A Europa MedievalCapítulo 7 de 11 ⤓ PDF
Afresco: o papa Inocêncio III dorme num leito sob um baldaquino, e Francisco, de hábito pardo, sustenta a igreja de Latrão que ameaça cair
CAPÍTULO 7 DE 11

Francisco, Valdo e os leigos

Dois mercadores, um Evangelho, duas respostas da Igreja e o começo da Inquisição

Um mercador de Lyon e um filho de mercador de Assis ouvem o mesmo Evangelho de pobreza e o seguem à letra. A Igreja acolhe um e condena o outro. O capítulo conta o que se sabe de Valdo, de Francisco, dos cátaros e da origem da Inquisição, sem lenda negra e sem lenda rosa.

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Lyon, no ano de 1173. Um mercador rico, que em muitas fontes se chama Valdo, ouve um cantor de rua contar a vida de Aleixo, o jovem romano que deixou casa, noiva e riquezas para viver como pobre. Valdo se perturba. A partir dali, dizem as crônicas, ele passa a vender o que tem e a distribuir o dinheiro. Manda traduzir para a língua falada em Lyon trechos da Bíblia que só ouvia em latim. Daí a pouco, está pregando nas ruas, e outros leigos o acompanham.

Do outro lado dos Alpes, uns trinta anos depois, um filho de mercador de Assis fará coisa parecida. As duas histórias são muito próximas, e a Igreja respondeu a cada uma de modo bem diferente. Este capítulo trata dos leigos que quiseram viver o Evangelho no século XII e XIII, do que a Igreja fez com eles e do que isso diz sobre quem podia ler, explicar e pregar a Bíblia.

27 — O MERCADOR DE LYONValdo e os Pobres de Lyon

Os historiadores concordam no essencial, e discordam nos detalhes. Valdo (cujo nome, "Pedro", pode ter sido acrescentado só no século XIV) era um comerciante de Lyon. Por volta de 1173, deu tudo o que tinha e passou a pregar a pobreza. Segundo uma crônica anônima escrita por volta de 1218, em Laon, ele mandou traduzir para a língua do povo os Evangelhos e outros livros da Bíblia, com trechos dos Pais da Igreja. Esse relato é a base do que se sabe, e tem as limitações de uma fonte posterior ao fato. Seus seguidores ficaram conhecidos como os Pobres de Lyon, e depois como valdenses.

Em 1179, Valdo e um companheiro foram a Roma, onde o papa Alexandre III presidia o Terceiro Concílio de Latrão. A decisão do papa, segundo o que se conta, foi dupla: elogiou o voto de pobreza e proibiu a pregação sem o convite do clero local, porque eram leigos, sem estudo. Os valdenses não pararam. Uma frase dos Atos dos Apóstolos, que segundo seus adversários eles repetiam, resume a posição:

"Porém, respondendo Pedro e os apóstolos, disseram: Mais importa obedecer a Deus do que aos homens." Atos 5.29

O outro lado também tem texto, e muitos o citam até hoje, o de Paulo: "E como pregarão, se não forem enviados?" Rm 10.15. Em 1184, em Verona, o papa Lúcio III excomungou os valdenses entre outros grupos, e em 1215 o Quarto Concílio de Latrão renovou, sem citar nomes, a condenação de toda heresia (cânon 3). Valdo morreu por volta de 1205.

🔎 A palavra original

O verbo que a ACF traduz por "pregai" em Mateus 10.7 é kērýssō (κηρύσσω), que o dicionário de Strong traz como "anunciar como arauto, como pregoeiro público", especialmente a verdade divina. É a palavra de quem fala em nome de outro, por ordem dele. Era a pergunta de fundo de todo o século: quem foi mandado? Em resumo: os valdenses respondiam que Jesus mandara os discípulos; a Igreja, que o envio passava pelos bispos.

🏺 O que a pá encontrou

Dos valdenses restaram, sobretudo, textos de adversários, os relatos dos inquisidores, e manuscritos de Novos Testamentos em línguas românicas, copiados nos séculos seguintes. Por isso não se sabe ao certo o que eles liam e pregavam na primeira geração. Uma ressalva importante: nos séculos XVI e XVII, os protestantes passaram a ver os valdenses como "antecessores" da Reforma, e em 1532 as comunidades valdenses se ligaram ao movimento reformado. Muitos historiadores de hoje discutem o rótulo. Eles dizem que os valdenses podem ter defendido algo como a autoridade da Escritura, mas não tinham, nos séculos XII e XIII, todas as teses dos reformadores.

⚠️ Os católicos veem nos valdenses leigos que desobedeceram aos bispos, e alguns deles voltaram à Igreja (um grupo, os "Pobres Católicos", em 1207–08). Os protestantes os veem como testemunhas fiéis da Bíblia. Os historiadores acadêmicos preferem tratá-los como um movimento de leigos que nasceu dentro da Igreja e terminou fora dela.

28 — O FILHO DO MERCADOR DE ASSISFrancisco e o Evangelho sem glosa

Francisco nasceu em Assis por volta de 1181 ou 1182, filho de um comerciante de tecidos. Em 1206, diante do bispo da cidade, devolveu ao pai as roupas e o dinheiro e passou a viver como pobre. A cena aparece num dos afrescos de Giotto em Assis. A segunda virada foi na capela da Porciúncula, onde, segundo o primeiro biógrafo, Tomás de Celano (escrito até 1230), ele ouviu na missa o Evangelho em que Jesus manda os discípulos sem bolsa, sem alforje, sem sandálias Mt 10.7-10. Pediu, segundo o relato, que o explicassem. E disse: "É isto que eu quero, é isto que eu procuro, é isto que desejo de todo o coração."

"Não possuais ouro, nem prata, nem cobre, em vossos cintos, nem alforges para o caminho, nem duas túnicas, nem alparcas, nem bordões; porque digno é o operário do seu alimento." Mateus 10.9-10

O que Francisco queria era viver o texto sem rodeios. No seu Testamento, de 1226, ele escreve que ninguém lhe mostrou o que devia fazer, e que "o próprio Altíssimo me revelou que eu devia viver segundo a forma do santo Evangelho" (tradução minha, a partir de uma versão inglesa). No mesmo documento, manda honrar os teólogos e "os que ministram as santíssimas palavras divinas", como os que "nos ministram espírito e vida". E diz que, onde achar escritos os santos nomes e as palavras do Senhor em lugares indignos, quer recolhê-los. A reverência do texto e a obediência à Igreja andavam juntas nele.

Em 1209 ou 1210, segundo os historiadores, o papa Inocêncio III aprovou oralmente o modo de vida do grupo. A tradição dos franciscanos, que passou à arte, conta que o papa teve antes um sonho: via a igreja de Latrão a ponto de cair e um homem pobre a segurá-la. É essa a cena da imagem de abertura deste capítulo, pintada em Assis no fim do século XIII e atribuída a Giotto ou à sua oficina. Os frades menores podiam pregar, mas era uma pregação de exortação moral, e sob licença dos bispos. Francisco, que nunca foi padre (foi diácono), fez de seus frades um grupo de obediência. Pouco depois, os franciscanos se tornaram também mestres: um deles, Nicolau de Lira (c. 1270–1349), escreveu uma das explicações literais da Bíblia mais lidas da Idade Média (o capítulo 10 volta a ele).

📜 Segundo a tradição

"Pregue o Evangelho em todo o tempo, e, se necessário, use palavras." A frase é atribuída a Francisco em sermões, livros e cartazes. Não consta de nenhum escrito dele, segundo as verificações feitas sobre a frase. O sonho de Inocêncio III e o Francisco que segura a igreja de Latrão vêm de biografias escritas depois de sua morte.

⚠️ É tradição, e não Escritura. O que os documentos de Francisco dizem sobre pregar é bem mais regrado: licença do bispo, exortação à penitência e vida coerente.

29 — POR QUE FOI DIFERENTEDois leigos, duas respostas

Entre as explicações que se oferecem para a diferença, nenhuma é decisiva sozinha. Uma é a obediência: Francisco pediu licença e a recebeu, e Valdo, depois de 1179, pregou apesar da proibição do clero local. Outra é o momento: em 1199, Inocêncio III escreveu aos fiéis de Metz, onde leigos, homens e mulheres, tinham mandado traduzir para o francês os Evangelhos, as cartas de Paulo, o Saltério e os Morais sobre Jó, de Gregório Magno, e se reuniam em segredo para discuti-los. Segundo o texto da carta, ele elogiou o desejo de entender as Escrituras e criticou as reuniões secretas e o fato de leigos assumirem a pregação, e disse que nenhum simples e sem instrução deve presumir tocar a sublimidade da Escritura ou pregá-la a outros (o capítulo 8 volta a essa carta). Uma terceira é o contexto político: costuma-se apontar que a Igreja se sentia ameaçada por movimentos como o dos cátaros e passou a ler com desconfiança qualquer leigo que pregasse. E a quarta é a própria resposta de Roma: ela soube acolher uma parte, como os "Pobres Católicos", em 1207–08, e os Frades Menores e os Dominicanos, em 1209–16, e condenou outra.

A comparação ajuda a ver o ponto principal. Pelos documentos, o conflito não era sobre ter a Bíblia, e sim sobre quem podia explicá-la e pregá-la, e sob que autoridade. Os dois queriam viver o que leram nos Evangelhos sobre pobreza e anúncio. A diferença estava em saber quem tinha mandado cada um.

Pintura do século XV: um santo dominicano, sentado sob um dossel, preside uma cerimônia com juízes, enquanto abaixo condenados, soldados e um cavalo ocupam a praça
São Domingos presidindo um auto de fé — Pedro Berruguete (c. 1493–99), Museu do Prado, Madri. A cena é um anacronismo: Domingos morreu em 1221, e os autos de fé espanhóis são do fim do século XV. A imagem mostra como a repressão da heresia era imaginada e vista nos anos 1490, e não como foi no tempo de Valdo e de Francisco. Domínio público.

30 — OS CÁTAROS E A INQUISIÇÃOA repressão e o que dela se sabe

Na mesma época, no sul da França e no norte da Itália, havia outro movimento, que a Igreja tratou de modo muito mais duro: os cátaros. Segundo os relatos de seus adversários, que são a fonte principal, eles ensinavam que o mundo material era obra de um princípio mau, e não de Deus. Alguns historiadores, como Mark Pegg, sustentam que boa parte do que se disse deles foi moldada por quem os combatia, e o assunto continua em discussão. O que as fontes mostram é que a Igreja os via como uma ameaça à fé e à ordem.

Em 1208, o legado do papa foi morto no sul da França, e Inocêncio III proclamou a Cruzada Albigense, que durou de 1209 a 1229 e terminou com a derrota dos senhores do sul e a submissão ao rei da França. Em 22 de julho de 1209, os cruzados tomaram Béziers, e houve uma matança. O legado, Arnaldo Amalrico, escreveu ao papa que haviam morrido quase vinte mil, número que os historiadores tratam com cautela, por vir de um relatório do próprio comando. A frase célebre, "Matai-os todos, que Deus reconhecerá os seus", é atribuída a Arnaldo por um só cronista, Cesário de Heisterbach, que não estava lá e a registra anos depois. Muitos historiadores a consideram suspeita. Em 1244, o castelo de Montségur, o último reduto cátaro, caiu, e algo mais de duzentos cátaros foram queimados, segundo as fontes.

A Inquisição nasceu em etapas. Em 1184, a bula Ad abolendam, de Lúcio III, mandou os bispos procurar hereges. Em 1215, o Quarto Concílio de Latrão fixou que as autoridades civis deviam punir os condenados. Entre 1231 e 1233, o papa Gregório IX passou a nomear inquisidores, em especial dominicanos, com poderes especiais, e em 1252, o papa Inocêncio IV autorizou o uso da tortura em certos casos, numa bula que se chama Ad extirpanda. O inquisidor interrogava, e a sentença podia ser uma penitência (peregrinação, cruzes amarelas costuradas na roupa), prisão, ou, nos casos de quem não se retratava ou de reincidentes, a entrega ao braço secular, que era quem executava.

🏺 O que a pá encontrou

Os registros dos inquisidores, como os de Bernard Gui, em Toulouse, entre 1308 e 1323, permitem contar. Segundo estudos citados em obras de referência, ele proferiu cerca de novecentas e trinta sentenças em quinze anos (as contas variam: uma fala em 636 pessoas condenadas), a maior parte de penitências e de prisão, e uns quarenta e poucos casos de entrega ao braço secular, que executava. Os números de "milhões" de mortos pela Inquisição medieval, que circulam em livros e na internet, não têm apoio nos registros. Por outro lado, a existência de uma minoria de execuções, em nome da fé, é um fato, e é parte da história que cada tradição hoje avalia à sua maneira.

⚠️ Não há contagem confiável do total de mortos da Inquisição medieval. Os registros que sobraram são parciais, e muitos se perderam. O que a literatura acadêmica pede é cuidado: nem lenda negra, que multiplica os números, nem lenda rosa, que nega a violência.

🌱 Semente de sermão

"De graça recebestes, de graça dai" Mt 10.8. Valdo e Francisco ouviram a mesma frase e a seguiram à letra. A Igreja deu a um o abrigo de uma regra e ao outro a excomunhão. O texto é o mesmo. A diferença está em quem o lê, e a quem obedece quando o lê.

PARA FIXARO que ficou do capítulo

🧵

Valdo, c. 1173

Mercador de Lyon que dá tudo, manda traduzir a Bíblia e prega. Alexandre III aprova a pobreza e proíbe a pregação sem licença (1179). Verona, 1184: excomunhão.

🕊️

Francisco, 1208 e 1226

Ouve o Evangelho de Mt 10 e quer vivê-lo sem comentário. Obedece aos bispos. A frase "pregue o Evangelho, use palavras se necessário" não é dele.

⚖️

Quem foi mandado?

At 5.29 de um lado, Rm 10.15 do outro. A disputa era sobre autoridade para pregar, e não sobre ler a Bíblia.

🔥

Inquisição medieval

Nasceu em etapas, de 1184 a 1252. Muitas penitências, uma minoria de execuções, sem contagem confiável.

🗡️

Béziers, 1209

A frase "Matai-os todos" vem de um só cronista, que não estava lá. O número de 20 mil vem do próprio legado.

Próximo capítulo: o que foi, de fato, proibido. Toulouse, 1229; Tarragona, 1234; a carta aos fiéis de Metz. E quantas Bíblias em língua do povo já circulavam, com licença.

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