SOBRE ESTE LIVROA Bíblia na Europa medieval, em poucos minutos
Constança, 5 de junho de 1415. Um padre tcheco, Jan Hus, está diante de um concílio da Igreja e responde que se retratará se lhe mostrarem, pela Bíblia, onde errou. Um mês depois, será queimado. Quem podia ler a Bíblia, explicá-la e pregá-la? A pergunta atravessa este livro de ponta a ponta, de 313 a 1517, e a resposta que se costuma ouvir é quase sempre uma lenda: ou a de que a Igreja trancou o livro, ou a de que nunca houve problema algum. Este livro conta o que os documentos dizem. Se você ler só esta página, já sai com o essencial.
Do império ao códice (capítulos 1 e 2). Por volta de 331, o imperador Constantino encomenda cinquenta Bíblias ao bispo Eusébio, e o livro, que os cristãos já faziam em códice, entra no orçamento do Estado. A lista dos livros se firma: a do Novo Testamento aparece em Atanásio, em 367, e os sínodos africanos de Hipona e Cartago fixam uma lista mais longa para o Antigo. A pergunta de que medida tomar, a Bíblia hebraica ou a tradução grega, está na raiz das listas diferentes que católicos, ortodoxos e protestantes usam até hoje. Em Belém, Jerônimo aprende hebraico com um professor que o visita de noite e traduz o Antigo Testamento direto do original. A Bíblia latina dele só vira o texto padrão do Ocidente com os séculos, e só muito depois leva o nome de Vulgata.
A mão do copista (capítulo 3). Quando o império cai no Ocidente, o livro vive nos mosteiros. A Regra de Bento põe a leitura na rotina diária, Cassiodoro elogia o copista, e em Wearmouth–Jarrow, na Inglaterra, se faz o Códice Amiatino: mais de 34 quilos, a mais antiga Vulgata quase completa em um só volume. Beda morre em 735 ditando uma tradução de João para o inglês, e Carlos Magno manda corrigir os livros por decreto.
Os dois mundos em volta (capítulos 4 e 5). No Oriente, a Bíblia é grega e a liturgia a guarda; a querela dos ícones opõe Êxodo 20.4 a João 1.14, e os irmãos Cirilo e Metódio dão uma Bíblia aos eslavos. O "Cisma de 1054" foi menos um dia do que um processo. Ao sul, o Islã e as Cruzadas: os dois lados citam a Escritura, e os números de mortos que circulam são, em geral, maiores do que o que as fontes permitem afirmar.
A sala de aula e a rua (capítulos 6 e 7). Os mestres leem o texto em quatro sentidos, fazem glosas e concordâncias e dão à Bíblia os capítulos que ainda usamos. Fora da escola, um mercador de Lyon, Valdo, e um filho de mercador de Assis, Francisco, ouvem o mesmo Evangelho de pobreza e o seguem à letra. A Igreja acolhe um e condena o outro, e a disputa era sobre quem tinha sido mandado para pregar. É também aí que a Inquisição nasce, em etapas, e o livro diz o que dela se pode afirmar e o que não.
O que se proibiu, de fato (capítulo 8). Toulouse (1229), Tarragona (1234), Oxford (1407–09), Mogúncia (1486): proibições escritas, regionais, dirigidas a traduções e a pregadores sem mandato. Ao mesmo tempo, havia Bíblias em muitas línguas, e um rei encomendou em Praga uma Bíblia alemã de luxo. "A Igreja proibia a Bíblia a todos", "só havia Bíblia em latim", "a Bíblia era acorrentada para ninguém ler" e "quem lia era queimado" são meias-verdades, e o capítulo examina uma por uma.
Wycliffe, Hus e Gutenberg (capítulos 9 e 10). A primeira Bíblia inteira em inglês, as Constituições de Oxford (que dois historiadores leem de modos opostos) e o julgamento de Constança mostram o que aconteceu quando uma Bíblia em língua do povo foi ligada à heresia. Em Mogúncia, por volta de 1455, sai a Bíblia de 42 linhas, em latim, que custava uns três anos do salário de um escrivão e foi comprada por mosteiros, universidades e gente rica. Não restou nenhuma declaração de Gutenberg sobre por que a imprimiu. A imprensa mudou a escala, e não o público de um dia para o outro.
A vida comum, e o rótulo (capítulo 11). Para a maioria, a Bíblia era ouvida e vista: vitrais, teatro de rua, calendário da igreja. O capítulo final julga a expressão "Idade das Trevas" à luz de mil anos de documentos e responde, em cinco linhas, às perguntas do livro: quem tinha acesso ao texto, em que línguas, como era copiado, ensinado e pregado.
Como o livro trata de doutrina. Católicos, ortodoxos e protestantes leem partes desta história de modos diferentes: o primado do papa, o Filioque, as imagens, as indulgências, Wycliffe e Hus. O livro dá a cada leitura as palavras e as fontes dela e diz o que os historiadores acadêmicos hoje afirmam, sem tomar partido. Onde as fontes não bastam, escreve menos. Nada aqui é para acusar ou para defender ninguém.
ANTES DE COMEÇARO mapa para não se perder
Este é um livro de história da Igreja, e não de um povo da Bíblia. Antes de entrar nas cenas, fixe estes seis cartões.
Onde
A Europa cristã: o Ocidente latino, Bizâncio e os povos eslavos, com o Mediterrâneo, o Islã e a Terra Santa nas bordas.
Quando
De Constantino, em 313, à véspera das 95 teses, em 1517. "Idade Média" é nome posterior, dado por humanistas.
Por que importa na Bíblia
É o tempo em que o texto foi copiado à mão, comentado, disputado, traduzido em muitas línguas e, por fim, impresso.
Quais livros
A lista de 27 livros do Novo Testamento aparece em Atanásio, em 367. As listas do Antigo Testamento diferem entre as tradições (capítulo 1).
O momento mais famoso
A Bíblia de Gutenberg, em Mogúncia, c. 1454–55: de 158 a 180 exemplares, em latim. Algumas cópias foram vendidas por uns 30 florins.
O objeto que resume
O Códice Amiatino, feito c. 700–716 em Wearmouth–Jarrow: pouco mais de mil folhas, mais de 34 quilos, levado rumo a Roma por um abade que morreu no caminho.
Leve o livro com você
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