Cane Ridge, Kentucky, agosto de 1801. Milhares de pessoas se juntam ao redor de uma casa de culto de troncos. Pregadores de três denominações falam ao mesmo tempo, em lugares diferentes do acampamento, alguns de cima de tocos, de carroças e de troncos caídos. Barton Stone, o pastor da casa, escreveria anos depois o que viu. Gente de todas as idades e condições, "do filósofo ao palhaço", caía, com um grito agudo, "como um tronco no chão, na terra ou na lama", e parecia morta. Num dos encontros que ele descreve, duas moças, irmãs, caíram com um grito e ficaram mais de uma hora aparentemente sem vida; depois, a sombra no rosto de uma delas deu lugar a um "sorriso celestial", e ela gritou: "Precioso Jesus!" (Autobiografia de Barton Stone, 1847; tradução minha).
Este capítulo conta o Segundo Grande Despertamento: o acampamento de Cane Ridge, o pregador que acreditava que um avivamento se pode planejar, a sociedade que quis pôr uma Bíblia em cada casa e um lexicógrafo que, em 1833, revisou a Bíblia do rei Tiago. E conta uma briga que também faz parte da história: de quem era a Bíblia da escola pública.
25 — CANE RIDGEUma comunhão que virou acampamento
O encontro começou como uma "festa de comunhão", herança da Escócia: um período de vários dias, com pregação, jejum e a Ceia no domingo. A igreja presbiteriana de Cane Ridge, onde Stone era pastor, convidou outras igrejas locais, e vieram ministros presbiterianos, metodistas e batistas. De 6 a 12 ou 13 de agosto de 1801, segundo a Encyclopedia of the Stone-Campbell Movement, o lugar recebeu entre dez e vinte mil pessoas. Outras fontes dão mais, até vinte e cinco ou trinta mil, mas essa mesma enciclopédia acha pouco provável que mais de dez mil estivessem ali ao mesmo tempo. O número mais firme é o de comungantes: uma estimativa de oitocentos a mil e cem pessoas receberam a Ceia.
Stone deixou uma descrição detalhada dos "exercícios" que viu: a queda, as "sacudidelas" (jerks, em que a cabeça ou o corpo todo era sacudido tão depressa que o rosto não se distinguia), a dança, o riso, a corrida e o canto "que vinha do peito". Ele conta que o latido, de que os adversários zombavam, "não passava das sacudidas". O estudo de Paul Conkin sobre o encontro se chama Cane Ridge: America's Pentecost (1990), "Cane Ridge: o Pentecostes da América", e o título já diz como muitos o viram.
Como explicar essas cenas é uma questão de fé e de interpretação, e os relatos costumam trazer a marca de quem estava a favor ou contra. Este livro não decide a questão. Descreve o que há nos documentos: o tamanho, a duração, as cenas anotadas por quem esteve lá e a onda de acampamentos semelhantes que, segundo os historiadores, se seguiu pela fronteira.
Em Cane Ridge, vários ministros pregavam ao mesmo tempo, em pontos diferentes do acampamento, usando como plataforma tocos, carroças e troncos caídos, porque a casa de culto era pequena demais para a multidão. A síntese dos historiadores sobre os acampamentos da fronteira é que eles eram também encontros sociais, e que, para muitos colonos de regiões pouco povoadas, foram o primeiro contato com a religião organizada.
26 — A BÍBLIA NAS MÃOS DE TODOSStone, Springfield e a Bíblia como único guia
Depois de Cane Ridge, Stone e quatro outros ministros presbiterianos romperam com o Sínodo de Kentucky, em setembro de 1803, alegando o direito de interpretar as Escrituras sem a Confissão de Fé como árbitro. Em 28 de junho de 1804, assinaram um documento que tem humor e programa: The Last Will and Testament of the Springfield Presbytery, "O último testamento do Presbitério de Springfield". Nele, o presbitério "morre" e se dissolve. Entre as "disposições" do testamento:
"Queremos que este corpo morra, se dissolva e se funda na união com o Corpo de Cristo em geral." E: "Queremos que o nosso poder de fazer leis para o governo da igreja [...] cesse para sempre, para que o povo tenha livre curso à Bíblia." E, no fim: "Queremos que o povo, de agora em diante, tome a Bíblia como o único guia seguro para o céu." (Testamento do Presbitério de Springfield, 1804; tradução minha.)
É o princípio da Escritura como regra de fé, levado ao limite de uma igreja sem hierarquia. Dali saiu a "Igreja Cristã" de Stone, que depois se juntou ao grupo de Alexander Campbell no movimento de Restauração, de que vêm as igrejas de Cristo e os Discípulos de Cristo. O que importa para este livro é o clima. O historiador Nathan Hatch, em The Democratization of American Christianity (1989), sustenta que o Segundo Despertamento deu poder a gente comum, a pregadores sem formação universitária e a movimentos que desconfiavam das autoridades, e que isso mudou o cristianismo americano. Os metodistas, com seus pregadores itinerantes, e os batistas, com seus pastores locais, passaram a pesar muito mais, em número, que as igrejas dominantes do período colonial: anglicanos, presbiterianos e congregacionais. Do mesmo ambiente saíram também novos movimentos, como os Santos dos Últimos Dias (1830) e os adventistas, entre outros.
O texto que justifica "ler por conta própria" é o dos bereanos: "Ora, estes foram mais nobres do que os que estavam em Tessalônica, porque de bom grado receberam a palavra, examinando cada dia nas Escrituras se estas coisas eram assim" At 17.11. O verbo "examinar" é anakrínō (ἀνακρίνω), que o dicionário de Strong define como "examinar de perto, isto é, investigar, interrogar, determinar". A ênfase de Lucas não está em desconfiar de Paulo, e sim em conferir cada dia. O testamento de Springfield usa a mesma ideia, de pôr a Bíblia no centro, e leva-a mais longe: dispensa as confissões.
27 — FINNEYO avivamento como "resultado filosófico"
Em 1821, Charles Finney, um advogado de Nova York de 29 anos, teve uma conversão dramática, deixou a advocacia e se tornou pregador presbiteriano. Entre 1825 e 1835 pregou em cidades do interior e em Manhattan, e em 1830–31 conduziu um avivamento em Rochester, Nova York, que inspirou outros. Um pastor convertido ali descreveu que "a comunidade toda foi sacudida", que "o único teatro da cidade foi transformado em estábulo de aluguel e o único circo em fábrica de sabão e velas" (citado nas biografias; tradução minha).
Finney levou ao culto práticas novas: mulheres orando em voz alta em reuniões mistas, o "banco dos ansiosos" onde os que pensavam em se converter se sentavam para receber oração, e a censura de pessoas pelo nome em sermões e orações. Seus críticos, entre eles os pastores Lyman Beecher e Asahel Nettleton, escreveram contra essas "novas medidas" já em 1827–1828. E o próprio Finney escreveu, em 1835, nas suas Lectures on Revivals of Religion:
"Um avivamento não é um milagre, nem depende de milagre, em nenhum sentido. É um resultado puramente filosófico do uso correto dos meios constituídos." (Finney, 1835; tradução minha.)
A frase foi muito criticada por teólogos reformados. John Williamson Nevin atacou o "banco dos ansiosos" e as demais "novas medidas" em The Anxious Bench (1843), e B. B. Warfield, de Princeton, viu pelagianismo na teologia de Finney, isto é, um peso dado ao esforço humano que a doutrina reformada reserva à graça. Não é tarefa deste livro dar a razão a um lado. A pergunta que a frase de Finney deixa, porém, atravessa a igreja até hoje: o que é obra do Espírito e o que é método do pregador?
Finney também foi abolicionista. Chamava a escravidão de "grande pecado nacional" e, em Nova York, negou a Ceia a proprietários de escravizados. Em 1835 aceitou ensinar no Oberlin Collegiate Institute, em Ohio, com as condições de que a escola aceitasse negros e de que houvesse liberdade de expressão. Oberlin admitiu estudantes negros desde 1835 e mulheres desde 1837, entre as primeiras faculdades americanas a fazê-lo. O Capítulo 7 volta a essa linha, em que a Bíblia serviu à causa abolicionista.
28 — A SOCIEDADE BÍBLICAUma Bíblia sem nota nem comentário
Em maio de 1816, delegados de várias sociedades locais se reuniram em Nova York e criaram a Sociedade Bíblica Americana. A primeira resolução propunha, por unanimidade, "uma instituição bíblica geral, para a circulação das Santas Escrituras sem nota nem comentário" (tradução minha). O primeiro presidente foi Elias Boudinot, que presidira o Congresso Continental em 1782–83. Lembre-se do Capítulo 1: os peregrinos liam a Bíblia de Genebra, com notas de margem. Agora, a regra era a oposta: um texto simples, que não deixasse o leitor ver os partidos das igrejas. A edição escolhida foi a de Tiago.
A sociedade se propôs a pôr uma Bíblia em cada lar. No século XIX, fez quatro "levantamentos" nacionais, em 1829, 1856, 1866 e 1882. No quarto, segundo a história da instituição, mais de 6,3 milhões de famílias foram visitadas e 473.806 foram supridas com Bíblias, além de quase 300 mil pessoas avulsas. Em 1818, publicou a primeira tradução própria, as três Epístolas de João em delaware (lenape), língua indígena. Na Guerra Civil, ela também distribuiu exemplares de bolso a soldados.
Há uma página desse histórico que precisa entrar no livro, com a honestidade devida. Em 1834, a Sociedade Americana Antiescravagista ofereceu um donativo para distribuir Bíblias aos escravizados, que eram então cerca de um sexto da população, porque os abolicionistas acreditavam que o conhecimento da Bíblia apressaria o fim da escravidão. A Sociedade Bíblica recusou a oferta e deixou a distribuição nas mãos de suas filiais estaduais, que não distribuíam Bíblias diretamente aos escravizados. Muitos a viram como pouco comprometida com a abolição. Enquanto isso, mandava Bíblias para a Libéria, para ex-escravizados.
Os fatos acima mostram duas coisas que não se contradizem: uma instituição que alcançou milhões de casas e que, ao mesmo tempo, preferiu não enfrentar a divisão sobre a escravidão. A regra da Bíblia "sem nota nem comentário", ao que parece, servia para unir igrejas diferentes no mesmo projeto. Para quem era escravizado, o acesso à Bíblia dependia de donos e de leis, como o Capítulo 7 mostra.
⚠️ Os números de Bíblias distribuídas vêm das próprias publicações da Sociedade e das histórias oficiais. Mostram o esforço, e não mostram quantas Bíblias foram de fato lidas.
29 — A BÍBLIA DE WEBSTERUm dicionário e uma Bíblia "americana"
Noah Webster, o autor do American Dictionary of the English Language (1828), publicou em 1833 uma revisão da Bíblia do rei Tiago. A revisão era leve: ele trocou palavras antigas ("wherefore" por "why"), usou "its" em vez de "his" para coisas, e "male child" onde estava "manchild". Substituiu "Holy Ghost" por "Holy Spirit", porque, pelo que se costuma explicar, "ghost" soava em inglês como "aparição". E "whore" virou "lewd woman" ("mulher lasciva"). Quase todo o texto ficou igual. Uma correção maior: em Atos 12.4, o texto inglês dizia "Easter" ("Páscoa cristã"), e ele pôs "Passover" ("Páscoa judaica"), que é o que o grego diz.
No prefácio, Webster explica o motivo: algumas palavras haviam caído em desuso, e outras mudaram de sentido, e por isso "não são entendidas por leitores comuns, que não têm acesso a comentários". E acrescenta que, quando as palavras são entendidas em sentido diferente do original, "não apresentam ao leitor a Palavra de Deus" (tradução minha). O mesmo lexicógrafo que dera aos americanos um dicionário próprio dava agora uma Bíblia em inglês mais clara. O resultado ficou quase indistinguível da versão do rei Tiago, e mostra um impulso: não deixar o leitor comum à mercê de palavras que não entende.
O texto de Atos 12.4 diz, no grego, pásxa (πάσχα), que o dicionário de Strong define como "a Páscoa (a refeição, o dia, a festa ou os sacrifícios especiais ligados a ela)". A Bíblia do rei Tiago traduziu esta palavra, só aqui, por "Easter"; em todos os outros lugares, por "Passover". A ACF traz "depois da páscoa" At 12.4, e em português a mesma palavra serve às duas festas, de modo que o problema não aparece. Webster consertou o inglês ao dar a palavra que o grego pede: a festa que Herodes tinha em vista era a Páscoa dos judeus.
30 — DE QUEM É A BÍBLIA DA ESCOLA?Filadélfia, 1844
Nos anos 1840, os alunos das escolas de Filadélfia começavam o dia lendo a Bíblia protestante, a do rei Tiago. A Igreja Católica usava outra tradução, a Douay. Foi nesse contexto que o bispo Francis Kenrick pediu, em 10 de novembro de 1842, que as crianças católicas pudessem ler a versão Douay e fossem dispensadas de outras práticas religiosas na escola. A Junta de Controladores respondeu que nenhuma criança seria obrigada a participar de atividades religiosas e que cada uma poderia ler a versão que os pais escolhessem.
Grupos nativistas espalharam então um boato falso: que os católicos queriam tirar a Bíblia das escolas. Em 6–8 de maio e 6–7 de julho de 1844, Filadélfia e os bairros vizinhos viveram os "Bible Riots", ou "Prayer Riots". A milícia foi chamada, houve dezenas de mortos e feridos (ao menos quatorze mortos em maio e quinze em julho) e duas igrejas católicas foram queimadas. A Igreja Católica processou a cidade e ganhou algum dinheiro para os reparos, e líderes cívicos condenaram os ataques.
A história mostra, de modo cru, que a pergunta "qual Bíblia?" não era só de tradução. Em um país de maioria protestante com uma imigração católica em alta, a Bíblia do rei Tiago podia ser um livro de unidade para uns e uma imposição para outros. O que a Constituição não decidira em 1787 (Capítulo 5) virou conflito de rua em 1844.
Os bereanos estavam "examinando cada dia nas Escrituras se estas coisas eram assim" At 17.11. A Bíblia na mão de todos é uma conquista, e pede o hábito do exame, a leitura humilde, e a paciência com quem lê de outra tradição. O Testamento de Springfield pôs a Bíblia como único guia, e escreveu na mesma página este conselho: "orar mais e disputar menos" (tradução minha).
LINHA DO TEMPODe Cane Ridge a Filadélfia
Datas pelo calendário atual.
PARA FIXARO que ficou do capítulo
Cane Ridge, 1801
Dez a vinte mil pessoas (estimativa), ministros de três denominações, quedas e "sacudidelas" descritas por Stone. Estimativas variam.
"A Bíblia, único guia"
O Testamento de Springfield (1804) dissolveu um presbitério para que o povo tivesse "livre curso à Bíblia".
Finney e o método
"Um resultado filosófico do uso correto dos meios." Os reformados reagiram, e a pergunta continua aberta.
Sociedade Bíblica
A Bíblia do rei Tiago "sem nota nem comentário" em milhões de casas, mas sem enfrentar a escravidão em 1834.
Webster revisa
1833: "Easter" vira "Passover" em At 12.4, "Holy Ghost" vira "Holy Spirit". Quase tudo ficou como estava.
Qual Bíblia na escola?
Filadélfia, 1844: a disputa Douay × Tiago e um boato falso acabaram em tumultos.
Próximo capítulo: a Bíblia usada a favor e contra a escravidão. Quem a pregava para manter escravizados, quem a pregava para libertar e o que os escravizados faziam quando ouviam um e outro.
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