Em Tiro, o rei Hirão lê a carta de Salomão e se alegra. O novo rei de Jerusalém pede cedros do Líbano para construir uma casa ao Senhor, e lembra com elegância que "entre nós ninguém há que saiba cortar a madeira como os sidônios" 1Rs 5.6. Hirão responde sem demora: "Bendito seja hoje o Senhor, que deu a Davi um filho sábio sobre este tão grande povo" 1Rs 5.7.
É o encontro de dois reinos pequenos que se precisam. Um tem trigo e azeite, o outro tem cedro, navios e artesãos. Este capítulo conta a amizade de Tiro com Davi e Salomão, os cedros do templo, as vinte cidades da Galileia, os navios de Ofir e de Társis, e o que a pá achou da Fenícia dessa época.
28 — A CIDADE DO MARTiro, Sidom e o rei Hirão
No tempo de Davi, a costa de Canaã ao norte do Carmelo já tem duas grandes cidades: Sidom e Tiro. Sidom é a mais velha: a Bíblia a chama de primogênita de Canaã Gn 10.15. Tiro é uma rocha na água. O nome hebraico, Tsôr, quer dizer "rocha" (Strong: "uma rocha"). Josué já a menciona como "a forte cidade de Tiro" Js 19.29, e Davi, no censo, vai à "fortaleza de Tiro" 2Sm 24.7. A cidade ocupava uma ilha rochosa a pouca distância da costa, com porto e muralhas até a beira da água.
A Bíblia chama de "sidônios" gente que não mora em Sidom. O mesmo hebraico, Tsîdônî (Strong: "um sidônio, ou habitante de Sidom"), serve para os fenícios em geral. É assim que Jezabel, filha de Etbaal, é apresentada como filha do "rei dos sidônios" 1Rs 16.31, embora a tradição que Josefo guardou o faça rei de Tiro. É assim também que os lenhadores de Hirão são "sidônios" 1Rs 5.6, e que a deusa Astarote é "deusa dos sidônios" 1Rs 11.5. O mesmo uso aparece nos poemas de Homero, que chamam de "sidônios" os mercadores fenícios. Os dois nomes, "sidônio" e "tírio", valiam como "gente do litoral", e não só como cidadãos de uma cidade.
Hirão (em hebraico Chîrām, que Strong dá como nome de dois tírios) reina em Tiro no tempo de Davi e Salomão. A Bíblia nunca conta os anos dele. O que sabemos vem de Josefo, que, no livro Contra Apião (I, 17–18, na divisão de Whiston), cita historiadores gregos, Menandro de Éfeso e Dio, que por sua vez usaram os registros de Tiro. Segundo esse relato, Hirão, filho de Abibaal, reinou 34 anos e viveu 53. Ele teria ampliado o porto, unido duas ilhas em uma e construído templos a Héracles (nome grego do deus Melqart) e a Astarte. Josefo diz, também, que Hirão e Salomão trocavam enigmas, e que um tírio chamado Abdemon os resolvia.
⚠️ Isso é tradição tardia, de fontes que não chegaram até nós inteiras, e não está na Bíblia. As datas de Hirão variam conforme a cronologia: algumas obras propõem c. 980–947 a.C., e outras ajustam esses números em poucos anos. Este livro usa só "meados do século X a.C.". Os enigmas e o nome de Abdemon são lembranças de Josefo, e não há como conferi-los.
Na Bíblia, Hirão aparece pela primeira vez no tempo de Davi, que acaba de tomar Jerusalém: "Hirão, rei de Tiro, enviou mensageiros a Davi, e madeira de cedro, e carpinteiros, e pedreiros que edificaram a Davi uma casa" 2Sm 5.11. O livro de Reis resume o que veio depois: "Hirão sempre tinha amado a Davi" 1Rs 5.1. Era uma amizade que dava lucro. Israel, um reino de montanha e de planície, não tinha cedros, não tinha ofício de pedra e madeira fina nem frota. Tiro, uma ilha de rocha, não tinha campo. Cada um tinha o que faltava ao outro.
29 — O TEMPLO FEITO TAMBÉM EM TIROCedros, pedreiros e um artesão de duas tribos
O acordo está em 1 Reis 5, e tem duas partes. Salomão pede o cedro. Hirão promete mandá-lo por mar: "Os meus servos as levarão desde o Líbano até ao mar, e eu as farei conduzir em jangadas pelo mar até ao lugar que me designares, e ali as desamarrarei" 1Rs 5.9. Em Crônicas, o lugar tem nome: "em jangadas pelo mar até Jope, e tu a farás subir a Jerusalém" 2Cr 2.16. Em troca, Salomão manda a Hirão, todo ano, vinte mil coros de trigo e vinte coros de azeite 1Rs 5.11.
As duas fontes podem ser lidas como complementares: Reis fala do pagamento à casa de Hirão, e Crônicas, do pagamento aos cortadores: "vinte mil coros de trigo malhado, vinte mil coros de cevada, vinte mil batos de vinho e vinte mil batos de azeite" 2Cr 2.10. O trigo e o azeite eram exatamente o que Tiro precisava. Séculos depois, o profeta Ezequiel lista os clientes da cidade: "Judá e a terra de Israel, eram os teus mercadores; pelas tuas mercadorias trocavam trigo de Minite, e Panague, e mel, azeite e bálsamo" Ez 27.17. E o Novo Testamento ainda mostra o mesmo laço: os de Tiro e de Sidom pediam paz ao rei Herodes "porquanto o seu país se abastecia do país do rei" At 12.20.
Do lado de Israel, a obra pesa. Salomão "fez subir uma leva de gente dentre todo o Israel", trinta mil homens, que iam ao Líbano em turnos: "um mês estavam no Líbano, e dois meses cada um em sua casa" 1Rs 5.13-14. Ao lado deles, setenta mil carregadores e oitenta mil talhadores de pedra 1Rs 5.15. Quem entalha a pedra são "os edificadores de Hirão, e os giblitas" 1Rs 5.18, isto é, os homens de Gebal, a cidade que os gregos chamaram de Biblos.
E há um artesão, o mais famoso do livro:
Ele também se chama Hirão, e as pias, as pás e as bacias do templo são obra dele 1Rs 7.40. Em Crônicas, o rei de Tiro o apresenta como "um homem sábio de grande entendimento, a saber, Hirão Abiú", e conta que ele sabe trabalhar "em ouro, em prata, em bronze, em ferro, em pedras e em madeira, em púrpura, em azul, e em linho fino, e em carmesim" 2Cr 2.13-14. Um pormenor muda de um livro para outro: Reis diz que a mãe era da tribo de Naftali, e Crônicas, "das filhas de Dã". Alguns comentaristas lembram que Dã e Naftali eram tribos vizinhas, no norte, e que a mãe pode ter nascido numa e vivido na outra. Outros veem uma variante. O texto não explica.
Repare também no que Hirão escreve a Salomão: "Bendito seja o Senhor Deus de Israel, que fez os céus e a terra" 2Cr 2.12. Um rei fenício que bendiz o Deus de Israel. O texto não diz que ele tenha deixado seus deuses, e muitos leitores veem nisso uma fórmula de cortesia entre reis. A Bíblia o registra, de qualquer jeito, com todas as letras.
Pense no lenhador do Líbano. Ele vive nas montanhas, e o cedro é a sua vida: árvores enormes, que ele conhece como o pescador conhece o mar. Quando o rei de Tiro fecha um contrato, ele desce até a costa com as toras, e dali elas vão ao mar. Do outro lado, está o camponês israelita que, uma vez por ano, passa um mês no Líbano cortando madeira, e dois meses em casa. A obra do templo mexeu com muita gente: a de Tiro, que lucrava, e a de Israel, que pagava com trabalho e com trigo. Mais tarde, quando o filho de Salomão ouve o povo pedir que alivie "o pesado jugo" 1Rs 12.4, o texto não diz que falavam da obra do templo, mas é a leitura mais comum.
30 — CABUL, OFIR E TÁRSISVinte cidades, ouro e navios
Salomão levou vinte anos para construir o templo e o palácio 1Rs 9.10. No fim, pagou a Hirão com um gesto estranho:
É uma cena de frieza entre amigos. Hirão chama Salomão de "irmão meu" e recusa o presente. O nome Kābûl (Strong: "Cabul, nome de dois lugares na Palestina") é explicado pelo texto como a reação de Hirão, mas o significado exato é debatido, e o texto não o diz. Crônicas conta a história ao contrário: em 2 Crônicas 8.2, "Salomão edificou as cidades que Hirão lhe tinha dado". Ou seja: uma tradição diz que Salomão deu cidades a Hirão, e a outra, que Hirão as deu a Salomão. Os estudiosos propõem soluções (as cidades foram devolvidas, ou trocadas), mas a Bíblia não decide.
Os dois reis também faziam negócios juntos no mar. Salomão fez navios em Eziom-Geber, no golfo de Ácaba, e "mandou Hirão com aquelas naus a seus servos, marinheiros, que sabiam do mar, com os servos de Salomão. E vieram a Ofir, e tomaram de lá quatrocentos e vinte talentos de ouro" 1Rs 9.26-28. Crônicas conta a mesma viagem com outro número: "quatrocentos e cinqüenta talentos de ouro" 2Cr 8.18. Quem trouxe de volta ouro, madeira de almugue e pedras preciosas foram as "naus de Hirão" 1Rs 10.11. E outra frota ia mais longe: "o rei tinha no mar as naus de Társis, com as naus de Hirão; uma vez em três anos tornavam as naus de Társis, e traziam ouro e prata, marfim, e bugios, e pavões" 1Rs 10.22.
Onde ficava 'Ôphîr? Strong diz que é "uma região de ouro no Oriente". Para uns estudiosos, a Arábia do Sul; para outros, a costa da África; para outros, a Índia. O texto não diz. E onde ficava Tarshîsh? Strong a descreve como "um lugar no Mediterrâneo; daí, o epíteto de um navio mercante". É o nome do destino de Jonas, que sai de Jope num navio "para Társis" Jn 1.3, e do parceiro de Tiro em Ezequiel, que negociava "com prata, ferro, estanho e chumbo" Ez 27.12. Muita gente a localiza em Tartessos, no sul da Espanha, uma região de prata e estanho. Outros pensam em Sardenha, ou numa cidade como Tarso. E há os que leem "navio de Társis" como um tipo de navio de longa viagem, não como um lugar. A questão continua em aberto.
O que se sabe é o que a escrita fenícia dá a entender: os marinheiros de Tiro saíam do Mediterrâneo oriental, iam longe e voltavam com metais. Foi essa rede que mais tarde fundou colônias (Chipre, Sicília, o norte da África) e que o capítulo final do livro vai mostrar. Por ora, basta ver como a Bíblia a mostra: um reino de rocha que vive do mar e que tem Israel como seu celeiro.
31 — O QUE A PÁ ENCONTROUCedro em Biblos, um túmulo errado e um templo de três salas
A História de Unamon. Um papiro egípcio, hoje no Museu Pushkin, em Moscou, conta a viagem de um sacerdote de Amom, Unamon, a Biblos para comprar cedro. Foi achado, ao que se diz, em 1890 em el-Hibeh e publicado por Vladimir Golenishchev entre 1897 e 1899. O rei de Biblos, Zakar-Baal, não dá a madeira de graça, como a tradição mandava: exige pagamento. Unamon precisa mandar buscar pagamento no Egito e espera quase um ano. No fim, parte com a madeira, mas uma frota de navios tjeker o persegue, e ele é arrastado para Chipre. A história se passa por volta de 1100–1075 a.C. (a data é debatida), num Egito já fraco.
⚠️ A maior parte dos egiptólogos hoje lê a história como ficção histórica (com ironia e diálogos construídos), escrita talvez um século depois dos fatos. Ela vale como retrato do que se imaginava possível: um rei de Biblos que negociava o cedro com o Egito de igual para igual. Não prova nada sobre Hirão, e tem uma data, o "ano 5", que é debatida.
O túmulo de Hirão. A uns seis quilômetros a sudeste de Tiro, perto da aldeia de Hanaweh, há um grande sarcófago de pedra sobre um pedestal, que a tradição local chama de "túmulo de Hirão". É do período persa, mais de quatrocentos anos depois do tempo de Hirão, e não pode ser dele.
O templo de três salas. A planta do templo que Salomão construiu, com um pórtico, uma sala principal e o lugar santíssimo, aparece também em templos do Levante. Os estudiosos costumam citar Ain Dara e Tell Tayinat, no norte da Síria, e a planta alongada de templos de Hazor do Bronze Final. Isso combina com a ajuda de artesãos da costa.
⚠️ O paralelo com Ain Dara e Tayinat é de planta, não de pessoas: mostra que o desenho fazia parte de um modo comum de construir templos na região, e não que o templo de Salomão tenha sido copiado. As datas dos templos sírios também são discutidas.
Hirão não era israelita, e o texto bíblico o chama de amigo e conta que um artesão de pai tírio fez as peças de bronze do templo. O templo de Jerusalém tem cedro do Líbano, mão de obra de Tiro e pedra lavrada por gente de Biblos, e a Bíblia registra isso sem constrangimento.
PARA FIXARO que ficou do capítulo
Hirão, o artesão
Filho de uma viúva de Naftali (ou de Dã) e de um tírio, fez as peças de bronze do templo 1Rs 7.14.
Ofir e Társis
Ouro, prata, marfim, bugios e pavões, a cada três anos 1Rs 10.22. Onde ficavam, ninguém sabe.
Unamon em Biblos
O papiro conta um rei que cobra pelo cedro. É ficção histórica, mas mostra a cena.
Próximo capítulo: uma princesa de Sidom vira rainha de Israel. Jezabel, o templo de Baal em Samaria, Elias no Carmelo, a viúva de Sarepta e o fim dos Onridas.
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