Los Angeles, fim do inverno de 1906. William Seymour, de 35 anos, filho de escravizados da Louisiana e cego de um olho, chega a uma pequena missão de santidade na rua Santa Fe para assumir a congregação. No primeiro sermão, prega Atos 2.4 e diz que falar em línguas é a evidência bíblica de quem recebeu o batismo com o Espírito Santo. Ele mesmo nunca falara em línguas. Alguns dias depois, a porta da missão está trancada com um cadeado. Seymour contaria o episódio assim, no jornal que fundou em setembro daquele ano: "Vim assumir uma missão na rua Santa Fe, e numa noite trancaram a porta contra mim" (The Apostolic Faith, set. 1906; tradução minha).
Uma porta trancada é o ponto de partida de uma história que a maioria dos historiadores trata como o início do pentecostalismo moderno. Este capítulo conta de onde veio a doutrina que Seymour levava, o que aconteceu nos meses seguintes numa casa e num velho galpão, o que o jornal da missão e a imprensa de Los Angeles disseram, e três coisas que ainda se discutem: de onde o movimento realmente veio, o que fazer do sinal das línguas e o que a cor da pele fez com a unidade que o jornal anunciava. No fim, pergunta o que tudo isso significou para a maneira de ler o livro de Atos.
39 — DE TOPEKA A HOUSTONA doutrina que veio na mala
Seymour não inventou o que ensinava. Vinha do movimento de santidade, que, na linha de Wesley, ensinava que o cristão convertido podia receber uma segunda bênção, a santificação completa. Em Houston, no Texas, conheceu o ensino de um pregador de santidade do Kansas, Charles Fox Parham, que acrescentara uma terceira etapa: o batismo com o Espírito Santo, cujo sinal seria falar em línguas.
Parham abrira em 1900, numa mansão de Topeka apelidada de "Stone's Folly", uma escola bíblica. Segundo a Christian History, pediu aos alunos que procurassem na Bíblia a evidência de que alguém recebera o batismo com o Espírito Santo, e a conclusão deles, que coincidia com a dele, foi que o sinal eram as línguas. O jornal de Seymour contaria depois que o grupo "pôs de lado todos os comentários e anotações" e ficou estudando a Palavra (The Apostolic Faith, set. 1906; tradução minha). Na virada de 1900 para 1901, num culto de vigília, uma aluna de 30 anos, Agnes Ozman, pediu que Parham lhe impusesse as mãos para receber o Espírito. Segundo o relato de Parham, ela falou chinês. Os historiadores não sabem dizer se foi um idioma ou uma "língua celestial". Em poucos dias, cerca de metade dos 34 membros da escola, o próprio Parham entre eles, também falou em línguas.
Parham acreditava que eram idiomas humanos reais, dados por Deus para que os missionários pregassem sem estudar a língua local, e que isso anunciava a volta de Cristo. A Christian History chama a ideia de "revolucionária, mas de vida curta" (tradução minha).
Nem tudo vinha de Topeka. A Christian History lembra que em 1896 W. F. Bryant e seus seguidores, de onde sairia a Church of God de Cleveland, no Tennessee, já tinham falado em línguas, e que o avivamento do País de Gales de 1904–1905 deixou muitos cristãos americanos esperando que Deus fizesse o mesmo em casa. Em Los Angeles, o casal Lee e um pequeno grupo oravam, segundo a mesma revista, por um avivamento "do tipo galês".
Em Houston, Seymour frequentava uma igrejinha de santidade pastoreada por uma mulher negra, Lucy Farrow, que o pôs em contato com Parham. Quando Parham abriu ali uma escola bíblica, as regras da segregação do Texas só deixaram Seymour acompanhar as aulas sentado no corredor, ouvindo pela porta. Aceitou a doutrina da terceira bênção e partiu para a Califórnia sem ter vivido o que ensinava.
Em Atos 2.4, "noutras línguas" é hetérais glṓssais (ἑτέραις γλώσσαις). Glōssa (γλῶσσα) é definida por Strong como "a língua; por implicação, um idioma (especialmente um naturalmente não adquirido)", e héteros (ἕτερος), como "outro, diferente". Mas, nos versículos 6 e 8, a multidão ouve cada um falar "na sua própria língua", e ali o grego é outra palavra, diálektos (διάλεκτος), "um modo de discurso, isto é, dialeto" (Strong). Em 1 Coríntios 14.2, o grego diz só glṓssē, "em língua", e o texto afirma que quem assim fala "não fala aos homens, senão a Deus; porque ninguém o entende". Essas diferenças de vocabulário e de cena estão por trás de leituras diferentes do que Atos 2 descreve e do que Paulo trata em Corinto, como se verá.
40 — BONNIE BRAE E AZUSADa sala de uma casa a um velho galpão
Depois do cadeado, Seymour continuou a se reunir com um pequeno grupo, primeiro na casa de Edward Lee, onde morava, e depois na casa de Richard e Ruth Asberry, na rua Bonnie Brae. O número, segundo o próprio jornal da missão, era 214; hoje a casa é numerada 216. O jornal da missão conta que, em 9 de abril, "o fogo de Deus caiu numa casinha na Bonnie Brae", e que três dias depois o próprio Seymour recebeu o que ensinava (The Apostolic Faith, dez. 1906; tradução minha). Pelas narrativas da Christian History, Lee pediu a Seymour que orasse para que ele recebesse o dom de línguas e, quando Seymour orou, Lee falou. Na reunião da noite, Seymour contou o caso, pregou outra vez em Atos 2.4, e outros começaram a falar. Entre eles, Jennie Moore, que viria a ser sua esposa. Chegou gente de toda a cidade. A varanda dos Asberry, onde falavam à multidão da rua, cedeu com o peso.
Os seguidores de Seymour alugaram então o número 312 da rua Azusa, um prédio construído para uma igreja metodista episcopal africana e usado depois como depósito e estábulo. O próprio jornal da missão o descreve como "uma velha igreja metodista, convertida em parte num cortiço, deixando um salão maior, sem reboco, como um celeiro, no térreo" (The Apostolic Faith, set. 1906; tradução minha). Em outro número, nota que a vizinhança tinha "uma loja de lápides, estábulos e um depósito de madeira", e que isso era bom, "porque ninguém reclama de cultos que duram a noite toda" (nov. 1906; tradução minha). Segundo a historiografia, o primeiro culto no galpão foi por volta de 14 de abril.
Os cultos começavam por volta das dez da manhã e, segundo o jornal da missão, mal paravam antes das dez ou da meia-noite, às vezes só às duas ou três da madrugada. Havia, diz o jornal, "nenhum coro", "nenhuma coleta" e nenhum cartaz de anúncio, e instrumentos de música "não são usados" (nov. 1906; tradução minha). Os bancos eram tábuas. Frank Bartleman, pregador itinerante de santidade que escrevia relatos sobre a missão, lembrou que Seymour costumava ficar sentado atrás de duas caixas de sapato vazias, uma sobre a outra, com a cabeça dentro da de cima, orando. O jornal conta que "pregadores orgulhosos e bem vestidos" vinham "investigar" e que logo, em suas palavras, muitos deles estavam "rolando no chão sujo", pedindo perdão a Deus (set. 1906; tradução minha).
O Los Angeles Times de 18 de abril de 1906 publicou uma das primeiras notícias da imprensa secular sobre a missão, com o título "Weird Babel of Tongues", algo como "Estranha babel de línguas". O texto abre assim: "Exalando falas estranhas e balbuciando um credo que nenhum mortal são pareceria capaz de entender, a mais nova seita religiosa começou em Los Angeles" (tradução minha). O repórter descreve um grupo de "negros e uma pitada de brancos" num "barracão caindo aos pedaços" e chama Seymour de "velho exortador negro, cego de um olho". Seymour tinha 35 anos. A matéria saiu no mesmo dia do terremoto de São Francisco, coincidência que os historiadores costumam lembrar, e trazia a fala de alguém que profetizava "terrível destruição" para a cidade se ela não cresse.
⚠️ O texto do Times é hostil e racista, e é, ao mesmo tempo, uma das mais antigas descrições feitas por quem não estava dentro. Serve para saber como a cidade viu a missão, e não para saber o que aconteceu lá dentro.
41 — O JORNAL E O LIVRO DE ATOSA Bíblia lida como molde
Em setembro de 1906, a missão passou a imprimir o seu próprio jornal, The Apostolic Faith, distribuído de graça. Na primeira página, o título era "Pentecostes chegou", e o subtítulo dizia que Los Angeles estava sendo visitada por "um avivamento de salvação bíblica e de Pentecostes, como registrado no livro de Atos" (tradução minha). O texto afirma que "Pentecostes chegou, e com ele as evidências bíblicas estão se seguindo" (tradução minha), e que, em cinco anos, "umas 13.000 pessoas" tinham recebido a mensagem, no movimento como um todo (tradução minha). Esse número é do próprio jornal e não foi confirmado por fonte independente. Historiadores falam de tiragens que cresceram até dezenas de milhares de exemplares.
O subtítulo mostra um modo de ler. O jornal trata o livro de Atos não só como história, mas como um molde com o qual comparar o presente: a pergunta é se a vida da igreja hoje se parece com o que Atos descreve. Os alunos de Parham, diz o jornal, tinham posto de lado os comentários para estudar só a Palavra. E o jornal usa a promessa de Joel, retomada por Pedro em Atos 2.17, para falar de quem estava na sala.
Num número de novembro de 1906, o jornal cita um leigo metodista de destaque em Los Angeles, sem lhe dar o nome: "Louvo a Deus porque não começou em igreja nenhuma desta cidade, mas num celeiro, para que todos pudéssemos vir e participar. Se tivesse começado numa igreja fina, os negros pobres e os de língua espanhola não o teriam recebido [...]. Deus Todo-Poderoso diz que derramará do seu Espírito sobre toda a carne" (tradução minha). Outro texto do mesmo número diz que "nenhum instrumento que Deus possa usar é rejeitado por causa da cor, da roupa ou da falta de instrução" (tradução minha).
Pedro, em Atos 2, diz que o que se via em Jerusalém era o que Joel prometera: "do meu Espírito derramarei sobre toda a carne" e "sobre os meus servos e as minhas servas" At 2.17-18. A promessa não pede credencial: nem de idade, nem de sexo, nem de condição social. Quem pregar o texto pode perguntar à igreja quem ela, na prática, tem deixado de fora da sala.
42 — A COR DA PELEUma sala misturada num país segregado
A missão da rua Azusa tinha um pastor negro e uma assembleia de negros, brancos, mexicanos, asiáticos e imigrantes europeus. Os Estados Unidos de 1906 estavam em plena era de segregação legal (Jim Crow). Los Angeles não era segregada por lei, mas, segundo a Christian History, ver gente de tantas origens sob o mesmo teto era raro numa cidade de 230 mil habitantes. O jornal da missão diz que "o trabalho começou entre os negros", que Deus batizou com o Espírito Santo "várias lavadeiras santificadas" e que "etíopes, chineses, índios, mexicanos e outras nacionalidades" adoravam juntos (set. 1906; tradução minha). Bartleman resumiu, segundo a Christian History, que na rua Azusa "a linha de cor foi lavada no Sangue" (tradução minha; a frase aparece com pequenas variações em outras fontes).
Os mesmos historiadores mostram os limites. Em outubro de 1906, Parham foi a Los Angeles e ficou horrorizado. Synan registra que ele condenou, em termos racistas, o culto. Olsen cita o que Parham escreveu depois: viu ali "manifestações da carne", "controles espíritas" e gente praticando hipnotismo no altar, e dois presbíteros lhe disseram que ele "não era desejado naquele lugar" (tradução minha). Parham ficou à margem do movimento que ajudara a começar e, segundo Synan, pelo resto da vida atacou os cultos da rua Azusa. A Christian History acrescenta que, segundo relatos que a revista não documenta, Seymour pediu aos hispânicos que saíssem e escreveu estatutos que só permitiam a negros ocupar cargos na missão. Florence Crawford, que rompera com Seymour em 1907 e abrira um trabalho próprio em Portland, no Oregon, e Clara Lum, que o ajudava a editar The Apostolic Faith, aparecem no fim dessa história: Lum se juntou a Crawford e levou consigo a lista de assinantes (em 1908 ou 1909, as fontes divergem), o que isolou Seymour dos leitores.
Os historiadores resumem o saldo de duas formas. Ted Olsen, na Christian History, escreve que a frase de Bartleman "era verdadeira na prática só por pouco tempo" (tradução minha). Por outro lado, a própria Christian History nota que congregações negras começaram a deixar denominações multirraciais já em 1908 e que a Assembleia de Deus nasceu, em 1914, como uma comunhão de maioria branca; a Pentecostal Assemblies of the World, que começara inter-racial, perdeu os membros brancos em 1924. E o historiador Sidney Ahlstrom, de Yale, citado por Synan, disse que Seymour personificava uma piedade negra que "exerceu sua maior influência direta na história religiosa americana" (tradução minha).
⚠️ As fontes divergem sobre datas e sobre quanto a unidade foi real. O jornal da missão descreve a unidade; os historiadores citados registram os conflitos. O livro põe os dois lados e não decide quanto cada um pesou.
43 — ONDE COMEÇOU, E O QUE O SINAL SIGNIFICADois debates que continuam abertos
O primeiro debate é de origem. Se Parham ensinou o sinal das línguas em 1901 em Topeka e Seymour só o levou adiante, onde está o começo? Vinson Synan, na Christian History, escreve que praticamente todos os movimentos pentecostais e carismáticos têm raízes, direta ou indiretamente, na rua Azusa. Cecil Robeck e Edith Blumhofer, historiadores do movimento, escrevem que ele saiu dos avivamentos evangélicos radicais do fim do século XIX, nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha, e o próprio Olsen nota que línguas já tinham aparecido em grupos de santidade em 1896. Allan Anderson, em Spreading Fires (2007), defende que as origens foram múltiplas e espalhadas por vários continentes, e que a história de Los Angeles, em 1906, precisa ser equilibrada com elas. Cada um responde a uma pergunta um pouco diferente.
⚠️ Quem fala em "o começo" precisa dizer de qual começo fala: a doutrina das línguas como sinal inicial (Topeka, 1901), a expansão mundial (Los Angeles, 1906), ou o conjunto de movimentos de avivamento que deram origem aos dois.
O segundo debate é o sentido do sinal. Para Parham e para Seymour, em 1906, as línguas eram a evidência do batismo com o Espírito, e Atos 2.4 era o texto de Seymour. Textos como Atos 10.44-46 ("os ouviam falar línguas, e magnificar a Deus") costumam ser citados pelos pentecostais clássicos no mesmo sentido. Outros cristãos leram os mesmos textos de outro modo. O fundador da Igreja do Nazareno, P. F. Bresee, ensinava que o povo de santidade já tinha sido batizado no Espírito e que as línguas de Azusa não vinham de Deus (Christian History). Em 1918, o teólogo presbiteriano Benjamin Warfield sustentou, em Counterfeit Miracles, que os dons miraculosos cessaram com a era apostólica. Diante de textos como 1 Coríntios 12.30, "falam todos diversas línguas?", os pentecostais clássicos costumam responder distinguindo o sinal inicial do dom de línguas exercido na igreja.
Muitos dos que saíram da rua Azusa para o campo missionário esperavam receber, de uma vez, idiomas humanos para pregar. Segundo a Christian History, A. G. Garr, o primeiro branco a falar em línguas em Azusa, foi para a Índia esperando falar a língua do lugar; como isso não aconteceu, foi para Hong Kong e estudou chinês. Parham nunca largou a ideia de que falara idiomas reais, mas seus seguidores descobriram que, quando estrangeiros os entendiam, era exceção.
44 — O QUE SAIU DE LÁMissionários, denominações e uma casa que não existe mais
Dos "peregrinos de Azusa", como foram chamados, a Christian History cita alguns nomes. Gaston Cashwell, da Carolina do Norte, levou a mensagem às igrejas de santidade do Sul. Charles Mason, de Memphis, voltou para conduzir a Igreja de Deus em Cristo ao pentecostalismo. William Durham, de Chicago, formulou depois a teologia da "Obra Consumada", da qual saiu, em 1914, a Assembleia de Deus nos Estados Unidos, fundada em abril, em Hot Springs, no Arkansas, por cerca de trezentos pregadores e leigos de vinte estados. Dentro de poucos anos, mensageiros ligados a Azusa tinham chegado à Europa, à África e à Ásia.
Seymour, a essa altura, tinha ficado para trás. Em 1908, segundo a Christian History, casou-se com Jennie Moore. Depois dos anos de 1906 a 1909, a missão virou uma pequena igreja negra, que ele pastoreou até morrer, em 28 de setembro de 1922. O prédio foi vendido por impostos atrasados e demolido, e hoje um centro cultural japonês ocupa o terreno (Synan). Em 2011, o Pew Research Center, com estimativas do Center for the Study of Global Christianity, falou em cerca de 279 milhões de pentecostais e 305 milhões de carismáticos no mundo. As próprias estimativas vêm de números de organizações cristãs e não de censos.
A Christian History atribui a Seymour uma frase de conselho: "Não saiam daqui falando de línguas; falem de Jesus" (tradução minha). A fonte da frase não é dada, e o livro a registra com essa reserva.
LINHA DO TEMPODe Topeka à Assembleia de Deus
Datas pelo calendário atual.
PARA FIXARO que ficou do capítulo
A porta trancada
Seymour pregou Atos 2.4 sem nunca ter falado em línguas, e a missão da rua Santa Fe o barrou. Ele mesmo contou o episódio.
Topeka, 1901
Parham mandou os alunos procurarem na Bíblia o sinal do batismo com o Espírito. Concluíram que eram as línguas At 2.4.
312 da rua Azusa
Antiga igreja metodista episcopal africana, depois depósito e estábulo, abrigou de 1906 a cerca de 1909 cultos quase sem pausa.
Duas notícias
O Times (18/4/1906) zombou da missão. O jornal da missão (set. 1906) disse que "Pentecostes chegou" e levou a notícia ao mundo.
Origens em debate
Topeka, Los Angeles ou vários centros ao mesmo tempo: Synan e Anderson respondem de modo diferente.
Unidade e limite
Uma sala interracial em 1906, anunciada pelo jornal. Parham, os estatutos e a lista de assinantes mostram os limites Jl 2.28-29.
Próximo capítulo: Dayton, Tennessee, julho de 1925. Um professor de ensino médio é julgado por ensinar evolução, e o julgamento é transmitido por rádio. É o encontro de duas formas de ler a Bíblia, e o início da história do fundamentalismo, do rádio e da televisão.
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