Os Estados UnidosCapítulo 8 de 11 ⤓ PDF
Litografia em preto e branco de uma igreja de pedra com frontão triangular, janelas com venezianas e uma cerca de madeira na frente; pessoas passam pela calçada
CAPÍTULO 8 DE 11

As igrejas negras

Richard Allen, Nat Turner, os spirituals e uma Bíblia lida de baixo

Um pregador negro é tirado dos joelhos no meio da oração numa igreja de brancos, e a resposta é sair em bloco e fundar uma igreja. Este capítulo conta o que nasceu dali, a Bíblia que os escravizados liam e cantavam às escondidas, e o que Nat Turner e os spirituals mostram de uma Escritura lida de baixo.

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Filadélfia, por volta de 1787 (a data é discutida), num domingo de manhã. Um grupo de negros, entre eles um pregador, Absalom Jones, entra na igreja metodista de St. George, na rua Quarta. Os negros que frequentavam a igreja já tinham sido tirados dos bancos de costume e postos junto às paredes; agora o sacristão manda todos para a galeria, e eles sobem, achando que vão sentar nos bancos de cima. Começa a oração. Richard Allen, de joelhos, ouve um arrastar e uma voz baixa. Levanta a cabeça e vê um dos curadores da igreja segurando Jones pelo braço e tentando tirá-lo do chão: "Você tem de se levantar; você não pode se ajoelhar aqui." Jones responde: "Espere até acabar a oração." O homem insiste, e chama outro para ajudar. Jones repete: "Espere até acabar a oração, e eu me levanto e não os incomodarei mais." (Richard Allen, Life Experience and Gospel Labors, 1833; tradução minha.)

Allen conta que, quando a oração acabou, "saímos todos da igreja em bloco, e eles não foram mais incomodados conosco na igreja". Não dá a data, e as biografias costumam situar a cena por volta de 1787, ano em que Allen e Jones também fundaram a Sociedade Africana Livre. Este capítulo conta o que nasceu daquele gesto, a Bíblia que os escravizados liam e cantavam quando ninguém os via, uma revolta de escravizados que marcou o Sul e as canções que o ex-escravizado Douglass chamou de "um testemunho contra a escravidão".

35 — BETELDo joelho à igreja de Allen

Richard Allen nasceu escravizado em 1760, propriedade de Benjamin Chew, da Filadélfia, e foi vendido com a família para perto de Dover, em Delaware. Converteu-se, entrou numa sociedade metodista e, segundo as biografias, comprou a própria liberdade em 1780, trabalhando além do horário. Chegou à Filadélfia em 1786, e passou a pregar ao amanhecer em St. George. Viu que os africanos da cidade, "um povo longamente esquecido", quase não iam ao culto, e começou a pregar nas praças e a fundar reuniões de oração; juntou uma sociedade de quarenta e dois membros. Quando propôs construir um lugar de culto para os negros, encontrou oposição, inclusive de ministros brancos que, nas palavras dele, usaram "linguagem degradante e insultante" para impedir (tradução minha).

Allen, Absalom Jones e outros alugaram um depósito e fizeram o culto ali. Procuraram o médico Benjamin Rush e o comerciante Robert Ralston, que, segundo Allen, "se compadeceram" da situação e subscreveram "generosamente" a obra. A igreja foi inaugurada com Francis Asbury, o bispo metodista, pregando. Um pastor orou para que ela fosse "um Betel", e o nome pegou. Allen, em nota de rodapé, remete a Gênesis 28, onde Jacó, depois do sonho da escada, "chamou o nome daquele lugar Betel" Gn 28.19. A briga com a Igreja Metodista, que queria a posse do prédio, ainda foi longa. O resultado foi a Igreja Metodista Episcopal Africana, a AME, a primeira denominação independente de negros nos Estados Unidos, organizada em 1816, com Allen eleito o primeiro bispo.

Absalom Jones tomou outro caminho, e fundou, em 1794, a primeira congregação episcopal negra do país, a Igreja Africana de St. Thomas, e foi o primeiro afro-americano ordenado sacerdote na Igreja Episcopal.

Em 15 de janeiro de 1817, uma assembleia de negros livres reunida na Betel, em Filadélfia, rejeitou o plano de mandar os libertos para a África e declarou: "Nunca nos separaremos voluntariamente da população escrava deste país; eles são nossos irmãos pelos laços do sangue, do sofrimento e da injustiça, e sentimos que há mais virtude em sofrer privações com eles do que vantagens imaginárias por uma temporada" (tradução minha).

🔎 A palavra original

"Betel" é o hebraico Bêyth-ʼÊl (בֵּית־אֵל), "casa de Deus", como define Strong. Em Gênesis 28, é o lugar onde Jacó, fugindo do irmão, dorme com uma pedra de travesseiro e vê a escada. Ao acordar, diz que "este não é outro lugar senão a casa de Deus", e o nome da cidade, "antes Luz", é trocado. Para um grupo que acabara de ser arrancado dos joelhos numa igreja, o nome sugere que a casa de Deus podia estar onde eles estivessem.

Retrato a óleo de Absalom Jones, de beca preta e colarinho clerical branco, com a mão apoiada sobre um grande livro, diante de uma cortina vermelha
Absalom Jones (1746–1818) — retrato de Raphaelle Peale (1810), Delaware Art Museum. Domínio público.
🏺 O que o arquivo diz

Allen comprou um terreno na rua Sexta, perto da Lombard, para construir a igreja (as fontes divergem quanto ao ano). A igreja afirma que é hoje a mais antiga parcela de terra dos Estados Unidos continuamente de propriedade de afro-americanos; o lugar é ocupado pela Mother Bethel AME Church. A Sociedade Africana Livre, que Allen e Jones fundaram em 1787, foi uma entidade de ajuda mútua não confessional, que amparava também fugitivos do Sul e recém-chegados.

⚠️ A data do episódio de St. George é discutida, porque o relato de Allen é escrito décadas depois e não a traz. A cena em si, a oração interrompida, é a que o próprio Allen conta.

36 — A INSTITUIÇÃO INVISÍVELLer, orar e batizar longe dos olhos do senhor

A maioria dos negros dos Estados Unidos, até 1865, não estava na Filadélfia, mas em fazendas do Sul. O historiador Albert Raboteau deu o nome de "instituição invisível" (Slave Religion, 1978) à vida religiosa que os escravizados mantinham fora das vistas dos senhores: reuniões de noite, canto, oração, leitura. Quem sabia ler era valioso e perigoso. Douglass conta, na Narrativa, que em St. Michael's, onde morava, um jovem branco, o Sr. Wilson, propôs manter uma escola dominical para os escravizados que quisessem aprender a ler o Novo Testamento. Reuniram-se só três vezes: dois líderes de classe metodistas, Sr. West e Sr. Fairbanks, apareceram "com paus e outros projéteis", expulsaram os alunos e proibiram a reunião. "Assim terminou a nossa pequena escola dominical", escreve ele, "na pia cidade de St. Michael's" (tradução minha).

As igrejas brancas do Sul também acolhiam negros, como membros, nos bancos reservados. Mas as congregações negras eram, em muitos lugares, grandes. Uma delas, a Igreja Batista Gillfield, em Petersburg, na Virgínia, tinha em 1821 o maior rol de membros da sua associação, quatrocentos e quarenta e um, mais que o dobro da segunda igreja, e, antes de 1831, tinha um pregador negro. Depois da revolta de Nat Turner, a legislatura mandou que homens brancos supervisionassem as congregações negras, e a Gillfield só pôde chamar de novo um pregador negro depois da Guerra Civil.

37 — NAT TURNERUm pregador, uma Bíblia e uma revolta

Nat Turner nasceu escravizado em 1800, no condado de Southampton, na Virgínia. Era carpinteiro e pregador, conhecido entre os escravizados como "o Profeta". A partir de 21 de agosto de 1831, chefiou uma revolta que durou poucos dias (as fontes falam em dois a quatro), em que morreram cerca de cinquenta e cinco pessoas brancas. Milícias e grupos armados mataram, em represália, de 36 a 120 negros segundo as estimativas mais citadas (estudos recentes falam de 23 a mais de 200), muitos sem relação com a revolta. Turner foi capturado em outubro e enforcado em 11 de novembro, em Jerusalem, a sede do condado. Antes disso, contou sua história ao advogado Thomas R. Gray, que a publicou, em novembro de 1831, como The Confessions of Nat Turner.

É um texto difícil, e deve ser lido com cuidado. Quem o escreveu e publicou foi Gray, e os historiadores discutem o quanto ele moldou as palavras de Turner. Dentro desse limite, o que o texto diz sobre a Bíblia é central. Turner conta que aprendeu a ler muito cedo, "sem lembrar de ter aprendido o alfabeto". Depois, já adulto, ouvindo as Escrituras comentadas nas reuniões, foi tocado por uma passagem: "Buscai o reino do céu, e todas as coisas vos serão acrescentadas" (tradução minha, do texto de Gray), que lembra Lucas 12.31 e Mateus 6.33. Orando no arado, ouviu o Espírito repetir a frase. O interrogador pergunta o que ele quer dizer com "o Espírito", e ele responde: "O Espírito que falou aos profetas nos dias antigos". Mais tarde, quando os brancos não quiseram que fossem batizados pela igreja, ele e um homem branco, Etheldred T. Brantley, que se convertera, "desceram juntos à água" (tradução minha).

"Mas, buscai primeiro o reino de Deus, e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas." Mateus 6.33

O texto mostra um leitor da Bíblia convencido de uma vocação. A revolta acabou com a morte de dezenas de brancos e com uma repressão que atingiu muitos negros sem relação com ela. O livro não faz aqui juízo moral: registra o que os documentos dizem e uma consequência, a de que as autoridades passaram a exigir homens brancos nos cultos de negros, como se viu em Petersburg.

38 — OS SPIRITUALSMoisés, o Jordão e a "terra de Canaã"

O que os escravizados cantavam era, em boa parte, a Bíblia. Douglass escreveu, em 1845, sobre as canções que ouvia quando criança: "Não entendi, quando escravo, o sentido profundo daquelas canções rústicas e aparentemente incoerentes. [...] Cada tom era um testemunho contra a escravidão, e uma oração a Deus pedindo livramento das correntes" (tradução minha). E, anos depois, em My Bondage and My Freedom (1855), contou como a letra de uma canção podia ter dois sentidos. O grupo de que ele fazia parte, planejando uma fuga, cantava "Ó Canaã, doce Canaã, vou para a terra de Canaã". Um observador atento, escreve ele, podia detectar "algo mais que a esperança de chegar ao céu": "Pretendíamos chegar ao Norte, e o Norte era a nossa Canaã" (tradução minha).

A mais conhecida é "Go Down, Moses". Ela se apoia em Êxodo 5.1: "Assim diz o SENHOR Deus de Israel: Deixa ir o meu povo" Êx 5.1. O refrão inglês é "Tell old Pharaoh, let my people go", e a sua versão impressa mais antiga conhecida vem de 1861–62, quando o capelão Lewis Lockwood ouviu fugitivos cantando-a em Fort Monroe, na Virgínia, a transcreveu e publicou, e logo saiu uma partitura, "Oh! Let My People Go: The Song of the Contrabands". É considerada o primeiro spiritual conhecido em partitura. Em 1867, a coletânea Slave Songs of the United States reuniu cantos com letra e melodia, e os cantores de Fisk, os Jubilee Singers, publicaram "Go Down, Moses" em 1872.

Página de rosto do livro Slave Songs of the United States, de 1867, com o título e os nomes dos editores
Slave Songs of the United States — página de rosto, editores William F. Allen, Charles P. Ware e Lucy McKim Garrison (Nova York, 1867). Domínio público.
👁️ Como era viver ali

Douglass, que cresceu na plantação do coronel Lloyd, conta que não entendia o sentido daquelas canções enquanto era escravizado, porque estava "dentro do círculo". Escreve que aquelas "notas selvagens" sempre deprimiam o seu espírito e o enchiam de "uma tristeza indizível", e que foi por elas que chegou ao seu "primeiro vislumbre" do caráter desumanizador da escravidão (tradução minha). Para quem não sabia ler, a Bíblia chegava, em boa parte, por canções como essas, com o Êxodo no centro: um povo escravizado, um Deus que ouve, um rio para atravessar.

🌱 Semente de sermão

Antes de Moisés, Deus diz: "Tenho visto atentamente a aflição do meu povo, que está no Egito, e tenho ouvido o seu clamor por causa dos seus exatores" Êx 3.7. Quem canta "Let my people go" sabe que o primeiro movimento é de Deus: ele já viu e já ouviu. E a carta aos Hebreus manda ainda hoje: "Lembrai-vos dos presos, como se estivésseis presos com eles" Hb 13.3.

LINHA DO TEMPODe Betel aos Jubilee Singers

Datas pelo calendário atual.

1760 e 1780 — Richard Allen
Nasce escravizado (1760) e, segundo as biografias, compra a liberdade em 1780.
c. 1787 — St. George e a Sociedade Africana Livre
Allen e Absalom Jones saem da igreja onde Jones foi tirado dos joelhos (data discutida) e fundam a Sociedade Africana Livre.
1794 — Betel e St. Thomas
📖 Allen inaugura a igreja Betel (Gn 28.19); Jones funda a primeira congregação episcopal negra.
1816 — Igreja AME
A Igreja Metodista Episcopal Africana é organizada, com Allen como primeiro bispo.
agosto de 1831 — Nat Turner
📖 Revolta de poucos dias em Southampton; Turner é enforcado em 11 de novembro.
1845 e 1855 — Douglass sobre as canções
📖 "Cada tom era um testemunho contra a escravidão" e "o Norte era a nossa Canaã".
1861–1862 — "Oh! Let My People Go"
📖 Primeira partitura de um spiritual, de fugitivos em Fort Monroe (Êx 5.1).
1867 e 1872 — Slave Songs e Jubilee Singers
Coletânea de cantos e publicação de "Go Down, Moses" pelos cantores de Fisk.

PARA FIXARO que ficou do capítulo

🙏

"Espere até acabar a oração"

Absalom Jones, tirado dos joelhos em St. George. Os negros saíram em bloco e fundaram sua igreja.

🏛️

Betel, 1794

Allen funda a Bethel, "casa de Deus" Gn 28.19, e em 1816 a Igreja AME, a primeira denominação negra independente.

🕯️

Instituição invisível

Reuniões noturnas, canto, leitura e batismo longe dos senhores. Depois de 1831, leis restringiram a pregação negra.

📜

Nat Turner

Leitor da Bíblia, pregador e líder de uma revolta de poucos dias. O texto vem de Gray, e deve ser lido com cuidado.

🎶

Spirituals

Êxodo e Jordão como código. "O Norte era a nossa Canaã" (Douglass, 1855).

🌊

A Bíblia lida de baixo

Para quem era escravizado, o Êxodo era um livro de esperança: "Tenho visto atentamente a aflição do meu povo" Êx 3.7.

Próximo capítulo: Los Angeles, abril de 1906. Num velho prédio da rua Azusa, que fora uma igreja metodista africana e depois um estábulo, um pregador negro, filho de ex-escravizados, dirige um culto. É o início do pentecostalismo moderno.

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