Um funcionário do rei de Judá chega à Babilônia com um rolo. Chama-se Seraías, e ia com o rei Zedequias, no quarto ano do seu reinado Jr 51.59. Dentro do rolo, tudo o que Jeremias escreveu sobre a queda daquela cidade. Seraías o lê em voz alta. Depois amarra nele uma pedra e o lança no meio do Eufrates. E diz: "Assim será afundada Babilônia, e não se levantará" Jr 51.64. O texto não conta se alguém assistiu ao gesto.
Foi assim que a Babilônia virou, para a Bíblia, mais que uma cidade: virou uma palavra. Este capítulo segue essa palavra em três momentos: nos profetas, que anunciam a queda da Babilônia real; no Novo Testamento, em que o nome já aponta para outras coisas; e no Apocalipse, em que a "grande Babilônia" é uma figura que as pessoas leem de maneiras muito diferentes.
35 — A BABILÔNIA DOS PROFETASCálices, filhas e o chamado para sair
Cinco blocos dos profetas dedicam capítulos inteiros à queda da Babilônia: Isaías 13–14 (que abre com "Peso de Babilônia" Is 13.1), Isaías 21, Isaías 47, Jeremias 50–51 e partes de Habacuque 2. Alguns recursos se repetem. A cidade é uma mulher: "a virgem filha de Babilônia" em Isaías 47.1, "filha de Babilônia" no Salmo 137.8, "a filha de Babilônia" em Zacarias 2.7. Os inimigos vêm do norte e dos medos: "o Senhor despertou o espírito dos reis da Média" Jr 51.11. E há um cálice:
A Babilônia, na mão de Deus, foi um instrumento (Capítulo 6). Mas o instrumento caiu em orgulho, e passou a ser julgado. É o que o oráculo expressa: "é chegado o teu fim, a medida da tua avareza" Jr 51.13. E no meio da condenação vem um chamado, repetido em mais de um livro: "Saí do meio dela, ó povo meu" Jr 51.45; "Saí de Babilônia, fugi de entre os caldeus" Is 48.20.
Mas a Bíblia não é só condenação. O Salmo 87, numa lista de nações que a Bíblia chama pelo nome, diz, na voz de Deus: "Farei menção de Raabe e de Babilônia àqueles que me conhecem" Sl 87.4, e acrescenta, sobre as nações da lista: "Este homem nasceu ali". Raabe é um nome poético do Egito. É uma frase curta e inesperada: a Babilônia aparece como uma das terras que um dia contarão entre os que conhecem a Deus.
Jeremias esconde dois nomes em código. Em Jeremias 25.26 e 51.41, a Babilônia é chamada de Sheshach (שֵׁשַׁךְ), que a ACF escreve "Sesaque". É um código chamado atbash: troca-se a primeira letra do alfabeto hebraico pela última, a segunda pela penúltima, e assim por diante. Aplicado a Bavel (בבל), produz exatamente Sheshach. Em Jeremias 51.1, o mesmo código parece ocultar o nome dos caldeus: leb qamai, "coração dos que se levantam contra mim", que a ACF traduz de modo descritivo ("os que se levantam contra mim"). Ninguém sabe ao certo por que o profeta usou o código, e há várias hipóteses, desde cautela política até recurso literário.
Os profetas dizem coisas fortes sobre o destino da cidade. Isaías diz que ela "nunca mais será habitada" Is 13.20; Jeremias, que "os largos muros de Babilônia serão totalmente derrubados" Jr 51.58 e que ela "se tornará em montões, morada de chacais" Jr 51.37. A história, porém, foi mais lenta. Em 539 a.C., a cidade não foi destruída. Cerca de duas décadas depois, quando Babilônia se revoltou contra o rei persa Dario I, Heródoto (Histórias III, 159) conta que Dario, ao retomar a cidade, derrubou as muralhas e arrancou as portas. Alexandre morreu ali. Em tempos romanos, o geógrafo Estrabão já descrevia a maior parte da cidade como deserta (Geografia XVI, 1, 5). E o tijolo das ruínas foi reaproveitado ao longo dos séculos em obras de cidades vizinhas.
⚠️ Como ler a distância entre as profecias e os fatos? Há três respostas honestas. Cumprimento gradual: a cidade foi caindo aos poucos, e as frases dos profetas descrevem o resultado final. Cumprimento ainda futuro: alguns leitores esperam uma queda definitiva, no futuro. Linguagem de oráculo: outros lembram que as profecias contra nações usam exagero poético, e que a mensagem é a de que o orgulho do império cairia, mais do que a de uma descrição de ruínas. Os estudiosos não concordam.
36 — O REI QUE QUIS SER COMO O ALTÍSSIMOIsaías 14 e a "estrela da manhã"
Isaías 14 manda Israel, quando o Senhor lhe der descanso, entoar um canto: "proferirás este provérbio contra o rei de Babilônia" Is 14.4. É uma sátira. O tirano, que feria os povos com golpes sem fim, agora caiu. Até os cedros do Líbano se alegram: "Desde que tu caíste ninguém sobe contra nós para nos cortar" Is 14.8. E o poema chega ao ponto mais famoso:
Quem é o "Lúcifer"? É uma das perguntas mais antigas da interpretação bíblica, e as respostas são três.
O rei de Babilônia. O texto diz com todas as letras: o provérbio é "contra o rei de Babilônia" Is 14.4. Muitos estudiosos o leem como sátira de um rei babilônico (ou assírio), que se achava igual aos deuses. O vocabulário combina com o mundo mesopotâmico: o "monte da congregação" nos "lados do norte" lembra o monte onde os deuses se reuniam em textos do oeste da Síria, e as "estrelas de Deus" lembram o céu dos astrônomos de Babilônia. Quem lê assim, como João Calvino, entende que a passagem trata só do rei.
Satanás. Desde os primeiros séculos, muitos pais da igreja, como Orígenes (séc. III), leram a sátira também como retrato da queda de Satanás. O nome "Lúcifer" ajudou: é o termo latino que Jerônimo usou na Vulgata (c. 400) para o hebraico, e quer dizer "portador de luz". A leitura se firmou na tradição cristã, na poesia (Milton) e na linguagem comum.
As duas coisas. Há quem entenda que a sátira, de fato, começa no rei de Babilônia, mas que a linguagem se eleva e passa a descrever uma força maior por trás dele, em um modelo parecido com o de Ezequiel 28 sobre o rei de Tiro.
No hebraico, o título é helel ben shachar (הֵילֵל בֶּן־שָׁחַר), "brilhante, filho da aurora". Helel vem de uma raiz que quer dizer "brilhar", e é um hapax: aparece só aqui na Bíblia. A tradução grega antiga (a Septuaginta) escreveu heōsphoros, "portador da aurora", e a latina, lucifer, "portador de luz". O nome se refere à estrela da manhã, o planeta Vênus, que aparece pouco antes do sol e some quando o dia chega. É uma boa imagem para um rei que brilhava sobre os outros e foi apagado com a luz do dia. Note também que Vênus era, na Babilônia, o planeta de Ishtar.
37 — O NOVO TESTAMENTOUma deportação, um discurso e uma saudação
No Novo Testamento, a Babilônia aparece em três lugares fora do Apocalipse, e em cada um o nome carrega um significado.
Mateus 1. O evangelho começa com a genealogia de Jesus, dividida em três grupos de catorze:
A "deportação para Babilônia" é a dobradiça da genealogia: o fim do reino de Davi e o começo da espera pelo Messias. Para fechar a conta, Mateus omite alguns nomes que Crônicas traz. Alguns estudiosos veem no catorze uma possível brincadeira com o nome de Davi, cujas consoantes em hebraico somam esse número (D + V + D = 4 + 6 + 4). A ideia é antiga, e plausível, mas não está no texto.
Atos 7.43. Estêvão cita o profeta Amós: "Transportar-vos-ei, pois, para além da Babilônia" At 7.43. Só que o texto de Amós diz outra coisa: "para além de Damasco" Am 5.27. Por que Estêvão trocou? Muitos comentaristas entendem que ele atualiza a profecia à luz do que de fato aconteceu: o exílio de Judá foi para a Babilônia, e não só até Damasco.
1 Pedro 5.13. A carta termina com: "A vossa co-eleita em Babilônia vos saúda, e meu filho Marcos" 1Pe 5.13. Que Babilônia é essa? Duas respostas principais. A mais antiga na tradição cristã a entende como Roma: o historiador Eusébio, no século IV, transmite a tradição de que Pedro escreveu a carta em Roma e chamou a cidade de "Babilônia" em sentido figurado (História Eclesiástica II, 15). E é um uso que existe em escritos judeus depois da destruição de Jerusalém em 70 d.C., como 4 Esdras e 2 Baruque, que chamam Roma de "Babilônia". A outra resposta é que a Babilônia é literal: havia, no tempo de Pedro, uma grande comunidade judaica na região, e alguns comentaristas, de várias tradições, preferem ler o texto sem figura.
⚠️ Não há como provar uma das duas. A leitura "Roma" se apoia numa tradição muito antiga e no uso judaico, a leitura "literal" na simplicidade do texto. O que as duas mostram é que, no mundo cristão antigo, a palavra "Babilônia" já podia designar uma cidade de poder e exílio, sem precisar das margens do Eufrates.
38 — A GRANDE BABILÔNIA DO APOCALIPSEUma cidade, uma mulher, um comércio
É no Apocalipse que a palavra mais cresce. O nome aparece em seis versículos, e as passagens centrais são os capítulos 17 e 18. Primeiro, um anjo mostra ao vidente uma cena no deserto:
Depois, no capítulo 18, vem a queda da cidade, com o choro dos mercadores e a grande frase:
O Apocalipse bebe diretamente dos profetas. "Caiu, caiu Babilônia" Ap 14.8 repete Isaías 21.9. O "cálice de ouro" da mulher Ap 17.4 ecoa Jeremias 51.7. O "Sai dela, povo meu" Ap 18.4 vem de Jeremias 51.45 e de Isaías 48.20. E o "forte anjo" que lança "uma pedra como uma grande mó" ao mar Ap 18.21 lembra o gesto de Seraías, que atou uma pedra ao rolo e o lançou no Eufrates Jr 51.63-64. O texto trata a Babilônia do Apocalipse como a herdeira de tudo o que os profetas disseram da Babilônia de verdade.
Mas quem é ela? O próprio texto dá dois indícios. Um: "As sete cabeças são sete montes, sobre os quais a mulher está assentada" Ap 17.9. Dois: "a mulher que viste é a grande cidade que reina sobre os reis da terra" Ap 17.18. E há uma terceira marca: ela é "embriagada do sangue dos santos" Ap 17.6, e vive do comércio, com uma lista de mercadorias que termina de forma dura: "e cavalos, e carros, e corpos e almas de homens" Ap 18.13. Os leitores, ao longo dos séculos, deram respostas diferentes. Estas são as principais.
Roma. É a leitura mais antiga e uma das mais difundidas entre os estudiosos de hoje, católicos e protestantes. Roma era a "cidade dos sete montes" (as sete colinas) e reinava sobre os reis da terra na época em que, segundo a datação mais comum, o livro foi escrito (século I), perseguindo cristãos e vivendo do comércio do império. Tertuliano, por volta do ano 200, já dizia que a "Babilônia" de João era Roma, e a lista de mercadorias de Apocalipse 18 se parece com as importações de luxo da capital do império.
Jerusalém. Uma leitura minoritária, de alguns estudiosos que datam o Apocalipse antes de 70 d.C., vê aí a Jerusalém que rejeitou o Messias. O ponto de partida seria que Jerusalém, nos profetas, também é chamada de prostituta (por exemplo, Ez 16).
A Roma papal. A leitura chamada historicista, comum entre os reformadores do século XVI e em tradições protestantes posteriores, aplicou o símbolo à Igreja de Roma. Já nas gravuras de Lucas Cranach para a primeira edição do Novo Testamento de Lutero (setembro de 1522), a prostituta aparece com uma coroa que lembra a tiara do papa; nas reimpressões seguintes a tiara foi retirada. Os católicos rejeitam essa leitura, e muitos protestantes de hoje também a deixaram de lado.
Uma cidade futura. Leitores de linha futurista esperam uma Babilônia do fim dos tempos, para uns uma cidade literal, reconstruída no Iraque, para outros um sistema mundial de comércio, poder e religião.
Um símbolo permanente. A leitura idealista diz que a "grande Babilônia" é qualquer sistema de poder, riqueza e sedução que se põe no lugar de Deus, em todas as épocas. É uma figura, e não um endereço.
⚠️ É o ponto em que as leituras mais se afastam, e este livro não toma partido. O que o texto diz de forma clara é o que a Babilônia faz: seduz as nações, vive do comércio, persegue os santos e cai por juízo de Deus. E o que o texto pede aos fiéis é o que Jeremias já pedira ao povo diante da queda da Babilônia: "Sai dela, povo meu" Ap 18.4.
Em Apocalipse 17.5, o nome na testa da mulher é mystērion (μυστήριον), "mistério", seguido de Babylōn hē megalē (Βαβυλὼν ἡ μεγάλη), "Babilônia, a grande". Alguns estudiosos entendem a palavra "mistério" como parte do nome escrito na testa, e outros como aviso ao leitor de que o nome é figurado. A palavra que a ACF traduz por "prostituta" e "prostituições" é pornē (πόρνη). Nos profetas, essa imagem fala sobretudo de política, comércio e idolatria: cidades que se vendem pelo lucro e pela aliança. Nínive é "a meretriz mui graciosa... que vendeu as nações" Na 3.4. Tiro "prostituir-se-á com todos os reinos" Is 23.17. A imagem pertence ao vocabulário dos profetas, e o Apocalipse a reaproveita.
A Babilônia real teve uma volta estranha. Desde os anos 1960 e, com mais força, a partir de 1978 e ao longo dos anos 1980 (sob Saddam Hussein), o governo do Iraque reconstruiu, sobre as ruínas, partes da cidade antiga: uma réplica do Portão de Ishtar, o palácio de Nabucodonosor, um teatro. Os tijolos novos levam um carimbo no estilo dos de Nabucodonosor, com o nome do governante da época. A obra foi criticada por arqueólogos, porque danificou camadas antigas e inventou detalhes. Em 2019, a UNESCO inscreveu "Babilônia" na lista do Patrimônio Mundial.
⚠️ Alguns leitores de profecia viram nessa reconstrução um sinal para o futuro de Apocalipse 18; outros a consideram irrelevante para a interpretação, porque a Babilônia do Apocalipse, segundo eles, não é a do Iraque. O fato histórico é só este: uma cidade antiga, reconstruída de modo discutível, hoje visitada e protegida. O que isso significa para a profecia é uma questão de leitura, não de arqueologia.
Jeremias mandou os exilados: "procurai a paz da cidade" Jr 29.7. O Apocalipse manda os fiéis: "Sai dela, povo meu" Ap 18.4. Parece contradição, e não é. A primeira ordem é para quem mora no império: trabalhe, plante, ore pelo bem de todos. A segunda é para quem corre o risco de se tornar sócio dos pecados dele: "para que não sejas participante dos seus pecados". O cristão da Babilônia mora ali, mas não assina com ela.
PARA FIXARO que ficou do capítulo
A pedra no Eufrates
Seraías lança o rolo ao rio: "assim será afundada Babilônia" Jr 51.64. O Apocalipse refaz o gesto com uma pedra de moinho Ap 18.21.
"Lúcifer"
Sátira ao rei de Babilônia Is 14.4. Muitos leem também a queda de Satanás. O nome vem da Vulgata.
Três lugares no NT
A deportação em Mateus 1, a troca de "Damasco" por "Babilônia" em Atos 7, e a "co-eleita em Babilônia" de 1 Pedro, que muitos leem como Roma.
A grande Babilônia
Roma, Jerusalém, a Roma papal, uma cidade futura, ou um símbolo de todo poder que se põe no lugar de Deus. As leituras divergem.
Último capítulo: o que a pá encontrou na Babilônia, do Portão de Ishtar à matemática e à astronomia, e o que tudo isso muda na sua leitura da Bíblia.
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