Delfshaven, na Holanda, julho de 1620. A maré não espera ninguém, e o navio está pronto. No cais, homens e mulheres de uma igreja inglesa exilada se abraçam e choram, e até os holandeses que olham de longe não seguram as lágrimas. O pastor se ajoelha, e todos se ajoelham com ele. Um dos que embarcam, William Bradford, contaria a cena anos depois. Dele é a palavra que a história adotou: "sabiam que eram peregrinos" (tradução minha). Na margem do manuscrito, ao lado da frase, está anotado "Heb. 11".
Este capítulo atravessa o Atlântico com três grupos que levaram a Bíblia em inglês na bagagem: os colonos de Jamestown, os peregrinos do Mayflower e os puritanos de Boston. Todos citavam o mesmo livro, e nenhum deles queria exatamente a mesma coisa. No fim, uma linha do tempo marca o que ficou: uma Bíblia que virou lei, escola e mito de origem.
01 — JAMESTOWNA Bíblia da Igreja da Inglaterra
A primeira colônia inglesa permanente na América do Norte não foi de dissidentes. Jamestown, na Virgínia, nasceu em 1607 de uma companhia de Londres, e a carta do rei Tiago I que a autorizou, de 1606, punha a fé na frente do negócio. Falava no desejo de "propagar a religião cristã a pessoas que ainda vivem em trevas e em miserável ignorância do verdadeiro conhecimento e culto de Deus" (Primeira Carta da Virgínia, 1606; tradução minha). A mesma frase dizia que isso levaria os habitantes locais à "civilidade humana". A fé e o projeto de império andavam juntos, e o texto não esconde.
A religião da colônia era a do reino: a Igreja da Inglaterra, com o Livro de Oração Comum e um capelão, Robert Hunt, que morreu em 1608. Em 1610 e 1611, os governadores da Virgínia emitiram um conjunto de ordens publicado em Londres em 1612 como Lawes Divine, Morall and Martiall, as "Leis divinas, morais e marciais". Segundo o verbete da Encyclopedia Virginia, elas mandavam que todos assistissem ao culto duas vezes por domingo e previam punições duras, inclusive a morte, para a blasfêmia. Eram ordens de um governo militar, e os historiadores lembram que não formavam um código no sentido moderno: nenhuma lei as criou e nenhum tribunal as aplicava.
Em Jamestown, a equipe do Jamestown Rediscovery escavou os restos da igreja anglicana de 1608. Em julho de 2015, pesquisadores do Smithsonian e da equipe do sítio anunciaram a identificação de quatro homens ali enterrados como líderes da colônia, entre eles o capelão Robert Hunt. Junto ao capitão Gabriel Archer, filho de pais católicos, havia uma caixinha de prata que os pesquisadores consideram provavelmente um relicário católico: os exames de imagem mostraram, dentro dela, fragmentos de osso.
⚠️ A identificação dos quatro é "provável", como a própria equipe a apresentou, e a leitura da caixinha como relicário é dos pesquisadores. Ninguém sabe ao certo por que ela estava na sepultura. O que o achado mostra, com segurança, é que numa colônia oficialmente anglicana as histórias de fé eram mais variadas do que a lei dizia.
02 — O MAYFLOWERGente de Hebreus 11
Os peregrinos do Mayflower eram outra coisa. Eram separatistas: tinham rompido com a Igreja da Inglaterra, que julgavam incapaz de se reformar, e por isso eram tratados como fora da lei. Fugiram para a Holanda, e acabaram em Leiden. Bradford escreveu a história do grupo entre c. 1630 e 1651 (Of Plymouth Plantation, que ficou em manuscrito) e explica por que deixaram a cidade depois de onze ou doze anos. Os motivos que ele lista são humanos: a dureza da vida, que afastava quem queria se juntar a eles; a velhice chegando; os filhos arrastados pelos costumes da cidade. E um último, que ele diz "não ser o menor":
"Uma grande esperança e zelo interior de lançar algum bom alicerce, ou ao menos abrir caminho, para propagar e fazer avançar o evangelho do reino de Cristo naquelas partes remotas do mundo, ainda que fossem apenas degraus para outros na realização de tão grande obra." (William Bradford, Of Plymouth Plantation, livro I, cap. 4; tradução minha)
Era um grupo de leigos que lia a Bíblia em inglês e queria viver a igreja como a achava no Novo Testamento. A Bíblia deles era a de Genebra. O museu Pilgrim Hall, em Plymouth, guarda até hoje o exemplar de 1592 que pertenceu a Bradford. Essa tradução foi feita por exilados ingleses calvinistas em Genebra e publicada em 1560, com notas de margem que a Igreja oficial inglesa não aceitava; o rei Tiago mandou preparar uma nova, a que sairia em 1611. O Pilgrim Hall guarda também um exemplar da Bíblia do rei Tiago impresso em 1620, que o museu atribui a John Alden, um tanoeiro contratado para a viagem. Como foi impresso pouco antes da partida, não há como saber se esse exemplar chegou a ir a bordo.
Hebreus 11.13 fala de "estrangeiros e peregrinos na terra". No grego são duas palavras. xénos (ξένος) quer dizer "estrangeiro", alguém de fora, hóspede ou forasteiro. parepídēmos (παρεπίδημος), que o dicionário de Strong define como "um estrangeiro ao lado, isto é, um residente estrangeiro", é quem mora num lugar sem ser dele. O eco é de Abraão diante dos hititas: "Estrangeiro e peregrino sou entre vós" Gn 23.4. No hebraico, são gêr (גֵּר) e tôwshâb (תּוֹשָׁב). "Peregrino", a palavra que usamos para os colonos de 1620, é o termo de Hebreus aplicado a eles por Bradford.
O Mayflower largou de Plymouth, na Inglaterra, em 6 de setembro de 1620 pelo calendário juliano da época (16 de setembro pelo nosso), com pouco mais de cem passageiros: parte da igreja de Leiden e parte de gente reunida pela companhia, que os peregrinos chamavam de "estrangeiros". Depois de dois meses no mar, chegaram à ponta de Cape Cod. Bradford descreve o desembarque com uma cena e duas lembranças da Bíblia. Primeiro, eles "caíram de joelhos e bendisseram o Deus do céu" (tradução minha). Depois, olhando a costa, ele pensa em Paulo, que, naufragado na ilha de Malta, encontrou bárbaros que "usaram conosco de não pouca humanidade" At 28.2, e nota que ali era diferente, porque não havia quem os recebesse. E acrescenta que eles não podiam, como Moisés, subir ao cume do Pisga para ver uma terra melhor Dt 34.1. A Bíblia era, para ele, o jeito de entender onde estava.
Antes de desembarcar, os homens assinaram um acordo a bordo, em 11 de novembro (21 pelo nosso calendário): o Pacto do Mayflower. O original se perdeu. O texto vem de Bradford, e a lista de 41 signatários, de um sobrinho dele, Nathaniel Morton, em 1669. Começa com "Em nome de Deus, amém". Os signatários dizem ter empreendido a viagem "pela glória de Deus, e pelo avanço da fé cristã, e honra do nosso rei e pátria", e se unem, "solene e mutuamente, na presença de Deus e uns dos outros", num "corpo político civil", com leis a serem feitas "para o bem geral da colônia" (tradução minha). O motivo imediato, diz Bradford, foi que alguns "estrangeiros" a bordo tinham dito que, ao chegar, "usariam da sua própria liberdade", pois o direito de colonizar que levavam era para a Virgínia, e não para ali. O pacto é um ato de governo, e o verbo que ele usa, covenant ("aliança"), era familiar a quem lia a Bíblia.
O Mayflower veio por liberdade religiosa para todos? É o que muita gente aprende, e o texto do próprio Bradford não diz isso. Na Holanda, o grupo já tinha liberdade de culto, e ele lista outros motivos para sair de lá. A palavra "liberdade" aparece quando ele fala dos que queriam "gozar as ordenanças de Deus em sua pureza" e "a liberdade do evangelho" junto com eles, e quando fala de levar o evangelho a lugares distantes. O que buscavam era poder viver a igreja como entendiam a Bíblia. Nem o relato de Bradford nem o pacto de 1620 descrevem um refúgio aberto a todas as crenças. O capítulo seguinte mostra como a Nova Inglaterra tratou quem discordava.
⚠️ Isto não diminui a coragem deles. Bradford conta que, em dois ou três meses, morreu metade da companhia, "principalmente em janeiro e fevereiro", de escorbuto e outras doenças, e que de pouco mais de cem pessoas restaram "mal 50". O que o texto não permite é fazer do Mayflower uma carta de tolerância universal.
No pior da doença, conta Bradford, só seis ou sete pessoas estavam sãs. Elas buscavam lenha, acendiam fogo, preparavam a comida, faziam as camas, lavavam as roupas sujas e vestiam e despiam os doentes, "voluntariamente e com alegria", "sem murmurar em nada". Ele cita dois deles pelo nome: William Brewster, o ancião da igreja, e Myles Standish, o capitão. Nessas semanas, escreve, morriam às vezes duas ou três pessoas por dia.
03 — BOSTONA cidade sobre o monte
Dez anos depois do Mayflower, partiu uma frota maior e com outro projeto. Os puritanos que fundaram a Colônia da Baía de Massachusetts, em 1630, não eram separatistas: queriam purificar a Igreja da Inglaterra, e fariam isso a partir de uma nova base, na América. Ao longo da década de 1630, cerca de vinte mil puritanos emigraram para Massachusetts e as colônias vizinhas, no que se chama de Grande Migração. À frente da primeira frota ia John Winthrop, escolhido governador. A bordo do Arbella, ou pouco antes de embarcar (os estudiosos discordam), ele escreveu um texto chamado A Model of Christian Charity, "Um modelo de caridade cristã".
Nele está a frase mais citada da história colonial. Winthrop pede união entre os colonos, que devem se deleitar uns nos outros e fazer das condições dos outros as suas, e termina o argumento com este aviso:
"Porque devemos considerar que seremos como uma cidade sobre um monte. Os olhos de todo o povo estão sobre nós. De modo que, se agirmos falsamente com o nosso Deus nesta obra que empreendemos, e assim o fizermos retirar a ajuda que agora nos dá, seremos feitos uma história e um provérbio de zombaria pelo mundo." (John Winthrop, A Model of Christian Charity, 1630; tradução minha)
A imagem lembra as palavras de Jesus no Sermão do Monte: "não se pode esconder uma cidade edificada sobre um monte" Mt 5.14. O texto de Winthrop não cita o versículo, e a ligação é leitura dos estudiosos, mas o vocabulário é o mesmo. No fim do sermão, ele cita duas passagens: o profeta Miqueias, "que pratiques a justiça, e ames a benignidade, e andes humildemente com o teu Deus" Mq 6.8, e a última exortação de Moisés, a escolha entre a vida e a morte Dt 30.19.
Repare no tom. A "cidade" não é uma vitória anunciada: é um risco. Se falharem, serão motivo de escárnio, e Deus retirará sua ajuda. Antes de tudo, Winthrop pede solidariedade a gente que atravessa o mar para viver junto num lugar duro.
Esta é uma das frases mais usadas em discursos americanos do século XX, e a historiografia recente a trata com cautela. O historiador Daniel Rodgers, em As a City on a Hill (2018), mostra, segundo a síntese de uma resenha de Steven Conn, que o texto não circulou, não foi reimpresso e parece não ter pesado nos debates da independência nem da Constituição. Não há prova de que os companheiros de viagem de Winthrop o tenham ouvido, e ele nunca mais usou a imagem. Durante cerca de três séculos, o texto ficou praticamente invisível como referência cultural. Foi no século XX, a partir dos anos 1930 e sobretudo depois da Segunda Guerra, que voltou à cena, primeiro entre os estudiosos do puritanismo e depois na política.
⚠️ A pergunta moderna ("os EUA são a cidade sobre o monte?") usa uma frase que, na origem, é um texto de um governador de colônia para os seus companheiros de viagem. O que o documento prova é a linguagem bíblica de uma colônia puritana em 1630. Ele não prova que a nação nascida em 1776 se tenha pensado assim.
Winthrop, em 1630, usou a luz de Mateus 5 para falar de responsabilidade, e não de orgulho: os olhos de todos estão sobre nós. Jesus diz aos discípulos que a luz deles deve brilhar "para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem a vosso Pai, que está nos céus" Mt 5.16. A cidade no monte existe para que se veja Deus, e não quem a construiu.
04 — A BÍBLIA NA LEI E NA ESCOLADo voto à cartilha
Na Nova Inglaterra puritana, a Bíblia entrou na lei. Em 1631, a assembleia de Massachusetts decidiu que só seria "livre" da colônia, isto é, só votaria e ocuparia cargos, quem fosse membro de uma das igrejas locais. A regra durou décadas. Em 1641, a corte aprovou o primeiro código escrito, o Body of Liberties, "Corpo de Liberdades", redigido pelo pastor Nathaniel Ward. Algumas leis trazem entre parênteses a passagem bíblica que as sustenta. Por exemplo, a primeira das leis capitais:
"Se alguém, depois de condenação legal, tiver ou adorar outro deus que não o Senhor Deus, será morto." (Massachusetts Body of Liberties, 1641, §94, com a margem Dt 13.6,10; 17.2,6; Êx 22.20; tradução minha)
A segunda é contra a feitiçaria, com a margem de Êxodo 22.18 ("A feiticeira não deixarás viver"), Levítico 20.27 e Deuteronômio 18.10. A terceira, contra a blasfêmia, tem a margem de Levítico 24.15-16: "aquele que blasfemar o nome do Senhor, certamente morrerá" Lv 24.16. Os legisladores liam o Antigo Testamento como modelo de justiça civil e punham as referências à vista de quem quisesse conferir. Os historiadores veem no código, porém, uma mistura de direito inglês e de referências bíblicas, e não uma lei só de Moisés. O mesmo código trazia ainda proteções que não saíam da Bíblia, como limites à prisão por dívida (§33).
No mesmo código, o §91 trata da escravidão. Diz que nunca haverá entre eles "servidão forçada, vassalagem ou cativeiro", salvo por exceção: "cativos legítimos tomados em guerras justas" e "estrangeiros que se vendem de livre vontade ou nos são vendidos". E acrescenta que terão "todas as liberdades e usos cristãos que a lei de Deus estabelecida em Israel, a respeito de tais pessoas, moralmente exige" (tradução minha). É um dos primeiros textos da América inglesa que admite a escravidão por lei, e invoca o Antigo Testamento ao fazê-lo. O Capítulo 7 volta a isso.
A palavra de Êxodo 22.18 que a ACF traduz por "feiticeira" vem da raiz hebraica kâshaph (כָּשַׁף), que o dicionário de Strong define como "sussurrar um encantamento, isto é, enfeitiçar ou praticar magia". Os estudiosos discutem o que exatamente a lei antiga punia. As Bíblias inglesas da época (Genebra e rei Tiago) traduziram por "witch", e é "witch" que aparece na lei de Massachusetts. A tradução que a colônia lia entrou, assim, no texto do direito.
Para ler a Bíblia, era preciso saber ler, e os puritanos entenderam isso cedo. Em 1647, Massachusetts aprovou uma lei que ficou conhecida como a do "velho enganador". Dizia que, sendo "um dos principais planos daquele velho enganador, Satanás, manter os homens longe do conhecimento das Escrituras", cada cidade que chegasse a cinquenta famílias deveria pôr alguém para ensinar as crianças a ler e escrever (tradução minha, do texto da lei). As de cem famílias teriam de ter também uma escola de gramática, que preparava para a universidade. Em 1636, a colônia já tinha fundado Harvard, e um texto de 1643 dizia o objetivo: não deixar "um ministério iletrado às igrejas quando os nossos ministros estiverem no pó". A lógica era clara. Quem governava a colônia queria que cada pessoa pudesse abrir o livro e conferir.
LINHA DO TEMPODo cais de Delfshaven à escola de cinquenta famílias
Datas pelo calendário juliano usado na Inglaterra da época, salvo onde indicado. O símbolo 📖 marca onde o texto bíblico foi citado pelos protagonistas.
PARA FIXARO que ficou do capítulo
Jamestown, 1607
Colônia da Igreja da Inglaterra, com culto obrigatório e uma carta real que falava em "propagar a religião cristã".
Peregrinos de Hebreus 11
O nome vem de Bradford, que liga a saída de Leiden à carta aos Hebreus Hb 11.13. A Bíblia deles era a de Genebra.
Mayflower não é carta de tolerância
Bradford fala em viver a igreja "em pureza", não em liberdade religiosa para todos. O pacto de 1620 é um documento de governo.
A cidade era um aviso
Winthrop (1630) lembra Mt 5.14, mas o texto é um apelo à solidariedade e um alerta contra a infidelidade. Ficou quase esquecido até o século XX.
Lei com margem bíblica
O código de 1641 punha referências bíblicas ao lado de várias leis, inclusive a de Êx 22.18 sobre a feitiçaria.
Ler para conferir
A lei de 1647 obrigou as cidades a ensinar a ler, "para que ninguém ficasse longe das Escrituras".
Próximo capítulo: quem foi expulso, enforcado ou deixado de fora dessa Nova Inglaterra, o primeiro livro impresso na América inglesa e a Bíblia que John Eliot traduziu para uma língua indígena.
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