Dayton, Tennessee, segunda-feira, 20 de julho de 1925. No meio do julgamento de um professor de ensino médio, o juiz John Raulston interrompe a sessão: "Receio pelo prédio. O tribunal vai se reunir lá embaixo, no gramado" (transcrição oficial do julgamento; tradução minha). Lá fora, a defesa chama ao banco das testemunhas William Jennings Bryan, três vezes candidato à presidência e auxiliar da acusação, e o advogado Clarence Darrow passa a interrogá-lo sobre a Bíblia. Darrow pergunta se ele sustenta que tudo na Bíblia deve ser interpretado literalmente. Bryan responde: "Creio que tudo na Bíblia deve ser aceito como está dado ali; algumas partes são dadas de modo ilustrativo. Por exemplo: 'Vós sois o sal da terra.' Eu não insistiria em que o homem fosse de fato sal" (tradução minha).
Esse diálogo de gramado resume uma pergunta que atravessa o século XX americano: o que quer dizer ler a Bíblia "ao pé da letra", e quem decide o que é figura? Este capítulo conta como se chegou a Dayton, desde Moody e a Bíblia de Scofield, o que os historiadores discutem sobre o fundamentalismo depois do julgamento, como o rádio e a televisão levaram sermões a casas de todo o país e por que o "evangelho da prosperidade" e as megaigrejas aparecem nessa história. Dá fatos e datas, mostra as posições em debate e não faz juízo doutrinário.
45 — DAYTONUma lei, um professor e um interrogatório
Em 21 de março de 1925, o governador do Tennessee assinou a Lei Butler. Ela proibia professores das escolas públicas do estado de "ensinar qualquer teoria que negue a história da Criação Divina do homem, tal como ensinada na Bíblia", e de ensinar, em vez dela, que o homem descende de uma ordem inferior de animais (tradução minha). A multa ia de 100 a 500 dólares por infração. A União Americana pelas Liberdades Civis (ACLU) tinha oferecido defender quem fosse acusado, e em Dayton o caso foi armado, segundo os historiadores, para dar notoriedade à cidade. O acusado foi John T. Scopes, professor de ensino médio, que, segundo os relatos, não tinha certeza de haver mesmo ensinado evolução. O historiador Edward Larson, vencedor do Prêmio Pulitzer com Summer for the Gods, observa que o julgamento "começou como um golpe publicitário" (tradução minha).
O processo correu de 10 a 21 de julho de 1925. Bryan, ex-secretário de Estado, auxiliou a acusação. Darrow, célebre advogado trabalhista e criminalista, defendeu. A rádio WGN, de Chicago, transmitiu o julgamento, o primeiro dos Estados Unidos a ser transmitido por rádio em âmbito nacional. No dia seguinte ao interrogatório, o juiz decidiu que o diálogo todo era irrelevante para o caso e o riscou do registro. Em 21 de julho, o júri declarou Scopes culpado, e ele foi multado em 100 dólares. Bryan morreu cinco dias depois. Em 1927, a Suprema Corte do Tennessee manteve a lei, mas anulou a condenação por um detalhe técnico: a multa devia ter sido fixada pelo júri, e não pelo juiz. A Lei Butler foi revogada em 1967.
A transcrição do interrogatório de Bryan foi publicada em 1925 e é domínio público. Nela, Darrow pergunta como Bryan interpreta "literalmente" a história de Jonas. Bryan diz que o texto fala em "um grande peixe", e não em baleia, e que crê "num Deus que pode fazer uma baleia e pode fazer um homem e fazer os dois fazerem o que lhe agrada". Depois acrescenta: "Um milagre é tão fácil de crer quanto outro" (tradução minha). Perguntado se o peixe foi preparado especialmente para isso, responde que "a Bíblia não diz". Nessas respostas, Bryan distingue figura de letra e diz não saber o que o texto não diz.
⚠️ Os jornais da época e obras feitas depois, como a peça Inherit the Wind (1955) e o filme de 1960, moldaram a lembrança do julgamento. A transcrição é a fonte mais direta que se tem, e é nela que este livro se apoia.
46 — DE MOODY A SCOFIELDO caminho até os "fundamentos"
Dayton não surgiu do nada. Em 1886, o evangelista Dwight L. Moody, que morreria em 1899, ajudou a fundar em Chicago uma sociedade para formar obreiros cristãos, que depois da sua morte passou a se chamar Instituto Bíblico Moody. Nas conferências bíblicas de Niagara, que se reuniram até 1897, na pregação de Moody e nos institutos bíblicos, espalhou-se nos Estados Unidos uma forma de ler a Bíblia dividida em eras, o dispensacionalismo, que o inglês John Nelson Darby, dos Irmãos de Plymouth, tinha sistematizado no século XIX. Em 1909, a editora da Universidade de Oxford publicou a Scofield Reference Bible, com o texto da versão King James e as notas de Cyrus I. Scofield ao lado do texto. Tornou-se uma das Bíblias de estudo mais difundidas dos Estados Unidos no século XX. Scofield definiu uma "dispensação" como "um período de tempo durante o qual o homem é testado quanto à obediência a alguma revelação específica da vontade de Deus" (tradução minha), e a revisão de 1917 acrescentou datas. As tradições reformadas tendem a rejeitar o sistema.
Entre 1910 e 1915, dois irmãos, Lyman e Milton Stewart, empresários do petróleo da Califórnia, financiaram The Fundamentals: A Testimony to the Truth, noventa ensaios em doze volumes. Segundo as estimativas correntes, cerca de três milhões de volumes foram enviados de graça a pastores, missionários, professores de teologia e outros obreiros protestantes. Em 1910, a Assembleia Geral da Igreja Presbiteriana nos Estados Unidos aprovou uma declaração de cinco doutrinas "essenciais e necessárias": a inspiração da Bíblia e, por consequência, sua inerrância; o nascimento virginal de Cristo; a morte de Cristo como expiação do pecado; a ressurreição corporal; e a realidade histórica dos milagres. Em 1920, o editor batista Curtis Lee Laws propôs, no Watchman-Examiner, que quem lutava pelos "fundamentos" fosse chamado de "fundamentalista".
Nos debates sobre a inspiração da Escritura, o texto mais citado é 2 Timóteo 3.16: "Toda a Escritura é divinamente inspirada". O adjetivo grego é theópneustos (θεόπνευστος), definido por Strong como "divinamente soprado para dentro". Ele aparece só aqui em todo o Novo Testamento. As discussões sobre a inerrância passam pelo que decorre dessa palavra: alguns entendem que ela afirma a ausência de erro em tudo o que a Escritura toca; outros, que ela afirma a autoridade da Escritura para o fim que o próprio versículo declara, ensinar, redarguir, corrigir e instruir em justiça.
Do outro lado, havia quem lesse as mesmas Escrituras sem os cinco pontos. Em 21 de maio de 1922, o pastor batista Harry Emerson Fosdick pregou na Primeira Igreja Presbiteriana de Nova York "Shall the Fundamentalists Win?", sobre Gamaliel e o conselho de tolerância de Atos 5.38-39. Disse que os fundamentalistas "veem, e veem com razão, que nesta última geração houve movimentos estranhos no pensamento cristão", mas que o programa deles era "essencialmente iliberal e intolerante" (tradução minha). O pastor presbiteriano Clarence Macartney respondeu com "Shall Unbelief Win?", e, em 1923, o teólogo J. Gresham Machen, de Princeton, publicou Christianity and Liberalism, em que sustentava que o liberalismo era incompatível com o cristianismo histórico. Os dois lados apelavam às Escrituras.
47 — DEPOIS DE DAYTONRecuo, reorganização e o nome "evangélico"
A imagem mais conhecida do pós-Dayton é a de um fundamentalismo humilhado que se retirou da vida pública. Ela se apoia, em parte, na peça Inherit the Wind (1955) e no filme de 1960. Mark Edwards contesta essa leitura: para ele, a maioria dos fundamentalistas viu o julgamento como vitória, e o recuo veio depois, com a morte de Bryan, que deixou um vazio de liderança. Outros historiadores, como Joel Carpenter, em Revive Us Again (1997), descrevem os anos 1930 e 1940 como de construção: institutos bíblicos, editoras, rádio e conferências. George Marsden, em Fundamentalism and American Culture (1980), descreveu o fundamentalismo como um evangelicalismo protestante militantemente contrário ao modernismo teológico.
⚠️ As três leituras não se excluem necessariamente. O que as fontes mostram é que o rótulo "fundamentalista" passou a abrigar gente muito diferente, e que alguns, de dentro, quiseram sair dele sem abrir mão da Bíblia.
Em abril de 1942, 147 pessoas se reuniram em St. Louis e fundaram a Associação Nacional de Evangélicos (NAE), em parte para sair do isolamento que a controvérsia fundamentalista-modernista tinha trazido a várias denominações. Em 1947, Carl F. H. Henry publicou The Uneasy Conscience of Modern Fundamentalism, em que mantém o foco doutrinário na Bíblia, mas critica a rigidez e a ausência de interesse pela sociedade. No mesmo ano, o pregador de rádio Charles E. Fuller e Harold Ockenga, pastor da igreja Park Street, de Boston, fundaram em Pasadena o Seminário Teológico Fuller, que queria reformar a postura separatista e, em alguns momentos, antiintelectual do fundamentalismo. Em outubro de 1956 saiu o primeiro número de Christianity Today, fundada por Billy Graham, com Henry como primeiro editor.
O historiador David Bebbington propôs quatro marcas do evangelicalismo, que chama de "quadrilátero": conversionismo (a necessidade de nascer de novo), biblicismo, crucicentrismo (a centralidade da cruz) e ativismo. A crítica de Carl Henry, em 1947, não se dirigia à Bíblia: ele mantinha o foco doutrinal nela e criticava a rigidez e o desinteresse dos fundamentalistas pela sociedade. O quadrilátero de Bebbington ajuda a ver que a Bíblia (o "biblicismo") era comum aos dois lados.
48 — A VOZ NO ARDo púlpito ao microfone e à tela
O rádio chegou aos púlpitos quase junto com os aparelhos. Em 2 de janeiro de 1921, a KDKA, de Pittsburgh, transmitiu o culto da noite da Igreja Episcopal Calvary, na primeira transmissão externa ao vivo da emissora, segundo o jornal local. Em Chicago, Paul Rader pregava numa grande tenda, a Steel Tent, e o Instituto Bíblico Moody mantinha a estação WMBI. Em Los Angeles, Aimee Semple McPherson lançou em 1924 a KFSG, a estação do Angelus Temple, a igreja que ela fundou. Nos anos 1930, a Lutheran Hour, de Walter Maier, e a Old Fashioned Revival Hour, de Charles Fuller, já eram vozes conhecidas no rádio.
Houve, porém, um conflito. As redes de rádio davam tempo gratuito, o chamado "tempo de serviço público" (sustaining time), aos conselhos de igrejas reconhecidos: católicos, judeus e o Conselho Federal de Igrejas, de linha protestante tradicional. Em 1943, segundo a própria Associação Nacional de Radiodifusores Religiosos (NRB), o Conselho Federal apoiou regras que, na prática, tiravam das redes os radiodifusores evangélicos que pagavam por seu horário, e as redes as adotaram. Cerca de 150 radiodifusores e líderes cristãos responderam e, em 1944, fundaram a NRB, em Chicago. A mesma fonte diz que, em 1949, a nova rede ABC aceitou de novo a compra de horário para programas religiosos, e as outras seguiram. Essa é a versão da NRB, que é parte interessada. O quadro geral, de redes que privilegiavam as igrejas tradicionais e de evangélicos obrigados a comprar tempo, é também o que o estudioso Peter Horsfield descreve para a televisão.
Para a televisão, Horsfield (1984) mostra que os programas das igrejas reconhecidas ficaram com o tempo gratuito, e que os grupos evangélicos e fundamentalistas independentes tiveram de comprar horário e levantar dinheiro entre os telespectadores. Em 1959, 53% de todo o tempo religioso na TV americana era de programas que compravam o horário. Rex Humbard começou a transmitir o culto de sua igreja de Akron, no Ohio, em 1953, e Oral Roberts iniciou em 1954 uma série de reavivamento. O número de programas evangélicos independentes sindicalizados passou de 38, em 1970, para 72, em 1978. A partir de 1960, grupos evangélicos começaram a comprar e a montar emissoras próprias de televisão, e, em 1978, havia cerca de trinta emissoras religiosas. Paralelamente, o bispo católico Fulton Sheen teve, entre 1952 e 1957, uma audiência alta em horário nobre, com patrocínio comercial, só com uma lousa e uma aula.
Billy Graham apresentou o programa de rádio Hour of Decision a partir de 1950 e esteve na televisão por seis décadas. Em 1957, a campanha de Nova York, no Madison Square Garden, durou dezesseis semanas.
Segundo Horsfield, nos anos 1950 bares sintonizavam o programa de Sheen e taxistas paravam o trabalho por meia hora para vê-lo. Numa transmissão, Sheen comentou de passagem que gostava de biscoitos de chocolate, e o escritório dele recebeu pacotes de biscoitos pelo correio. Em 1977, convidado à convenção da NRB, recebeu aplausos de pé dos radiodifusores protestantes conservadores. Os programas pagos pelo próprio público, que dominaram o ar nos anos 1960 e 1970, ganharam o apelido de "igreja eletrônica".
49 — PROSPERIDADE E MEGAIGREJASUm debate sobre a Bíblia e o dinheiro
Segundo a historiadora Kate Bowler, em Blessed: A History of the American Prosperity Gospel (2013), o chamado "evangelho da prosperidade" formou-se do encontro de três correntes: a carismática, o pensamento "New Thought" e um "evangelho americano de pragmatismo, individualismo e ascensão social". Os resumos da literatura situam sua notoriedade nos reavivamentos de cura dos anos 1950 e, depois, na televisão dos anos 1980. Seus defensores o apresentam como o resgate de uma doutrina verdadeira e leem as promessas de bênção do Antigo Testamento como válidas para os cristãos. Entre os textos mais citados estão 3 João 2, Malaquias 3.10 e João 10.10.
Em outubro de 2010, mais de 4.000 líderes cristãos de 198 países se reuniram na Cidade do Cabo, na África do Sul, no Congresso Lausanne, e o documento final, o Compromisso da Cidade do Cabo, tratou do tema. Ele afirma que "há uma visão bíblica do prosperar humano" e que a Bíblia inclui o bem-estar material, saúde e riqueza, em seu ensino sobre a bênção de Deus, mas nega que "a riqueza seja sempre sinal da bênção de Deus" e que "a pobreza, a doença ou a morte prematura sejam sempre sinal da maldição de Deus" (tradução minha). O documento vai além: rejeita o que chama de "excessos" do ensino, que considera incompatíveis com o cristianismo bíblico equilibrado, e pede que líderes interpretem os textos usados em apoio a ele "em seu contexto bíblico pleno e em equilíbrio adequado" (tradução minha). É uma posição do Movimento Lausanne e de seus signatários, e não do autor deste livro.
⚠️ O termo "evangelho da prosperidade" é de uso corrente na literatura e nas declarações de igrejas, mas as definições variam. O Compromisso da Cidade do Cabo, por exemplo, o define como o ensino de que os crentes têm direito às bênçãos de saúde e riqueza e podem obtê-las por confissões positivas e por "sementes" financeiras. Quem estuda o assunto deve perguntar, de cada pregador, o que ele de fato ensina, e não aceitar o rótulo.
As megaigrejas são outra transformação do período. O Instituto Hartford de Pesquisa Religiosa define como megaigreja a congregação protestante que reúne ao menos 2.000 pessoas num fim de semana. O fenômeno cresceu depois dos anos 1950 nos Estados Unidos, e suas igrejas costumam ficar nos subúrbios das grandes cidades, perto de rodovias, e oferecer atividades educativas e sociais.
Paulo disse aos filipenses que aprendera a viver nas duas situações: "Sei estar abatido, e sei também ter abundância", e "tanto a ter fartura, como a ter fome" Fp 4.12. O texto não prega pobreza nem riqueza, mas o contentamento de quem foi "instruído" em ambas. Quem o prega pode perguntar o que sustenta esse contentamento nos dois estados, e ler junto 1 Timóteo 6.9-10 e a promessa de 3 João 2.
LINHA DO TEMPODe Moody a Cabo
Datas pelo calendário atual.
PARA FIXARO que ficou do capítulo
O gramado de Dayton
Bryan diz que tudo na Bíblia deve ser aceito como está dado, mas que parte é "ilustrativa", como "Vós sois o sal da terra".
Scofield, 1909
King James com notas ao lado do texto; define "dispensação" e populariza uma leitura da Bíblia em eras.
Os cinco pontos
Inspiração e inerrância, nascimento virginal, expiação, ressurreição corporal e milagres (1910) 2Tm 3.16.
Fosdick e Machen
Dois sermões e um livro (1922–1923) mostram duas formas de ler a mesma Bíblia, e uma pergunta sobre tolerância.
Rádio e TV
1921: KDKA; 1944: NRB; 1959: 53% do tempo religioso na TV era pago. Nasce a "igreja eletrônica".
Bíblia e dinheiro
Textos de um lado e do outro Fp 4.12; o documento de 2010 afirma e nega ao mesmo tempo.
Próximo capítulo: os missionários que saíram dos Estados Unidos com a Bíblia na bagagem, a ponte para o Brasil, e o que uma história de quatro séculos deixa para quem lê a Escritura hoje.
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