Os CananeusCapítulo 10 de 11 ⤓ PDF
Pintura de Annibale Carracci: Jesus, de manto azul, estende a mão a uma mulher ajoelhada de manto dourado
CAPÍTULO 10 DE 11

Tiro, Sidom e a mulher cananeia

Os profetas, Alexandre, Paulo e a mulher que disse "mas também"

O que os profetas disseram contra Tiro e Sidom, o que a história mostra, e o dia em que Jesus foi à região.

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Uma mulher da região de Tiro começa a gritar atrás de um grupo de judeus que passa. Ela ouviu falar do homem que vem no meio deles Mc 7.25, e grita o título mais judaico que conhece: "Senhor, Filho de Davi, tem misericórdia de mim, que minha filha está miseravelmente endemoninhada" Mt 15.22.

O homem é Jesus. E a mulher, diz Mateus, é "cananéia". Mais de mil anos depois de Josué, o nome ainda está na boca dos evangelistas. Este capítulo faz dois caminhos. Primeiro, o que os profetas disseram contra Tiro e Sidom e o que a história mostra que aconteceu com elas. Depois, o dia em que Jesus foi para lá.

36 — AS CIDADES NOS PROFETASIsaías, Joel, Amós, Ezequiel e Zacarias

Depois de Hirão, Tiro e Sidom aparecem na Bíblia sobretudo nos livros proféticos, e quase sempre com acusação. Cinco profetas falam delas, em tons diferentes.

Amós, no século VIII a.C., acusa Tiro de ter "entregado todos os cativos a Edom" e de não se lembrar "da aliança dos irmãos" Am 1.9. A "aliança dos irmãos" lembra a de Hirão e Salomão, que o livro de Reis resume dizendo que "ambos fizeram acordo" 1Rs 5.12. Amós acusa a cidade de ter vendido gente, e anuncia fogo sobre os muros Am 1.10. Joel repete a acusação: Tiro e Sidom "vendestes os filhos de Judá e os filhos de Jerusalém aos filhos dos gregos, para os apartar para longe dos seus termos" Jl 3.6. As duas cidades eram grandes comerciantes, e o comércio incluía gente.

Isaías dedica o capítulo 23 a elas. O poema começa com um grito: "Uivai, navios de Társis, porque está assolada" Is 23.1. Mostra uma cidade rica, que vive de longe: "a sua provisão era a semente de Sior, que vinha com as muitas águas, a ceifa do Nilo, e ela era a feira das nações" Is 23.3. E dá a razão: "O Senhor dos Exércitos formou este desígnio para denegrir a soberba de toda a glória" Is 23.9. O final tem uma surpresa. Depois de setenta anos de esquecimento, Tiro voltará ao comércio, e "o seu comércio e a sua ganância de prostituta serão consagrados ao Senhor" Is 23.18. A cidade que vendia tudo acabará vendendo para quem serve ao Senhor.

Zacarias fala do orgulho da cidade em duas linhas: "Tiro edificou para si fortalezas, e amontoou prata como o pó, e ouro fino como a lama das ruas", e o Senhor "ferirá no mar a sua força, e ela será consumida pelo fogo" Zc 9.3-4.

Ezequiel dedica a Tiro três capítulos, 26 a 28. O primeiro anuncia o juízo: "farei subir contra ti muitas nações, como o mar faz subir as suas ondas", e "desde o norte, trarei contra Tiro a Nabucodonosor" Ez 26.3,7. O segundo é uma lamentação sobre um navio perfeito que naufraga: "Ó Tiro, tu dizes: Eu sou perfeita em formosura" Ez 27.3, com uma lista de mercadorias e de países que enchem uma página. Os remadores vêm de Sidom e de Arvade, e "os anciãos de Gebal e seus sábios foram em ti os que consertavam as tuas fendas" Ez 27.8-9. O terceiro volta-se contra o governante: "Eu sou Deus, sobre a cadeira de Deus me assento no meio dos mares; e não passas de homem" Ez 28.2. E logo depois vem uma lamentação mais estranha, sobre o "rei de Tiro" que "estiveste no Éden, jardim de Deus" Ez 28.12-13. Ezequiel ainda dirige o rosto contra Sidom Ez 28.21.

🔎 A palavra original

Dois pontos do poema de Ezequiel pedem atenção ao leitor. O primeiro é o "rei de Tiro" do capítulo 28, que "estiveste no Éden" e "eras o querubim, ungido para cobrir" Ez 28.13-14. Há três leituras. Muitos leitores cristãos desde os primeiros séculos veem nesses versos uma figura maior do que um rei humano, ligada à origem do mal. Outros leem como poesia sobre o rei de Tiro, que, como o primeiro homem, tinha tudo no jardim e o perdeu por orgulho: um "Adão" político. Leitores judeus tradicionais costumam ler tudo como palavra sobre o rei. O texto não dá a chave. O segundo ponto é a palavra "Tiro" em si. Em hebraico, Tsôr quer dizer "rocha", e a ironia é fácil de ouvir: "farei de ti uma penha descalvada", no hebraico, "uma rocha nua" Ez 26.14. A cidade chamada Rocha vira uma rocha pelada onde se estendem redes de pesca.

37 — O QUE ACONTECEU COM TIROBabilônia, Alexandre e uma faixa de areia

O que a história diz? Duas campanhas contam.

A primeira é a de Nabucodonosor, de Babilônia. Josefo, no Contra Apião (I, 21), diz ter lido nos registros fenícios que o rei babilônico cercou Tiro por treze anos, no reinado de Itobal (um rei posterior, de mesmo nome do pai de Jezabel). A fonte é tardia e não chegou inteira. E o próprio profeta, no ano 27 do exílio (c. 571 a.C.), reconhece o cansaço do exército:

"Nabucodonosor, rei de Babilônia, fez com que o seu exército prestasse um grande serviço contra Tiro; toda a cabeça se tornou calva, e todo o ombro se pelou; e não houve paga de Tiro para ele, nem para o seu exército, pelo serviço que prestou contra ela." Ezequiel 29.18

Repare no que o texto diz: o exército não recebeu o pagamento esperado. Por isso, Deus lhe dá em troca o Egito Ez 29.19-20. Em outras palavras: o próprio livro de Ezequiel reconhece que o cerco de Babilônia não rendeu o saque que se esperava.

A segunda campanha é a de Alexandre, em 332 a.C. Tiro era então uma ilha, a cerca de um quilômetro da costa, com muralhas que chegavam até a beira da água. O rei macedônio, que não tinha navios em número suficiente, construiu uma rampa de pedra e terra, uma "mola", da costa até a ilha. O cerco durou cerca de sete meses. Quando a cidade caiu, houve muitos mortos, e muitos moradores foram vendidos como escravos, segundo os historiadores antigos, Arrian e Diodoro, com números que variam de um relato para outro. Há uma tradição, que Diodoro e outros repetem, de que Alexandre aproveitou os escombros da antiga cidade da costa para a rampa. É a imagem que alguns leem em Ezequiel 26.12: "lançarão no meio das águas as tuas pedras, e as tuas madeiras, e o teu pó".

A península de Tiro vista do istmo de areia, com uma torre isolada e colunas caídas em primeiro plano; litografia colorida
Tiro vista do istmo — litografia colorida de Louis Haghe a partir de David Roberts (desenhada em 1839, publicada em 1842–49); Cleveland Museum of Art. A faixa de terra que hoje liga a antiga ilha à costa cresceu em volta da rampa de Alexandre. CC0.
🏺 O que a pá encontrou

O sarcófago de Esmunazar. Em 1855, caçadores de tesouros acharam em Sidom um sarcófago de pedra com duas inscrições em fenício, hoje no Louvre. É o de Esmunazar II, rei de Sidom, e conta que "o Senhor dos Reis" lhe deu "Dor e Jope, terras poderosas de Dagom, que estão na planície de Sarom", um rei persa. Quem data o sarcófago no fim do século VI a.C. pensa em Cambises II e na ajuda de Sidom na conquista do Egito; quem o data no século V a.C. pensa em outro rei. A data é debatida. Jope é o porto para onde, séculos antes, as jangadas de Hirão levavam o cedro 2Cr 2.16, e é para onde, no regresso do exílio, sidônios e tírios levam cedro de novo, "segundo a concessão que lhes tinha feito Ciro, rei da Pérsia" Ed 3.7.

A rampa de Alexandre. A rampa de pedra que Alexandre construiu ainda está lá, debaixo da areia que se acumulou dos dois lados. É por causa dela que a Tiro de hoje é uma península, e não uma ilha.

⚠️ Os achados mostram que Sidom prosperou sob a Pérsia, que as duas cidades continuaram a fornecer cedro e que Tiro foi tomada por Alexandre. O que ninguém discute é que Tiro existiu depois de Alexandre, e mais tarde, até o tempo dos Atos, com discípulos de Jesus At 21.4.

Como os leitores entendem as profecias de Ezequiel 26 depois disso? Há três posições. A primeira diz que elas se cumpriram em etapas: segundo essa leitura, Nabucodonosor destruiu a parte da costa, depois de treze anos de cerco, e Alexandre varreu a ilha. Os que a sustentam lembram a frase "muitas nações" Ez 26.3, que parece pedir mais de uma campanha. A segunda diz que Ezequiel mesmo corrige o alcance do que tinha dito em 29.17-20, e que a promessa de "nunca mais serás edificada" Ez 26.14 deve ser lida como linguagem profética de juízo, e não como previsão literal, já que Tiro continuou habitada. A terceira diz que o poema fala de um juízo sobre o orgulho do comércio, e que o texto não visa a dar detalhes de história. Cada uma é defendida por leitores sérios, e a escolha depende de como se entende a profecia.

⚠️ Este livro não escolhe. Fica o que consta: a Bíblia anunciou juízo sobre Tiro, a história registra um cerco de Babilônia e a conquista de Alexandre, e o profeta mesmo reconhece que o primeiro cerco não pagou o que se esperava.

38 — TIRO E SIDOM COM JESUS E OS APÓSTOLOSDe Corazim à praia de Tiro

Quando Jesus entra em cena, Tiro e Sidom ainda estão ali, agora cidades de uma província romana. Ele as usa como comparação, e a frase dele é dura com os judeus: "Ai de ti, Corazim! ai de ti, Betsaida! porque, se em Tiro e em Sidom fossem feitos os prodígios que em vós se fizeram, há muito que se teriam arrependido, com saco e com cinza" Mt 11.21. E acrescenta: "haverá menos rigor para Tiro e Sidom, no dia do juízo, do que para vós" Mt 11.22. Duas cidades que os profetas tinham condenado são, nas palavras de Jesus, mais receptivas do que as da Galileia.

O povo da região vinha ouvi-lo: a multidão de Marcos inclui gente "de perto de Tiro e de Sidom" Mc 3.8. E depois da morte de Estêvão, os cristãos dispersos "caminharam até à Fenícia, Chipre e Antioquia" At 11.19. Mais tarde, Paulo volta ao lugar. A caminho de Jerusalém, o navio para em Tiro para descarregar, e "achando discípulos, ficamos ali sete dias" At 21.3-4. Quando ele parte, a cena é a de uma igreja inteira, com mulheres e crianças, ajoelhada na praia a orar At 21.5. Em Sidom, no caminho para Roma, o centurião deixa Paulo visitar amigos At 27.3. As cidades que os profetas condenaram têm, no Novo Testamento, discípulos de Jesus.

39 — A MULHER CANANEIAMigalhas debaixo da mesa

É nesse cenário que Mateus e Marcos colocam a cena. Mateus diz que Jesus "foi para as partes de Tiro e de Sidom" Mt 15.21. Marcos acrescenta que, "entrando numa casa, não queria que alguém o soubesse, mas não pôde esconder-se" Mc 7.24. Uma mulher o procura. O que acontece a seguir ocupa poucas linhas e é um dos diálogos mais intensos dos evangelhos:

"Mas ele não lhe respondeu palavra. E os seus discípulos, chegando ao pé dele, rogaram-lhe, dizendo: Despede-a, que vem gritando atrás de nós. E ele, respondendo, disse: Eu não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel." Mateus 15.23-24

Ela não desiste. Aproxima-se, "adorou-o" e pede: "Senhor, socorre-me!" Mt 15.25. A resposta de Jesus é a frase mais difícil da cena:

"Não é bom pegar no pão dos filhos e deitá-lo aos cachorrinhos. E ela disse: Sim, Senhor, mas também os cachorrinhos comem das migalhas que caem da mesa dos seus senhores. Então respondeu Jesus, e disse-lhe: Ó mulher, grande é a tua fé! Seja isso feito para contigo como tu desejas. E desde aquela hora a sua filha ficou sã." Mateus 15.26-28

Em Marcos, a cena é mais curta, e Jesus diz: "Deixa primeiro saciar os filhos" Mc 7.27. A resposta dela é parecida, e a de Jesus: "Por essa palavra, vai; o demônio já saiu de tua filha" Mc 7.29. A mulher volta para casa e acha a filha deitada na cama, curada Mc 7.30.

🔎 A palavra original

Os dois evangelistas chamam a mulher por nomes diferentes. Mateus a chama de Chananaía, "cananeia" (Strong: "uma cananeia, ou nativa da Palestina pagã"). É a única vez que a palavra aparece no Novo Testamento, e é um nome do Antigo Testamento, um nome de mais de mil anos, para uma mulher que vivia na província romana da Síria. Marcos diz que ela era "grega, siro-fenícia de nação" Mc 7.26. A palavra é Syrophoínissa (Strong: "uma mulher siro-fenícia, isto é, nativa da Fenícia da Síria"), com o nome do lugar em que ela vivia. "Grega" costuma ser entendido como gentia, de cultura grega, e não como nascida na Grécia. Muitos comentaristas notam que Mateus, que escreve para leitores que conhecem a Bíblia hebraica, usa o nome de lá, e que Marcos usa o vocabulário do tempo dela.

E a palavra "cachorrinhos" é, no grego, kynária, plural de kynárion, que Strong define como "um cachorrinho". É um diminutivo. Há quem leia o diminutivo como um suavizador, falando de cães de casa, que comem debaixo da mesa. Há quem diga que Jesus, mesmo com o diminutivo, repete uma frase dura. O texto grego não resolve a questão, e a imagem da mesa, com os filhos acima e os cachorrinhos debaixo, é a que a mulher aproveita.

O que fazer com esse silêncio, esse "não fui enviado senão às ovelhas perdidas" e essa palavra sobre os cachorrinhos? Os leitores se dividem em três modos de ler.

O primeiro, uma leitura antiga e comum, diz que Jesus sabia o que ia fazer desde o começo. O silêncio, a recusa e a frase sobre o pão são um modo de levar a fé da mulher a aparecer e de mostrá-la aos discípulos, que queriam mandá-la embora. A conclusão, "grande é a tua fé", é o que tudo isso preparou.

O segundo vê a cena à luz da ordem da missão. A frase de Marcos, "primeiro", aponta para uma sequência: Israel primeiro, as nações depois, como Paulo dirá em Romanos Rm 1.16. A mulher aceita a ordem e mostra que, na mesa de Israel, há migalhas para todos. A cena, nessa leitura, antecipa o envio dos discípulos a todas as nações Mt 28.19.

O terceiro, defendido por parte dos estudiosos modernos, lê a cena como um momento em que a conversa amplia o alcance que Jesus dava à sua missão. Outros, entre eles muitos teólogos de tradição clássica, rejeitam essa leitura, porque supõe que Jesus tenha mudado de rumo, e veem na cena um ensino planejado.

⚠️ Os evangelhos não explicam o que Jesus pensava, e as três leituras partem de crenças diferentes sobre quem Jesus é e sobre como os evangelhos foram escritos. O que consta é o que os dois evangelistas registram: uma mulher que insiste, uma frase dura e uma resposta que muda tudo.

Há um eco que muita gente nota. Raabe, a cananeia de Josué 2, aparece às portas de uma cidade condenada. A mulher de Tiro aparece diante de um judeu que, por um momento, parece lhe fechar a porta. As duas estão do lado de fora do povo, e as duas dizem palavras que a Bíblia reconhece como fé. Mateus põe Raabe na genealogia de Jesus Mt 1.5, e a mulher de Tiro no meio da história.

👁️ Como era viver ali

Pense nela. Uma mãe de uma região que dependia do trigo do país do rei At 12.20, com uma filha doente de um mal que ninguém ali sabia curar. Ela ouviu falar de um judeu que fazia curas Mc 7.25, e foi atrás dele: Mateus diz que ela "saíra daquelas cercanias". A Bíblia não guardou o nome dela, só o que ela disse.

🌱 Semente de sermão

Ela ouve o silêncio, ouve o "não fui enviado" e ouve a palavra sobre os cachorrinhos, e não vai embora. Faz de cada recusa uma porta: "Sim, Senhor, mas também..." Mt 15.27. A fé dela é a que se ajoelha e continua pedindo. Quem fica de fora da mesa pode ficar tão perto do pão que as migalhas sejam suficientes.

PARA FIXARO que ficou do capítulo

⚓

Cinco profetas, duas cidades

Amós, Joel, Isaías, Zacarias e Ezequiel falam de Tiro e de Sidom, quase sempre em juízo.

🌾

A feira das nações

Isaías: a provisão de Tiro era a ceifa do Nilo Is 23.3. Ezequiel: Israel vende trigo a ela Ez 27.17.

🏗️

Treze anos, depois sete meses

Babilônia cercou Tiro por treze anos, segundo Josefo. Alexandre a tomou, em 332 a.C., depois de sete meses.

📜

Esmunazar e Dor e Jope

O sarcófago de Sidom, no Louvre, fala de Jope, o porto dos cedros Ed 3.7.

⛪

Discípulos em Tiro

Sete dias com Paulo, e uma igreja de joelhos na praia At 21.4-5.

🐕

"Sim, Senhor, mas também..."

A mulher cananeia ou siro-fenícia, de Mateus 15 e Marcos 7: a fé que insiste.

Último capítulo: o que os cananeus deixaram ao mundo (o alfabeto, o mar, o nome "Bíblia"), o debate honesto sobre Moloque e o sacrifício de crianças, e oito versículos para levar na Bíblia.

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