Enfield (na época território de Massachusetts, hoje em Connecticut), 8 de julho de 1741. O pregador de fora é um pastor de Northampton, de voz baixa, que sobe ao púlpito com o sermão inteiro escrito num caderninho. Jonathan Edwards lê o texto: "ao tempo que resvalar o seu pé" Dt 32.35. Não grita, não gesticula. O reverendo Stephen Williams, que está presente, anotaria no diário que, antes de o sermão acabar, houve "um grande gemido e choro por toda a casa", gente gritando "O que farei para ser salvo?" e "Ah, vou para o inferno!", de modo que o pregador teve de parar (tradução minha).
Este capítulo conta o que aconteceu naquela igreja e nas ruas e campos onde, no mesmo período, outro pregador, George Whitefield, falava para multidões. É o Primeiro Grande Despertamento, um dos eventos mais citados da história cristã americana, e um dos mais debatidos: os historiadores discordam sobre o que ele foi, onde aconteceu e se o nome é bom. Vale ouvir os dois lados, e começar pelos documentos.
11 — NORTHAMPTONO pastor, o caderno e o avivamento
Edwards nasceu em 1703 e estudou em Yale. Pastoreava a igreja de Northampton, em Massachusetts, quando, a partir do inverno de 1734, um avivamento tomou a cidade. Edwards escreveu que, em cerca de meio ano, ele esperava que mais de trezentas pessoas da cidade tivessem sido levadas a Cristo. Ele registrou o que viu em A Faithful Narrative of the Surprising Work of God, "Uma narrativa fiel da obra surpreendente de Deus" (1737), um relato que ele escreveu com cuidado de observador, anotando como a conversão começava, crescia e, às vezes, falhava.
Em 1734 ele já tinha pregado um sermão chamado A Divine and Supernatural Light, "Uma luz divina e sobrenatural", cujo texto é a resposta de Jesus a Pedro: "to não revelou a carne e o sangue, mas meu Pai, que está nos céus" Mt 16.17. A ideia dele era que a fé viva não vem só do raciocínio, e sim de uma luz que Deus dá ao coração. É o fundo teológico de tudo o que vem a seguir.
Samuel Hopkins, seu amigo e primeiro biógrafo, deixou uma descrição de como Edwards pregava, e ela contradiz a imagem popular. Segundo Hopkins, as palavras de Edwards "estavam tão cheias de ideias, postas em luz tão clara e marcante, que poucos oradores conseguiram tanto chamar a atenção de um auditório. Suas palavras revelavam muitas vezes grande fervor interior, sem muito barulho nem emoção exterior, e caíam com grande peso sobre a mente dos ouvintes" (tradução minha, a partir da citação de Hopkins feita pela revista Christian History). Ele não era um orador de praça. Em Enfield, o que se ouviu foi a voz baixa de um homem lendo.
12 — O SERMÃO DE ENFIELDAranhas, fogo e uma porta aberta
O sermão se chama Sinners in the Hands of an Angry God, "Pecadores nas mãos de um Deus irado". Edwards já o pregara em Northampton, segundo as biografias, e no dia 8 de julho o levou a Enfield. Foi impresso em Boston ainda em 1741. O texto é Deuteronômio 32.35, "Minha é a vingança e a recompensa, ao tempo que resvalar o seu pé", e a tese é que só a vontade de Deus impede que o pecador não convertido caia no inferno a qualquer momento. A passagem mais famosa é esta:
"O Deus que o segura sobre o poço do inferno, como alguém segura sobre o fogo uma aranha ou algum inseto repugnante, o detesta e está terrivelmente provocado; sua ira arde contra você como fogo." (Jonathan Edwards, Sinners in the Hands of an Angry God, 1741; tradução minha.)
É uma imagem dura, e quase todo mundo a conhece. Mas o sermão tem outra metade que as antologias costumam cortar. Perto do fim, Edwards diz aos ouvintes que aquele é um dia extraordinário, "um dia em que Cristo escancarou a porta da misericórdia e fica de pé, chamando e clamando em alta voz aos pobres pecadores", e fala de muitos que há pouco estavam na mesma condição e hoje têm o coração cheio de amor. A última frase pede decisão: "que todo aquele que está fora de Cristo desperte agora e fuja da ira que há de vir" (tradução minha). O sermão é uma advertência feita para levar à porta aberta.
O verbo hebraico de Deuteronômio 32.35 é môwṭ (מוֹט), que o dicionário de Strong define como "vacilar; por implicação, escorregar, abalar, cair". No texto, o pé "resvala" ou "vacila": não é empurrado. É o que Edwards aproveita. Ele descreve um pecador cujo pé já está escorregando, e que só não cai porque Deus, por ora, o segura. A frase seguinte do verso diz que "o dia da sua ruína está próximo". Quem lê o capítulo inteiro de Deuteronômio 32, o Cântico de Moisés, vê que a passagem trata de um povo que se afastou de Deus. Edwards aplicou o princípio à pessoa que ouvia o sermão.
O que sabemos de Enfield vem de poucas fontes. O sermão foi impresso em 1741, e a Biblioteca Beinecke, de Yale, guarda a maior parte dos manuscritos de Edwards, com mais de mil sermões. O relato da reação do povo vem do diário de Stephen Williams, um pastor, que cobre de 1715 a 1782 e ocupa cerca de quatro mil páginas; foi transcrito nos anos 1930 e hoje há uma edição digitalizada. Williams anotou que, depois de uma pausa, o povo se aquietou, um pastor chamado Wheelock fez uma oração, e os pregadores desceram do púlpito e conversaram com o povo, "alguns num lugar, alguns em outro". O diário diz também que "várias almas foram esperançosamente tocadas" naquela noite.
⚠️ Um diário de uma testemunha não mede o que aconteceu no coração de ninguém. O texto mostra gemidos, gritos e uma noite de conversas pessoais com o povo. Não dá o número de conversões, nem prova que elas tenham durado.
13 — WHITEFIELDUm pregador no campo
George Whitefield, um pregador anglicano inglês, chegou à Filadélfia em 1739. O melhor retrato dele nas colônias é o de Benjamin Franklin, que o ouviu, o imprimiu e virou seu amigo. Franklin conta que Whitefield, de início, foi aceito em algumas igrejas, mas logo os pastores lhe fecharam os púlpitos, e ele "foi obrigado a pregar nos campos" (tradução minha). As multidões eram "enormes", de todas as seitas. E Franklin acrescenta algo curioso: os ouvintes o admiravam mesmo quando ele os chamava de "meio bestas, meio demônios".
Franklin, que não compartilhava a fé de Whitefield, também fez uma conta. Whitefield pregou uma noite do alto da escadaria do tribunal, na rua do Mercado. Franklin, no fundo da multidão, foi andando para trás, rua abaixo, até perder a voz do pregador, imaginou um semicírculo cheio de gente, dois pés quadrados para cada pessoa, e calculou que ele "poderia ser ouvido por mais de trinta mil" (tradução minha). Isso o reconciliou, escreveu, com os jornais que falavam de vinte e cinco mil pessoas nos campos. São números de testemunha e de cálculo, e não de contagem. Mas mostram a escala.
Franklin conta também um episódio humano. Whitefield pregava a favor de um orfanato na Geórgia, e Franklin, que discordava do plano, resolveu não dar nada. Quando o sermão chegou à coleta, ele pensou em dar só os cobres que tinha no bolso, depois os dólares de prata e, no fim, esvaziou o bolso inteiro, ouro incluído. Franklin lembra ainda que ele e o pregador mantiveram uma amizade sincera "sem ligação religiosa": Whitefield rezava por sua conversão, e "nunca teve a satisfação de crer que as orações foram ouvidas".
Qual era a mensagem? Resumindo: era preciso nascer de novo. Quase todo avivalista da época tinha como texto-chave a conversa de Jesus com Nicodemos: "Necessário vos é nascer de novo" Jo 3.7. A conversão não era só aceitar uma doutrina, mas uma experiência do coração, e quem a tinha podia esperar a certeza da salvação. Isso valia para qualquer denominação, e por isso o movimento atravessou igrejas.
Whitefield e a escravidão. Os registros mostram duas coisas, e as duas são verdade. Em 1740, ele publicou uma carta aberta aos fazendeiros da Virgínia, de Maryland e das Carolinas, censurando a crueldade com que tratavam os escravizados: "Creio que Deus tem uma contenda com vocês pelo abuso e crueldade para com os pobres negros" (tradução minha, citada em biografias). Mas ele mesmo foi dono de escravizados. Entre 1748 e 1750 fez campanha para que a Geórgia, que proibia a escravidão, a permitisse, em parte para sustentar o orfanato, e a lei mudou em 1751. Ao morrer, deixou o orfanato à condessa de Huntingdon, com 49 escravizados.
⚠️ A pregação do Despertamento falava de igualdade espiritual, e isso atraiu muitos negros, escravizados e livres. A igualdade, porém, ficava no plano da alma. Whitefield criticava os maus-tratos e não pedia o fim da escravidão. Jonathan Edwards também teve escravizados: segundo as biografias, comprou uma adolescente chamada Vênus em 1731 e ao menos mais cinco depois. Quem estuda o Despertamento hoje precisa dizer isso junto com o resto. O Capítulo 7 volta ao tema.
14 — PROVAI OS ESPÍRITOSLuzes novas, luzes velhas
O avivamento dividiu as igrejas. Quem apoiava era chamado de "nova luz", e quem desconfiava, de "velha luz". Os velhos viam a pregação itinerante e a emoção como ameaça à ordem, e preferiam um ministério fixo e formado em universidade. Os novos respondiam que alguns pastores formados não eram convertidos.
Foi o que disse, em 1740, o presbiteriano Gilbert Tennent em Nottingham, na Pensilvânia, no sermão The Danger of an Unconverted Ministry, "O perigo de um ministério não convertido". Ele comparou os pastores contrários ao avivamento aos fariseus dos Evangelhos. Em 1741, o sínodo presbiteriano de Filadélfia expulsou os "novo lado", que formaram outro sínodo. A divisão durou até 1758. Em outros lugares houve excessos, e o itinerante James Davenport, que acusava pastores de serem inconvertidos, acabou publicando uma retratação de seus exageros.
Edwards, que apoiava o avivamento, também sentiu que era preciso discernir. Em 10 de setembro de 1741, por ocasião da formatura de Yale, ele pregou em New Haven um discurso que depois foi impresso como The Distinguishing Marks of a Work of the Spirit of God, "Os sinais distintivos de uma obra do Espírito de Deus". O ponto de partida é uma passagem de 1 João:
Nesse discurso, segundo resumos da obra, Edwards separa sinais que não provam nada, nem a favor nem contra (como a emoção forte e os efeitos sobre o corpo), de sinais que indicam obra do Espírito, entre eles o apreço por Jesus Cristo e uma estima maior pelas Escrituras. A pergunta dele era o fruto, e não o barulho.
Em Filadélfia, conta Franklin, a pregação de Whitefield mudou o som das ruas: "não se podia andar pela cidade à noite sem ouvir salmos cantados em famílias de todas as ruas" (tradução minha). Na mesma cidade, uma multidão de todas as seitas ouvia ao ar livre o homem que os pastores locais não deixavam entrar nos púlpitos. A Bíblia saía da igreja para a casa e para a rua, e as famílias a cantavam.
15 — O QUE FOI, AFINAL, O DESPERTAMENTO?Um debate de historiadores
O nome "Grande Despertamento" faz a gente imaginar uma onda única, que passou por todas as colônias e as uniu. Os historiadores já não têm tanta certeza. Em 1982, Jon Butler publicou um artigo, Enthusiasm Described and Decried: The Great Awakening as Interpretative Fiction, em que propõe abandonar o termo, porque os avivamentos do século XVIII teriam sido regionais, de curta duração e com efeitos limitados na sociedade e na religião americanas. Frank Lambert, em Inventing the Great Awakening (1999), argumenta que a imagem de um grande despertar unificado foi em boa parte montada pelos próprios pregadores e pelos jornais da época. Do outro lado, Thomas Kidd, em The Great Awakening: The Roots of Evangelical Christianity in Colonial America (2007), defende que o Despertamento foi um fenômeno real e transatlântico, que deu origem ao evangelicalismo. Essas obras são as mais citadas do debate, e o leitor interessado deve lê-las.
O que as sínteses costumam aceitar? Que houve, nas décadas de 1730 e 1740, uma série de avivamentos na Grã-Bretanha e nas colônias, que o movimento reforçou batistas e metodistas, dividiu congregacionais e presbiterianos e teve pouco efeito imediato sobre luteranos e quakers. Que a ênfase no "novo nascimento" deu aos evangélicos um vínculo que ia além das denominações. Que o avivamento estimulou a oração e a leitura devocional, e a fundação de escolas e faculdades: em 1746, presbiterianos "do novo lado" fundaram o que viria a ser Princeton, e em 1754 os esforços de Eleazar Wheelock levaram ao que seria o Dartmouth College, criado para formar meninos indígenas missionários. Que a influência do Despertamento sobre a Revolução Americana é discutida: Butler a considera exagerada, e outros historiadores, como Alan Heimert (1966), veem nela um impulso importante.
Os mitos populares sobre o Despertamento costumam vir de números sem fonte. O que os documentos permitem dizer é pouco e específico: que, em Northampton, Edwards esperava ter visto mais de trezentas conversões em meio ano (segundo ele mesmo), que Franklin calculou, com um método explicado por ele, que a voz de Whitefield alcançava mais de trinta mil, e que os jornais de Filadélfia falavam de vinte e cinco mil em um campo. Nenhum desses números é censo. E quanto à ideia de que o Despertamento "unificou as colônias", ela depende de qual historiador se lê.
⚠️ É debate. Quem usa o Despertamento como prova de que as colônias eram, em bloco, "evangélicas" ou "unidas", afirma mais do que as fontes dão. Quem o descarta como invenção também afirma mais do que dão. O seguro é descrever os avivamentos, as divisões e os frutos que os documentos mostram, sem pôr rótulo maior do que eles.
O texto de Edwards em Enfield é uma advertência, e Edwards fez dela um convite: a porta da misericórdia está aberta. Provar os espíritos 1Jo 4.1 é uma tarefa de quem ama a igreja, e não de quem quer apagar o fogo. O que Jesus ensinou a Nicodemos Jo 3.7 é para ser vivido, e não apenas debatido.
LINHA DO TEMPODe Northampton a Princeton
Datas pelo calendário usado nas colônias inglesas na época, salvo onde indicado.
PARA FIXARO que ficou do capítulo
Voz baixa, texto forte
Edwards pregava lendo, "sem muito barulho nem emoção exterior" (Hopkins). Em Enfield, o povo gemeu e ele precisou parar. O texto era Dt 32.35.
A outra metade do sermão
Depois da aranha sobre o fogo, vem "a porta da misericórdia" aberta por Cristo. É uma advertência com convite.
Whitefield nos campos
Sem púlpitos, pregou a céu aberto. Franklin, cético, calculou que podia ser ouvido por mais de 30 mil.
Escravidão sem rodeio
Whitefield criticou maus-tratos e fez campanha pela escravidão legal na Geórgia. Edwards teve escravizados. O Capítulo 7 volta ao tema.
Provai os espíritos
Tennent contra os "não convertidos", Edwards com 1 Jo 4.1: o avivamento dividiu e fez pensar.
Um despertar só?
Butler duvida do termo; Lambert fala em invenção; Kidd defende. O que unificou, de fato, as colônias é discutido.
Próximo capítulo: Filadélfia, setembro de 1774. O Congresso Continental abre com a leitura de um salmo, e a Bíblia entra na Revolução, nos sermões e em uma tipografia que imprimiria, pela primeira vez em inglês na América, a Bíblia inteira.
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