Os profetas de Judá sabiam que a Babilônia era uma cidade de imagens e de cores. Ezequiel conta que uma mulher, figura de Jerusalém, "viu homens pintados na parede, imagens dos caldeus, pintadas de vermelho", "cingidos de cinto nos seus lombos, e tiaras largas e tingidas nas suas cabeças" Ez 23.14-15. A cena é uma alegoria, mas o que ela pressupõe é real: paredes decoradas, roupas distintas, um mundo de brilho que fascinava quem vinha de fora.
Dois mil e quinhentos anos depois, uma equipe alemã desenterrou as paredes verdadeiras: tijolos esmaltados de um azul que a terra não tinha apagado. Este último capítulo reúne o que a pá encontrou na Babilônia, o que a ciência babilônica deixou ao mundo e o que tudo isso muda na sua leitura da Bíblia.
39 — A CIDADE DESENTERRADARich, Rassam e Koldewey
Durante séculos, a Babilônia foi sobretudo uma lembrança de livro: montes de tijolo à margem do Eufrates, que poucos sabiam ler. Em 1811, o inglês Claudius James Rich, representante da Companhia das Índias Orientais em Bagdá, fez o primeiro levantamento sério das ruínas. Em 1879, Hormuzd Rassam achou ali o Cilindro de Ciro, que hoje está no Museu Britânico (Capítulo 9). A escavação de verdade começou em 1899, com a Sociedade Alemã do Oriente, sob a direção do arquiteto Robert Koldewey. Ele e sua equipe trabalharam em Babilônia por quase dezoito anos, até 1917, quando a guerra os obrigou a sair.
O achado mais famoso começou a aparecer em 1902: o Portão de Ishtar. Era uma das entradas da cidade, dedicada à deusa do amor e da guerra, construída no reinado de Nabucodonosor II (604–562 a.C.). Muitos livros dão c. 575 a.C.; um estudo arqueomagnético de 2024 (PLOS ONE) aponta c. 569 a.C., com margem de uns vinte anos. A parede estava coberta de tijolos esmaltados em azul. Neles, em relevo, aparecem touros (aurochs, o boi selvagem, ligado ao deus Adad) e dragões (o mushhushshu, ligado a Marduque). Da porta saía a Via das Procissões, uma rua larga de mais de oitocentos metros, ladeada por muros em que se enfileiravam leões, o animal de Ishtar. Era por essa rua que a estátua de Marduque passava na festa do Ano-Novo (Capítulo 3).
Os alemães levaram para Berlim muitos tijolos esmaltados, e o portão da frente foi remontado, em tamanho menor que o original, no Museu de Pérgamo. Segundo as medidas conhecidas, o portão original tinha uns 15 metros de altura, e a parte de Berlim tem 14. Os leões da Via das Procissões foram divididos entre vários museus. Dois deles estão em Nova York.
O leão de Nabucodonosor. O leão da capa deste livro, um painel de tijolo esmaltado de c. 604–562 a.C., vem da Via das Procissões e está no Metropolitan Museum of Art (31.13.1). Quem anda entre as ruínas de Babilônia encontra, nos tijolos de grande parte dos prédios, o carimbo do rei, o mesmo que vimos no Capítulo 8. A cidade que se vê no chão é, em boa parte, a "grande Babilônia" que Nabucodonosor diz, em Daniel 4.30, ter edificado.
⚠️ O achado prova a riqueza e o gosto da capital do tempo de Nabucodonosor, e combina com o retrato de um rei construtor em Daniel 4.30. Mas ele não mostra nada sobre os judeus, o templo de Jerusalém ou os vasos sagrados, e nenhum painel do portão tem relação com a Bíblia. A relação entre a Babilônia e a Bíblia está nas tabuinhas, não nos tijolos.
Imagine o Ano-Novo visto da rua. A multidão se aperta nos dois lados da Via das Procissões. Os muros azuis, os leões em fila, o portão com touros e dragões. Passam os sacerdotes, as estátuas dos deuses, o rei. Para um exilado de Judá, a mesma cena era uma ofensa e um espetáculo, tudo ao mesmo tempo. É esse mundo de beleza que Isaías 46 imagina desmontado, com Bel e Nebo nas costas de animais cansados Is 46.1.
40 — OS JARDINS QUE NINGUÉM ACHOUUma maravilha sem endereço
A Babilônia é lembrada por mais uma coisa que a Bíblia não menciona: os Jardins Suspensos, uma das sete maravilhas do mundo antigo. Autores gregos e romanos os descrevem. O sacerdote babilônico Beroso, citado pelo historiador judeu Josefo (Contra Apião I, 141), conta que Nabucodonosor os mandou construir para a esposa, uma princesa meda, que sentia saudade das montanhas. Estrabão e outros falam de terraços com plantas, elevados sobre arcos.
E aqui há um problema sério: nenhuma tabuinha cuneiforme da Babilônia fala deles, e as inscrições de Nabucodonosor, que listam suas obras em detalhe, não os citam. Koldewey propôs que um prédio abobadado perto do palácio fosse a base dos jardins, mas a maioria dos estudiosos hoje duvida da ideia. Em 2013, a assiriologista Stephanie Dalley propôs outra solução: os jardins existiram, sim, mas em Nínive, construídos por Senaqueribe, e os gregos teriam confundido a cidade. Há quem aceite a proposta e quem a rejeite.
Nada que se possa chamar, com certeza, de jardins suspensos. O que se acha na Babilônia é o palácio do sul de Nabucodonosor, com uma sala do trono cuja fachada era de tijolo esmaltado, com leões e palmeiras, e vários prédios abobadados. A Bíblia, por sua vez, só fala do "palácio real de Babilônia" Dn 4.29 onde o rei passeava.
⚠️ Os Jardins Suspensos são um caso em que a ausência de provas importa. Eles podem ter existido na Babilônia, em Nínive, ou ser uma lenda que cresceu com o tempo. Não há prova decisiva em nenhum sentido, e a Bíblia não entra na discussão.
41 — O CÉU EM TABUINHASOs diários, a base 60 e a raiz de dois
Se a Babilônia tem um legado que chega até hoje, é a ciência do céu e dos números. O que os babilônios faziam com os presságios (Capítulo 3) virou, com o tempo, observação sistemática. Os Diários Astronômicos, tabuinhas do Museu Britânico que cobrem de c. 652 a c. 61 a.C., registram noite após noite a posição da lua e dos planetas, eclipses, o nível do Eufrates, o preço da cevada e, às vezes, fatos políticos. São mais de quinhentos anos de anotações. Dos sacerdotes que olhavam o céu à noite saiu uma astronomia que calculava eclipses e movimentos planetários com aritmética, e o zodíaco de doze signos, que se estabeleceu por volta do século V a.C. Esses diários são também uma das razões de a cronologia do período neobabilônico ser tão firme: os astrônomos anotavam eclipses e posições de planetas que hoje podem ser calculados para trás.
Os números vinham de um sistema diferente do nosso. Os babilônios contavam em base 60 (sexagesimal). É por isso que a hora tem 60 minutos, o minuto 60 segundos, e que o círculo, depois de passar pelos astrônomos gregos, tem 360 graus. Há tabuinhas de c. 1800 a 1600 a.C. com cálculos que impressionam.
Numa delas, a YBC 7289, provavelmente um aluno desenhou um quadrado com as diagonais e escreveu, no meio, um número que em base 60 vale 1;24,51,10. Em decimal, é 1,41421296…, muito perto de √2 (1,41421356…). Acerta as cinco primeiras casas decimais. Outra tabuinha, a Plimpton 322 (Universidade Columbia, c. 1800 a.C.), traz uma lista de números que se liga a triângulos retângulos. Os historiadores discutem para que ela servia. O que quase todos aceitam é que os babilônios usavam a relação entre os lados de um triângulo retângulo mais de mil anos antes de Pitágoras.
Os nomes dos meses do calendário judaico são babilônicos. Os livros de Neemias, Ester, Esdras e Zacarias já usam Nisan ("o mês de Nisã" Ne 2.1), Sivan (Et 8.9), Elul ("aos vinte e cinco do mês de Elul" Ne 6.15), Kislev ("o nono mês, que é Quisleu" Zc 7.1), Tevet (Et 2.16), Shevat (Zc 1.7) e Adar (Ed 6.15). São formas hebraicas dos nomes acádios Nisannu, Simanu, Ululu, Kislimu, Tebetu, Shabatu e Addaru. Antes do exílio, a Bíblia chama os meses pelo número (como "no mês décimo", em 2 Reis 25.1) ou por nomes cananeus, como Etanim (1Rs 8.2). Segundo o rabino Hanina, no Talmude de Jerusalém (Rosh Hashaná 1, 2), os nomes dos meses "subiram com eles da Babilônia". E o mês de Tamuz leva o nome do mesmo deus que as mulheres choravam em Ezequiel 8.14.
42 — O QUE A BABILÔNIA DEIXOUDo exílio ao Talmude
A Babilônia deixou três coisas ao povo da Bíblia.
Um segundo centro. Depois de 586 a.C., Judá ficou pequeno, e a Babilônia virou o outro polo do povo. Nem todos voltaram quando Ciro permitiu, e boa parte das gerações seguintes nasceu lá. Esdras, quando subiu a Jerusalém, saiu da Babilônia Ed 7.6. Séculos depois, uma grande comunidade judaica continuou a viver ali, e foi na Babilônia que tomou forma, ao longo de vários séculos, o Talmude da Babilônia, fechado por volta do ano 500 d.C. A comunidade judaica do Iraque existiu por uns dois mil e quinhentos anos, até a emigração em massa de 1950–51.
Uma Bíblia que ficou mais firme. Muitos estudiosos entendem que boa parte da Bíblia hebraica foi reunida, editada ou escrita durante o exílio e logo depois: o livro de Reis, por exemplo, termina na Babilônia 2Rs 25.27-30, com Joaquim à mesa do rei. Ezequiel, Lamentações, salmos como o 137, Daniel e os capítulos 40 a 55 de Isaías nascem dessa experiência ou dialogam com ela, ainda que se discuta quando cada um foi escrito. É um exílio que pesa na literatura bíblica.
Um vocabulário. O aramaico, língua do império, entrou na Bíblia (Daniel 2.4–7.28 e trechos de Esdras 4–7) e foi a língua falada por muitos judeus por séculos, até o tempo de Jesus. Os meses vieram de lá. E a palavra "Babilônia" ficou como símbolo de cidade de poder e de confusão, de Gênesis 11 ao Apocalipse.
43 — OITO VERSÍCULOS QUE GANHAM OUTRA CORO que você lê diferente a partir de agora
Gênesis 11.3
"O tijolo por pedra, e o betume por cal" Gn 11.3 é o modo de construir da planície, e não um detalhe solto. Quem escreveu conhece a região.
Êxodo 21 e Levítico 24
"Olho por olho" existia na estela de Hamurabi. Mas "uma mesma lei tereis" Lv 24.22 é o que a lei bíblica faz de diferente.
Isaías 46.1
"Bel está abatido, Nebo se encurvou" Is 46.1: os deuses da procissão do Ano-Novo viram carga nas costas de animais.
Jeremias 29.7
"Procurai a paz da cidade": uma carta para gente que, como as tabuinhas de Al-Yahudu mostram, plantou e emprestou prata na Babilônia.
2 Reis 25.30
A "subsistência contínua" de Joaquim 2Rs 25.30 tem tabuinhas de rações em Berlim: "Ya'ukin, rei de Iahudu".
Daniel 4.30
"A grande Babilônia que eu edifiquei": os tijolos de Koldewey levam o nome do rei.
Daniel 5.30-31
Belsazar existiu e o pai estava em Teima. A queda foi em 12 de outubro de 539 a.C., sem combate. "Dario, o medo" segue um enigma.
Apocalipse 18.4
"Sai dela, povo meu" Ap 18.4 já era uma frase de Jeremias e de Isaías. O Apocalipse a reaproveita para a "grande Babilônia".
CURIOSIDADESSeis fatos para levar
Um portão menor em Berlim
O Portão de Ishtar de Berlim é só a parte da frente, com 14 metros. O original tinha uns 15 metros de altura e a base descia uns 14 metros terra adentro.
Cinco casas decimais
A tabuinha YBC 7289 dá a raiz quadrada de 2 com cinco casas decimais certas, há mais de 3.600 anos.
Meses babilônicos
Nisã, Elul, Quisleu, Tebete, Sebate e Adar, na Bíblia, vêm do calendário da Babilônia.
Mais de 500 anos de céu
Os Diários Astronômicos vão de c. 652 a c. 61 a.C.: uma das mais longas séries de observações do mundo antigo.
A hora de 60 minutos
A base 60 vem da Babilônia, e é por isso que o relógio tem 60 minutos e o círculo, 360 graus.
O Talmude da Babilônia
Escrito onde ficava o exílio, por volta do ano 500 d.C. A comunidade judaica do Iraque durou até 1950–51.
VERSÍCULOS-CHAVEPara levar na Bíblia
PARA FIXARO que ficou do livro
Uma cidade de barro
Da torre de Gênesis 11 aos tijolos de Nabucodonosor, a Babilônia é a obra de quem constrói um nome.
O que a pá confirma
Nabucodonosor, Joaquim, Belsazar, a queda sem batalha e os nomes dos oficiais. Não há texto babilônico sobre Daniel, e "Dario, o medo" é um enigma.
Exílio com endereço certo
"Edificai casas... procurai a paz da cidade" Jr 29.5-7: a Bíblia ensina a viver na Babilônia sem se perder nela.
Um símbolo que não morreu
De Isaías ao Apocalipse, a "grande Babilônia" continua sendo a pergunta sobre quem se põe no lugar de Deus.
Da pedra lançada ao Eufrates (Jr 51.64) à voz que diz "Sai dela" (Ap 18.4), a Babilônia da Bíblia cabe entre dois gestos: o rolo afundado no rio e o povo de Deus saindo da cidade. Se quiser seguir a história, os livros desta série sobre os assírios e sobre os persas contam o antes e o depois.
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