A Europa MedievalCapítulo 1 de 11 ⤓ PDF
Gravura em preto e branco: o imperador Constantino, de pé num estrado, estende a mão a bispos de báculo e mitra, que lhe apresentam rolos de papel; ao fundo, soldados e uma fogueira
CAPÍTULO 1 DE 11

A Igreja vira império

Cinquenta Bíblias, uma lista de livros e um livro com páginas

Antes de ver a Bíblia atravessar mil anos, é preciso ver o mundo que a entregou: um império que passa de perseguidor a patrono, um livro que ganha páginas, uma lista que ganha forma e um professor de retórica que abre um volume por acaso.

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Cesareia da Palestina, por volta do ano 331. Um mensageiro entrega ao bispo Eusébio uma carta do imperador. Eusébio tem uns setenta anos e já escreveu uma história da Igreja inteira. Desta vez, o pedido é de ofício: cinquenta cópias das Sagradas Escrituras, em pergaminho preparado, em letra legível, num formato fácil de carregar, feitas por copistas profissionais. O imperador até providencia o transporte: duas carruagens do correio público e um diácono para acompanhar a carga.

Em 303, um édito do imperador Diocleciano mandara queimar as Escrituras dos cristãos. Agora, vinte e oito anos depois, outro imperador encomenda cinquenta de uma vez. Este capítulo conta como esse mundo virou, e o que mudou para quem lia, copiava e ouvia a Bíblia: o livro com páginas, a lista dos livros e a cidade de Hipona, onde um professor de retórica abre um volume por acaso. Ele termina com uma linha do tempo dos mil anos que o livro percorre.

01 — CINQUENTA BÍBLIAS PARA CONSTANTINOPLAA carta que Eusébio guardou

Para chegar à carta, é preciso voltar um passo. Em 312, Constantino vence Maxêncio na ponte Mílvia, perto de Roma, e atribui a vitória ao Deus dos cristãos. Eusébio conta que o próprio imperador, anos depois, lhe jurou ter visto uma cruz de luz no céu (Vida de Constantino I, 28-31). Outro autor, Lactâncio, fala de um sonho e de um sinal pintado nos escudos. Os historiadores discutem o que houve de fato, e discutem também o que Constantino cria, em cada momento, e quando passou a crer. O que ninguém discute é o resultado. Em 313, ele e Licínio acertam a tolerância aos cristãos e a devolução do que lhes fora tomado. O texto que chegou até nós é uma carta que Licínio mandou aos governadores do Oriente, e os estudiosos ainda debatem se por trás dela havia um "Édito de Milão" formal. Esse nome é bem posterior.

Em 324, Constantino reina sozinho. Em 325, convoca em Niceia, na atual Turquia, o primeiro grande concílio da Igreja, com algumas centenas de bispos (a tradição fala em 318). Em 330, inaugura Constantinopla, a cidade que leva o seu nome. É para ela que, c. 331, encomenda as Bíblias. Pelo que Eusébio escreve, a carta dizia que o número de fiéis na nova capital crescera muito e que os livros eram "muito necessários para a instrução da Igreja" (Vida de Constantino IV, 36). Mais adiante, Eusébio diz que a ordem foi executada e que os volumes seguiram para o imperador "luxuosamente encadernados" (IV, 37). Tradução minha dos dois trechos.

Página de um códice grego em letras maiúsculas, em três colunas, com o texto de Mateus 1 e 2
Códice Vaticano, Mt 1.22–2.18 — página do manuscrito grego do século IV (Biblioteca Apostólica Vaticana, Vat. gr. 1209), em reprodução fotográfica. A escrita é em três colunas, sem espaços entre as palavras. Domínio público.
🏺 O que a pá encontrou

Muita gente ouviu que dois dos manuscritos mais antigos da Bíblia grega, o Códice Sinaítico e o Códice Vaticano, seriam dois dos cinquenta de Constantino. Constantin von Tischendorf, que encontrou o Sinaítico no mosteiro de Santa Catarina, no Sinai (as primeiras folhas, em 1844), achava que sim. A maioria dos especialistas de hoje duvida. A própria frase grega de Eusébio, trissá kaì tetrassá, tem leituras diferentes: três ou quatro volumes por remessa, três ou quatro colunas por página, ou até Evangelhos separados dos demais livros.

⚠️ A carta existe só na Vida de Constantino, uma obra de louvor ao imperador. O que ela prova é que a Bíblia, em grande escala, entrou no orçamento do Império. Que algum dos cinquenta tenha chegado até nós é hipótese, e a mais provável é que nenhum tenha chegado. Uma Bíblia inteira em pergaminho pedia a pele de centenas de animais (o Amiatino, do capítulo 3, usou mais de quinhentas, segundo uma estimativa), o que dá uma ideia do que eram cinquenta.

02 — O LIVRO COM PÁGINASDo rolo ao códice

Quando Jesus entra na sinagoga de Nazaré, o que lhe entregam é um rolo:

"E, chegando a Nazaré, onde fora criado, entrou num dia de sábado, segundo o seu costume, na sinagoga, e levantou-se para ler. E foi-lhe dado o livro do profeta Isaías; e, quando abriu o livro, achou o lugar em que estava escrito:" Lucas 4.16-17

Não há páginas ali. O "livro" de Isaías se desenrola, e para achar um trecho é preciso enrolar de um lado e desenrolar do outro. O mundo antigo escrevia literatura em rolos. Os cristãos, desde cedo, preferiram outra coisa: folhas dobradas e costuradas, o que os romanos chamavam codex. Paulo, preso, pede a Timóteo "os livros, principalmente os pergaminhos" 2Tm 4.13. Entre os manuscritos cristãos antigos que sobreviveram, a esmagadora maioria é de códices. C. H. Roberts e T. C. Skeat, em The Birth of the Codex, fizeram essa conta, e Harry Gamble, em Books and Readers in the Early Church, tratou o hábito cristão como uma anomalia que pede explicação.

Ninguém sabe ao certo por quê. Propõem-se razões práticas: o códice é mais barato, cabe mais texto, é mais fácil de carregar e de abrir em qualquer lugar, e só ele consegue reunir quatro Evangelhos, ou as cartas de Paulo, num único volume. É nesse formato que a "Bíblia" como um livro só passa a ser possível. A própria palavra grega ta biblía, "os livrinhos", era um plural. O Códice Sinaítico e o Vaticano, do século IV, são Bíblias gregas quase inteiras em um só volume (ambos perderam partes), o que um rolo jamais permitiria.

🔎 A palavra original

Em grego, biblos (βίβλος) era, na origem, a casca interna do papiro, e daí passou a ser a folha ou o rolo escrito. Seu diminutivo, biblíon, "livrinho", está em Lucas 4.17 e no plural dá ta biblía, "os livros". Daí vem "Bíblia". Ou seja: antes de ser o nome de um livro, a palavra foi o nome de uma biblioteca.

03 — QUAIS LIVROS ENTRAMA lista, e quem fez a lista

Um livro que cabe todo numa só capa levanta uma pergunta que o rolo nunca precisou responder: o que fica dentro? No século IV, a resposta ainda não era a mesma em todo lugar. Uma geração antes de Atanásio, o próprio Eusébio, na História Eclesiástica (III, 25), separa os livros "aceitos por todos" dos "contestados", entre eles Tiago, Judas, 2 Pedro, 2 e 3 João, e hesita quanto ao Apocalipse.

Em 367, Atanásio, bispo de Alexandria, manda sua carta pascal anual, a 39ª. Ela traz o que costuma ser citado como a primeira lista, preservada, com os mesmos 27 livros do Novo Testamento que católicos, ortodoxos e protestantes usam hoje. Ele chama esses livros de "fontes da salvação" e escreve que neles "só se proclama a doutrina da piedade" (tradução minha). Para o Antigo Testamento, sua lista tem 22 livros, como a contagem judaica. Ester não está nela. Num segundo grupo, de livros "para serem lidos" por quem chega à fé, ele põe Sabedoria, Sirácida, Ester, Judite e Tobias, e ainda a Didaquê e o Pastor, de Hermas.

🔎 A palavra original

"Cânon" vem do grego kanōn (κανών), "vara de medir, régua". No Novo Testamento a palavra aparece como "regra", em Gálatas 6.16, e como "medida" ou "esfera de ação", em 2 Coríntios 10.13-16. Só no século IV a palavra passa a ser usada para uma lista de livros. Atanásio usa o verbo da mesma família, para livros "canonizados".

Gálatas 6.16 diz: "E a todos quantos andarem conforme esta regra, paz e misericórdia sobre eles e sobre o Israel de Deus." Ali, "regra" não é uma lista de livros.

Mais ao oeste, bispos do norte da África, na época de Agostinho, registram em sínodos regionais, em Hipona (393) e em Cartago (397), uma lista mais longa para o Antigo Testamento. Ela inclui Sabedoria, Sirácida, Tobias, Judite e 1 e 2 Macabeus. Eles pedem que a Igreja de além-mar, a de Roma, confirme a lista. É a lista que, com o tempo, vai parar na Bíblia latina da Idade Média.

Esse ponto importa para este livro, porque é onde as tradições cristãs que existem hoje começam a se separar na prática. A Igreja Católica, a Ortodoxa e as Igrejas da Reforma têm hoje listas diferentes para o Antigo Testamento. A diferença não nasce de uma briga medieval. Tem raiz numa pergunta já presente no século IV: tomar como medida a Bíblia hebraica ou a tradução grega, a Septuaginta, que a maior parte dos cristãos usava. Os reformadores do século XVI voltarão a essa dúvida, mas esta é outra história, e outro livro da série.

04 — O IMPÉRIO MUDA DE LADODo perseguido ao oficial

Depois de Constantino, o cristianismo ganha isenções, prédios e favor. Em 27 de fevereiro de 380, o imperador Teodósio e seus colegas publicam o decreto Cunctos populos, em que mandam que todos os povos do império sigam a fé que Pedro ensinou aos romanos, a mesma que professavam o bispo Dâmaso, de Roma, e o de Alexandria. O texto condena como "loucos" quem pensa diferente. O alvo imediato eram os cristãos arianos, e não os pagãos. Com as leis de 391 e 392 do mesmo imperador, que proíbem os sacrifícios pagãos, o favor do Estado passa de vez para o lado dos cristãos.

Como avaliar essa virada é questão aberta, e cada tradição a lê de um jeito. Para Eusébio, foi o cumprimento da história: o império que perseguia agora servia a Deus. Para a Igreja Ortodoxa, Constantino é santo e "igual aos apóstolos" (isapóstolos). Para parte da tradição anabatista e de outros grupos protestantes, a aliança com o poder foi o começo de um desvio. Já historiadores como Peter Brown e Averil Cameron mostram um processo lento, em que bispos, famílias de aristocratas e cidades foram mudando aos poucos, sem uma data única.

O que se pode dizer sobre a Bíblia, sem escolher lado, é isto. Primeiro, ela ficou mais visível: basílicas grandes, leituras públicas, livros caros e belos. A partir do Concílio de Éfeso (431), as atas e a tradição falam de um volume dos Evangelhos posto num trono, no meio dos bispos. Uma tradição faz esse costume começar em Niceia, e é assim que muitos pintores posteriores mostram o concílio, com o livro aberto sobre um trono no centro; os historiadores discutem até onde o costume remonta. A imagem de abertura deste capítulo, uma gravura de 1704, não mostra o livro: imagina o imperador a receber bispos em Niceia, uma visão feita quase quatorze séculos depois. Segundo, ela ficou também mais controlada: com bispos e concílios definindo o que se lia, e com o poder imperial atrás.

👁️ Como era viver ali

Quase ninguém lia. As estimativas para o mundo romano costumam ficar entre 10% e 15% de pessoas que sabiam ler (William Harris, Ancient Literacy, 1989), com muita variação entre cidade e campo e entre homens e mulheres. A Bíblia, para a imensa maioria, era um livro ouvido: o leitor da igreja lia em voz alta, o bispo explicava, os salmos eram cantados de cor. O eunuco etíope de Atos tem o rolo de Isaías nas mãos e uma pergunta: "Como poderei entender, se alguém não me ensinar?" At 8.31. Era assim que a maioria aprendia.

E nem todos ouviam na mesma língua. No Oriente, o grego. Na Europa ocidental, o latim, que ainda era a língua do povo. Quem ouvia o latim da Bíblia na África ou na Itália do século IV não ouvia uma língua sagrada à parte. Ouvia o falar comum de uma região. Essa mesma língua vai se tornar, séculos depois, uma barreira, e o resto do livro conta como.

05 — TOLLE LEGEUm jardim em Milão, uma frase de Paulo

No verão de 386, em Milão, o professor de retórica Agostinho, de uns trinta e um anos, está num jardim, aos prantos, depois de anos de dúvida. Ele conta isso nas Confissões (VIII, 12, 29). De uma casa vizinha vem uma voz de menino, ou de menina, ele não sabe qual, que repete uma cantiga: "tolle lege, tolle lege", "toma e lê, toma e lê". Agostinho volta ao banco onde deixara o volume das cartas do apóstolo, abre-o, lê em silêncio o primeiro trecho que lhe cai sob os olhos:

"Andemos honestamente, como de dia; não em glutonarias, nem em bebedeiras, nem em desonestidades, nem em dissoluções, nem em contendas e inveja. Mas revesti-vos do Senhor Jesus Cristo, e não tenhais cuidado da carne em suas concupiscências." Romanos 13.13-14
Afresco de Gozzoli: Agostinho sentado sob uma árvore, com a mão no rosto e um livro aberto no colo; um homem de manto amarelo estende a mão em sua direção
Agostinho lê a epístola de Paulo (Tolle lege) — Benozzo Gozzoli, afresco (1464–65), igreja de Santo Agostinho, San Gimignano. O pintor veste a cena de 386 à moda do século XV. Domínio público.

Ele diz que "toda a treva da dúvida" se dissipou. Anos depois, bispo de Hipona, escreve Sobre a doutrina cristã, um manual de como ler a Bíblia. Ali observa que os que traduziram o Antigo Testamento do hebraico para o grego se contam, mas que os tradutores latinos são incontáveis (II, 11). A frase mostra o problema que o próximo capítulo vai resolver: no Ocidente, cada região lia uma Bíblia latina ligeiramente diferente.

O cenário externo, nessas décadas, desmorona. Em 410, os godos de Alarico saqueiam Roma. Em 476, Odoacro depõe o último imperador do Ocidente, Rômulo Augústulo, e manda as insígnias a Constantinopla. O império continua em Constantinopla, no Oriente, por quase mil anos. No Ocidente, as cidades encolhem, as escolas romanas morrem aos poucos, e os livros, que eram da elite, vão acabar nas mãos de quem tinha tempo, pele e tinta: os mosteiros. Mas antes disso, um homem em Belém precisa de uma Bíblia latina em que se possa confiar.

🌱 Semente de sermão

A conversão mais famosa depois da de Paulo passou por um livro aberto ao acaso e por uma frase curta que já estava escrita. Agostinho não encontrou ali uma teoria. Encontrou uma ordem: revesti-vos do Senhor Jesus Cristo. Às vezes o texto que muda a vida é o que já estava na página, esperando que alguém abrisse.

LINHA DO TEMPOMil anos em uma página, com a Bíblia marcada

Datas aproximadas, segundo a cronologia usual dos historiadores. O símbolo 📖 marca onde o livro da Bíblia aparece de forma central. Cada marco volta, com detalhe, num dos capítulos seguintes.

313 — Tolerância aos cristãos
Constantino e Licínio acertam a liberdade de culto. 📖 Capítulo 1.
325 e c. 331 — Niceia e as cinquenta Bíblias
O primeiro grande concílio e a encomenda de Constantino a Eusébio. 📖 Capítulo 1.
367, 393, 397 — As listas dos livros
Atanásio, Hipona e Cartago. 📖 Capítulo 1.
c. 382 a c. 405 — Jerônimo
Revisão dos Evangelhos latinos e tradução do Antigo Testamento do hebraico: a futura Vulgata. 📖 Capítulo 2.
476 — Fim dos imperadores no Ocidente
Odoacro depõe Rômulo Augústulo.
c. 540 — Regra de Bento
A leitura e a cópia entram na rotina dos mosteiros. 📖 Capítulo 3.
c. 700–716 — Códice Amiatino
Wearmouth–Jarrow, na Inglaterra, produz três Bíblias completas, uma das quais viaja até Roma. 📖 Capítulo 3.
800 — Carlos Magno, imperador
Os livros são copiados e corrigidos em escala. 📖 Capítulo 3.
863 e 1054 — Cirilo e Metódio; o Cisma
A Bíblia em eslavo e a ruptura entre Roma e Constantinopla. 📖 Capítulo 4.
1095 a 1291 — As Cruzadas
Do apelo de Clermont à queda de Acre. 📖 Capítulo 5.
c. 1200 a 1274 — A Bíblia na universidade
A Bíblia de Paris, a divisão em capítulos, Tomás de Aquino. 📖 Capítulo 6.
c. 1170 a 1234 — Valdo, Francisco e as proibições regionais
Leigos pregam, bispos reagem. 📖 Capítulos 7 e 8.
1382 a 1415 — Wycliffe e Hus
A Bíblia em inglês e o julgamento em Constança. 📖 Capítulo 9.
c. 1455 — Gutenberg
A Bíblia de 42 linhas, em Mogúncia. 📖 Capítulo 10.
1517 — As 95 teses
Fim do período deste livro. O que vem depois é o assunto de A Europa da Reforma.

PARA FIXARO que ficou do capítulo

📜

Cinquenta Bíblias, c. 331

A carta de Constantino a Eusébio existe só na Vida de Constantino. Que o Sinaítico ou o Vaticano sejam dois deles é hipótese que a maioria dos especialistas rejeita.

📘

O livro com páginas

A Bíblia judaica era lida em rolos. Os cristãos adotaram cedo o códice, que permitiu reunir a Bíblia num só volume.

📏

Cânon: a régua

A palavra vem de kanōn (Gl 6.16). A lista de 27 livros do Novo Testamento aparece em Atanásio, em 367.

👂

Uma Bíblia ouvida

Pouca gente sabia ler. A maioria conhecia o texto de ouvido, em grego no Oriente e em latim no Ocidente.

Próximo capítulo: Jerônimo, em Belém, com um professor judeu e uma Bíblia latina em pedaços, e as outras línguas em que o livro já falava antes do ano 500.

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