Em Biblos, alguém passa o cinzel pela borda de um sarcófago de pedra. É a tumba de um rei, Ahiram, e o escriba grava umas trinta e oito palavras num alfabeto de vinte e dois sinais. O texto é uma maldição: quem abrir aquela tumba perderá o poder e a paz de Biblos.
A data do sarcófago é debatida: a mais aceita é c. 1000 a.C., e há quem proponha séculos depois. Mas as letras são o que importa. Elas são parentes diretas das que você está lendo agora. Este último capítulo conta o que os cananeus deixaram ao mundo (o alfabeto, o mar e uma palavra que vira "Bíblia"), enfrenta a pergunta mais pesada que a Bíblia faz sobre eles, a do fogo de Moloque, e fecha o livro com o que muda na sua leitura.
40 — AS LETRAS DE CANAÃDe Serabit el-Khadim a Biblos
A história do alfabeto começa fora de Canaã, numa mina de turquesa no Sinai. Em 1904–1905, o casal Flinders e Hilda Petrie achou em Serabit el-Khadim, perto de um templo egípcio da deusa Hathor, inscrições em sinais que pareciam hieróglifos, mas não eram. Em 1916, o egiptólogo Alan Gardiner os leu como as letras mais antigas de uma língua semítica e identificou uma palavra que se repete, lbʿlt, "para a Senhora" (ou "para Baalat"). Em 1999, os egiptólogos John e Deborah Darnell acharam duas inscrições parecidas em Wadi el-Hol, no deserto do Egito.
A ideia por trás é simples e genial. Cada sinal é o desenho de uma coisa, e vale só pelo primeiro som da palavra que a nomeia. O desenho de uma cabeça de boi, em semítico ʾalp, passa a valer o primeiro som de ʾalp. O de uma casa, bayt, passa a valer o "b". Em vez de centenas de sinais, bastam uns vinte.
⚠️ As datas são debatidas: uns colocam a escrita do Sinai em c. 1850 a.C., outros em c. 1550 a.C. Quem a coloca mais cedo tende a ver a invenção como feita no Egito, por trabalhadores de língua semítica; quem a coloca mais tarde, a vê no mundo de Canaã.
A palavra "alfabeto" vem de alpha e bêta, as duas primeiras letras do grego. E estas vêm das duas primeiras letras do fenício, 'ālep (א) e bêt (ב), os nomes de "boi" e de "casa". Isso quer dizer que quando você diz "alfabeto", fala duas palavras de Canaã sem saber: "boi" e "casa". A Bíblia usa o alfabeto de maneira visível em poemas acrósticos. O Salmo 119 tem vinte e duas estrofes de oito versos cada, e todos os versos de cada estrofe começam com a mesma letra, na ordem do alfabeto hebraico. O mesmo acontece em quatro dos cinco capítulos de Lamentações (1 a 4).
Em Ugarit, os escribas fizeram uma coisa diferente: adotaram a ideia do alfabeto, mas a escreveram com cunhas, em argila, como o cuneiforme. Chegaram a trinta sinais, por volta de 1400 a.C. A ordem das letras lembra a do alfabeto fenício, o que sugere que os dois sistemas não nasceram isolados. Mas foi o alfabeto de linhas, de vinte e dois sinais, que triunfou. Os fenícios o escreviam da direita para a esquerda, sem vogais. A convenção diz que a escrita fenícia vai de c. 1050 a.C. em diante, embora as inscrições mais antigas conhecidas sejam do século X a.C.
O sarcófago de Ahiram. Em 1923, o arqueólogo francês Pierre Montet achou, na necrópole real de Biblos, a tumba V, com um sarcófago de pedra, hoje no Museu Nacional de Beirute. Num lado, um rei sentado num trono com esfinges aladas recebe uma flor de lótus de uma mulher. A inscrição, de uns 38 termos, está na borda e na tampa, em fenício de Biblos. Diz que o filho do rei fez o caixão, e amaldiçoa quem o remover ou apagar a inscrição. É considerado o mais antigo exemplo conhecido do alfabeto fenício plenamente desenvolvido.
O calendário de Gezer. Em 1908, R. A. S. Macalister achou em Gezer uma plaquinha de calcário, de uns 11 por 7 centímetros, hoje no Museu Arqueológico de Istambul. Lista os trabalhos do campo, mês a mês, ou de dois em dois meses: semear, colher a cevada, fazer o feno, podar as vinhas, colher o fruto do verão. Os estudiosos a datam do século X a.C.
⚠️ O sarcófago de Ahiram tem datação disputada (de c. 1000 a.C. a séculos depois), e o nome do filho do rei, que alguém leu "Itobal", está danificado. O calendário foi achado sem camada clara, e não se sabe se a língua é fenício ou hebraico do norte, nem se o nome "Abias" no fim é leitura certa. Servem como exemplos da escrita da época. Não decidem quem a usou primeiro.
Os gregos tinham uma explicação para isso. O historiador Heródoto, no século V a.C., conta que os fenícios que vieram com Cadmo trouxeram as letras para a Grécia, e que os jônios as adaptaram e as chamaram de "fenícias" (Histórias V, 58). Ele mesmo diz ter visto, em Tebas, inscrições "cadmeias" em três trípodes, parecidas com as letras jônicas (V, 59). Os historiadores modernos acham que a história é mais complicada, mas concordam em que o alfabeto grego vem do fenício, e daí vêm o etrusco e o latim.
E há uma consequência que toca o seu Bíblia. Biblos, cujos pedreiros lavraram a pedra do templo 1Rs 5.18, exportava papiro do Egito. Em grego, býblos acabou querendo dizer "papiro", e os livros em papiro foram chamados de biblía, "os livros". O nome da cidade, Gebal em hebraico Ez 27.9, é a origem, em última instância, da palavra "Bíblia". Quando você abre a sua Bíblia, abre o nome de uma cidade cananeia.
41 — A PÚRPURA, O MAR E CARTAGOPara onde foram os navios de Tiro
Os mesmos marinheiros que levaram cedro a Salomão foram mais longe. O poema de Ezequiel descreve o navio de Tiro peça por peça: "Fabricaram todos os teus conveses de faias de Senir; trouxeram cedros do Líbano para te fazerem mastros. Fizeram os teus remos de carvalhos de Basã", com a vela de "linho fino bordado do Egito" e a cobertura de "azul e púrpura das ilhas de Elisá" Ez 27.5-7. A púrpura era a mercadoria-assinatura da costa: um corante tirado de um molusco, o múrice, caríssimo. Os gregos chamavam essa gente de Phoínikes, palavra que alguns ligam a phoînix, "vermelho, púrpura", como uma explicação provável, mas não certa.
Pelo mar, a rede cresce. Segundo a tradição, Útica, na costa da atual Tunísia, foi a primeira colônia de Tiro, e Cartago, fundada por uma fugitiva de Tiro, veio depois. Josefo guarda a versão de que a irmã do rei Pigmalião fugiu e fundou a cidade na Líbia (Contra Apião I, 18); a tradição grega e romana a chama de Elissa, ou Dido, e fixa a fundação em c. 814 a.C. Heródoto conta que, por volta de 600 a.C., o faraó Neco mandou navios fenícios darem a volta na África, e que eles voltaram três anos depois (Histórias IV, 42). É uma história de marinheiros, e não há como conferi-la.
⚠️ As datas de fundação de Cartago e os nomes dos fundadores vêm de fontes gregas e latinas tardias, e os historiadores as tratam como tradição. O que a arqueologia mostra, desde o século IX a.C., são cidades fenícias no Mediterrâneo ocidental.
42 — O FOGO DE MOLOQUEO que a Bíblia diz e o que a evidência permite dizer
Em Cartago, e em outros lugares do Ocidente, os arqueólogos acharam uma coisa que muita gente conhece só por fama: os tofetes, áreas de culto com urnas de cinzas e estelas. E a Bíblia fala de um fogo, e de um nome, Moloque. É o ponto em que a evidência é mais discutida de todo o livro. Vamos devagar.
O que a Bíblia diz. Há dois conjuntos de textos. O primeiro é a lei:
Levítico 20 acrescenta a pena: quem der um filho a Moloque, "certamente morrerá; o povo da terra o apedrejará" Lv 20.2. Deuteronômio coloca isso entre as "abominações daquelas nações": "Entre ti não se achará quem faça passar pelo fogo a seu filho ou a sua filha" Dt 18.10, e resume: "até seus filhos e suas filhas queimaram no fogo aos seus deuses" Dt 12.31. O Salmo 106 diz o mesmo, mas aplica a Israel: "sacrificaram seus filhos e suas filhas aos demônios, e derramaram sangue inocente [...] que sacrificaram aos ídolos de Canaã" Sl 106.37-38.
O segundo conjunto são os casos. O rei Acaz "até a seu filho fez passar pelo fogo, segundo as abominações dos gentios que o Senhor lançara fora" 2Rs 16.3; o rei Manassés "fez passar a seu filho pelo fogo" 2Rs 21.6. O lugar é o vale de Hinom, junto de Jerusalém, e um nome, Tofete: "E edificaram os altos de Tofete, que está no Vale do Filho de Hinom, para queimarem no fogo a seus filhos e a suas filhas, o que nunca ordenei, nem me subiu ao coração" Jr 7.31. Josias, na reforma, "profanou a Tofete" 2Rs 23.10. Fora de Israel, o rei de Moabe, cercado, "tomou a seu filho primogênito [...] e o ofereceu em holocausto sobre o muro" 2Rs 3.27. E Ezequiel acusa Jerusalém: "mataste a meus filhos, e os entregaste a elas para os fazerem passar pelo fogo" Ez 16.21.
Repare em três coisas. A primeira: a Bíblia atribui a prática a "as nações" e a "os ídolos de Canaã", e também a reis de Israel e de Judá. A segunda: os profetas dizem que o Senhor "nunca ordenou" aquilo Jr 7.31, Jr 19.5. A terceira: a palavra "Moloque" é mais difícil do que parece.
Em hebraico, Mōlek (מֹלֶךְ) parece ligado a melek, "rei". Strong o lista como "Moloque (isto é, rei), o principal deus dos amonitas". Mas o nome é discutido. Em 1935, o estudioso Otto Eissfeldt propôs que, em inscrições púnicas, mlk não era um deus, e sim um tipo de oferenda. A ideia ganhou muitos adeptos e hoje se defende que, pelo menos em parte dos textos bíblicos, mōlek pode ser um termo para uma oferenda, e não um deus chamado Moloque. Outros pesquisadores a contestam e lembram que Levítico 20.5 fala em "prostituir-se após Moloque", o que sugere um deus. Há outro problema: em 1 Reis 11.7 a ACF diz que Salomão construiu um alto a "Moloque, a abominação dos filhos de Amom", mas os versículos 5 e 33 do mesmo capítulo dizem Milcom, o deus dos amonitas 1Rs 11.5, 1Rs 11.33. Alguns estudiosos veem aí uma troca de nome do texto hebraico. O texto não deixa claro se Moloque era um deus, um título ou um ritual, e é por isso que boas traduções variam.
O que os autores antigos de fora dizem. Gregos e romanos escreveram sobre Cartago. Clitarco, no início do século III a.C., descreve uma estátua de bronze sobre um braseiro. Diodoro Sículo conta que, em 310 a.C., sitiados por Agátocles, os cartagineses atribuíram a desgraça a Cronos (deus que os estudiosos identificam com Baal Hammon), a quem teriam parado de oferecer os filhos mais nobres, mandando crianças compradas no lugar deles. Para remediar, sacrificaram em público duzentas crianças de famílias nobres, e uns trezentos voluntários se juntaram a eles (Biblioteca Histórica XX, 14). Plutarco e Tertuliano também falam do assunto. Mas nenhum deles foi testemunha, os relatos divergem, e a maior parte tinha motivos hostis a Cartago.
O tofete de Cartago. Descoberto em 1921, o "tofete de Salambô" tem urnas com restos queimados de bebês, de cordeiros e de outros animais, e estelas por cima, com dedicatórias aos deuses Tanit e Baal Hammon. As inscrições mais comuns falam de uma oferta como "voto". Algumas usam a palavra mlk. Há tofetes também na Sicília, na Sardenha, em Malta e no norte da África, a partir do século VIII a.C., conforme o sítio (as datas variam). Muitas urnas trazem restos de animais, sobretudo cordeiros e cabritos, sozinhos ou junto com os de bebês.
A discussão. Uma das leituras, defendida por Paolo Xella e outros, diz que os tofetes eram lugares de culto onde crianças eram oferecidas, e que os relatos antigos e a Bíblia sustentam a ideia de sacrifício. A outra, associada a Sabatino Moscati, lê os tofetes como cemitérios de crianças que morreram de causas naturais, depois "oferecidas" ritualmente. Em 2010, Jeffrey Schwartz e colegas publicaram na PLOS ONE um estudo de ossos queimados de 348 urnas (540 indivíduos), segundo o qual a maioria morreu entre a fase pré-natal e os primeiros cinco ou seis meses de vida; para os autores, isso não sustenta um sacrifício sistemático. Em 2011, Patricia Smith, Lawrence Stager e colegas, na Antiquity, responderam que o estudo ignorava o encolhimento dos ossos pelo fogo.
No Levante. Nas cidades da costa de Canaã e da Fenícia de origem, os tofetes como os do Ocidente não foram identificados com segurança até hoje. Há quem proponha que o costume tenha vindo de Tiro, mas é uma hipótese. Quanto ao Tofete de Jerusalém, no vale de Hinom, não há achado arqueológico: ele existe só no texto bíblico.
⚠️ Dizer que "os cananeus sacrificavam crianças" como regra é dizer mais do que a evidência permite. Dizer que nunca o fizeram também seria. Os dados são estes: a Bíblia acusa as nações e também Israel; autores gregos e romanos, de fora e hostis, acusam Cartago; no Ocidente fenício, há tofetes com cinzas de crianças e de animais, que uns leem como sacrifício e outros como cemitério; e na Canaã do Bronze e na Fenícia de origem não há achado equivalente seguro. Os especialistas continuam divididos.
Qualquer que seja a leitura, uma coisa é certa: nas cidades antigas, a morte de crianças era comum, por doença e por fome. Nesse mundo, o que a Bíblia recusa, com clareza, é a ideia de que Deus peça um filho: "o que nunca ordenei, nem me subiu ao coração" Jr 7.31. É uma recusa que vale tanto para um rei de Judá quanto para uma cidade do mar.
43 — COMO ISSO MUDA SUA LEITURAO que ficou de Canaã na sua Bíblia
Chegamos ao fim. O que muda quando se leu os cananeus por dentro? Seis coisas, em poucas linhas.
Primeiro, você lê o hebraico como língua de Canaã. A língua de Abraão e de Isaías é parente da dos escribas de Ugarit e de Biblos, e o Antigo Testamento tem marcas disso, em vocabulário e em poesia, que os estudiosos discutem. Segundo, você nota o vocabulário. "El", "Elyon", "Baal", "Aserá", "Moloque": nomes de um mundo que a Bíblia conheceu bem. A ACF traduz "bosque" ali onde o hebraico diz "Aserá", e agora você sabe. Terceiro, você vê os cananeus com nome. Raabe, que salva a casa pela fé. Gibeom, que sobrevive pela astúcia. Efrom e Araúna, a quem os patriarcas e o rei Davi pagam o preço pedido. Hirão, de Tiro, que abençoa o Deus de Israel. A mulher cananeia, que não desiste.
Quarto, você lê o ḥērem sem fingir. A passagem é difícil, e este livro mostrou o que ela diz, o que o texto mesmo mostra em volta, as cinco posições dos leitores e o que a pá achou. Quinto, você ouve o recado dos profetas a Tiro com a história ao lado: Nabucodonosor, Alexandre, e uma Tiro que ainda existe. Sexto, você lê "Bíblia" como nome de cidade.
Abrão chega a Siquém e lê: "estavam então os cananeus na terra". Séculos depois, uma cananeia de Tiro diz a Jesus: "Sim, Senhor, mas também..." Mt 15.27. Entre as duas cenas, a Bíblia guardou nomes, preços pagos, cedros, cartas e o que um povo disse a outro. Quem lê a Bíblia sem os cananeus perde as pessoas ao redor do povo que a recebeu.
PARA LEVAR NA BÍBLIAOito versículos-chave
PARA FIXARO que ficou do capítulo
Boi e casa
"Alfabeto" vem de 'ālep e bêt, "boi" e "casa", as duas primeiras letras cananeias.
Ahiram e Gezer
Duas das mais antigas escritas fenícias: um sarcófago e uma plaquinha com o ano agrícola.
De Tiro a Cartago
Útica, Cartago, Sicília e Sardenha: a rede de colônias fenícias cresce a partir do século IX a.C.
Moloque: o debate
Deus, título ou oferenda? Cemitério ou sacrifício? A evidência está dividida Lv 18.21.
Seis mudanças
O hebraico, o vocabulário, os nomes, o ḥērem, os profetas e a palavra "Bíblia".
De Gênesis 12.6 a Mateus 15.28, os cananeus da Bíblia cabem entre duas frases: "estavam então os cananeus na terra" e "Ó mulher, grande é a tua fé!". Na série Povos e Mundos da Bíblia, o livro sobre Os Egípcios acompanha o império que mandava neles, e o de Os Filisteus, os vizinhos da costa sul. Os livros sobre os assírios e os babilônios seguem as campanhas que acabaram com os reinos de Canaã e de Israel.
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