Williamstown, Massachusetts, agosto de 1806. Cinco estudantes do Williams College, Samuel Mills, James Richards, Francis LeBaron Robbins, Harvey Loomis e Byram Green, reúnem-se num campo, junto ao rio Hoosic, para conversar e orar pela situação espiritual dos povos da Ásia. Uma trovoada interrompe a reunião, e eles se abrigam sob um monte de feno até o céu clarear. Quatro anos depois, alguns deles ajudariam a fundar a Junta Americana de Comissários para Missões Estrangeiras, que em 1812 enviou à Índia os seus primeiros missionários.
O capítulo final segue essa história para fora dos Estados Unidos, com uma ponte curta para o Brasil, e depois volta ao tema de todo o livro: a Bíblia na casa das pessoas. Mostra quais traduções circularam no século XX, uma polêmica sobre uma palavra de Isaías e o que a história de quatro séculos permite perguntar a quem lê a Escritura hoje.
50 — DO MONTE DE FENO AO MUNDOAs missões americanas e a Bíblia traduzida
Muitos estudiosos tratam a reunião do monte de feno como o acontecimento inaugural das missões protestantes americanas do século seguinte. A Junta (ABCFM) foi criada em 1810, e nos seus primeiros cinquenta anos enviou mais de 1.250 missionários, a maioria de vilarejos e fazendas da Nova Inglaterra. Poucos eram ricos, mas a maioria tinha uma educação clássica de colégio, que incluía hebraico, latim e grego, e, no campo, traduziram a Bíblia para línguas, algumas ainda sem escrita. Desde 1821, o Missionary Herald, a revista da Junta, foi para muitos cristãos americanos a janela do mundo, num tempo sem rádio, cinema ou televisão.
Entre os que partiram, em fevereiro de 1812, estava Adoniram Judson, que acabou na Birmânia (hoje Mianmar), onde trabalhou por quase quarenta anos. Ele e Luther Rice estão na origem da Convenção Trienal, a primeira organização nacional dos batistas americanos, voltada às missões. Judson traduziu a Bíblia para o birmanês. Em julho de 1886, 251 estudantes de 89 faculdades se reuniram por quase um mês numa conferência bíblica na escola Mount Hermon, em Northfield, Massachusetts, ligada a Moody. Dali nasceu o Movimento Voluntário Estudantil, que procurava recrutar universitários americanos para o campo missionário e teve Arthur T. Pierson entre os principais líderes dos primeiros anos.
"Todas as nações" é pánta tà éthnē (πάντα τὰ ἔθνη). Strong define éthnos (ἔθνος) como "uma raça (de mesmo costume), isto é, uma tribo; especialmente uma estrangeira (não judia)". A palavra fala de povos, e não dos Estados atuais. O verbo "fazei discípulos" é mathēteúsate (μαθητεύσατε), que Strong define como "tornar-se aluno" e, com objeto, "fazer discípulo, isto é, matricular como aluno". Vem de mathētḗs (μαθητής), "um aprendiz, isto é, um aluno".
⚠️ Historiadores discutem a relação entre as missões e a expansão do poder ocidental. A literatura sobre o Movimento Voluntário Estudantil nota que ele nasceu num tempo de domínio e prestígio da civilização ocidental, em que a expansão imperial era vista por muitos como resposta altruísta ao conhecimento do mundo não ocidental. O livro só registra que o debate existe.
51 — A PONTE PARA O BRASILTrês fios ligam este livro ao próximo
O protestantismo brasileiro tem várias origens, e os Estados Unidos são só uma delas. Houve huguenotes franceses no século XVI e holandeses no século XVII, uma capela anglicana no Rio de Janeiro em 1822 e imigrantes alemães. Os fios que chegam deste livro são três.
O primeiro é Ashbel Green Simonton. Presbiteriano formado em Princeton, chegou ao Rio de Janeiro em 12 de agosto de 1859. Segundo as biografias, organizou a Igreja Presbiteriana do Brasil em 1862, criou o jornal Imprensa Evangélica (1864), um presbitério (1865) e um seminário (1867), e morreu de febre amarela em São Paulo, em 9 de dezembro de 1867, aos 34 anos.
O segundo e o terceiro são pentecostais e passam por Chicago. Gunnar Vingren, sueco que emigrou para os Estados Unidos em 1903, foi batista e estudou no seminário sueco de Chicago. Depois de contato com o pentecostalismo, teria recebido, num culto em South Bend, Indiana, a indicação de que iria ao Pará. No começo de novembro de 1910, ele e Daniel Berg partiram de Nova York e, em 19 de novembro, chegaram a Belém. Em 18 de junho de 1911, um grupo de membros afastados de uma igreja batista de Belém, com os dois missionários, organizou a Missão da Fé Apostólica (as fontes divergem quanto ao número de pessoas, de treze a dezenove, e quanto à casa onde se reuniam). Em janeiro de 1918 (dia 11, segundo o Diário do Pioneiro; outras fontes dão 4 ou 18) a igreja foi registrada com o nome de Assembleia de Deus.
O terceiro fio é Louis Francescon. Italiano de nascimento, emigrou para os Estados Unidos em 1890 e se fixou em Chicago, onde se converteu numa missão valdense-presbiteriana. Em 1907, teve contato com a missão da North Avenue, pastoreada por William Durham, o mesmo Durham de Chicago que aparece no capítulo 9, e aceitou o pentecostalismo. A Congregação Cristã no Brasil, que a tradição liga à sua pregação em 1910, teve as primeiras casas de oração em Santo Antônio da Platina, no Paraná, e no bairro do Brás, em São Paulo.
Segundo os resultados preliminares da amostra do Censo 2022, divulgados pelo IBGE em junho de 2025, os evangélicos eram 26,9% da população de 10 anos ou mais, cerca de 47 milhões de pessoas.
⚠️ Cada igreja conta a própria origem, e as datas e os lugares variam um pouco conforme a fonte. O livro seguinte da série trata do Brasil com mais vagar; aqui só se mostra o ponto em que as duas histórias se tocam.
52 — A BÍBLIA QUE FICOU EM CASATraduções, hotéis e uma palavra de Isaías
No século XX, a Bíblia que as famílias americanas tinham na estante mudou várias vezes. A American Standard Version (Novo Testamento em 1900 e Bíblia completa em 1901) foi a revisão americana da Revised Version britânica de 1885. Em 1909, a Bíblia de Scofield seguia usando o texto da King James. Em 1899 foi fundada em Janesville, Wisconsin, a Gideons International, que passou, em 1908, a distribuir Bíblias, as primeiras num hotel de Superior, Montana.
Em 30 de setembro de 1952 foi lançada a Revised Standard Version (RSV), cujo Novo Testamento saíra em 1946, patrocinada pelo Conselho Nacional de Igrejas e sucessora da ASV. A polêmica girou em torno de uma palavra, o hebraico ʻalmâh em Isaías 7.14, que a RSV verteu por "young woman" (moça), e não por "virgin". Em 30 de novembro de 1952, o pastor Luther Hux, de Rocky Mount, na Carolina do Norte, depois de um sermão, queimou em público as páginas de um exemplar que traziam Isaías 7.14 (relato do historiador Peter Thuesen). Contou à imprensa que não queimava a Bíblia, e sim a "fraude" que aquela página representava. Muitos leitores passaram a usar Isaías 7.14 como "teste" para decidir se uma nova tradução merecia confiança. A New International Version, de afiliação evangélica, publicou o Novo Testamento em 1973 e a Bíblia completa em 27 de outubro de 1978.
Strong define ʻalmâh (עַלְמָה) como "uma moça (como que velada ou reservada)", com os sentidos "donzela, virgem" na King James. A outra palavra hebraica que Strong dá como "virgem", bᵉthûlâh (בְּתוּלָה), é "uma virgem (de sua reserva)". A Septuaginta, a tradução grega do Antigo Testamento, verte ʻalmâh por parthénos (παρθένος), "uma donzela; por implicação, uma filha solteira" (Strong), em Isaías 7.14, e é nessa forma que Mateus 1.23 cita o texto. A discussão envolve, portanto, o que diz o hebraico, o que fez a tradução grega e o que entendeu o Novo Testamento.
⚠️ O livro não decide a tradução. A ACF traz "virgem" em Isaías 7.14 e em Mateus 1.23.
O episódio de Rocky Mount foi noticiado pela imprensa na época e mostra que a escolha de uma tradução podia mobilizar uma congregação inteira. Entre o século XVII e o XX, a pergunta sobre qual Bíblia ler, em que edição e com que notas voltou aqui várias vezes: a de Genebra, a de Eliot, a de Aitken, a de Webster, a Sociedade Bíblica sem notas, a de Scofield, a RSV, a NIV.
53 — O QUE FICAPerguntas que esta história permite fazer à leitura
Este livro não tem uma tese sobre os Estados Unidos. Tem fatos, datas, documentos e debates, e um conjunto de padrões que se repetem. Deixa cinco perguntas, que cada leitor pode fazer a si mesmo.
A primeira é quem lê, e quem decide o que se lê. Nos capítulos 1 e 2, as colônias puseram a Escritura na lei e na escola; no 6, uma sociedade bíblica distribuiu a Bíblia "sem nota nem comentário"; no 7 e no 8, a possibilidade de ler foi, para escravizados, uma disputa. A segunda é o que se faz com a mesma Bíblia que dá conclusões opostas. Roger Williams e os magistrados de Massachusetts, os pregadores patriotas e os leais à Coroa diante de Romanos 13, os defensores e os inimigos da escravidão: todos apelavam às Escrituras.
A terceira é o que o texto diz e o que se diz dele. O Pacto do Mayflower, o Tratado de Trípoli, a carta de Jefferson, o interrogatório de Bryan, o Compromisso da Cidade do Cabo: em cada um, o documento é uma coisa e a lembrança dele, outra. A quarta é quem estava na sala. A rua Azusa foi uma sala mista, num país segregado; a Igreja Betel de Allen nasceu de um joelho dobrado numa igreja; as igrejas negras e a "instituição invisível" lembram que nem todos os que liam a Bíblia aparecem nos documentos oficiais. A quinta é de que palavra depende a conclusão: "noutras línguas", "inspirada", "fundamento", "virgem". Em cada caso, uma discussão de séculos depende de como se traduz ou se entende uma palavra.
Em Beréia, Lucas diz que os judeus eram "mais nobres do que os que estavam em Tessalônica, porque de bom grado receberam a palavra, examinando cada dia nas Escrituras se estas coisas eram assim" At 17.11. Quem os chama de nobres elogia dois gestos: receber de bom grado e examinar todo dia. Uma história de quatro séculos de leituras em conflito é um bom motivo para voltar ao texto e conferir.
LINHA DO TEMPODo monte de feno a Isaías 7.14
Datas pelo calendário atual.
PARA FIXARO que ficou do capítulo
Williamstown, 1806
Cinco estudantes, uma trovoada e um monte de feno: o começo das missões americanas segundo muitos estudiosos.
Bíblia traduzida
Judson traduziu a Bíblia para o birmanês; muitos missionários traduziram para línguas sem escrita Mt 28.19.
Três fios para o Brasil
Simonton (1859), Vingren e Berg (1910–1911) e Francescon (1910) ligam este livro ao próximo.
Gideons e traduções
ASV (1901), RSV (1952), NIV (1978) e as Bíblias de hotel (1908): a Bíblia de casa mudou várias vezes.
Cinco perguntas
Quem lê? Que conclusões opostas? O que o documento diz? Quem estava na sala? De que palavra depende?
O livro seguinte da série, O Protestantismo no Brasil, retoma a história do outro lado da ponte.
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