Os CananeusCapítulo 9 de 11 ⤓ PDF
Gravura de Doré: Jezabel sendo lançada de uma janela, com soldados e cães embaixo
CAPÍTULO 9 DE 11

Jezabel e Baal

Samaria, Elias, Sarepta, o Carmelo e o fim dos Onridas

Uma princesa de Sidom vira rainha de Israel. A religião que veio com ela, o profeta que a enfrentou e o fim de uma dinastia.

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Pela porta de Samaria entra uma comitiva vinda do norte, da costa. Traz uma noiva: "Jezabel, filha de Etbaal, rei dos sidônios" 1Rs 16.31. O rei de Israel, Acabe, está casando. E o texto, que costuma passar rápido por casamentos reais, aqui se detém, porque o que vem junto com a noiva é uma religião: "e foi e serviu a Baal, e o adorou".

O nome de Jezabel virou insulto na linguagem comum. Este capítulo tenta ler a história sem o insulto: uma princesa de Tiro e Sidom, casada com um rei de Israel, e o profeta que enfrentou a casa deles. Passa por Samaria, por uma viúva de Sarepta, pelo monte Carmelo, por uma vinha em Jizreel e pelo fim da dinastia de Onri.

32 — A PRINCESA DE SIDOMAcabe, Etbaal e a casa de marfim

O casamento foi uma aliança. Onri, pai de Acabe, fundou Samaria e fez dela a capital. Um casamento com a filha do rei dos sidônios (que Josefo diz ser rei de Tiro) ligava Israel ao comércio do litoral, aos cedros e aos navios que já vimos no capítulo anterior. Josefo, que cita as crônicas de Tiro por meio do historiador Menandro, diz que Etbaal (que ele chama de Itobal) era sacerdote de Astarte e tomou o trono depois de matar o rei, e que reinou 32 anos (Contra Apião I, 18). Isso é tradição, e não está na Bíblia.

O texto bíblico dá três informações sobre o que Jezabel trouxe. Acabe "levantou um altar a Baal, na casa de Baal que edificara em Samaria" 1Rs 16.32. Fez também "um ídolo" (em hebraico, uma 'ashērāh, como vimos no Capítulo 3) 1Rs 16.33. E a mesa de Jezabel sustentava "os quatrocentos e cinqüenta profetas de Baal, e os quatrocentos profetas de Aserá" 1Rs 18.19. Nada disso é novo em Israel, onde Baal já era adorado desde os juízes. O que o texto marca como novo é o apoio do palácio: um culto sustentado pela corte.

O livro de Reis resume o veredito: "ninguém fora como Acabe, que se vendera para fazer o que era mau aos olhos do Senhor; porque Jezabel, sua mulher, o incitava" 1Rs 21.25. A frase é dura, e vale notar o que ela diz: Jezabel é a que incita, e Acabe é o que se vende.

🏺 O que a pá encontrou

Acabe em Assur. O Monolito de Kurkh, uma estela de Salmaneser III achada na atual Turquia e hoje no Museu Britânico, conta a batalha de Qarqar, em 853 a.C. Entre os reis que enfrentaram o rei assírio está "Ahabbu, o israelita", com 2.000 carros e 10.000 soldados, segundo a tradução de Luckenbill. Costuma ser citada como a primeira menção de um rei de Israel em fontes assírias (Jeú, no Obelisco Negro, vem depois). A identificação com Acabe é a leitura comum, mas uns poucos estudiosos a contestam, e Nadav Na'aman propôs que o escriba errou e que eram 200 carros, não 2.000. Já a Estela de Mesa, que vimos no Capítulo 6, nomeia Onri como o rei de Israel que oprimiu Moabe.

Os marfins de Samaria. A Bíblia diz que Acabe edificou uma "casa de marfim" 1Rs 22.39, e o profeta Amós, depois, anuncia que "as casas de marfim perecerão" Am 3.15. Na capital, as escavações de Harvard (1908–1910, com George Reisner) e as de J. W. Crowfoot (1931–1935) acharam centenas de peças e fragmentos de marfim entalhado, sobretudo em covas de lixo perto do muro do palácio (as contagens variam conforme se contem peças inteiras ou fragmentos). Eram incrustações de móveis, com motivos egípcios e levantinos. Os primeiros escavadores as consideraram de trabalho fenício.

⚠️ Os marfins combinam com uma casa de luxo ligada à costa. Mas as peças são de datas entre os séculos IX e VIII a.C., e não se pode dizer que a "casa de marfim" de 1 Reis 22.39 seja a que as escavações encontraram: o texto talvez fale de um palácio com marfim em móveis ou painéis, e as peças saíram de covas, não de salas. A relação entre os marfins e Jezabel é uma sugestão de leitura, não um dado.

33 — A SECA E A VIÚVA DE SAREPTAElias na terra de Baal

Então aparece um homem sem passado: "Elias, o tisbita, dos moradores de Gileade". A primeira frase dele é a que muda tudo:

"Vive o SENHOR Deus de Israel, perante cuja face estou, que nestes anos nem orvalho nem chuva haverá, senão segundo a minha palavra." 1 Reis 17.1
🔎 A palavra original

O nome do profeta é uma frase. 'Ēlîyāhû (אֵלִיָּהוּ) junta 'ēl, "Deus", e Yāhû, forma curta do nome do Senhor: "meu Deus é Yahweh". Strong o lista como "Elias, o nome do famoso profeta". É um nome que já é uma resposta ao nome de Baal, e que se ouve em cada vez que se chama o profeta. E há uma coincidência: o poeta de Ugarit chamou Baal de "o que cavalga as nuvens", e Elias anuncia que o Senhor tranca o céu 1Rs 17.1. Muitos leitores veem aí um desafio direto: o deus que mandava na chuva em Canaã é desmentido num ponto que era dele. É uma leitura do texto, não uma frase do texto.

Elias some, e por três anos e meio não chove Lc 4.25. Quando o Senhor o manda sair do esconderijo, o destino é onde ninguém esperaria: "Levanta-te, e vai para Sarepta, que é de Sidom, e habita ali; eis que eu ordenei ali a uma mulher viúva que te sustente" 1Rs 17.9. Sidom era a terra de Jezabel, o território de Baal. O profeta que anunciou a seca vai viver da hospitalidade de uma viúva fenícia, em plena fome.

Na porta da cidade, ele encontra uma mulher apanhando lenha, e pede água e pão. A resposta dela mostra a situação:

"Vive o Senhor teu Deus, que nem um bolo tenho, senão somente um punhado de farinha numa panela, e um pouco de azeite numa botija; e vês aqui apanhei dois cavacos, e vou prepará-lo para mim e para o meu filho, para que o comamos, e morramos." 1 Reis 17.12

Repare que ela jura "pelo Senhor teu Deus": sabe de quem ele é. Elias a manda fazer primeiro um bolo pequeno para ele, e promete: "A farinha da panela não se acabará, e o azeite da botija não faltará até ao dia em que o Senhor dê chuva sobre a terra" 1Rs 17.14. E ela obedece 1Rs 17.15-16. Depois, quando o filho dela adoece e morre, Elias o reanima 1Rs 17.17-24. O Novo Testamento volta à cena: Jesus lembra aos conterrâneos de Nazaré que, entre as muitas viúvas de Israel, "a nenhuma delas foi enviado Elias, senão a Sarepta de Sidom, a uma mulher viúva" Lc 4.26.

Gravura em preto e branco: um profeta ao lado de uma mulher ajoelhada, com o corpo de um menino no colo
Elias ressuscita o filho da viúva de Sarepta — gravura de Gustave Doré (1866), da La Sainte Bible. Domínio público.
🏺 O que a pá encontrou

Sarepta (Sarafand). O lugar fica na costa do Líbano, entre Tiro e Sidom. A expedição de James B. Pritchard, da Universidade da Pensilvânia, escavou ali em temporadas de 1969 a 1974, até a guerra civil libanesa interromper o trabalho. Achou oficinas de cerâmica e fornos, figuras de culto, máscaras e inscrições (a publicação preliminar fala de algumas em ugarítico). A cidade que o texto chama de "Sarepta, que é de Sidom" era, portanto, um pequeno centro industrial, que vivia da argila e do fogo.

⚠️ A escavação mostra que existia uma cidade, no lugar e no tempo certos, com cerâmica que combina com a da costa. Não confirma a viúva nem o milagre, e a ligação entre o sítio e o texto é de lugar e de nome.

👁️ Como era viver ali

A fome de 1 Reis 17–18 mexe com todos os lados da cena. Em Samaria, o rei sai com o mordomo Obadias para ver se acham capim e água 1Rs 18.5, e o texto diz que a fome era grande na cidade 1Rs 18.2. Em Sarepta, uma mulher conta o último punhado de farinha. A mesma seca, a mesma fome, e uma diferença: uma está na terra do rei que adora Baal, e a outra, na terra de onde vem a rainha. O texto não faz distinção entre elas na hora da fome.

34 — O CARMELOFogo, silêncio e o ribeiro de Quisom

No terceiro ano, Elias volta e pede o encontro: "manda reunir-se a mim todo o Israel no monte Carmelo; como também os quatrocentos e cinqüenta profetas de Baal, e os quatrocentos profetas de Aserá, que comem da mesa de Jezabel" 1Rs 18.19. O Carmelo é um promontório sobre o mar, ao sul de Tiro, e era um lugar sagrado.

📜 Segundo a tradição e a história

O historiador romano Tácito, em suas Histórias (II, 78), conta que, no ano 69 d.C., o futuro imperador Vespasiano subiu ao Carmelo para consultar um oráculo. Ele escreve que o monte e o deus tinham o mesmo nome, e que ali não havia imagem nem templo, só um altar e reverência. Um sacerdote chamado Basílides teria lhe prometido sucesso. O monte seguia sagrado, portanto, cerca de novecentos anos depois de Elias.

⚠️ Tácito escreve uns novecentos anos depois do episódio, e não diz nada de Elias. O que ele mostra é que o Carmelo era um lugar de culto antigo, e que a escolha do monte por Elias combina com isso.

O povo se reúne. E Elias faz a pergunta que resume o capítulo:

"Até quando coxeareis entre dois pensamentos? Se o Senhor é Deus, segui-o, e se Baal, segui-o. Porém o povo nada lhe respondeu." 1 Reis 18.21

A prova é simples: dois bois, dois altares, duas orações, "e há de ser que o deus que responder por meio de fogo esse será Deus" 1Rs 18.24. Os profetas de Baal invocam o deus da manhã ao meio-dia. Nada. Elias zomba deles. À tarde, ele reconstrói um altar de doze pedras, enche uma vala de água e ora com poucas palavras:

"Então caiu fogo do Senhor, e consumiu o holocausto, e a lenha, e as pedras, e o pó, e ainda lambeu a água que estava no rego. O que vendo todo o povo, caíram sobre os seus rostos, e disseram: Só o Senhor é Deus! Só o Senhor é Deus!" 1 Reis 18.38-39

O que se segue é cru: Elias manda matar os profetas de Baal no ribeiro de Quisom 1Rs 18.40, o mesmo ribeiro onde, séculos antes, os carros de Sísera foram arrastados. Depois, chove 1Rs 18.41-45. Muitos leitores notam que o raio era a arma de Baal nos textos de Ugarit, e que aqui o fogo vem do Senhor. O texto não diz isso. Diz só que o fogo caiu, e que o povo reconheceu.

A baía de Haifa e o promontório do Carmelo ao fundo, com os destroços de um barco na praia; litografia colorida
Caifa e o monte Carmelo — litografia colorida de Louis Haghe a partir de David Roberts (desenhada em 1839, publicada em 1842–49); Cleveland Museum of Art. O Carmelo, ao fundo à esquerda, fecha a baía. CC0.

A reação de Jezabel vem logo: "Assim me façam os deuses, e outro tanto, se de certo amanhã a estas horas não puser a tua vida como a de um deles" 1Rs 19.2. Elias foge, esgotado, até o Horebe. Lá, o Senhor corrige a conta do profeta: "Também deixei ficar em Israel sete mil: todos os joelhos que não se dobraram a Baal, e toda a boca que não o beijou" 1Rs 19.18.

35 — A VINHA, A JANELA E O FIM DOS ONRIDASNabote, Jeú e o templo de Baal

A segunda cena é uma vinha. Nabote, de Jizreel, tem uma vinha perto do palácio. Acabe pede, oferece outra vinha ou o valor em dinheiro, e Nabote recusa: "Guarde-me o Senhor de que eu te dê a herança de meus pais" 1Rs 21.3. A herança, em Israel, era da família, por lei.

Acabe volta para casa sem comer. É Jezabel que resolve. "Governas tu agora no reino de Israel?", pergunta ela 1Rs 21.7. Ela escreve cartas em nome do rei, sela com o sinete, manda proclamar um jejum e arranjar duas testemunhas falsas 1Rs 21.8-10. Nabote é apedrejado, e Acabe toma a vinha. O que choca é a forma: o crime foi cometido com os instrumentos da lei, o jejum, os anciãos, as testemunhas. Elias vem ao encontro de Acabe na vinha e anuncia a sentença: "Os cães comerão a Jezabel junto ao antemuro de Jizreel" 1Rs 21.23.

Anos depois, o general Jeú se rebela e mata os reis de Israel e de Judá. Quando chega a Jizreel, a cena que o texto guarda é a de uma rainha que não foge:

"Depois Jeú veio a Jizreel, o que ouvindo Jezabel, pintou-se em volta dos olhos, enfeitou a sua cabeça, e olhou pela janela. E, entrando Jeú pelas portas, disse ela: Teve paz Zinri, que matou a seu senhor?" 2 Reis 9.30-31

Ela se enfeita, aparece na janela e fala ao assassino com uma pergunta cortante: Zinri, que matou o rei Elá e reinou só uma semana, teve paz? Muitos comentaristas leem esse gesto, o de pintar os olhos e arrumar o cabelo, como o de uma rainha que quer morrer como rainha, e não como a sedução que a tradição popular lhe atribuiu. O texto não explica o motivo. Jeú manda os eunucos a lançarem da janela. Ela morre, e quando vão sepultá-la, "não acharam dela senão somente a caveira, os pés e as palmas das mãos" 2Rs 9.35, como o profeta dissera.

🔎 A palavra original

Jeú, depois do golpe, faz uma armadilha com um toque de ironia: "Pouco serviu Acabe a Baal; Jeú, porém, muito o servirá" 2Rs 10.18. Convoca todos os servos de Baal para um grande sacrifício, manda trocar as vestimentas, e "Jeú fazia isto com astúcia, para destruir os servos de Baal" 2Rs 10.19. Os soldados entram e matam. Depois, "derrubaram a casa de Baal, e fizeram dela latrinas, até ao dia de hoje" 2Rs 10.27. O texto hebraico tem um detalhe curioso aqui. A palavra escrita é maḥărā'ôt, "latrinas", e é isso que a ACF traduz. Mas a tradição de leitura dos massoretas mandava ler em voz alta outra palavra, mais branda. Os escribas evitavam pronunciar a palavra escrita. O recado fica: o lugar do culto virou lixo.

Mas o Baal fenício ainda não acabou. Em Judá, Atalia, casada com o rei Jorão, levou o culto para Jerusalém. O texto a chama de filha de Acabe 2Rs 8.18 e de "filha de Onri, rei de Israel" 2Rs 8.26, e os estudiosos costumam ler "filha" com o sentido largo de descendente. Quando ela é derrubada, anos depois, "todo o povo da terra entrou na casa de Baal, e a derrubaram [...] e a Matã, sacerdote de Baal, mataram diante dos altares" 2Rs 11.18. O culto de Baal no templo de Jerusalém, portanto, tinha uma casa e um sacerdote.

E o nome de Jezabel nunca mais deixou a Bíblia. No Apocalipse, o Senhor reprova a igreja de Tiatira porque "deixas Jezabel, mulher que se diz profetisa, ensinar e enganar os meus servos" Ap 2.20. Muitos leitores veem no nome um símbolo, o da pessoa que leva o povo de Deus a misturar a fé com os costumes do mundo. Dali, e da própria história de Reis, "Jezabel" virou insulto, a partir de um nome que era antes o de uma rainha.

🌱 Semente de sermão

Elias pede ao povo uma resposta: "Até quando coxeareis entre dois pensamentos?" 1Rs 18.21. O povo "nada lhe respondeu". Foi preciso fogo para ele falar. Muita gente vive assim, com um pé em cada altar, e espera um sinal para escolher. O texto não promete um fogo a quem fica parado, e Elias só pediu uma voz.

PARA FIXARO que ficou do capítulo

💍

Uma aliança com Tiro

Acabe casa com a filha de Etbaal, rei dos sidônios, e levanta um templo a Baal em Samaria 1Rs 16.31-32.

🪑

A casa de marfim

Centenas de marfins achados em Samaria, de estilo levantino, de séculos IX–VIII a.C. 1Rs 22.39.

🌧️

Seca na terra de Baal

Elias é mandado a Sarepta, em Sidom, para ser sustentado por uma viúva 1Rs 17.9.

🔥

O fogo do Carmelo

"Só o Senhor é Deus!" 1Rs 18.39. Dois altares, um fogo.

🍇

A vinha de Nabote

Um crime com instrumentos legais: carta, selo, jejum e duas testemunhas 1Rs 21.8-10.

🪟

Uma rainha na janela

Jezabel se enfeita e fala a Jeú antes de morrer 2Rs 9.30.

Próximo capítulo: o que os profetas disseram contra Tiro e Sidom, o que aconteceu com as duas cidades, e o dia em que Jesus foi à região e encontrou uma mulher cananeia.

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