Abrão chega ao carvalho de Moré, em Siquém, com a mulher, o sobrinho, o gado e "as almas que lhe acresceram em Harã" Gn 12.5. Ele olha em volta. A Bíblia gasta uma frase seca para dizer quem já estava ali: "e estavam então os cananeus na terra" Gn 12.6.
Este livro é sobre essas pessoas. A Bíblia fala delas do começo ao fim, quase sempre de passagem, quase sempre do ponto de vista de quem chegou. O primeiro capítulo faz as perguntas mais simples: de onde vem o nome, onde ficava a terra, quem eram, afinal, os cananeus, e de que época estamos falando.
01 — O NOMEUm neto de Noé e uma palavra velha
Na Bíblia, tudo começa numa tenda, depois do dilúvio. Noé bebeu vinho, adormeceu nu, e o filho Cão "viu a nudez do seu pai" e contou aos irmãos lá fora. O texto faz questão de dizer que Cão é "o pai de Canaã" Gn 9.18,22. Quando Noé acorda, o que ele diz não é "maldito seja Cão":
A frase é curta, e gerações de leitores discutiram o que ela quer dizer. O texto mesmo não explica por que a maldição cai sobre Canaã, o filho, e não sobre Cão. Muitos leitores antigos viram nela uma palavra sobre a terra de Canaã, que Israel iria ocupar: os cananeus, "servos" dos descendentes de Sem. Seja como for, uma coisa é fato de história: séculos depois, essa passagem foi usada por europeus e americanos para justificar a escravidão de africanos, como contam os historiadores David Goldenberg (The Curse of Ham, 2003) e Stephen Haynes (Noah's Curse, 2002). O texto bíblico não diz nada disso. Fala de Canaã, e Canaã, na Bíblia, é a terra e a gente do Levante, não da África. Os outros filhos de Cão, Cuxe e Mizraim Gn 10.6, é que são associados ao sul, à Etiópia e ao Egito.
Fora da Bíblia, o nome aparece muito antes de Israel existir como povo. Aparece numa estátua do rei Idrimi, de Alalakh, no norte da Síria (séc. XV ou XVI a.C., conforme a datação): ali a "terra de Canaã" já é um lugar que se pode mencionar. Aparece nas cartas de Amarna, de c. 1350 a.C., escritas em acádio, a língua da diplomacia. E aparece em textos egípcios do Novo Império, onde "Canaã" é uma região que o faraó controla. A estela de Merneptá, de c. 1208 a.C., a mesma que cita "Israel", diz que Canaã foi saqueada, com todo o mal. O Capítulo 9 do livro Os Egípcios conta essa pedra.
Em hebraico, o nome é Kᵉna'an (כְּנַעַן). O dicionário de Strong o liga a uma raiz que quer dizer "ser humilhado" ou "baixo", e daí propõe "humilhado". Outros estudiosos preferem "terras baixas", em oposição às montanhas. Uma terceira ideia, de E. A. Speiser (1936), liga o nome a uma palavra hurrita para "púrpura", kinaḫḫu, como se Canaã fosse a "terra do roxo". Hoje muita gente a considera pouco provável. Nenhuma das três é certa.
Há um detalhe que a tradução em português quase esconde. Em vários versículos, o hebraico usa a mesma palavra, kena'ani, para "cananeu" e para "mercador". É assim em Provérbios 31.24, onde a mulher sábia entrega cintos "aos mercadores", e em Jó 41.6, onde o texto pergunta se repartiriam o monstro "entre os negociantes". Em Oseias 12.7, o hebraico escreve literalmente "Canaã", e a ACF traduz: "É um mercador; tem nas mãos uma balança enganosa". Em Isaías 23.8, os "negociantes" de Tiro levam, no hebraico, a mesma palavra de Canaã. É por isso que o último versículo de Zacarias pode ser lido de dois jeitos Zc 14.21: "não haverá mais cananeu na casa do Senhor", ou "não haverá mais mercador". A ACF escolhe a primeira. Os dois sentidos mostram como a vizinhança via o povo da costa: gente de comércio.
02 — O MAPAEntre o mar, o deserto e o Jordão
A própria Bíblia desenha os limites. Depois de dizer que Canaã gerou Sidom, o primogênito, e Hete, ela lista onze nomes de famílias e fecha com o mapa:
É um desenho em curva. Começa em Sidom, no norte, na costa do que hoje é o Líbano. Desce pelo litoral até Gaza e dobra para o leste, até as cidades do vale perto do mar Morto. Dentro dessa curva ficam quatro paisagens que vale a pena ter na cabeça.
A primeira é a planície da costa: faixa de areia e campo, com poucos portos naturais, que de Gaza sobe até o Carmelo e continua pelo litoral libanês. A segunda é a serra, o espinhaço de montes que corre de norte a sul no meio da terra. Ali ficam Siquém, Jerusalém, Hebrom e Belém. A terceira é o vale de Jezreel, também chamado Esdrelom, a grande planície que corta a serra de leste a oeste e liga a costa ao Jordão. É ali que ficam Megido e, mais ao norte, a região de Hazor. A quarta é o vale do Jordão, que desce até o mar Morto, onde está Jericó.
Esse mapa já aparece, em pedaços, no texto bíblico. Quando os espias voltam, o relatório sobre os moradores diz: "os cananeus habitam junto do mar, e pela margem do Jordão" Nm 13.29. Quando o povo atravessa o rio, os reis que ouvem a notícia são "os reis dos amorreus, que habitavam deste lado do Jordão, ao ocidente, e todos os reis dos cananeus, que estavam ao pé do mar" Js 5.1. Repare que a Bíblia, às vezes, usa "cananeu" para o povo das terras baixas, o litoral e o vale, e "amorreu" para o povo da serra. Mas nem sempre: em outros trechos os dois nomes valem para todos.
Quem mora em Canaã vive da chuva. Ela cai entre outubro e abril, e o verão é seco. O que se planta, então, é o que aguenta isso. Quando Moisés descreve a terra para o povo que vai entrar nela, a lista é a de uma mesa farta: "Terra de trigo e cevada, e de vides e figueiras, e romeiras; terra de oliveiras, de azeite e mel" Dt 8.8. Pão, vinho, azeite, figos e romãs. É o que um cananeu comia muito antes de qualquer israelita. A mesma passagem promete que as pedras da terra são ferro e que dos montes se cava cobre Dt 8.9. Mas a Bíblia dirá, mais adiante, que o ferro estava na mão de quem já morava lá, nos "carros de ferro" dos cananeus do vale Js 17.16. É o assunto do próximo capítulo.
03 — UM POVO OU MUITOS?As listas, os nomes e a língua
Quem lê a Bíblia procurando "o povo cananeu" tem uma surpresa: a Bíblia mesma não dá uma lista única. Em Gênesis 10, Canaã tem onze famílias: Sidom, Hete, jebuseu, amorreu, girgaseu, heveu, arqueu, sineu, arvadeu, zemareu e hamateu Gn 10.15-18. Na aliança com Abrão, são dez povos, com nomes que não estão em Gênesis 10, como queneus e refains Gn 15.19-21. Em Deuteronômio, são "sete nações mais numerosas e mais poderosas do que tu" Dt 7.1. E "cananeu", sozinho, ora é um desses povos, ora o nome de todos.
O que as listas mostram é um mosaico. Eram cidades, cada uma com seu rei, ligadas por língua, costumes e comércio, mas sem uma capital comum. O profeta Ezequiel diz isso de um jeito cru, falando com Jerusalém: "A tua origem e o teu nascimento procedem da terra dos cananeus. Teu pai era amorreu, e tua mãe hetéia" Ez 16.3. Os hititas desse texto, aliás, pedem um cuidado. Em Gênesis 23, os "filhos de Hete" vendem a Abraão a cova de Macpela, em Hebrom Gn 23.10-11, e os historiadores discutem se eles têm alguma ligação com os hititas do império da Anatólia, que ficava muito longe. A questão está aberta.
A língua dos cananeus sobreviveu em formas que ainda lemos. O hebraico, o fenício, o moabita, o amonita e o edomita formam, para os linguistas, o ramo "cananeu" das línguas semíticas. Isaías chega a escrever sobre cidades do Egito que "falarão a língua de Canaã" Is 19.18, e a leitura mais comum é que ele fala do hebraico. Ou seja: os israelitas falavam uma língua parente da dos cananeus, e a escrita deles veio dali (o Capítulo 11 mostra como).
Algumas pessoas tiram daí uma conclusão forte: Israel teria nascido de dentro do mundo cananeu. É uma posição séria de parte dos estudiosos, que a defendem com base em cerâmica, língua e cidades, e que alguns, como o pesquisador Mark S. Smith, resumem dizendo que a cultura israelita sobrepõe-se em grande parte à cananeia. A Bíblia conta a história de outra forma, a de um povo vindo de fora, chamado por Deus. Os dois lados aparecem neste livro.
⚠️ A língua parecida prova parentesco entre as línguas. Não prova de onde veio o povo, nem decide sozinha se Israel "veio de fora" ou "de dentro". É um dos grandes debates da arqueologia bíblica.
Falta um nome. Na ACF, a palavra "fenício" não existe no Antigo Testamento. O livro de Josué, Juízes e Reis fala de "sidônios" e de "tírios", as gentes das duas grandes cidades da costa. O nome "Fenícia" só chega ao Novo Testamento, em Atos At 11.19, e na expressão "siro-fenícia" de Marcos Mc 7.26. A palavra é grega, e os gregos a davam aos povos da costa: Phoínikes. Os historiadores chamam de fenícios os cananeus do litoral, da Idade do Ferro em diante. Por isso, este livro tem os fenícios "dentro": a costa de Hirão e de Jezabel é o mesmo mundo de Canaã, só que mais ao norte e com os navios no mar.
Abrão levanta ali um altar, porque o Senhor lhe aparece e diz: "À tua descendência darei esta terra" Gn 12.7. A promessa é feita em cima de uma terra ocupada, diante de gente que tem nome e história. Deus promete e não esconde que alguém já mora na casa. Quem lê a promessa de Deus precisa ler também o nome dos moradores.
LINHA DO TEMPOCanaã, com a Bíblia marcada
Datas aproximadas, na cronologia convencional da arqueologia (Bronze Antigo, Médio e Final, depois a Idade do Ferro). O símbolo 📖 marca onde o texto bíblico cruza com cada época, mas as datas desses encontros são debatidas e este livro vai mostrar as posições ao longo dos capítulos.
PARA FIXARO que ficou do capítulo
Filho de Cão, não o próprio Cão
A maldição de Gênesis 9.25 recai sobre Canaã, e Canaã é uma terra do Levante. O texto não fala de africanos Gn 9.25.
De Sidom a Gaza
O mapa de Gênesis 10.19 vai da costa libanesa até Gaza e dobra para o mar Morto Gn 10.19.
Onze, dez ou sete?
As listas de povos mudam de um texto para outro. A Bíblia vê um mosaico de cidades, não um país único.
Cananeu é mercador
Em hebraico, a mesma palavra serve para os dois. Veja Provérbios 31.24 e Zacarias 14.21.
A língua de Canaã
O hebraico é, para os linguistas, uma língua cananeia. Isaías 19.18 usa a expressão.
Fenício: nome grego
O Antigo Testamento diz "sidônios" e "tírios". "Fenícia" só aparece no Novo Testamento, em Atos e Marcos.
Próximo capítulo: as cidades de Canaã vistas por dentro, com muralhas, reis e cartas ao faraó: Hazor, Megido, Jericó, e o que a pá achou nelas.
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