Frankfurt, por volta de 1454. Circulam entre os visitantes da cidade uns cadernos de papel que não são manuscritos: as letras são escuras, nítidas e iguais. Um bispo, Enea Sílvio Piccolomini, que será mais tarde o papa Pio II, vê alguns deles. Em 12 de março de 1455, de Wiener Neustadt, ele escreve ao cardeal Juan de Carvajal, em Roma: não viu as Bíblias inteiras, mas alguns cadernos "muito limpos e corretos", que Sua Eminência poderia ler "sem óculos", e soube que se falava em 158 exemplares, todos vendidos antes de prontos (paráfrase minha da carta).
O "homem admirável" nunca foi identificado com segurança, mas a carta é o mais antigo documento sobre a Bíblia impressa por Johannes Gutenberg. Este capítulo trata do que sabemos da oficina de Mogúncia, do que ela imprimiu e para quem, do que mudou na vida da Bíblia nos cinquenta anos seguintes, e de uma pergunta que se ouve sempre: Gutenberg imprimiu a Bíblia para que o povo a tivesse?
39 — A OFICINA DE MOGÚNCIAO que se sabe de Gutenberg
Johannes Gensfleisch zur Laden, dito Gutenberg, nasceu em Mogúncia, entre cerca de 1393 e 1406 (a data convencional é 1400). Vivia em Estrasburgo nos anos 1430 e 1440, onde há registros de dívidas e de processos. Em 1448 estava de volta a Mogúncia e, em 1450, a oficina funcionava: o financista Johann Fust lhe emprestou 800 florins, e outros 800 em 1452, quando começa o trabalho da Bíblia. Peter Schöffer, que se casaria com a filha de Fust, se juntou à empresa. A invenção que se lhe atribui não é a ideia de imprimir, mas um conjunto: tipos de metal fundidos em moldes ajustáveis, numa liga de chumbo, estanho e antimônio, que derrete a baixa temperatura; uma tinta oleosa; e uma prensa de madeira parecida com as de espremer uvas ou azeitonas. O tipo móvel de metal já fora usado na Coreia, como no Jikji, de 1377, que costuma ser apontado como o mais antigo livro assim impresso que sobreviveu.
A Bíblia que sai da oficina por volta de 1454–55 é a Vulgata latina, em duas colunas de 42 linhas, quase 1.300 páginas, em geral em dois volumes. Imprimiram-se de 158 a 180 exemplares, segundo as estimativas, a maioria em papel e uma parte em pergaminho. Hoje, 49 exemplares sobrevivem pelo menos em parte substancial, e uns vinte e poucos em sua totalidade (as contagens variam). O texto não foi tudo feito por máquina: iniciais, títulos em vermelho e iluminuras eram acrescentados depois, à mão, e alguns exemplares nunca foram decorados. Não há retrato autêntico de Gutenberg: o mais antigo é de 1567 e é, quase certamente, imaginado.
A imagem de abertura deste capítulo mostra um desses exemplares, o da Harry Ransom Center, na Universidade do Texas, aberto em Gênesis 9 a 12. Nas duas páginas, em duas colunas, aparece a Torre de Babel Gn 11.1-9, e as iniciais em vermelho e azul foram acrescentadas à mão.
Fust e Gutenberg acabaram em juízo. Um documento de novembro de 1455 registra a sociedade para o "projeto dos livros", que Fust dizia que Gutenberg usara para outros fins. O tribunal deu razão a Fust (a data da sentença aparece como 1455 ou 1456 nas fontes), que ficou com a oficina da Bíblia, e a dívida, com juros, tinha chegado a 2.026 florins. Em agosto de 1457, a oficina de Fust e Schöffer imprimiu o Saltério de Mogúncia, o primeiro livro europeu com o nome do impressor e a data, sem menção a Gutenberg.
A imagem de um Gutenberg arruinado e esquecido é, em parte, lenda. Ele perdeu a oficina, é verdade. Mas em 18 de janeiro de 1465 o arcebispo Adolfo de Nassau lhe deu o título de Hofmann, gentil-homem da corte, com uma pensão, roupa de corte e cereais e vinho isentos de imposto. Ele morreu em 1468 e foi provavelmente enterrado na igreja franciscana de Mogúncia, que foi depois destruída, e o túmulo se perdeu.
⚠️ A data exata da morte e várias partes da biografia aparecem de forma diferente nas fontes. Não restou nenhum texto de Gutenberg em que ele explique por que imprimiu o que imprimiu.
40 — POR QUE UMA BÍBLIA?O mito do "livro para o povo"
É comum ouvir que Gutenberg imprimiu a Bíblia para pô-la nas mãos do povo. Os fatos conhecidos não apontam nessa direção. A primeira Bíblia impressa é em latim. Custava caro: algumas cópias foram vendidas por cerca de 30 florins, o equivalente a uns três anos do salário de um escrivão, e os compradores eram sobretudo mosteiros, universidades e pessoas ricas. Alguns exemplares serviam para leitura comum em comunidades, e ricos davam cópias a instituições religiosas. Antes da Bíblia, ele provavelmente imprimiu livros escolares, folhetos e indulgências de uma só folha, um negócio muito lucrativo para a Igreja e para os impressores. Uma gramática, a de Donato, está entre as primeiras obras atribuídas a ele.
Isso não significa que ele não tivesse motivos religiosos, nem que quisesse apenas dinheiro. Como não há declaração dele sobre o assunto, só se pode ler o que ele fez. A Bíblia era um livro de grande prestígio, o livro que provava que a nova técnica igualava a melhor pena de copista. A Vulgata era o texto usado na liturgia e nas escolas. Quem comprava, comprava para comunidades religiosas, escolas e coleções. A ideia de uma Bíblia para cada família vem depois, com outros impressores e outras línguas.
Para quem não era rico, a Bíblia de Gutenberg estava fora do alcance, como estivera a Bíblia de pergaminho antes dela. O que chegava a mais gente, aos poucos, eram as coisas curtas e baratas: folhetos, calendários, indulgências. Com o tempo, a oferta cresceu.
Os livros impressos antes de 1501 chamam-se incunábulos, do latim incunabula, "faixas do berço" e, por extensão, "berço", no sentido do começo. A palavra foi aplicada aos primeiros livros impressos só no século XVII, e não é do tempo deles. O "berço" é um olhar de depois: vem de quem já sabia no que a imprensa ia dar.
41 — CINQUENTA ANOS DEPOISA Bíblia impressa em muitas línguas, e o que a Igreja disse
A técnica se espalhou. Em 1470, havia impressores em pelo menos trinta cidades, e, no fim do século, mais de duzentos e quarenta lugares na Europa tinham prensa. Antes de 1500, saíram mais de trinta mil edições, o que dá vários milhões de livros e folhas. Entre elas, as Bíblias em língua do povo, que o capítulo 8 já listou: em 1466, em Estrasburgo, a primeira Bíblia impressa em alemão, de Johann Mentelin, a partir de uma tradução do século XIV, tida como literal e desajeitada; em 1471, as Bíblias em italiano; em 1477, a Bíblia de Delft, em holandês, com o Antigo Testamento (sem os Salmos); em 1478, uma em catalão; e, em Nuremberg, em 1483, a de Anton Koberger, ilustrada e colorida à mão, em dois volumes, para colecionadores e instituições. Antes de Lutero, saíram cerca de dezoito edições alemãs completas.
Também saíram instrumentos de estudo. Entre 1471 e 1472, Roma imprimiu em cinco volumes as Postilas de Nicolau de Lira, o frade franciscano do capítulo 7, que costuma ser descrito como um dos primeiros comentários impressos a toda a Bíblia, e que enfatiza o sentido literal e se serve de Rashi e do Talmude para explicar costumes judaicos. Em 1488, os Soncino, em Soncino, na Lombardia, imprimiram a primeira Bíblia hebraica completa, com vogais e acentos.
Na Inglaterra, nenhuma Bíblia em inglês foi impressa no século XV. Segundo Hudson, a tradução wycliffita nunca foi impressa por Caxton ou por Wynkyn de Worde, por causa das Constituições de Arundel (capítulo 9). Na Alemanha, o arcebispo de Mogúncia, Bertoldo de Henneberg, publicou em 4 de janeiro de 1486 um edito de censura, e outro em 10 de janeiro, dirigido a textos religiosos traduzidos do latim e do grego para o alemão. Ele dizia que "alguns atrevidos e ignorantes" tinham ousado traduzi-los para um alemão "tão pobre" (tradução minha, a partir de uma versão em inglês). O edito exigia que as traduções fossem aprovadas antes por professores universitários designados, sob pena de excomunhão, de confisco e de multa. Era controle prévio, e não proibição geral: o alemão já tinha Bíblias impressas.
42 — O GREGO, O HEBRAICO E ERASMOA volta às fontes
Nos mesmos anos, humanistas italianos e do Norte voltaram aos textos originais. Lourenço Valla, em c. 1440, mostrou, com argumentos de língua, que a Doação de Constantino, o documento que supostamente dava ao papa o governo do Ocidente, era um falso feito séculos depois (hoje os historiadores o tratam como consenso). Valla escreveu também notas ao Novo Testamento latino, a partir do grego, que Erasmo publicou em 1505.
Em março de 1516, o editor Johann Froben, de Basileia, publicou o Novum Instrumentum de Erasmo de Roterdã: o Novo Testamento grego, o primeiro publicado, com uma tradução latina própria, ao lado, e notas. Erasmo trabalhou depressa e se baseou em poucos manuscritos gregos, de tipo bizantino, do século XII em diante, como o capítulo 4 disse. Antes dele, em Alcalá, na Espanha, o cardeal Cisneros mandou imprimir a Bíblia Poliglota Complutense (1514–17), mas ela só circulou por volta de 1520–22, depois de aprovada pelo papa. Erasmo era um humanista católico, que nunca rompeu com a Igreja, e defendeu que todos lessem a Escritura. Na Paráclese, o prefácio da obra (que saiu depois também em edições próprias), escreveu, segundo uma tradução inglesa de 1529: "Eu quereria que todas as mulheres lessem o Evangelho e as cartas de Paulo", e "prouvera a Deus que fossem traduzidos nas línguas de todos os homens" (tradução minha). E acrescenta que desejava que o lavrador cantasse um texto da Escritura no cabo do arado, e o tecelão, ao tear.
Lembra o verbo grego metanoéō (μετανοέω) de Mateus 3.2 Mt 3.2, que o capítulo 2 mostrou? Em suas anotações sobre ele, Erasmo sugere que o latim paenitentiam agite, da Vulgata, seja trocado por resipiscite, "voltai a si". Ele se apoiava no grego, que fala de uma mudança de mente. A sugestão ficou ligada às discussões que Lutero iniciou em 1517. Católicos e protestantes ainda leem esse versículo de modos diferentes, como o capítulo 2 disse.
A relação entre a imprensa e a Reforma é debatida por historiadores. Alguns, como Elizabeth Eisenstein, deram à imprensa um papel decisivo. Outros, como Andrew Pettegree, destacam que a pregação, as redes de relações e a escolha de livros curtos e baratos, em língua do povo, importaram muito. Ambos concordam que, entre 1455 e 1517, a Bíblia e os livros sobre a Bíblia ficaram mais baratos, mais comuns e mais comparáveis. Isso quer dizer que, pela primeira vez, muitos leitores puderam ter o mesmo texto diante dos olhos.
⚠️ Que a imprensa "causou" a Reforma é uma tese, e não um fato. Os dois lados da discussão aparecem em obras de referência. A mudança material, porém, é clara: texto igual, em muitas mãos.
Erasmo sonhava com o lavrador cantando a Escritura ao arado. Mas, antes de a imprensa chegar à roça, foi preciso que alguém quisesse que o lavrador soubesse ler e que o livro coubesse no seu bolso. Uma Bíblia não chega à roça só porque foi impressa: precisa de tradutores, de impressores, de quem ensine a ler e de quem queira que o lavrador a tenha.
PARA FIXARO que ficou do capítulo
Mogúncia, c. 1454–55
A Bíblia de 42 linhas, em latim: 158 a 180 exemplares, cerca de 49 conservados em parte substancial. Cerca de 30 florins, três anos de salário de um escrivão.
A carta de 1455
Piccolomini fala de um "homem admirável" e de cadernos legíveis "sem óculos". O mais antigo documento sobre a Bíblia impressa.
Por que uma Bíblia?
Não restou declaração de Gutenberg. A Bíblia era livro de prestígio e de mercado, comprado por mosteiros, universidades e ricos, e era em latim.
Depois de 1466
Bíblias impressas em alemão, italiano, holandês e catalão. Não em inglês. Mogúncia, em 1486, exige licença para traduzir.
1516
Erasmo publica o Novo Testamento grego e escreve que queria o lavrador cantando a Escritura ao arado.
Próximo capítulo: o fim da viagem, e uma pergunta para quem chegou até aqui. Como era a vida cristã da gente comum, de uma aldeia, em 1450? O que ouvia, o que via, o que fazia, e o que isso muda na sua leitura.
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