Filadélfia, 7 de setembro de 1774, de manhã. Os delegados das colônias estão reunidos no Carpenters' Hall para o primeiro Congresso Continental. Na véspera chegou um boato terrível: Boston estaria sob canhonaço dos navios ingleses. Entra um pastor anglicano de beca, com o sacristão, e começa a ler as orações da liturgia. Depois lê o salmo do dia, o trigésimo quinto: "Pleiteia, SENHOR, com aqueles que pleiteiam comigo; peleja contra os que pelejam contra mim" Sl 35.1. John Adams, que está na sala, escreveria à mulher uma semana depois: "Nunca vi maior efeito sobre um auditório. Parecia que o Céu tinha ordenado que aquele salmo fosse lido naquela manhã" (carta a Abigail Adams, 16 de setembro de 1774; tradução minha).
Este capítulo conta como a Bíblia entrou na Revolução: no Congresso, no púlpito, num panfleto que vendeu como pão e num selo que nunca foi usado. E conta a história de uma Bíblia que faltou, porque a guerra cortou o fornecimento da Inglaterra, e do impressor da Filadélfia que resolveu imprimi-la.
16 — A PRIMEIRA ORAÇÃO DO CONGRESSOQuando cinco igrejas não se entendiam
A oração quase não aconteceu. Segundo o relato do próprio Adams, quando se propôs abrir o Congresso com uma oração, John Jay, de Nova York, e John Rutledge, da Carolina do Sul, objetaram, "porque estávamos tão divididos em sentimentos religiosos, uns episcopais, uns quakers, uns anabatistas, uns presbiterianos e uns congregacionais, que não podíamos nos unir no mesmo ato de culto" (tradução minha). Samuel Adams se levantou e disse que não era sectário, e que podia ouvir uma oração de um cavalheiro de piedade e virtude que fosse amigo do seu país. Propôs Jacob Duché, um pastor episcopal. A moção foi aprovada.
É uma cena que serve a todos os lados. Mostra homens que viam a oração como natural, e mostra também que a oração em comum foi discutida justamente porque a religião dividia. E há um final menos conhecido. Duché foi nomeado, em julho de 1776, o primeiro capelão oficial do Congresso. Em outubro de 1777, depois que os ingleses ocuparam Filadélfia, escreveu uma longa carta a George Washington pedindo que ele e o Congresso abandonassem a guerra e buscassem reconciliação. O texto foi condenado como traição, ele fugiu para a Inglaterra no fim de 1777 e só voltou à Filadélfia em 1792. Os historiadores discutem por que ele mudou de lado, e as explicações vão da crise de consciência à pressão da guerra.
17 — O PÚLPITO POLÍTICORomanos 13 dos dois lados
A Bíblia entrou no debate da Revolução principalmente pelo púlpito. O texto que mais pesava era Romanos 13: "Toda a alma esteja sujeita às potestades superiores; porque não há potestade que não venha de Deus" Rm 13.1. Lido sozinho, o versículo parece mandar obedecer ao rei, e a ideia de obediência era o apoio natural dos pastores leais à Coroa. O anglicano Jonathan Boucher, de Maryland, chegou a pregar com um par de pistolas carregadas ao lado, por causa de uma congregação hostil, e voltou para a Inglaterra em 1775.
Do outro lado, a resposta mais lida veio de Boston, anos antes. Em 30 de janeiro de 1750, o pastor Jonathan Mayhew, da Old West Church, pregou um sermão no centenário da execução do rei Carlos I, com o título A Discourse Concerning Unlimited Submission and Non-Resistance to the Higher Powers, "Um discurso sobre a submissão ilimitada e a não resistência às potestades superiores". O texto do sermão era Romanos 13.1-7. Mayhew não negava o versículo: lia o argumento inteiro de Paulo. Para ele, o apóstolo manda obedecer a governantes porque eles são "ministro de Deus para teu bem" Rm 13.4. Logo, o argumento só vale para quem governa para o bem:
"Tiranos comuns e opressores públicos não têm direito à obediência de seus súditos por força de coisa alguma que o apóstolo inspirado estabeleceu aqui." E mais adiante: se o rei "se faz tirano e trata os súditos como presa para devorar e destruir, em vez de encargo para defender e cuidar, estamos obrigados a lançar fora a nossa lealdade a ele e a resistir" (Mayhew, 1750; tradução minha).
O sermão foi um sucesso editorial, impresso em Boston e em Londres. John Adams, relembrando décadas depois, escreveu que ele "foi lido por todos" (citado na biografia de Mayhew; tradução minha). Em 1776, com a guerra aberta, o Congresso marcou um dia geral de jejum, 17 de maio, e o pastor presbiteriano John Witherspoon, presidente do colégio de Nova Jersey (futuro Princeton) e depois o único pastor a assinar a Declaração de Independência, pregou em Princeton The Dominion of Providence over the Passions of Men, "O domínio da Providência sobre as paixões dos homens", a partir de Salmos 76.10: "Certamente a cólera do homem redundará em teu louvor" Sl 76.10. O sermão foi muito reimpresso.
A palavra que a ACF traduz por "potestade" é exousía (ἐξουσία), que o dicionário de Strong define, entre outros sentidos, como "influência delegada" e "magistrado". A palavra "superiores" vem de hyperéchō (ὑπερέχω), "elevar-se acima". E "ministro" em Romanos 13.4 é diákonos (διάκονος), a mesma palavra de "diácono": "um servidor". Mayhew e os leais ao rei liam as mesmas palavras. A diferença estava em qual parte do argumento de Paulo carregava o peso: "não há potestade que não venha de Deus" ou "ministro de Deus para teu bem". Os dois lados tinham versículos e uma pergunta aberta: a que ponto a obediência cessa? Pedro e os apóstolos já tinham respondido a outra pergunta parecida, diante do sinédrio: "Mais importa obedecer a Deus do que aos homens" At 5.29.
Em 1775, o Congresso recomendou o dia 20 de julho como dia de humilhação, jejum e oração em todas as colônias. A oração e o salmo de 1774 não foram casos isolados: a linguagem bíblica era a mais comum no debate público da época, porque era a que todos conheciam. Isso não significa que todo mundo a lesse do mesmo jeito. O que os documentos mostram é um vocabulário comum e conclusões opostas, como no caso de Mayhew e de Boucher.
⚠️ Quando se diz que "a Revolução foi bíblica" ou que "não foi", usa-se um adjetivo grande para um fato complicado. Pastores leais e patriotas citavam as mesmas passagens, e entre os patriotas havia desde pastores como Mayhew e Witherspoon até Paine, que não era ortodoxo. O que dá para afirmar com segurança é que a Bíblia era um dos principais idiomas em que se debateu a independência, e que ela servia aos dois lados.
18 — GIDEÃO, SAMUEL E MOISÉSA Bíblia contra o rei, até no selo
Em janeiro de 1776, Thomas Paine publicou Common Sense, "Senso comum", um panfleto que defendia a independência e foi um dos textos mais lidos da época. Paine não era cristão ortodoxo (anos depois escreveria A Era da Razão), mas sabia que um argumento contra o rei, nas colônias, precisava de Bíblia. Dedicou uma parte do panfleto ao assunto. Escreveu que a autoridade do rei não se sustenta nas Escrituras, "porque a vontade do Todo-poderoso, como declarada por Gideão e pelo profeta Samuel, desaprova expressamente o governo por reis" (tradução minha). E acrescentou que as passagens antimonárquicas da Bíblia "foram muito suavemente encobertas nos governos monárquicos".
As duas cenas são conhecidas. Quando o povo pede a Gideão que reine, ele responde: "Sobre vós eu não dominarei, nem tampouco meu filho sobre vós dominará; o Senhor sobre vós dominará" Jz 8.23. E, quando pedem um rei a Samuel, Deus lhe diz:
Paine lia isso como um protesto de Deus contra a monarquia. Quem lê 1 Samuel 8 inteiro vê que o texto é mais complexo: Deus manda Samuel dar ao povo o rei que pediu, depois de avisá-lo do que o rei fará. A questão aqui é histórica: um dos autores mais lidos da Revolução usou esse texto, e os leitores o entenderam.
O mesmo imaginário chegou ao desenho do selo dos Estados Unidos. Em 4 de julho de 1776, o Congresso nomeou uma comissão (Franklin, Jefferson e Adams) para propor um selo. Benjamin Franklin sugeriu, nas suas palavras, "Moisés de pé na margem, estendendo a mão sobre o mar, fazendo-o submergir o Faraó, que está sentado numa carruagem aberta, com uma coroa na cabeça e uma espada na mão. Raios de uma coluna de fogo nas nuvens chegam a Moisés, para exprimir que ele age por ordem da Divindade", com o lema "A rebelião contra tiranos é obediência a Deus" (tradução minha). Jefferson propôs os filhos de Israel no deserto, guiados pela nuvem de dia e pela coluna de fogo à noite Êx 13.21. Na versão do relatório de 20 de agosto, o desenho de Franklin ficou para o verso do selo, e o Congresso mandou o relatório "ficar sobre a mesa", e nada se decidiu. O selo adotado em 1782 foi outro.
O que sobrou desse episódio é o próprio registro das propostas, nas notas de John Adams e no relatório da comissão, e o desenho do século XIX. A descrição do arquivo do Commons, tirada de um cartaz do Departamento de Estado, diz que Jefferson gostou tanto do lema de Franklin que o usou depois em seu selo pessoal. É um bom exemplo de como a imaginação política dos revolucionários bebeu no Êxodo: o povo oprimido que atravessa o mar e vê o opressor afundar.
⚠️ Um selo proposto e engavetado não prova que os Estados Unidos tenham nascido "como Israel", nem o contrário. Prova que três membros da comissão que redigiu a Declaração acharam natural imaginar a revolução com uma cena do Êxodo, e que o Congresso, ao fim, não quis fixá-la no símbolo oficial.
19 — A BÍBLIA DE AITKENQuando faltou Bíblia
Antes da guerra, a Bíblia em inglês que circulava nas colônias vinha, em geral, da Inglaterra. Em alemão era diferente: em 1743, o impressor Christopher Sauer, de Germantown, na Pensilvânia, publicou a primeira Bíblia impressa na América do Norte em língua europeia, a tradução de Lutero, em tiragem de 1.200 exemplares. Em inglês, a Coroa mantinha restrições ao direito de imprimir a Bíblia. Há notícia de uma edição inglesa feita em Boston em 1752 por Kneeland e Green com um selo falso de Londres, para driblar as regras.
Com a guerra, a importação parou. Em 11 de setembro de 1777, uma comissão do Congresso informou que imprimir Bíblias em casa podia não compensar, pelo custo de tipos e papel, e que "o uso da Bíblia é tão universal, e sua importância tão grande" que o melhor seria importar vinte mil exemplares da Holanda, da Escócia ou de outro lugar (tradução minha). O Congresso se inclinou a importar.
Foi então que entrou em cena o impressor escocês Robert Aitken, da Filadélfia. Em 21 de janeiro de 1781, ele enviou ao Congresso uma petição sobre uma edição da Bíblia que preparava. Em setembro de 1782, os capelães do Congresso, William White e George Duffield, examinaram o trabalho e informaram que estava "com tão poucos erros gramaticais e tipográficos quanto se poderia esperar de uma empreitada de tal vulto" (tradução minha). No dia 12, o Congresso aprovou uma resolução:
"Resolveu-se que os Estados Unidos reunidos em Congresso aprovam fortemente a piedosa e louvável empresa do Sr. Aitken, como útil ao interesse da religião e ao progresso das artes neste país, e, estando satisfeitos, pelo relatório acima, com o seu cuidado e exatidão na execução da obra, recomendam esta edição da Bíblia aos habitantes dos Estados Unidos, e o autorizam a publicar esta recomendação da maneira que julgar conveniente." (Diários do Congresso, 12 de setembro de 1782; tradução minha.)
Foi a primeira, e segundo as fontes a única, edição da Bíblia que levou uma recomendação autorizada pelo Congresso. Costuma ser chamada de "a Bíblia da Revolução". O negócio, porém, deu errado: Aitken contou depois a Washington que perdeu dinheiro, porque, terminada a guerra, voltaram a entrar Bíblias baratas importadas. Em 1783, o pastor John Rodgers sugeriu a Washington que se desse um exemplar a cada soldado desmobilizado, e o general respondeu que "teria me agradado" que o Congresso fizesse um presente tão importante aos soldados, mas a sugestão chegara tarde (tradução minha).
O relatório de 1777 diz que o uso da Bíblia era "tão universal" que a falta dela era assunto de Estado. Lembre o que o capítulo 1 mostrou: a Bíblia era o livro de que as escolas da Nova Inglaterra dependiam para ensinar a ler. Quando a guerra cortou o fornecimento, o Congresso tratou a escassez como problema público, e um impressor da Filadélfia apostou o seu dinheiro numa edição própria.
Dois pastores leram o mesmo capítulo e chegaram a lados diferentes. O que Pedro e os apóstolos disseram ao sinédrio ainda ensina o limite: "Mais importa obedecer a Deus do que aos homens" At 5.29. E o que Paulo disse a Roma Rm 13.4 não é um cheque em branco, mas uma descrição do que o governante deve ser: "ministro de Deus para teu bem". Cada geração precisa ler o capítulo inteiro, e não só o versículo que lhe convém.
LINHA DO TEMPODo sermão de Mayhew à Bíblia do Congresso
Datas pelo calendário atual.
PARA FIXARO que ficou do capítulo
Salmo 35 no Congresso
Adams: "Parecia que o Céu tinha ordenado que aquele salmo fosse lido". Mas a oração quase não aconteceu, porque as igrejas eram divididas.
Romanos 13 dos dois lados
Mayhew (1750) leu Rm 13.4: obediência a quem governa para o bem. Boucher, anglicano leal ao rei, pregou o contrário com pistolas ao lado.
Gideão e Samuel
Paine, que não era ortodoxo, usou Jz 8.23 e 1Sm 8.7 contra a monarquia. Argumento bíblico, mesmo vindo de quem não era ortodoxo.
Moisés no selo
Franklin propôs o Êxodo e o lema "A rebelião contra tiranos é obediência a Deus". O Congresso engavetou.
Bíblia da Revolução
A guerra cortou as importações. Em 1782, o Congresso recomendou a Bíblia de Aitken. Aitken perdeu dinheiro.
Um idioma comum
A Bíblia era o vocabulário político da época e servia a lados opostos. Não dá para dizer que "a Revolução foi bíblica" sem a ressalva.
Próximo capítulo: a Constituição não cita Deus nem a Bíblia, e o Tratado de Trípoli diz que o governo americano "não é, em nenhum sentido, fundado na religião cristã". O que isso significa, e o que não significa, é a pergunta mais debatida deste livro.
Leve este capítulo com você
Baixe o Capítulo 4 — A Revolução e a Bíblia em PDF — diagramado, com as obras de arte e as 4 camadas de estudo, pronto pra ler offline, imprimir ou usar no preparo do sermão.
🔒 PDF do capítulo