Estão nas planícies de Moabe, do outro lado do Jordão, e é o último ano de Moisés. O povo ouve em pé, tribo por tribo. As palavras vêm devagar, e uma delas é pesada: o Senhor vai levá-los à terra, vai lançar fora diante deles sete nações, e então "totalmente as destruirás; não farás com elas aliança, nem terás piedade delas" Dt 7.2.
Esta é uma das passagens mais difíceis da Bíblia. Ela volta quando Jericó cai e quando Ai é queimada, e muita gente fecha a Bíblia aqui. Ela merece mais do que uma frase de apologia e mais do que um gesto de repúdio. Este capítulo faz quatro coisas: lê o que o texto manda, olha o que o próprio texto mostra em volta, apresenta as principais posições dos leitores, e confere o que a pá achou nos lugares da conquista.
20 — O QUE O TEXTO MANDAA palavra, as ordens e as razões
A palavra-chave é ḥērem. A ACF a traduz, quase sempre, por "anátema".
ḥērem (חֵרֶם) vem de um verbo, ḥāram, que Strong define como "isolar; especificamente, por um banimento, devotar a usos religiosos (especialmente à destruição)". A ideia de fundo é "separar para Deus", de um jeito que não tem volta. A mesma palavra cobre coisas bem diferentes. Em Levítico 27.28, é a coisa que alguém "consagrar ao Senhor", que "será santíssima ao Senhor". Em Números 18.14, é a parte dos sacerdotes: "Toda a coisa consagrada em Israel será tua". Em Deuteronômio 7.26, é o ídolo que não se deve levar para casa, "porque anátema é". E em Josué 6.17, é a cidade inteira: "a cidade será anátema ao Senhor, ela e tudo quanto houver nela". Em todos os casos, o que é ḥērem já não pertence a quem o tem: pertence a Deus, para o uso ou para o fogo.
E o que a Bíblia ordena? Três passagens formam o centro, e vale lê-las juntas.
A primeira é a de Deuteronômio 7, que abriu o capítulo. Depois da ordem de destruir, o texto proíbe casamentos: "Nem te aparentarás com elas; não darás tuas filhas a seus filhos, e não tomarás suas filhas para teus filhos" Dt 7.3. Ele dá o motivo: eles "fariam desviar teus filhos de mim, para que servissem a outros deuses" Dt 7.4. E manda quebrar altares e queimar imagens Dt 7.5.
A segunda é a de Deuteronômio 20, que as pessoas costumam citar pela metade. O texto distingue dois tipos de guerra. Para as cidades longe da terra, a regra é: "apregoar-lhe-ás a paz"; se ela abre as portas, "todo o povo que se achar nela te será tributário e te servirá" Dt 20.10-11; se ela resiste, os homens são mortos e as mulheres e crianças são poupadas Dt 20.13-14. Para as cidades da terra de Canaã, a regra é outra:
A terceira é um conjunto de textos que dão a razão. A primeira palavra vem em Gênesis, quando Deus diz a Abrão que o povo só entraria na terra depois de quatro gerações, "porque a medida da injustiça dos amorreus não está ainda cheia" Gn 15.16. Levítico 18 diz que as nações cometeram práticas que contaminaram a terra, "e a terra vomita os seus moradores" Lv 18.25. Deuteronômio 9 avisa ao povo para não pensar que merece: "Não é por causa da tua justiça, nem pela retidão do teu coração que entras a possuir a sua terra, mas pela impiedade destas nações o Senhor teu Deus as lança fora" Dt 9.5. E Deuteronômio 18.9-12 lista as práticas: passar o filho ou a filha pelo fogo, adivinhação, feitiçaria, consulta aos mortos. Deuteronômio 12.31 resume: "até seus filhos e suas filhas queimaram no fogo aos seus deuses".
Duas observações do próprio texto pesam na leitura, e é bom tê-las em mente antes de ver as posições. A primeira é que a ordem de destruir total convive, no mesmo capítulo, com a proibição de casar com essas nações Dt 7.3, e leitores se perguntam por que proibir casamento com quem estaria todo morto. A segunda é que a mesma palavra, ḥērem, é usada contra uma cidade israelita que se desviar: "Certamente ferirás, ao fio da espada, os moradores daquela cidade, destruindo a ela e a tudo o que nela houver" Dt 13.15. E Levítico 18.28 avisa a Israel que, se agir como as nações, "a terra [...] vos vomite". O padrão, portanto, é teológico: quem faz essas práticas na terra de Deus perde a terra, seja cananeu, seja israelita. Também há outros casos de ḥērem fora de Canaã, como o de Amaleque 1Sm 15.3.
Deuteronômio 20 também contém regras de guerra que raramente se citam junto com os versículos de destruição. Antes da batalha, os oficiais mandam voltar para casa o homem que construiu uma casa nova e ainda não a consagrou, o que plantou uma vinha e ainda não a colheu, o que está noivo, e o medroso Dt 20.5-8. No cerco de uma cidade, o texto proíbe cortar as árvores de fruto: "o arvoredo do campo é mantimento para o homem" Dt 20.19. E Deuteronômio 21.10-14 trata da mulher capturada em guerra: ela tem um mês para chorar o pai e a mãe, e se o homem não a quiser mais, "de modo algum a venderás por dinheiro, nem a tratarás como escrava, pois a tens humilhado". Leis assim mostram um mundo em que a guerra era normal, e em que o texto tenta limitá-la. Não eliminam a pergunta moral sobre o ḥērem, mas fazem parte do mesmo livro.
21 — O QUE O PRÓPRIO TEXTO MOSTRA"Nada deixou" e, em seguida, eles ainda estão lá
Quem lê Josué de ponta a ponta encontra uma coisa curiosa. As frases de destruição são totais: de Debir, "nada deixou" Js 10.39; de toda a campanha do sul, "nada deixou; mas tudo o que tinha fôlego destruiu" Js 10.40; de Hazor, "nada restou do que tinha fôlego" Js 11.11. E o mesmo livro, e o seguinte, mostram pessoas e cidades de pé:
Debir, que Josué destruiu em Josué 10.38-39, é tomada de novo por Otniel em Juízes 1.11-13. Os anaquins de Hebrom, extirpados em Josué 11.21, são expulsos por Calebe em Josué 15.14. Os jebuseus de Jerusalém, que Josué 12 lista entre os reis vencidos, "habitaram [...] com os filhos de Judá em Jerusalém, até ao dia de hoje" Js 15.63. Em Juízes 1, uma lista inteira de cidades que Israel não expulsou: Bete-Seã, Taanaque, Dor, Ibleão, Megido, Gezer Jz 1.27-33. O anjo do Senhor diz em Boquim que não expulsará os que restam: "antes estarão como espinhos nas vossas ilhargas, e os seus deuses vos serão por laço" Jz 2.3. E o rei Salomão, séculos depois, ainda reduz a trabalho forçado "todo o povo que restou dos amorreus, heteus, perizeus, heveus, e jebuseus" 1Rs 9.20-21.
Isso não é uma contradição escondida. O texto já tinha dito, no Êxodo, que o processo seria lento: "Não os lançarei fora de diante de ti num só ano, para que a terra não se torne em deserto [...]. Pouco a pouco os lançarei de diante de ti" Êx 23.29-30. E vimos no capítulo anterior que, das cidades tomadas em Josué, só três são explicitamente queimadas Js 11.13.
Como ler essa convivência? Há mais de uma resposta honesta. Ela é o ponto de partida das posições que vêm agora.
22 — AS POSIÇÕES HONESTASCinco maneiras de ler o ḥērem
O que segue não é um menu para escolher o que mais agrada. É um mapa das principais posições, cada uma com os argumentos que seus defensores dão. Não tomo partido.
1. Um juízo de Deus, real e limitado. Nessa leitura, o texto diz o que parece dizer: Deus ordenou, em um momento e num lugar determinados, que as cidades daquelas nações fossem destruídas, como juízo sobre práticas que a própria Bíblia descreve (Gn 15.16; Lv 18; Dt 9.4-5; 18.9-12). Quem lê assim costuma apontar três coisas: o prazo, já que Deus esperou quatro gerações; os casos de misericórdia, Raabe e Gibeom, que mostram a porta aberta; e o fato de que o mesmo juízo recai sobre Israel, se ele agir do mesmo jeito. Essa é a leitura de boa parte da tradição judaica e cristã. Maimônides (séc. XII), por exemplo, ensina que se devia propor paz também às sete nações, e que Josué teria enviado, segundo a tradição rabínica, avisos antes de entrar: quem quisesse partir, partisse; quem quisesse paz, a fizesse; quem quisesse guerra, viesse. Rashi, outro comentarista medieval, lê o texto de um jeito mais duro: para ele, a oferta de paz não valia para as cidades cananeias (ou, pela tradição das três mensagens de Josué, só valeu antes da travessia do Jordão), e Nahmânides discorda dele. No mundo cristão, um exemplo é o teólogo Christopher J. H. Wright, que em The God I Don't Understand (2008) defende que o texto é juízo moral de Deus e, ao mesmo tempo, aviso a Israel.
2. Linguagem convencional de guerra, que não deve ser lida ao pé da letra. Os reis do Egito, da Assíria e dos hititas escreviam relatos em que "aniquilaram" os inimigos, "não deixaram ninguém", enquanto as cidades continuavam de pé. Lawson Younger, no livro Ancient Conquest Accounts (1990), comparou esses textos com Josué e viu a mesma convenção. Paul Copan e Matthew Flanagan, em Did God Really Command Genocide? (2014), seguem esse caminho, e apontam o que vimos acima: o próprio texto mostra sobreviventes. John Walton e J. Harvey Walton, em The Lost World of the Israelite Conquest (2017), propõem outra versão: o alvo era a identidade dos povos, e não as pessoas uma a uma, e muitos cananeus acabaram absorvidos por Israel. Os críticos desse caminho respondem que o texto também descreve mulheres e crianças mortas Js 6.21, Js 8.25, e que reduzir tudo a exagero tira da narrativa o peso moral que o próprio narrador lhe dá.
3. Um ideal teológico, escrito muito depois. Muitos historiadores críticos entendem que Josué, como Deuteronômio, tomou a forma que conhecemos séculos depois dos fatos, talvez no tempo do rei Josias (séc. VII a.C.) ou do exílio, e que o ḥērem total é um programa de identidade: Israel como povo separado, sem misturas. O arqueólogo Israel Finkelstein e o historiador Neil Asher Silberman defendem essa leitura em The Bible Unearthed (2001), com o argumento de que a arqueologia não mostra uma campanha como a do livro. Quem lê assim costuma dizer que a ordem nunca foi aplicada como está escrita. Os que discordam dizem que isso supõe que a Bíblia não tem memória real, e que a pá não resolve a questão sozinha.
4. A objeção moral e as leituras cristológicas. Alguns leitores acham que o texto não pode ser tomado como retrato fiel do que Deus quer. Eric Seibert, em The Violence of Scripture (2012), propõe ler esses relatos à luz do que Jesus mostra de Deus. Robert Allen Warrior, num ensaio de 1989, "Canaanites, Cowboys, and Indians", lembrou que a história do Êxodo e da conquista, lida do lado dos povos conquistados, soa muito diferente. Existe também uma tradição cristã antiga de ler as guerras de Josué como símbolo. Orígenes, no século III, nas Homilias sobre Josué, via em Josué (o mesmo nome de "Jesus" em grego) uma figura de Cristo, e nas guerras, a luta contra o pecado. A Carta aos Hebreus mesma lembra que Josué não deu o verdadeiro "repouso" Hb 4.8.
5. Um mandamento que, para uma linha da tradição judaica, ficou sem aplicação. Uma linha da tradição rabínica usa um raciocínio da Mishná (Yadayim 4.4). Ali, a propósito de amonitas e moabitas, o rabino Josué diz que o rei assírio Senaqueribe "misturou" os povos: já não se pode saber quem descende de quem. Maimônides aplica isso a amonitas, moabitas, egípcios e edomitas. Uma linha de leitura estende o argumento às ordens de destruição: como não há mais como identificar os povos, a ordem não teria aplicação hoje. Nessa leitura, o ḥērem ficou restrito àquela geração e àqueles povos.
⚠️ Todas essas leituras partem do mesmo texto e dos mesmos dados. A diferença está no que cada leitor pensa de como a Bíblia foi escrita, do que ela afirma sobre Deus e sobre o que é possível provar. Duas coisas valem para todas: o texto liga o ḥērem a povos e ocasiões nomeados (as nações da terra, Siom e Ogue, Amaleque), e todos os leitores sérios concordam que a passagem é difícil. Não se faz justiça ao texto fingindo que ela é fácil.
23 — O QUE A PÁ ENCONTROUJericó, Ai, Hazor e uma pedra moabita
Quando se vai olhar os lugares da conquista, a surpresa é que a pá é, em geral, mais discreta do que se esperava, e que os dois lados do debate a usam.
Jericó (Tell es-Sultan). É uma das cidades mais antigas do mundo: uma torre e uma muralha de pedra de c. 8000 a.C. John Garstang, que escavou em 1930–1936, achou muros que atribuiu ao tempo de Josué, c. 1400 a.C. Kathleen Kenyon, nos anos 1950, concluiu que eles eram bem mais antigos, e que a cidade do Bronze Médio foi destruída por volta de 1550 a.C., sem muralha do Bronze Final por cima. A datação por carbono-14 de grãos queimados da destruição (Bruins e van der Plicht, 1995) a situa entre c. 1617 e 1530 a.C. (faixa calibrada), bem mais perto de Kenyon do que de Garstang. Bryant Wood, em 1990, reexaminou a cerâmica e defendeu a data de c. 1400 a.C.; sua equipe questiona a leitura de Kenyon. A maioria dos arqueólogos ainda segue Kenyon.
Ai. O sítio que mais gente identifica como Ai, et-Tell, não parece ter tido cidade no Bronze Final, segundo as escavações do século XX, entre elas as de Joseph Callaway (1964–1972). Por isso, algumas pessoas, entre elas a equipe de Bryant Wood, propõem outro lugar, Khirbet el-Maqatir, a uns mil metros dali, onde Wood defende uma destruição no fim do século XV a.C. A proposta vem sobretudo da própria equipe e é discutida.
Hazor. É o sítio em que a ligação com Josué mais se discute. A cidade foi incendiada no século XIII a.C., com um palácio queimado, estátuas mutiladas e, em 2012, as equipes de Amnon Ben-Tor e Sharon Zuckerman acharam um palácio queimado com grãos ainda nos depósitos. Ben-Tor lê nisso a confirmação de Josué 11. Zuckerman atribui o fogo a conflito interno da cidade. Israel Finkelstein vê guerra civil, os Povos do Mar ou o colapso geral do fim do Bronze.
As aldeias da serra. No Ferro I (c. 1200–1000 a.C.), a serra, pouco povoada antes, enche-se de mais de duzentas aldeias novas, no alto dos morros, parecidas entre si. Os escavadores chamam muitas de "israelitas", com a ressalva de que ninguém sabe se a identidade já estava formada. Há quatro modelos para explicar isso: conquista (William Albright, Yigael Yadin), infiltração pacífica (Albrecht Alt), revolta de camponeses (George Mendenhall, Norman Gottwald) e emergência dentro de Canaã (Finkelstein, William Dever). Um balanço de 2007 diz que não há consenso, e que a tendência é se afastar do modelo da conquista militar.
⚠️ As datas dessas discussões dependem de duas cronologias que o livro já viu: a da conquista por volta de 1406 a.C. (para quem aceita o Êxodo em c. 1446) e a de c. 1220–1210 a.C. (para quem aceita o Êxodo em c. 1260–1250). A arqueologia não confirma uma campanha como a de Josué, e também não prova que ela não tenha ocorrido: um incêndio num sítio não diz quem o ateou.
Falta o achado que mais ilumina a palavra ḥērem, e ele vem de fora de Israel. É uma pedra de basalto negro, de c. 840 a.C., achada em 1868 em Dibon, na atual Jordânia, e hoje no Louvre: a estela de Mesa, rei de Moabe.
Na inscrição, Mesa conta que o deus dele, Quemós, mandou-o tomar a cidade de Nebo, que pertencia a Israel. Ele ataca de noite e luta do amanhecer ao meio-dia. As traduções diferem nos detalhes, mas dizem, em essência, que ele matou cerca de sete mil pessoas e "devotou" a cidade, ou o que nela havia, a Aštar-Quemós, com a raiz ḥrm, a mesma do hebraico. Mesa diz ainda que levou de lá os vasos do Senhor (Yahweh) e os pôs diante de Quemós.
⚠️ A pedra mostra que a ideia de "devotar" uma cidade ao deus do vencedor existia fora de Israel, com a mesma palavra, e que um rei moabita a usou para justificar uma matança. Mostra também que o vocabulário do ḥērem era comum no mundo daquela região. Não prova nada sobre as conquistas de Josué, e não diz como os israelitas o aplicaram. Mas mostra que a prática não era exclusiva de Israel.
Moisés dá ao povo uma frase que desmonta a vaidade: "Não é por causa da tua justiça, nem pela retidão do teu coração que entras a possuir a sua terra" Dt 9.5. O aviso aparece também em Levítico: a terra vomita quem a contamina, seja quem for Lv 18.28. O texto não entrega a terra a gente melhor, entrega a gente avisada.
PARA FIXARO que ficou do capítulo
Anátema é separar para Deus
A palavra ḥērem vale para o ídolo, para o dízimo e para a cidade condenada Js 6.17.
As razões do texto
Quatro gerações de espera e práticas que contaminaram a terra Gn 15.16, Lv 18.25.
"Nada deixou", e eles ainda estão lá
Debir cai duas vezes, e os jebuseus ficam em Jerusalém Js 15.63.
A pá é discreta
Jericó e Ai pedem datação, Hazor foi queimada, e há mais de 200 aldeias novas na serra.
A pedra de Mesa
Moabe também "devotava" cidades, e com a mesma palavra hebraica.
Próximo capítulo: os cananeus que ficaram. O livro de Juízes mostra o que a vida em comum produziu: Débora, Jael e Sísera, o altar de Baal em Siquém e uma cidade que Abimeleque queimou.
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