Paris, por volta de 1252. Um frade dominicano de uns vinte e sete anos, natural de Aquino, prepara-se para ensinar na universidade. Chama-se Tomás. As regras da faculdade de teologia são claras: o candidato precisa ensinar a Bíblia antes de comentar as Sentenças de Pedro Lombardo, o livro que todos estudam. O método era ler e comentar o texto, palavra por palavra.
Assim, entre os séculos XII e XIII, a Bíblia deixa de ser só o livro do altar e do mosteiro para virar o livro de uma escola. Este capítulo mostra como a Escritura era lida por quem a estudava: o método dos quatro sentidos, os comentários e as ferramentas de pesquisa, os capítulos que ainda usamos, a sala de aula e o púlpito. E responde a uma pergunta que ficou do capítulo 1: quem tinha acesso ao entendimento do texto, e não só ao texto?
23 — O LIVRO DE QUATRO SENTIDOSO que quer dizer "Jerusalém"?
Os mestres medievais herdaram dos Pais da Igreja a ideia de que o texto bíblico tem mais de um sentido. Um exemplo clássico, de João Cassiano, um monge do século V (Conferências XIV, 8), usa uma palavra que o capítulo anterior fez soar de modo diferente: Jerusalém. Em sentido histórico, ou literal, é a cidade dos judeus. No sentido alegórico, é a Igreja de Cristo. No moral, é a alma do fiel. No anagógico, o sentido que aponta para o fim, é a cidade celeste. Em latim, a Idade Média gostava de resumir assim: "Littera gesta docet, quid credas allegoria, moralis quid agas, quo tendas anagogia". Em português: "a letra ensina os fatos; a alegoria, o que crer; a moral, o que fazer; a anagogia, para onde ir" (tradução minha). O dito costuma ser atribuído a Agostinho da Dácia, do século XIII.
Isso não nasceu da imaginação dos monges. O próprio Paulo, ao falar de Agar e Sara, escreve:
Ali estão duas Jerusaléns em um só texto. E outras passagens eram lidas como apoio: "a letra mata e o espírito vivifica" 2Co 3.6, e "tudo isto lhes sobreveio como figuras" 1Co 10.11. Em Lucas 24, o próprio Jesus, ressuscitado, "começando por Moisés, e por todos os profetas, explicava-lhes o que dele se achava em todas as Escrituras" Lc 24.27.
"Alegoria" vem do grego allēgoréō (ἀλληγορέω), "dizer de outro modo", que o dicionário de Strong traz como "alegorizar". Na ACF, a palavra "alegoria" aparece em Gálatas 4.24, onde o grego traz esse verbo; em Hebreus 9.9 a ACF também diz "alegoria", mas para outra palavra grega, parabolḗ. E "figuras", em 1 Coríntios 10.11, é týpos (τύπος), que o Strong explica como "modelo, exemplo", e que está na raiz da palavra "tipologia". Ou seja: os termos da leitura espiritual da Idade Média são palavras do próprio Novo Testamento.
Mas os grandes mestres não deixaram a alegoria solta. Tomás de Aquino escreve, na Suma Teológica (I, q. 1, a. 10), que o autor da Escritura é Deus, e que Deus pode significar não só por palavras, mas também pelas próprias coisas. Daí os sentidos espirituais. E logo acrescenta, na resposta à primeira objeção, que todos os sentidos se fundam em um só, o literal, "do qual só se pode tirar argumento" (tradução minha). Para ele, a letra é a base. É um ponto que costuma ser esquecido quando se critica "as alegorias medievais": no século XVI, os reformadores Lutero e Calvino voltarão a insistir no sentido literal, mas não o descobrem do nada, e o livro sobre a Reforma tratará disso.
24 — A BÍBLIA ORGANIZADAGlosas, concordâncias e uma numeração que não é do texto
Para estudar assim, era preciso ter uma Bíblia "arrumada". No século XII, em Laon, Anselmo e seus alunos reuniram trechos dos Pais em volta do texto, nas margens e entre as linhas, numa obra que se chamou Glosa Ordinária e virou o comentário padrão. Pedro Lombardo, que ensinou em Paris, organizou o que se sabia em Sentenças, por volta de 1150, e comentou os Salmos e as cartas de Paulo. Pedro Comestor, o "Mestre das Histórias", escreveu por volta de 1170 uma versão comentada da história bíblica, a História Escolástica, usada por séculos como livro-base. Abelardo, na mesma época, abriu seu Sic et Non ("Sim e Não") com um princípio que ficou: "Duvidando, chegamos à pesquisa; pesquisando, percebemos a verdade" (tradução minha). Reuniu citações dos Pais que parecem se contradizer, para que os alunos aprendessem a perguntar.
No século XIII, aparece a Bíblia de Paris: uma Bíblia completa em um só volume manejável, de pergaminho fino e letra pequena, com os livros em ordem fixa, e que se multiplicou entre estudantes e frades. Quase ao mesmo tempo, os dominicanos de Paris, sob a direção de Hugo de Saint-Cher, prepararam, por volta de 1230, a primeira concordância das palavras da Bíblia, um índice que permite achar, em minutos, todas as passagens em que aparece uma palavra (os versículos ainda não eram numerados). É o ancestral das buscas por palavra que usamos hoje.
Os capítulos das nossas Bíblias não vêm dos autores bíblicos, e nem dos copistas antigos. Costumam ser atribuídos a Estêvão Langton, professor da Universidade de Paris no começo do século XIII e depois arcebispo de Cantuária. Uma atribuição mais antiga, a Hugo de Saint-Cher, ainda é discutida. Os versículos numerados são mais recentes: Robert Estienne, um impressor de Paris que trabalhou em Genebra, os publicou no Novo Testamento grego de 1551 e, em 1555, numa edição da Vulgata, dentro do texto.
⚠️ A numeração é uma ferramenta humana de localizar. Isso vale para qualquer Bíblia que você leia: o capítulo de c. 1200 e o versículo de 1551 servem para achar o texto, e não fazem parte do que o autor escreveu.
25 — A SALA DE AULAPerguntas, leituras e quem podia entrar
No século XIII, Paris, Bolonha e Oxford têm universidades. A faculdade de teologia ensinava por três caminhos: a leitura comentada (lectio), a pergunta (quaestio) e o debate público (disputatio). Nos estudos, a Bíblia vinha primeiro: os candidatos começavam como biblici, que ensinavam um livro da Bíblia, e só depois passavam às Sentenças. A imagem de abertura deste capítulo mostra uma aula da época, em Bolonha, por volta de 1350: o mestre num púlpito alto, os alunos com o texto na mão e, como em toda sala, uns distraídos. A aula da miniatura é de Ética, e não de Bíblia. Foi esse o caminho de Tomás de Aquino (c. 1225–1274), que ensinou as Sentenças de 1252 a 1255 e, nas décadas seguintes, escreveu comentários sobre Jó, os Salmos, Isaías, Mateus, João e as cartas de Paulo, além de uma Cadeia de Ouro (Catena aurea), que junta comentários dos Pais aos Evangelhos. Ele morreu em 1274, a caminho de um concílio.
Livros eram caros, e quem estudava dependia de cópias alugadas. As universidades tinham livreiros oficiais que emprestavam cadernos avulsos (peciae) de textos básicos, e os alunos pagavam para copiar. Para estudantes e frades, a Bíblia de Paris, de tamanho manejável, tornou possível ter o texto à mão. Mas a sala de aula era só para homens, quase sempre clérigos, que sabiam latim. Para quem não sabia, a Bíblia chegava de outro jeito: pela voz do pregador.
O Concílio de Latrão IV, em 1215, tratou dessa distância. Ele pediu aos bispos que preparassem homens capazes de pregar e que houvesse mestres para ensinar Escritura aos clérigos (cânones 10 e 11). A Ordem dos Pregadores, os dominicanos, é aprovada em 1216, e a dos Frades Menores, de Francisco, já vinha desde 1209–10. Era um projeto: levar o que se ensinava na universidade para as praças. O capítulo 7 conta o que aconteceu quando alguns leigos decidiram ir mais depressa.
Em Atos 8, o eunuco etíope tem o rolo de Isaías e uma pergunta: "Entendes tu o que lês?" At 8.30 Os mestres medievais sabiam o valor dessa pergunta, e fizeram glosas, concordâncias e cátedras para respondê-la. Ter o livro nunca bastou. Alguém precisa sentar ao lado e explicar.
26 — A BÍBLIA NO PÚLPITOO que chegava a quem não tinha aula
Para a maioria das pessoas, o entendimento da Bíblia chegava pelo padre da paróquia e pelo pregador. Em 1281, o arcebispo de Cantuária, João Pecham, publicou, num concílio em Lambeth, uma norma conhecida pelas palavras iniciais, Ignorantia sacerdotum, "a ignorância dos padres". Segundo ela, o padre devia explicar ao povo, a cada trimestre e na língua do povo, os artigos da fé, os dez mandamentos, os pecados capitais e outros pontos básicos. Era um programa curto, o mínimo que se esperava que um leigo inglês soubesse. Em 1409, o arcebispo Thomas Arundel, no tempo da crise dos lolardos, reeditou as normas de Pecham (o capítulo 9 volta a ele).
Entre os grandes pregadores, havia um franciscano alemão, Bertoldo de Regensburgo (c. 1210–1272), que pregava ao ar livre, em alemão, a multidões que as igrejas não comportavam. Os números que se contam, de dezenas de milhares, não se confirmam. Dele ficaram setenta e um sermões em alemão, tidos como marcos da prosa do alemão médio, mas anotados por ouvintes, e não ditados por ele. Um sermão medieval costumava partir de um versículo, o tema, geralmente da leitura do dia, e desdobrá-lo. Por isso a Bíblia que o povo ouvia chegava em fragmentos, citados e explicados com exemplos da vida.
PARA FIXARO que ficou do capítulo
Quatro sentidos
Letra, alegoria, moral, anagogia. Paulo já usa "alegoria" em Gl 4.24, e Tomás de Aquino faz do sentido literal a base de todos.
Glosa, Sentenças, concordância
Ferramentas do século XII e XIII para estudar a Bíblia: comentário na margem, resumo teológico e índice de palavras.
Capítulo de 1200, versículo de 1551
Langton (capítulos, atribuição mais aceita) e Estienne (versículos, 1551 e 1555) não escreveram a Bíblia: só a numeraram.
A universidade
Primeiro a Bíblia, depois as Sentenças. Tomás de Aquino foi mestre de Bíblia antes de ser o autor da Suma.
Latrão IV, 1215
Pede pregadores capazes e mestres de Escritura. Em 1216, nascem os dominicanos.
Próximo capítulo: gente que não frequentou universidade, mas quis viver o Evangelho. Francisco de Assis, Pedro Valdo e os leigos que pregaram, e o que a Igreja fez com eles.
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