Sl 45.3 e Lc 21.24.

⚖️

1096 e 1099

Ataques a judeus no Reno e matança em Jerusalém. Os números das fontes são exagerados, e o fato, nos dois casos, é duro e documentado.

📖

Saltério de Melisenda

Um livro de luxo do Reino Latino, c. 1131–44, com uma capa que lembra Mt 25: visitar o preso, dar de comer.

⏳

1187, 1204, 1291

Saladino toma Jerusalém, os cruzados saqueiam Constantinopla, Acre cai. O que se chama "Cruzadas" durou perto de dois séculos.

Próximo capítulo: da guerra para a sala de aula. No mesmo século em que os cruzados partem, os mestres de Paris começam a ensinar a Bíblia de um jeito novo, com perguntas, glosas e quatro sentidos para cada versículo.

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