Sara morreu. Abraão se levanta de diante do corpo e vai à porta da cidade, em Hebrom, onde os homens se sentam para decidir os negócios de todos. Ele fala aos filhos de Hete, e a primeira frase já mostra o tamanho do problema: "Estrangeiro e peregrino sou entre vós; dai-me possessão de sepultura convosco" Gn 23.4.
Abraão tem rebanhos, servos e a promessa de uma terra inteira. Mas, naquele dia, não tem um palmo de chão para enterrar a mulher. Este capítulo conta o que acontece nos dias em que os patriarcas moravam entre os cananeus: os acordos, os poços, os casamentos, o túmulo e o massacre de Siquém.
12 — NO CARVALHO DE MORÉUm forasteiro entre cidades
A vida dos patriarcas começa com um verbo simples, "passou". Abrão passa por Canaã de norte a sul, de Siquém a Betel e ao Neguebe, armando a tenda e levantando altares. E o texto marca, a cada passo, que não é uma terra vazia: "e estavam então os cananeus na terra" Gn 12.6, "e os cananeus e os perizeus habitavam então na terra" Gn 13.7.
E o que os cananeus fazem, nessas histórias? Quase sempre, convivem. Abrão tem amigos entre eles. Quando os reis de fora levam seu sobrinho Ló, o texto diz que Abrão mora "junto dos carvalhais de Manre, o amorreu, irmão de Escol, e irmão de Aner; eles eram confederados de Abrão" Gn 14.13. Três irmãos amorreus fazem aliança com um homem que o texto chama, aqui pela primeira vez, de "Abrão, o hebreu". Em Salém, o rei Melquisedeque o abençoa em nome do Deus Altíssimo Gn 14.18-20, como vimos no capítulo anterior. Em Gerar, o rei Abimeleque faz uma aliança com ele depois de uma briga por um poço Gn 21.25-27. (O Capítulo 3 de Os Filisteus trata de Gerar e do debate sobre os filisteus em Gênesis.)
Mas o texto também deixa claro que o convívio tem limites. Isaque, já adulto, passa pelo mesmo problema do pai: os poços que Abraão cavou foram entulhados, diz o texto, pelos filisteus Gn 26.15. Ele cava de novo, e de novo outros contestam. Os nomes que ele dá aos poços guardam as brigas: Eseque, "contenda", e Sitna, "oposição". Só no terceiro, ele respira:
Um pastor entre as cidades de Canaã vivia de um equilíbrio. A terra tinha donos, nas cidades e nos campos em volta. O pastor ocupava as margens: o vale entre dois montes, o poço longe da muralha, o pasto onde nenhuma cidade mandava. Por isso a água era tudo. Quem cavava um poço estava marcando território, e quem o entulhava declarava guerra sem precisar de exército. Quando a seca batia, era para a cidade e para o rei que se ia: a fome obriga Abrão a descer ao Egito e Isaque a ficar em Gerar. O pastor andava de tenda em tenda, e a cidade, de muralha em muralha, e as duas vidas se esbarravam nos mesmos poços.
13 — PRATA NA PORTAComo Abraão comprou um túmulo
Voltemos à porta de Hebrom. A resposta dos filhos de Hete ao estrangeiro é respeitosa: "príncipe poderoso és no meio de nós" Gn 23.6, e oferecem o melhor dos seus sepulcros. Mas Abraão quer comprar um campo, o de Efrom, em Macpela. Efrom, que está presente, faz a oferta clássica do regateio: dá o campo de graça, "diante dos olhos dos filhos do meu povo" Gn 23.11. Todo mundo sabe o que isso quer dizer. Abraão insiste em pagar. Efrom diz o preço, como quem não fala de dinheiro: "a terra é de quatrocentos siclos de prata; que é isto entre mim e ti?" Gn 23.15.
Repare no verbo: "pesou". Naquele mundo não havia moeda cunhada, que só aparece muito depois, por volta do século VII a.C. A prata se pesava na balança, e o siclo era um peso, não uma moeda. O negócio terminou diante de todos "os que entravam pela porta da cidade" Gn 23.18, o que era o mesmo que registrar em cartório. Os historiadores veem nisso o pano de fundo de contratos de venda de terra no mundo antigo. O que a Bíblia guarda é um detalhe humano: o primeiro pedaço de terra de Canaã que o povo da promessa possui é um túmulo, comprado a preço de mercado, de um cananeu.
A frase de Abraão, "estrangeiro e peregrino", é, no hebraico, gēr wᵉtôshāv (גֵּר־וְתוֹשָׁב): "residente de passagem" e "morador sem terra". Strong define gēr como "hóspede; estrangeiro". É um estatuto jurídico, o de quem vive numa terra sem ser dono dela. Era justo o que Abraão era, e é por isso que a conversa se faz diante da cidade inteira. O mesmo par aparece depois, quando Deus diz a Israel que a terra é dele: "a terra é minha, pois vós sois estrangeiros e peregrinos comigo" Lv 25.23. Quem leu Gênesis 23 sabe de onde vem a expressão.
Jacó fará algo parecido em Siquém, depois de voltar de Padã-Arã. Ele arma a tenda diante da cidade e "comprou uma parte do campo [...] da mão dos filhos de Hamor, pai de Siquém, por cem peças de dinheiro" Gn 33.19. É ali, séculos depois, que os israelitas enterrarão os ossos de José Js 24.32. Duas compras, dois túmulos, e entre eles o resto da vida dos patriarcas.
A tradição judaica, cristã e muçulmana localiza o túmulo de Macpela em Hebrom, no prédio hoje chamado Haram al-Khalil, ou Gruta dos Patriarcas. A construção que se vê é do período herodiano, do fim do século I a.C., e o recinto não foi escavado do jeito que se escava um sítio arqueológico. Ou seja: o que existe é uma tradição muito antiga e muito forte, mas ela não vem de uma escavação que tenha confirmado a sepultura.
⚠️ É tradição, não Escritura nem achado arqueológico. A Bíblia diz que a cova fica em "Macpela, em frente de Manre, que é Hebrom" Gn 23.19.
14 — "NÃO TOMARÁS MULHER"Casamentos, Siquém e Tamar
Se os patriarcas convivem com os cananeus, existe uma linha que eles não cruzam, e é a do casamento. Abraão faz o servo jurar: "não tomarás para meu filho mulher das filhas dos cananeus, no meio dos quais eu habito" Gn 24.3. Quando Esaú se casa com duas mulheres heteias, o texto diz que "estas foram para Isaque e Rebeca uma amargura de espírito" Gn 26.35, e Rebeca desabafa que sua vida não teria graça se Jacó fizesse o mesmo Gn 27.46. Isaque manda Jacó a Padã-Arã, à família da mãe Gn 28.1.
O motivo que o texto dá é familiar e religioso: preservar a linhagem da promessa. Não é um argumento sobre o valor das pessoas. Os mesmos textos mostram os cananeus como gente com quem se faz negócio, aliança e vizinhança.
E o que acontece quando alguém quebra a barreira? A Bíblia conta três casos, e eles não são iguais.
Diná e Siquém é o mais violento Gn 34. A filha de Jacó sai "para ver as filhas da terra", e Siquém, filho do príncipe Hamor, o heveu, "viu-a, e tomou-a, e deitou-se com ela, e humilhou-a" Gn 34.1-2. Depois da agressão, o príncipe oferece casamento, aliança e terra. Os filhos de Jacó respondem com engano: só aceitarão se todos os homens da cidade se circuncidarem. No terceiro dia, quando os homens ainda sofrem, Simeão e Levi entram na cidade e matam todos os varões. O texto não os poupa. Jacó, apavorado, diz: "Tendes-me turbado, fazendo-me cheirar mal entre os moradores desta terra, entre os cananeus e perizeus" Gn 34.30. No leito de morte, volta ao assunto:
O texto bíblico, portanto, condena o massacre pela boca do pai dos assassinos. E há um fecho curioso: depois do crime, Jacó manda a família entregar os "deuses estranhos" que tinham em mãos e os esconde "debaixo do carvalho que está junto a Siquém" Gn 35.4. O medo foi real, e Deus o resolveu: "o terror de Deus foi sobre as cidades que estavam ao redor deles, e não seguiram após os filhos de Jacó" Gn 35.5.
Judá e a filha de Sua. Judá "desceu de entre seus irmãos" e foi morar em Adulão, junto de um amigo, Hira. Ali "viu [...] a filha de um homem cananeu, cujo nome era Sua; e tomou-a por mulher" Gn 38.2. Os filhos dessa mulher, Er, Onã e Selá, são os três primeiros de Judá. Dois morrem, e o terceiro é prometido à viúva Tamar, que não recebe o que lhe foi prometido. Ela se disfarça e se encontra com o sogro, e quando a verdade vem à tona, Judá diz uma das frases mais surpreendentes de Gênesis: "Mais justa é ela do que eu" Gn 38.26.
A Bíblia não diz de que povo era Tamar. Alguns leitores a imaginam cananeia, porque vivia ali. Mas isso é dedução. O que o texto diz é que os filhos dela, Perez e Zerá, entram na linhagem que chega a Davi, e que Mateus a cita na genealogia de Jesus Mt 1.3. Na mesma lista aparece Raabe, a mulher cananeia de Jericó Mt 1.5, de quem o Capítulo 5 vai falar.
Jacó teme que os cananeus se juntem contra ele e o destruam Gn 34.30. O medo era legítimo, e a causa era o pecado dos próprios filhos. O que segura a casa não é a esperteza dos homens, é o terror de Deus sobre as cidades ao redor Gn 35.5. Quando a família de Deus erra, o que a poupa de pagar o preço é a graça, e não o mérito.
15 — A CONTA QUE AINDA NÃO FECHOUE o que a pá encontrou do tempo dos patriarcas
Há uma frase de Deus a Abrão, em Gênesis 15, que olha para frente. Ele promete a terra, mas avisa que não será já: "a quarta geração tornará para cá; porque a medida da injustiça dos amorreus não está ainda cheia" Gn 15.16. É um versículo curto, com muita carga. Ele diz, por um lado, que a terra seria dada em seu tempo. Por outro, que o juízo sobre quem morava ali tem um prazo, e que Deus espera. Voltaremos a ele no Capítulo 6, quando falarmos do que a Bíblia manda fazer com os cananeus e de como as pessoas leem isso.
Aqui, fiquemos com a pergunta de quem quer o chão firme: o que a arqueologia encontrou do mundo em que a Bíblia coloca Abraão?
Portas e cidades. O tempo que a arqueologia chama de Bronze Médio (c. 2000–1550 a.C.) foi um dos grandes tempos urbanos de Canaã. Em Tel Dã, no extremo norte, o arqueólogo Avraham Biran achou uma porta de tijolo cru com um arco completo, de c. 1800–1750 a.C. (as datas variam conforme a fonte). Em Asquelom, a expedição de Lawrence Stager achou um portão com arco, que ele datou em c. 1850 a.C. As cidades já tinham muralhas, portões e aterros, e Hazor, de que falamos no Capítulo 2, é uma das grandes cidades dessa época.
Beni Hasan. No túmulo de Khnumhotep II, no Egito, uma inscrição de c. 1890 a.C. registra a chegada de 37 asiáticos (os aamu), chefiados por um "governante das terras altas" chamado Abisha. Trazem tinta para os olhos. É a imagem mais famosa de uma caravana de gente do Levante entrando no Egito. O Capítulo 9 de Os Egípcios mostra a cena.
Textos de Execração. Como vimos, os egípcios amaldiçoavam, nessa época, governantes de Jerusalém, Asquelom, Hazor, Siquém e outras cidades de Canaã.
⚠️ Nenhum desses achados cita Abraão, Isaque ou Jacó. Eles mostram que o cenário do Bronze Médio existiu: cidades com rei, caravanas, pastores, vida de fronteira. Mas não provam que as pessoas de Gênesis tenham vivido ali.
E há um debate sobre quando situar os patriarcas. Há, em essência, três posições.
A primeira é a dos que aceitam que os patriarcas são pessoas reais e as situam, em geral, entre c. 2000 e 1700 a.C., no Bronze Médio. O egiptólogo Kenneth Kitchen é uma das vozes que defendem que a ambientação de Gênesis é coerente com o mundo daquele tempo. A segunda é a dos que veem nas histórias um retrato da Idade do Ferro, quando elas teriam sido postas por escrito: nos anos 1970, Thomas L. Thompson e John Van Seters apontaram o que lhes parecia anacronismo. A terceira é a dos que vão ao meio: há lembranças antigas, atualizadas ao longo do tempo.
Um dos argumentos mais citados são os camelos. Gênesis 12.16 inclui "jumentas e camelos" entre os bens de Abrão. Um estudo de 2013, de Lidar Sapir-Hen e Erez Ben-Yosef, da Universidade de Tel Aviv, estudou ossos do sítio de Timna, no vale da Arabá, e concluiu que camelos domesticados só aparecem em número significativo ali a partir do último terço do século X a.C. Para uns, isso mostra que o texto foi escrito depois. Outros respondem que camelos já eram usados antes, em menor número, na Mesopotâmia e na Arábia, e que o estudo trata de uma região específica. Cada lado tem argumentos, e nenhum resolve a questão sozinho.
⚠️ Este livro usa as datas como uma moldura: o tempo dos patriarcas, no Bronze Médio, quem aceita essa data. A arqueologia mostra um mundo; a leitura de Gênesis como história de pessoas depende de como cada leitor entende o texto.
PARA FIXARO que ficou do capítulo
Forasteiro com amigos
Abrão tem aliados amorreus, é abençoado por um rei de Salém e faz pacto em Gerar Gn 14.13.
Pesou a prata
Quatrocentos siclos pesados na porta de Hebrom: o primeiro chão que o povo da promessa possui é um túmulo comprado Gn 23.16.
"Não tomarás mulher"
Uma linha de casamento que protege a linhagem. A Bíblia não a justifica por desprezo.
A medida ainda não cheia
Deus espera quatro gerações pela medida da injustiça dos amorreus Gn 15.16.
Próximo capítulo: os espias, Raabe e o fio escarlate, Jericó, Ai, Gibeom e o sol parado: a entrada na terra, narrada com o texto aberto.
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