Em Hazor, o rei Jabim ouve notícias do sul e não perde tempo. Chama mensageiros e manda recados a vários reis do norte: ao de Madom, ao de Sinrom, ao de Acsafe, aos das montanhas e da planície Js 11.1-2. Eles vêm com tudo o que têm. A Bíblia descreve a cena em poucas linhas: "muito povo, em multidão como a areia que está na praia do mar; e muitíssimos cavalos e carros" Js 11.4.
É uma das raras vezes em que a Bíblia mostra um rei cananeu em ação, com nome, cidade e exército. Este capítulo fica do lado de dentro das muralhas: como eram essas cidades, quem mandava nelas, o que o Egito fazia com elas e o que os arqueólogos tiraram do chão.
04 — DEZENAS DE REIS, NENHUM IMPÉRIOCidades que tinham rei
Canaã nunca foi um país. Foi um tabuleiro de cidades, e cada cidade grande tinha o seu rei. O livro de Josué fecha a conquista com uma lista dessas cabeças coroadas. Começa com "o rei de Jericó, um; o rei de Ai, que está ao lado de Betel, outro" Js 12.9, e termina assim:
Trinta e um reis num território pequeno. Cada um deles governa uma cidade com os campos em volta, e só se une aos vizinhos quando há ameaça. É o que se vê em Josué 10, quando Gibeom é descrita como "uma das cidades reais", maior do que Ai Js 10.2. E é o que se vê em Josué 11, quando um dos reis, o de Hazor, aparece como o líder natural da região. O narrador explica: "Hazor antes era a cabeça de todos estes reinos" Js 11.10.
Uma cidade cananeia típica tinha muralha, porta, palácio, templo, poço e um mercado perto da porta. Quando Abraão compra um túmulo, o negócio se faz "aos ouvidos [...] de todos os que entravam pela porta da sua cidade" Gn 23.10. A porta era o fórum da cidade. Os espias que voltaram de Canaã não ficaram impressionados com os homens, e sim com as muralhas: "as cidades fortificadas e mui grandes" Nm 13.28. E repare no que Moisés promete ao povo, anos depois, quando ele estiver na terra:
A lista é de uma terra construída. Os israelitas, que viviam em tendas, vão herdar cidades, casas, poços e olivais feitos por outros. Quem fez essas coisas eram os cananeus.
Hazor. No alto da Galileia ficam as ruínas da maior cidade cananeia do sul do Levante, com cerca de 80 hectares: uma "cidade alta", de uns 12 hectares, em cima do monte (o tel), e uma "cidade baixa" de mais de 70, protegida por defesas de terra. Escavaram Hazor John Garstang (sondagens em 1926), Yigael Yadin (1955–1958 e 1968) e, desde 1990, Amnon Ben-Tor e equipes da Universidade Hebraica. O lugar rendeu mais tabuinhas de cuneiforme do que qualquer outro sítio do sul do Levante. Cartas do arquivo de Mari, no Eufrates (séc. XVIII a.C.), citam Hazor, e um fragmento de carta achado no próprio sítio nomeia um rei, Ibni-Addu (c. 1770–1765 a.C.). E nas cartas de Amarna, c. 1350 a.C., o rei Abdi-Tirshi jura lealdade ao faraó.
Em 2010, a equipe achou dois fragmentos de uma mesma tabuinha, escrita em acádio da época babilônica antiga, com leis que lembram as do Código de Hamurabi e as de Eshnunna. O Capítulo 6 volta a Hazor para tratar do incêndio que destruiu a cidade, no século XIII a.C., e da disputa sobre quem o causou.
⚠️ A ligação entre o "Jabim" da Bíblia e o rei Ibni-Addu do texto achado em Hazor é uma hipótese de alguns estudiosos, que leem "Jabim" como um nome dinástico. Os textos têm cinco séculos de diferença e a questão está em aberto.
05 — O EGITO NA PORTAFaraós, guarnições e cartas de socorro
Para os cananeus da Idade do Bronze Final, o inimigo mais perto não era Israel. Era o Egito. A partir de c. 1550 a.C., os faraós do Novo Império passam a considerar a costa e as planícies de Canaã como quintal deles.
A virada vem com Tutmés III, que toma Megido por volta de 1457 a.C. (outras datas propostas são 1482 e 1479 a.C.). Os anais dele, gravados nas paredes do templo de Amom, em Karnak, a partir do diário de um escriba chamado Tjaneni, contam a campanha em detalhe raro. Uma coalizão de príncipes cananeus, liderada pelo rei de Kadesh, se fecha em Megido. O faraó escolhe o caminho mais perigoso, o desfiladeiro estreito de Aruna, onde o exército precisa passar em fila, e surpreende o inimigo. Depois de um cerco de sete meses, a cidade se rende. Os anais listam como despojo centenas de carros de guerra, e o faraó poupa a cidade e os moradores. Em vez de destruir, ele cobra. Os príncipes vencidos mandam os filhos para serem educados no Egito.
Cerca de um século depois, a correspondência de Amarna mostra o resultado: reis de cidades cananeias escrevendo em acádio ao faraó, chamando-o de "meu senhor" e pedindo socorro uns contra os outros.
São 382 tabuinhas e fragmentos, achados a partir de c. 1887 em Tell el-Amarna, no Egito, e hoje espalhados por Berlim, Londres e Cairo. Quase todas as cartas de Canaã trazem a mesma estrutura: um nome, uma cidade, um pedido. O rei de Tiro, Abi-Milku, escreve dez cartas (EA 146–155) e avisa que guarda a cidade até a ajuda chegar; num dos recados, avisa que falta água e lenha. Lab'ayu, rei de Siquém, e Abdi-Heba, rei de Jerusalém, escrevem as suas próprias cartas (EA 252–254 e EA 285–290), e nas deles e nas dos vizinhos voltam as mesmas queixas: terras tomadas, cidades traídas. O rei de Megido, Biridiya, também escreve. E Rib-Hadda, rei de Biblos, escreve dezenas de cartas, e numa delas, a famosa, diz que está preso na cidade como um pássaro numa gaiola.
Os escribas de Canaã escreviam em acádio, mas pensavam em cananeu. Às vezes, num trecho difícil, explicavam a palavra com uma "glosa", a palavra deles, escrita ao lado. Na carta EA 74, Rib-Hadda diz que está em Gubla como um pássaro numa armadilha e o escriba acrescenta o termo cananeu para "gaiola": kilubi. É a mesma palavra hebraica que aparece em Jeremias 5.27, kelûb (כְּלוּב), "como uma gaiola está cheia de pássaros". O dicionário de Strong a define como "armadilha de pássaros; por extensão, cesto de vime". É também o cesto de Amós 8.1-2, "um cesto de frutos do verão". A palavra "gaiola" que o escriba de Biblos usou em 1350 a.C. é a que um profeta de Israel usaria mais de setecentos anos depois.
Uma palavra aparece muito nessas cartas e merece atenção: os Habiru (ou 'Apiru). Os reis reclamam que eles tomam terras, e que reis vizinhos se aliam a eles. O rei de Hazor, segundo Abi-Milku (EA 148), os teria acompanhado. Quem eram? Os especialistas veem nos Habiru, antes de tudo, uma categoria social (gente sem terra, bandoleiros, mercenários, dependentes), espalhada de Mari ao Egito, e não um povo.
⚠️ A semelhança entre Habiru e hebreu intrigou os estudiosos por mais de cem anos. Parte deles vê uma ligação; outros dizem que a palavra egípcia e acádia tem sentido social, não étnico, e que "hebreu" só em parte se explica por ela. Não há consenso. E vale dizer: nenhuma carta de Amarna menciona Israel, Moisés ou Josué.
Imagine ser súdito de um desses reis. O faraó está longe, mas o imposto chega todo ano: grãos, vinho, azeite, gente. Os campos ficam fora da muralha, e quando as tropas de alguém se aproximam, todos entram na cidade e fecham a porta. Um medo constante é o de ficar sem água se o cerco durar. Abi-Milku, de Tiro, reclama de falta de água e de lenha. O livro de Josué descreve esse mesmo medo em Jericó: "Jericó estava rigorosamente fechada por causa dos filhos de Israel; ninguém saía nem entrava" Js 6.1. Para o povo comum, a muralha era ao mesmo tempo o abrigo e a prisão.
06 — A TERRA VISTA DE FORAFigos, vinho e navios
Um egípcio de c. 1900 a.C. deixou, sem querer, o melhor retrato de Canaã. É o escriba da História de Sinuhe, um clássico da literatura egípcia, que foge do Egito e se refugia no norte, em uma terra chamada Iaá, em Retenu, o nome egípcio da região a nordeste do Egito. As traduções divergem em detalhes, mas todas dizem o mesmo: lá havia figos e uvas, vinho em mais abundância do que água, mel, frutas em todas as árvores, cereais e gado sem conta. Sinuhe é bem recebido, o príncipe o casa com a filha mais velha e lhe dá as melhores terras.
O que o egípcio descreve é a mesma terra que Moisés mostra ao povo, séculos depois: "Terra de trigo e cevada, e de vides e figueiras, e romeiras" Dt 8.8. E é o que os espias trazem na volta, "um ramo de vide com um cacho de uvas, o qual trouxeram dois homens, sobre uma vara; como também das romãs e dos figos" Nm 13.23. Esses cachos, tão pesados que precisam de dois homens, são do vale de Escol. O nome ficou: "Chamaram àquele lugar o vale de Escol, por causa do cacho" Nm 13.24.
Essa terra também vendia. As cidades da costa mandavam cedro, vinho, azeite, resina, tintura, vasilhas e metal para o Egito e para o Egeu. Um naufrágio mostra o tamanho disso.
O navio de Uluburun. Em 1982, um mergulhador de esponjas turco, Mehmet Çakır, viu no fundo do mar, perto de Kaş, na costa sul da Turquia, lingotes de cobre em forma de "pele de boi". O navio tinha afundado no fim do século XIV a.C. (c. 1320 a.C., segundo datações por anéis de árvore e radiocarbono). George Bass e Cemal Pulak o escavaram durante anos. A carga: cerca de dez toneladas de cobre, uma tonelada de estanho, uns 175 lingotes de vidro, ébano, marfim, ovos de avestruz e pelo menos 149 grandes jarras "cananeias", muitas cheias de resina de terebinto. Entre as joias havia um escaravelho de ouro com o nome da rainha Nefertiti. Os objetos estão no Museu de Arqueologia Subaquática de Bodrum.
⚠️ As jarras e as joias ligam a carga ao comércio cananeu. Mas os estudiosos não concordam sobre de onde o navio partiu (um porto de Chipre ou da costa de Canaã e da Síria), para onde ia, nem de quem era a tripulação. O achado mostra uma rede de comércio que passava pela costa cananeia. Não prova que o navio fosse "cananeu".
Outra descoberta fala de gente rica da terra. Em Meguido, entre 1937 e 1939, a expedição do Instituto Oriental da Universidade de Chicago, sob Gordon Loud, achou no anexo do palácio da camada VIIA, do século XIII a.C., um tesouro: 382 peças de marfim entalhado, caixas de cosméticos, pentes, tabuleiros de jogo, incrustações de móveis. Os desenhos misturam motivos egípcios, do Egeu e de Canaã. É a arte de gente que vivia no meio de um mundo conectado.
Mais uma pista do poder dessas cidades fica no registro egípcio mais antigo. São os "Textos de Execração" (séc. XIX–XVIII a.C., com datas debatidas): vasos e figuras de barro com os nomes de governantes estrangeiros, quebrados num ritual de maldição contra os inimigos do Egito. Entre os nomes de cidades estão Jerusalém, Asquelom e Hazor. Para Jerusalém, é a menção mais antiga que se conhece.
Israel vai herdar "casas cheias de todo o bem, que tu não encheste" Dt 6.11. E logo vem o aviso: "Guarda-te, que não te esqueças do Senhor, que te tirou da terra do Egito" Dt 6.12. Quem recebe de graça o que outro construiu tem pouco motivo de orgulho. A abundância que a gente não plantou é o terreno mais perigoso para esquecer quem a deu.
LINHA DO TEMPOAs cidades de Canaã, do Egito a Israel
PARA FIXARO que ficou do capítulo
Hazor, a cabeça
Quase 80 hectares, a maior cidade cananeia, com tabuinhas de cuneiforme e rei já em Mari Js 11.10.
Cartas ao faraó
As 382 tabuinhas de Amarna mostram reis cananeus pedindo socorro. Nenhuma fala de Israel.
Cobre, vidro e jarras
O navio de Uluburun carregava 149 jarras cananeias. Quem era a tripulação, ninguém sabe.
Próximo capítulo: no que essas cidades acreditavam. Um deus chamado El, um deus que montava nas nuvens, uma deusa que a Bíblia traduz por "bosque", e os textos de Ugarit que ajudam a ler tudo isso.
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