Os visitantes chegaram de longe, com cartas e um presente. Ezequias, que acabara de sair de uma doença grave, os recebeu e fez uma coisa que nenhum rei sensato faz com estrangeiros: "mostrou toda a casa de seu tesouro, a prata, o ouro, as especiarias e os melhores ungüentos, e a sua casa de armas" 2Rs 20.13. Depois que eles foram embora, o profeta Isaías veio perguntar: quem eram? E Ezequias respondeu: "Vieram de um país muito remoto, de Babilônia" 2Rs 20.14.
É a primeira vez que um rei de Babilônia aparece em cena na Bíblia, e ele entra de mansinho, com presentes. Este capítulo percorre os cem anos seguintes: os embaixadores de Merodaque-Baladã, a Babilônia sob a sombra da Assíria, o nascimento do novo império com Nabopolassar e a batalha de Carquemis, que mudou o mapa do mundo em 605 a.C. No fim, um profeta que fez a pergunta que todo mundo faz.
14 — OS EMBAIXADORESMerodaque-Baladã e o tesouro de Ezequias
O remetente das cartas era um rei da Babilônia chamado, em acádio, Marduk-apla-iddina, "Marduque deu um herdeiro". A Bíblia o chama de Merodaque-Baladã. Ele era um chefe caldeu, da tribo de Bit-Yakin, no sul da Mesopotâmia, e passou a vida tentando tirar a Babilônia das mãos da Assíria. Tomou o trono em c. 722 a.C. e o manteve até 710 a.C., quando o rei assírio Sargão II o expulsou. Voltou por nove meses em 703 a.C., até ser derrotado por Senaqueribe, e fugiu para Elão. Era, em suma, um líder de revolta. Um marco de pedra de doação de terras, hoje em Berlim, o representa (veja a imagem abaixo). Muitos historiadores supõem que a carta amigável a Ezequias, que também se rebelava contra a Assíria, tinha um fim político.
Mas quando foi isso? Aqui há debate. O texto diz que as cartas vieram depois da doença de Ezequias, e a promessa feita a ele naquela hora incluía livrar a cidade "das mãos do rei da Assíria" 2Rs 20.6. Muitos estudiosos situam a visita por volta de 703–702 a.C., quando Merodaque-Baladã estava de volta ao trono e Senaqueribe se preparava para vir. Outros preferem c. 713–711 a.C., durante a revolta de Asdode contra Sargão. A Bíblia não resolve o impasse, e o sentido da cena não muda.
O que a Bíblia faz é pesar o ato. Segundo as Crônicas, "Deus o desamparou, para tentá-lo, para saber tudo o que havia no seu coração" 2Cr 32.31. E Isaías, em resposta, faz uma das previsões mais famosas do livro:
Isaías 39 é uma dobradiça. Atrás dele ficam os capítulos 1 a 38, dominados pela Assíria; adiante, os capítulos 40 em diante falam de consolo para um povo exilado na Babilônia. A Bíblia põe os dois momentos lado a lado: o rei que mostra tudo é o mesmo cujos descendentes verão tudo ser levado. E a resposta de Ezequias deixa um mal-estar: "Boa é a palavra do Senhor que disseste" 2Rs 20.19, e a pergunta seguinte, "E não haverá, pois, em meus dias paz e verdade?" 2Rs 20.19, é lida por muitos como alívio de quem não verá o castigo.
O nome do rei babilônico aparece escrito de dois jeitos na ACF: "Berodaque-Baladã" em 2 Reis 20.12 e "Merodaque-Baladã" em Isaías 39.1. A diferença é só de letras: no hebraico, B e M trocam de lugar com facilidade, e as duas formas representam o acádio Marduk, o deus de Babilônia, com a segunda metade do nome (apla-iddina, "deu um herdeiro") encurtada. Era um nome com o nome do deus dentro, como vimos no Capítulo 3.
Segundas Crônicas dá outra pista: os enviados vieram "a perguntarem acerca do prodígio que se fez naquela terra" 2Cr 32.31. O prodígio de que se fala costuma ser entendido como a sombra do relógio de sol, que Deus fez voltar dez graus quando Ezequias pediu um sinal de que ficaria curado 2Rs 20.11. Os babilônios eram grandes observadores do céu, e é fácil entender o interesse. Mas o texto não diz que foi por isso que vieram; é uma dedução.
Para um chefe como Merodaque-Baladã, cada carta era uma peça de xadrez. Cartas, presentes, embaixadores: era assim que se formavam alianças contra a Assíria. Quem vivia nos pântanos do sul, entre canais e juncais, onde os caldeus tinham seus redutos, aprendera a escapar de exércitos maiores. Para o rei assírio, ele era um incômodo que nunca acabava. Para os babilônios, era o rei da cidade que ainda tentava ser livre.
15 — À SOMBRA DE NÍNIVEManassés levado a Babilônia, e gente de Babilônia em Samaria
Durante o século VII a.C., a Babilônia esteve quase sempre debaixo da Assíria. A Bíblia mostra o movimento nos dois sentidos.
Primeiro, a Assíria transporta gente de Babilônia para a terra de Israel. Depois da queda do reino do norte, o rei assírio "trouxe gente de Babilônia, de Cuta, de Ava, de Hamate e Sefarvaim, e a fez habitar nas cidades de Samaria" 2Rs 17.24. Cada grupo trouxe seus deuses: os de Cuta, o deus Nergal, e "os de Babilônia fizeram Sucote-Benote" 2Rs 17.30. Esse nome é difícil, e alguns estudiosos acham que é uma forma hebraica distorcida do nome de uma deusa babilônica, mas isso é só uma proposta.
Depois, a Assíria leva um rei de Judá para a Babilônia. Segundo as Crônicas, o rei Manassés foi capturado por "capitães do exército do rei da Assíria" e levado "para Babilônia" 2Cr 33.11. Ali ele orou, Deus o ouviu e o trouxe de volta 2Cr 33.12-13. Pode parecer estranho que um rei assírio prenda um rei de Judá na Babilônia, e não em Nínive. Mas o rei Esar-Hadom, que reinou de 681 a 669 a.C., fez de Babilônia uma prioridade: ele reconstruiu a cidade que seu pai destruíra. Para muitos estudiosos, esse contexto torna o relato plausível.
Um texto de Esar-Hadom, de c. 673 a.C., lista vinte e dois reis do oeste que levaram material de construção para o palácio dele, em Nínive. Entre eles aparece "Manasi, rei de Iaudi": Manassés, rei de Judá. O mesmo nome volta nos registros de seu filho, o rei Assurbanípal. Esses textos confirmam que Manassés era vassalo assírio.
⚠️ Os textos assírios não mencionam a prisão de Manassés na Babilônia, que só aparece em Crônicas. É um silêncio que os estudiosos discutem: uns o consideram natural, porque reis não gostam de registrar derrotas e prisões de vassalos que foram soltos; outros o consideram motivo para cautela. O que se tem é uma Bíblia que conta o episódio e textos assírios que confirmam o contexto.
16 — O NOVO IMPÉRIONabopolassar, Nínive e Carquemis
Depois da morte do rei Assurbanípal, c. 631 a.C., a Assíria mergulhou em disputas pelo trono. Nabopolassar aproveitou. Ele tomou o trono da Babilônia em 626 a.C., e, aliado aos medos, passou a destruir o império que dominava a Mesopotâmia havia séculos. Em 612 a.C., a capital Nínive caiu. Esse episódio é contado com mais detalhe no livro sobre os assírios, desta mesma série; aqui interessa o lado de Babilônia. O que sobrou do exército assírio foi para Harã, no norte, e tentou resistir. Em 609 a.C., o faraó Neco II marchou com seus soldados para ajudar a Assíria. A Bíblia guarda esse momento do outro lado da estrada, em Judá:
O rei Josias de Judá tentou barrar o faraó em Megido e morreu (o episódio também é tratado no livro sobre os egípcios, desta série). Mas Neco não conseguiu salvar a Assíria, e a Babilônia seguiu avançando. Então veio a batalha decisiva, em 605 a.C.
Naquele ano, o rei Nabopolassar ficou na Babilônia (a crônica não diz o motivo; ele morreria poucos meses depois). Quem comandou o exército foi seu filho mais velho e príncipe herdeiro, Nabucodonosor. Ele atravessou o Eufrates e atacou o exército egípcio em Carquemis, uma cidade fortificada na margem do rio, onde hoje é a fronteira entre a Turquia e a Síria. Venceu, e perseguiu os fugitivos até a região de Hamate, de modo que, segundo a crônica babilônica, nem um só voltou ao seu país. Pouco depois, o pai morreu, e o príncipe voltou à Babilônia para assumir o trono.
A Bíblia registra o mesmo episódio com precisão de calendário:
Note a conta: o "quarto ano de Jeoiaquim" de Judá é o ano da batalha, e Jeremias 25.1 completa: "que é o primeiro ano de Nabucodonosor, rei de Babilônia" Jr 25.1. Os dois textos concordam com a crônica babilônica sobre o ano de 605 a.C. O que Jeremias acrescenta é o sentido: o profeta diz que o Senhor enviaria "Nabucodonosor, rei de Babilônia, meu servo" Jr 25.9. A palavra "servo" é forte: Deus usa o rei pagão como instrumento, sem que ele saiba. Voltaremos a isso no Capítulo 6.
A batalha de Carquemis aparece numa tabuinha chamada Crônica de Nabucodonosor (ABC 5, no Museu Britânico, BM 21946). Ela cobre os primeiros anos dele, c. 605–594 a.C. O texto diz que o rei Nabopolassar ficou na Babilônia, que o príncipe Nabucodonosor atravessou o rio, derrotou o exército do Egito em Carquemis e destruiu o que fugiu em Hamate. A mesma tabuinha anota o dia em que o rei Nabopolassar morreu, 8 de abu (meados de agosto de 605 a.C.), e o dia em que Nabucodonosor subiu ao trono, 1º de ululu (começo de setembro).
⚠️ A crônica é um texto oficial, de um lado só. Ela não diz quantos soldados morreram, e tende a mostrar o rei babilônico como vencedor em tudo. Mas, para as datas, é uma fonte muito precisa, e concorda com Jeremias 46.2.
O profeta Habacuque, que muitos estudiosos situam por volta desses anos (a data exata é debatida), ouve uma notícia que ele não esperava: "suscito os caldeus, nação amarga e impetuosa" Hc 1.6. O hebraico diz hammar vehannimhar (הַמַּר וְהַנִּמְהָר), "a amarga e a impetuosa": duas palavras que descrevem um povo cuja fama o antecedia. O mais surpreendente é o motivo. Habacuque tinha reclamado de violência em Judá, e Deus responde que vai usar um povo ainda mais violento.
Mais adiante, a frase central do livro usa a palavra emunah (אֱמוּנָה), que a ACF traduz por "fé" e que também quer dizer "firmeza, fidelidade" Hc 2.4. O justo vive, no hebraico, da sua firmeza em confiar em Deus.
E o profeta faz a pergunta que muita gente faz. Ele aceita que o Senhor é santo, e pergunta:
Deus responde de uma forma que a Bíblia guardou numa frase só: "o justo pela sua fé viverá" Hc 2.4. É a frase que Paulo cita em Romanos 1.17. Ali, no meio da guerra, no meio do império que vai varrer Jerusalém, nasceu uma das frases mais importantes da Bíblia.
Habacuque não pediu uma resposta bonita; pediu a verdade. Perguntou por que Deus ficava calado diante de quem "devora aquele que é mais justo do que ele" Hc 1.13. A resposta veio, e não resolveu o problema agora: mandou viver pela fé. Há perguntas que Deus responde com uma explicação; outras, com uma promessa. A fé é saber qual das duas você recebeu.
PARA FIXARO que ficou do capítulo
As cartas de Merodaque-Baladã
O chefe caldeu manda embaixadores a Ezequias. O rei mostra tudo, e Isaías anuncia que tudo irá para Babilônia Is 39.6-7.
Manassés em Babilônia
Um rei de Judá levado por capitães assírios 2Cr 33.11. Textos de Esar-Hadom confirmam o contexto, e só a Bíblia conta a prisão.
605 a.C.
Carquemis: Nabucodonosor vence o Egito, sobe ao trono, e o "quarto ano de Jeoiaquim" é o seu primeiro Jr 25.1.
A pergunta de Habacuque
Por que Deus usa um povo pior que o seu? A resposta: "o justo pela sua fé viverá" Hc 2.4.
Próximo capítulo: Nabucodonosor e as deportações de Judá. A primeira em 605 a.C., a segunda em 597 e a terceira, com o templo em chamas, em 586.
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