A casa de Raabe fica em cima do muro. Lá embaixo, a cidade de Jericó fecha as portas ao entardecer. No terraço do telhado, entre os talos de linho que ela pôs a secar, estão dois homens estranhos. Chegaram à noite, e agora há mensageiros do rei de Jericó à porta. Raabe ouve, pensa rápido e responde que os homens já foram embora Js 2.1-6.
Para quem lê a conquista de Canaã, a cena costuma ficar de lado, como introdução. É um erro. Ela mostra, em poucas linhas, como a história foi vista por dentro das muralhas: com medo, com notícias de longe, com uma mulher que tem de decidir de que lado vai ficar. Este capítulo percorre o livro de Josué do começo ao fim, com o texto aberto, antes de discutirmos o que ele quer dizer.
16 — A MULHER NA MURALHARaabe e o cordão de escarlata
Quando o povo de Israel chega à beira do Jordão, Josué envia dois homens em segredo: "Ide reconhecer a terra e a Jericó". Eles entram "na casa de uma mulher prostituta, cujo nome era Raabe, e dormiram ali" Js 2.1. Raabe os esconde e os faz descer por uma corda pela janela, "porquanto a sua casa estava sobre o muro da cidade, e ela morava sobre o muro" Js 2.15. Antes, porém, ela faz uma confissão:
Perceba o que ela diz. Jericó já sabe do Mar Vermelho, de uns quarenta anos atrás. A notícia viajou pelas rotas de comércio e ficou. Ela sabe também do que aconteceu a Siom e a Ogue, os dois reis do outro lado do Jordão Js 2.10. E conclui: "o Senhor vosso Deus é Deus em cima nos céus e em baixo na terra" Js 2.11. É a confissão de uma cananeia que, de todos os moradores de Jericó, é a única que age.
Ela pede um sinal: que a casa do pai dela seja poupada. Os espias respondem com um juramento condicional e deixam uma instrução: "atarás este cordão de fio de escarlata à janela por onde nos fizeste descer" Js 2.18. E ela ata.
"Cordão", em hebraico, é tiqvāh (תִּקְוָה). Strong a define como "literalmente, um cordão (como uma amarra); figuradamente, expectativa". É a mesma palavra que significa "esperança". O texto não faz o jogo de palavras explicitamente, mas ele está lá, e muitos comentaristas o notam: o fio vermelho amarrado à janela é, em hebraico, uma "esperança" amarrada. E há uma outra coisa curiosa, sobre a profissão dela. A ACF diz "prostituta", e o hebraico tem zônāh, que o dicionário liga a "cometer adultério, fornicação". No Novo Testamento, o grego usa pórnē e a ACF diz "Raabe, a meretriz" Hb 11.31. Alguns intérpretes antigos, entre eles, ao que se diz, o historiador Josefo e a tradução aramaica chamada Targum, preferiram ver nela uma estalajadeira, dona de pousada. É uma leitura de tradição, e o texto bíblico não a usa.
No fim, Raabe e a família saem vivas. O texto ainda diz: "habitou no meio de Israel até ao dia de hoje" Js 6.25. O Novo Testamento vai lembrar dela três vezes: como mãe de Boaz, na genealogia de Jesus Mt 1.5, como exemplo de fé Hb 11.31 e como exemplo de obras Tg 2.25.
17 — JERICÓ E AIO muro, o fogo e o anátema
O povo atravessa o Jordão a pé enxuto, acampa em Gilgal, circuncida os homens, celebra a Páscoa, e o maná cessa Js 5.1-12. Do outro lado, a notícia chega aos reis. A ACF resume: "desfaleceu-se-lhes o coração, e não houve mais ânimo neles, por causa dos filhos de Israel" Js 5.1.
Jericó, por sua vez, "estava rigorosamente fechada" Js 6.1. A estratégia é estranha: seis dias de marcha, uma volta por dia, com sacerdotes e a arca; no sétimo, sete voltas. Então "gritou o povo com grande brado; e o muro caiu abaixo, e o povo subiu à cidade" Js 6.20. O texto diz com todas as letras o que foi feito com a cidade:
A palavra que a ACF traduz por "anátema" na ordem prévia Js 6.17 é ḥerem. O Capítulo 6 trata dela. Por ora, basta fixar o dado: a cidade era "dedicada" a Deus, e nada dela podia ser tomado. A prata e o ouro vão para o tesouro do Senhor Js 6.19, e o resto queima. Depois, Josué lança uma maldição sobre quem reconstruir Jericó Js 6.26.
O capítulo 7 corta o triunfo. Um homem de Judá, Acã, pega do que era "anátema" Js 7.1, e Israel perde a primeira batalha em Ai. A cidade de Ai é pequena, e o povo, que foi tão confiante, foge. Depois que Acã é descoberto e punido, uma segunda ofensiva, com emboscada, toma Ai. O texto registra: "foram doze mil, todos moradores de Ai" Js 8.25. Josué "queimou, pois, [...] a Ai e a tornou num montão perpétuo, em ruínas, até ao dia de hoje" Js 8.28. Ao rei de Ai, ele enforca num madeiro, e o corpo é tirado ao pôr do sol e jogado na porta da cidade, sob um montão de pedras Js 8.29.
Repare no tom do relato. Não há pressa em glorificar o vencedor: a vitória de Jericó, a derrota de Ai e a vergonha de Acã estão no mesmo bloco. O narrador quer que o leitor veja o que a violação do anátema custou a Israel antes de ver o que a obediência rendeu.
18 — GIBEOM, O SOL E OS CINCO REISQuem fez paz com Israel
Enquanto os reis de Canaã se preparam, um povo próximo escolhe outra tática. Os moradores de Gibeom, que ouvem o que foi feito a Jericó e a Ai, "usaram de astúcia, e foram e se fingiram embaixadores" Js 9.4. Levam sacos velhos, odres rotos, sapatos remendados, pão seco e bolorento. Dizem que vêm de uma terra distante. E o texto registra o erro de Israel numa frase: "os homens de Israel tomaram da provisão deles e não pediram conselho ao Senhor" Js 9.14. Josué faz paz, e os príncipes juram.
Três dias depois, a verdade aparece: os gibeonitas moram ali perto. Josué os confronta, e a resposta deles é de uma franqueza desconcertante:
O juramento não pode ser desfeito. Os gibeonitas não são mortos: tornam-se "rachadores de lenha e tiradores de água para a congregação e para o altar do Senhor" Js 9.27. Mais tarde, Saul quebra esse pacto, e o rei Davi precisa reparar a falta 2Sm 21. O texto de Josué 11.19 fecha a questão com uma frase seca: "Não houve cidade que fizesse paz com os filhos de Israel, senão os heveus, moradores de Gibeom".
A aliança de Gibeom provoca a reação dos reis de Jerusalém, Hebrom, Jarmute, Laquis e Eglom, que atacam Gibeom Js 10.1-5. Josué sobe a noite toda para ajudar. É nessa batalha que acontece a cena que ficou mais famosa do livro:
O texto diz que "o Senhor lançou sobre eles, do céu, grandes pedras", e que morreram mais pelas pedras da saraiva do que pela espada Js 10.11, e que "o sol se deteve no meio do céu, e não se apressou a pôr-se, quase um dia inteiro" Js 10.13. A passagem cita ainda um livro antigo, "o livro de Jasher", que não sobreviveu. Os leitores se dividem sobre como entender a linguagem: milagre cósmico literal, linguagem poética de um canto de guerra, ou outra leitura. O texto não resolve, e este livro não vai pretender resolver.
Gibeom. O sítio de el-Jib, uns dez quilômetros ao norte de Jerusalém, foi escavado por James B. Pritchard, da Universidade da Pensilvânia, em cinco temporadas, de 1956 a 1962. O que identificou o lugar foi uma descoberta simples: alças de grandes jarros com o nome da cidade, gb'n, "Gibeom", escrito em hebraico antigo. As publicações divergem sobre quantas são (dezenas), e a leitura da palavra seguinte, gdr, é discutida. Pritchard achou também uma grande cisterna circular, escavada na rocha, de cerca de 11 metros de diâmetro, com uma escada em espiral, e dezenas de adegas escavadas na pedra, onde o vinho era guardado a temperatura constante.
⚠️ A escavação mostra que Gibeom era, no tempo do Ferro, uma cidade ligada ao vinho, e que o nome bíblico se preservou no lugar. Não confirma o episódio de Josué 9. O texto bíblico, em outro livro, lembra "as grandes águas que há em Gibeom" Jr 41.12, mas a cisterna e esse versículo são ligados só por conjectura.
19 — O NORTE E O BALANÇOHazor e a terra que ficou por possuir
Falta o norte. O rei Jabim, de Hazor, o mesmo que abriu o Capítulo 2, reúne os reis do norte junto às águas de Merom, com muitos cavalos e carros Js 11.1-5. O Senhor garante a vitória, e Josué faz o que a ordem prévia mandava: "os seus cavalos jarretarás, e os seus carros queimarás a fogo" Js 11.6. Depois toma Hazor, mata o rei e queima a cidade:
E o texto acrescenta uma informação que muita gente nunca lê: "Tão-somente não queimaram os israelitas as cidades que estavam sobre os seus outeiros; a não ser Hazor, a qual Josué queimou" Js 11.13. No livro de Josué, das cidades tomadas, só três são explicitamente queimadas: Jericó Js 6.24, Ai Js 8.28 e Hazor. As outras, sobre os montes, ficaram de pé. Guarde isso: no capítulo seguinte voltaremos a esse detalhe.
Josué 11 também registra a destruição dos anaquins, os "gigantes" que tinham aterrorizado os espias quarenta anos antes Nm 13.28. Eles foram extirpados das montanhas, e "somente ficaram alguns em Gaza, em Gate, e em Asdode" Js 11.22, as três cidades que depois serão filistéias.
O capítulo 12 fecha o primeiro bloco com a lista dos reis vencidos: dois do lado leste, Siom e Ogue, e trinta e um do lado oeste Js 12.24. Mas a parte seguinte começa com uma frase em tom bem diferente:
É essa a voz do livro. Ele diz que Josué "tomou toda a terra" Js 11.23, e depois diz que "ainda muitíssima terra ficou para possuir". Os dois comentários aparecem no mesmo livro, a poucos capítulos um do outro.
Pense no que esses anos foram para uma cidade cananeia perto do Jordão. Primeiro as notícias: um povo grande acampado do outro lado do rio, que tinha derrotado os reis do outro lado. Depois o medo, que o texto repete: "desfaleceu-se-lhes o coração". Os reis fecham as portas, como Jericó. Outros se aliam, como os de Hazor. Outros mandam embaixada, como Gibeom, e conseguem viver como lenhadores e carregadores de água. Raabe, que morava no muro e via quem entrava e quem saía, foi a primeira a saber. A história mostra que cada cidade decidiu à sua maneira, e que a Bíblia guardou três respostas, a da luta, a da astúcia e a da fé.
Dentre os moradores de Jericó, uma mulher de má fama, que ninguém esperava, foi a única que ouviu o que Deus estava fazendo no mundo e agiu. Raabe mal chegou a conhecer o Deus de Israel, mas acreditou no que ouviu, e a fé dela salvou a casa inteira. O fio de escarlata na janela é um sinal pequeno, e bastou. Quem se agarra à promessa antes de ver o fim dela pode estar mais perto do Reino do que quem está do lado "certo" da muralha.
PARA FIXARO que ficou do capítulo
Gibeom, a esperteza
Sacos velhos e pão bolorento salvaram uma cidade, e o preço foi lenha e água para o altar Js 9.27.
Próximo capítulo: o que a Bíblia manda e o que os estudiosos debatem. A palavra ḥerem, as posições honestas sobre a conquista e o que a pá achou em Jericó, Ai e Hazor.
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