Salem, Massachusetts, janeiro de 1636. O xerife vem prender o pastor e descobre que ele sumiu havia três dias, no meio de uma nevasca. Roger Williams vai a pé pela neve funda, rumo ao sul. Trinta e cinco anos depois, numa carta, ele lembraria que passou catorze semanas daquele inverno duro sem saber o que eram pão e cama. Quem o acolhe, no acampamento de inverno dos wampanoags, é o sachem Massasoit. O homem que a Colônia da Baía acabava de expulsar por "opiniões diversas, novas e perigosas" levava na cabeça uma convicção que ele sustentaria com a Bíblia pelo resto da vida: Deus não manda forçar a consciência de ninguém.
O capítulo 1 mostrou os puritanos pondo a Escritura na lei. Este mostra o outro lado da mesma moeda: o que aconteceu com quem lia a mesma Bíblia e chegava a outra conclusão, e como a Bíblia, impressa pela primeira vez na América inglesa, chegou também às mãos dos povos que já viviam ali. É um capítulo com forcas, com salmos mal rimados e com uma tradução feita em dupla com gente que os colonos chamavam de índios.
05 — ROGER WILLIAMSA Bíblia contra a força
Williams era um pastor inglês, formado em Cambridge, que chegou a Boston em 1631. Em outubro de 1635, a Corte Geral de Massachusetts o julgou e o condenou por sedição e heresia, por espalhar "opiniões diversas, novas e perigosas". Entre as ideias dele que estavam no centro da disputa, as biografias citam: que a igreja de Boston era uma "igreja não separada" da Igreja da Inglaterra, que o magistrado civil não deve punir pecados contra a primeira tábua dos Dez Mandamentos (idolatria, falsa adoração, blasfêmia) e que cada pessoa deve ser livre para seguir a própria convicção em religião. Ele desenvolveria a defesa disso anos depois em The Bloudy Tenent of Persecution (1644), "A sangrenta doutrina da perseguição", um diálogo entre a Verdade e a Paz.
O que interessa aqui é o jeito como ele lia a Bíblia. Um livro inteiro foi dedicado a isso, The Challenges of Roger Williams: Religious Liberty, Violent Persecution, and the Bible, de James Byrd (2002). O resumo dos argumentos de Williams que se segue segue essa literatura: ele respondia aos puritanos com os mesmos textos que eles usavam. Os puritanos olhavam para os reis de Israel como modelo de governo cristão. Williams dizia que Israel era um caso único, uma aliança com Deus que se cumpriu em Cristo, e que os bons exemplos de governo para os cristãos estavam em reis pagãos que deixaram o povo de Deus adorar em paz, como Artaxerxes em Esdras 7. Os maus exemplos eram Nabucodonosor, que obrigou os judeus a adorar a estátua Dn 3, e a execução injusta de Nabote, em que o poder civil se serviu da religião 1Rs 21.
Um dos textos centrais no argumento dele era a parábola do joio. Os servos perguntam ao dono do campo se devem arrancar o joio que o inimigo semeou no meio do trigo, e a resposta é:
Para Williams, quem perseguia o "joio" (os que ele via como falsos cristãos) arrancava também o trigo. O julgamento final pertencia a Deus, e a ceifa era o fim dos tempos. Quanto a Romanos 13, em que Paulo manda a "toda a alma" ficar sujeita às potestades Rm 13.1, Williams lia que o governo servia à segunda tábua da lei, a que trata das relações entre as pessoas (matar, roubar, mentir), e não à primeira, a que trata de Deus. Ele chegou a escrever sobre uma "cerca ou muro de separação entre o jardim da igreja e o deserto do mundo". A fórmula tornou-se célebre, e o Capítulo 5 deste livro voltará a ela, porque Thomas Jefferson usaria uma imagem parecida, e muitos historiadores veem aí uma ligação.
O "joio" de Mateus 13 é, no grego, zizánion (ζιζάνιον). O dicionário de Strong diz "joio, ou falso grão". Costuma-se explicar que essa planta lembra o trigo enquanto cresce, e que só na espiga se distingue dele. É isso que dá força ao argumento de Williams: na hora de arrancar, o homem se engana. A parábola de Jesus não trata de política, mas no século XVII ela virou argumento sobre quem tem direito de separar o trigo do joio.
Williams fundou Providence, na baía de Narragansett, em 1636, e a colônia que cresceu ali chegou à Carta Real de 1663, assinada por Carlos II. O texto diz que os colonos queriam "mostrar uma experiência viva", a de que "um estado civil muito florescente pode subsistir" com "plena liberdade em questões religiosas" (tradução minha), e determina que ninguém "seja molestado, punido, inquietado ou chamado a juízo" por diferenças de opinião religiosa, desde que não perturbe a paz civil. Rhode Island ficou conhecida como refúgio dos que as outras colônias expulsavam: Anne Hutchinson, os quakers, os batistas.
O servo da parábola faz a pergunta que todo zeloso faz: "Queres pois que vamos arrancá-lo?" Mt 13.28. A resposta do dono é um freio: "Não". Há dias em que o zelo mais bíblico é o de esperar a ceifa.
06 — ANNE HUTCHINSON"Uma revelação imediata"
Em novembro de 1637, em Newtown (hoje Cambridge), a Corte Geral de Massachusetts julgou uma mulher, Anne Hutchinson. O governador Winthrop abriu o interrogatório dizendo que ela era conhecida por ter "grande parte" em promover opiniões que perturbavam as igrejas e por manter em casa uma reunião que a assembleia geral tinha condenado. O texto do interrogatório se conservou. É uma das raras cenas em que se ouve uma mulher do século XVII discutir a Bíblia com magistrados e pastores.
O ponto crítico veio quando ela explicou como sabia que o que lhe falava era o Espírito de Deus. O diálogo, em tradução minha, foi assim:
"Como Abraão soube que era Deus quem lhe mandava oferecer o seu filho, o que era uma quebra do sexto mandamento?" O vice-governador respondeu: "Por uma voz imediata." Ela: "Assim a mim, por uma revelação imediata." (Interrogatório de Anne Hutchinson, novembro de 1637.)
Ela citou Jeremias 46.27-28, o "não temas, servo meu, Jacó", e disse que o Senhor lhe prometera, como a Daniel, livrá-la da cova dos leões. O governador reagiu: "Daniel foi livrado por milagre; pensas que serás livrada assim?" (tradução minha). Ela respondeu que esperava ser livrada "pela providência". O governador concluiu que a "revelação" era "ilusão", e quase toda a corte concordou. A sentença foi lida em seguida: Anne Hutchinson estava banida da jurisdição da colônia "por ser mulher inadequada à nossa sociedade", e ficaria presa até que a levassem embora. Ela pediu para saber o motivo. A resposta: "Não diga mais. A corte sabe por quê, e está satisfeita" (tradução minha).
O texto do interrogatório mostra o que estava em jogo. Pela fala do próprio governador, os magistrados viam na "revelação imediata" uma ilusão perigosa para a ordem das igrejas. Hutchinson, por sua vez, sustentava a revelação com exemplos tirados da Bíblia: Abraão, Jeremias, Daniel. Os historiadores chamam o conjunto de "controvérsia antinomiana", e o seu centro era a disputa sobre como se reconhece a graça. O texto do interrogatório não resolve a disputa teológica. Mostra o método dos dois lados: cada um discutia com a Bíblia aberta.
⚠️ Quem lê esse interrogatório hoje costuma ver nele um caso de liberdade de consciência. O texto mostra, de fato, uma acusada que pede o motivo da sentença e não o recebe. Mas nem ela nem os juízes falavam em "liberdade religiosa" no sentido que damos hoje à expressão: a disputa era sobre qual leitura da Bíblia deveria governar uma colônia que se via como igreja.
07 — OS QUAKERSQuatro enforcados em Boston
Os quakers, ou Amigos, chegaram a Boston em 1656. Para eles, a "luz de Cristo" estava dentro de cada pessoa: Robinson, no patíbulo, pediu aos presentes que dessem atenção à luz que havia neles. Isso lhes valeu a prisão e a deportação e, no fim de 1658, uma lei, aprovada por maioria apertada, que mandava banir os quakers sob pena de morte.
Em 27 de outubro de 1659, William Robinson e Marmaduke Stephenson foram enforcados em Boston. Segundo o relato quaker, Stephenson disse, subindo à escada, "sofremos não como malfeitores, mas por causa da consciência" (tradução minha). Mary Dyer, que tinha estado ao lado de Anne Hutchinson em 1637, foi levada ao patíbulo com eles e salva na última hora. Voltou, e foi enforcada em 1.º de junho de 1660. William Leddra morreu em 14 de março de 1661. Em 1661, o rei Carlos II mandou que a colônia parasse de executar quakers, e a lei passou a prever, no lugar da forca, o açoite de cidade em cidade.
Para as autoridades de Massachusetts, a ordem das igrejas era parte da ordem da colônia: lembre que, desde 1631, só membros de igreja votavam. Para os quakers, a consciência não podia ser entregue ao magistrado. Quando Wenlock Christison, o último quaker condenado à morte em Boston, ouviu a sentença, disse aos juízes, segundo o relato quaker, que de cada um que matassem viriam outros cinco. Acabou libertado.
08 — TOLERÂNCIA PELA METADEMaryland, Pensilvânia e a letra pequena
A liberdade religiosa colonial era sempre parcial, e a letra pequena das leis mostra até onde ia. Em Maryland, uma colônia fundada pela família Calvert, católica, a Assembleia aprovou em 1649 o Ato Concernente à Religião. Ele garantia que ninguém que professasse crer em Jesus Cristo seria molestado por sua religião. Mas o mesmo texto manda punir com a morte quem blasfemasse ou negasse a Trindade, ou "negasse Nosso Salvador Jesus Cristo ser o Filho de Deus" (tradução minha). Quem não cria em Cristo, como os judeus, ficava fora da proteção, e a pena de morte atingia quem negasse a Trindade.
Na Pensilvânia, o quaker William Penn escreveu em 1682 uma Estrutura de Governo na qual todas as pessoas que "confessam e reconhecem o Deus único, Todo-poderoso e eterno" não seriam molestadas por sua religião nem obrigadas a frequentar ou sustentar qualquer culto (tradução minha, art. 35). A frase protege mais gente do que as outras, mas fica no limite de acreditar em um só Deus. A mesma estrutura cita Romanos 13 para explicar por que o governo vem de Deus.
Em Rhode Island, a Carta de 1663 pedia só que ninguém perturbasse a paz civil. Cada colônia protegia aquilo que seus fundadores entendiam como mínimo da fé. Foi assim que a tolerância colonial nasceu: aos pedaços, colônia a colônia, e em disputa com vizinhas que pensavam o contrário.
09 — A BÍBLIA IMPRESSASalmos mal rimados e uma cartilha
Em 1638, uma prensa chegou a Cambridge, Massachusetts, trazida pela viúva de um pastor que morreu no caminho, Elizabeth Glover, com o impressor Stephen Daye. O terceiro trabalho dela foi um livro de salmos: The Whole Booke of Psalmes Faithfully Translated into English Metre, "O livro inteiro dos salmos, fielmente traduzidos em verso inglês", de 1640, conhecido como Bay Psalm Book. É o primeiro livro impresso na América inglesa. Trinta ministros trabalharam nele, entre eles Richard Mather e John Eliot. A tiragem estimada foi de uns 1.700 exemplares, e hoje se conhecem onze.
Os tradutores explicaram por que a poesia era tosca. No prefácio, escreveram, em tradução minha: "se os versos nem sempre são tão elegantes quanto alguns desejam, considerem que o altar de Deus não precisa dos nossos polimentos", e que haviam atendido "à consciência mais que à elegância, à fidelidade mais que à poesia". A margem do prefácio remete a Êxodo 20, onde Deus manda não lavrar com ferramenta as pedras do altar: "não o farás de pedras lavradas; se sobre ele levantares o teu buril, profaná-lo-ás" Êx 20.25. Eles tinham brigado com os salmos ingleses de que dispunham porque queriam algo mais colado ao hebraico, e preferiam rima torta a paráfrase.
Para a criança, a Bíblia chegava na cartilha. The New England Primer, impresso em Boston pelo editor Benjamin Harris entre 1687 e 1690, foi a primeira cartilha para as colônias e o livro escolar de maior sucesso da América colonial do século XVII. Não sobreviveu nenhum exemplar anterior a 1727, e as edições mais antigas só são conhecidas por anúncios. Alfabeto, orações e perguntas do catecismo se misturavam, com a rima mais famosa para a letra A: "In Adam's Fall / We sinned all", "na queda de Adão, todos pecamos". Calcula-se que tenham sido vendidos cerca de dois milhões de exemplares no século XVIII, número que vem de obras de referência e deve ser lido como estimativa.
O Bay Psalm Book sobreviveu em apenas onze exemplares da primeira edição. Em novembro de 2013, um deles foi vendido em leilão por 14,2 milhões de dólares, o recorde para um livro impresso até então. A Igreja Old South de Boston, dona do exemplar, vendeu-o numa decisão que dividiu a congregação. É um lembrete de como é frágil o rastro material do que parecia, na época, uso diário de igreja: o livro era feito para ser cantado até gastar.
10 — A BÍBLIA DE ELIOTA Escritura em massachusett
John Eliot chegou a Massachusetts em 1631. Segundo as biografias, em 1646 ele tentou pregar pela primeira vez aos massachusett, no moinho de Dorchester, e não foi ouvido. A segunda tentativa, em 28 de outubro de 1646, foi na tenda de Waban, em Nonantum, hoje Newton. Aprendeu a língua com a ajuda de indígenas, entre eles Cockenoe, John Sassamon e Job Nesutan, e traduziu a Bíblia inteira, por cerca de quatorze anos, a partir de uma Bíblia inglesa, que as fontes mais citadas identificam com a de Genebra. O Novo Testamento saiu em 1661 e a Bíblia completa em 1663, impressa em Cambridge por Samuel Green e Marmaduke Johnson, com o indígena nipmuc James Printer como compositor. Foram impressos cerca de mil exemplares da Bíblia de 1663, num volume de mais de mil páginas, pagos com doações da Inglaterra e do País de Gales. É a primeira Bíblia impressa na América inglesa e, segundo a literatura, a primeira Bíblia completa traduzida para uma língua indígena das Américas.
O título em massachusett, Mamusse Wunneetupanatamwe Up-Biblum God, significa, em tradução literal, "A inteira santa Bíblia dele, de Deus", e continua com "tanto o Antigo Testamento quanto o Novo". A língua não tinha escrita: Eliot teve de fixar uma escrita para ela, e a tipografia precisou de letras extras, "o" e "k", encomendadas da Inglaterra. Ele precisou virar gramático e lexicógrafo.
Eliot também organizou "vilas de oração", comunidades de indígenas que aceitavam a fé cristã. Chegaram a existir catorze, e a mais bem documentada é Natick. É importante ler isso dos dois lados. Para alguns indígenas, a conversão era uma proteção para suas terras diante dos colonos, e a escrita deu a muitos o acesso a uma Bíblia na própria língua. Os historiadores lembram também que se esperava dos "índios de oração" que adotassem os costumes puritanos. Na guerra do rei Filipe (1675–76), a desconfiança contra todos os indígenas atingiu até os cristãos: em outubro de 1675 a colônia mandou recolher os "índios de oração" e, em dezembro, mais de mil deles estavam confinados na ilha de Deer, no porto de Boston, onde muitos morreram durante o inverno. Eliot e outros protestaram.
A Bíblia de Eliot tem um segundo capítulo na história. Uma segunda edição dela foi usada pelo Projeto de Recuperação da Língua Wôpanâak, que a comparou com a Bíblia inglesa para reaprender vocabulário e gramática do wampanoag, uma língua que ficou sem falantes nativos a partir do fim do século XIX. Os textos que a pregação puritana deixou serviram, dois séculos depois, para devolver uma língua aos descendentes de quem a falava.
⚠️ A tradução em si não prova que o povo massachusett concordasse com tudo que o missionário ensinava. Prova que um grupo de indígenas e de ingleses trabalhou lado a lado por anos, que parte dos indígenas aprendeu a ler e escrever, e que a escrita sobreviveu à guerra e ao esquecimento.
LINHA DO TEMPODe Salem a Natick
Datas pelo calendário usado nas colônias inglesas na época, salvo onde indicado.
PARA FIXARO que ficou do capítulo
Williams, da neve a Providence
Expulso em 1635–36, lia a parábola do joio como argumento contra a força Mt 13.30. Rhode Island virou refúgio dos expulsos.
"Revelação imediata"
Anne Hutchinson (1637) citou Abraão e Daniel; os juízes viram ilusão e a baniram. Cada lado discutia com a Bíblia.
Quatro quakers enforcados
Boston, 1659–1661. Em 1661 o rei mandou parar. A tolerância colonial veio aos pedaços.
Letra pequena
Maryland (1649) e Pensilvânia (1682) protegiam quem cria na Trindade ou em um só Deus, e não mais que isso.
Salmos sem polimento
O Bay Psalm Book (1640) preferiu "a fidelidade à poesia" Êx 20.25. Onze exemplares sobrevivem.
Bíblia em massachusett
A Bíblia de Eliot (1663) foi a primeira impressa na América inglesa. Séculos depois ajudou a recuperar a língua wampanoag.
Próximo capítulo: 1741, em Enfield. Um pregador lê um sermão sobre aranhas e fogo, e o povo grita. É o Primeiro Grande Despertamento, e os historiadores ainda discutem o que ele foi.
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