Os BabilôniosCapítulo 1 de 11 ⤓ PDF
Os muros de Babilônia, gravura de Philips Galle a partir de Maarten van Heemskerck, com Semíramis a cavalo em primeiro plano
CAPÍTULO 1 DE 11

Quem eram

A cidade de barro, dezessete séculos e as letras em cunha

Antes de ver a Babilônia cruzando a Bíblia, é preciso saber que lugar era esse: o que o barro construiu, o que a cidade viveu em dezessete séculos e como ela contou tudo a si mesma.

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Um menino de Judá tem nas mãos um pedaço de argila úmida e um caniço de ponta cortada. Alguém lhe mostra como apertar o caniço no barro, de leve, de lado, até ele deixar uma cunha. O rei de Babilônia mandou que lhes ensinassem "as letras e a língua dos caldeus" Dn 1.4. É assim que começa a vida deles na cidade.

A Bíblia não descreve a sala de aula. O que sabemos de como se escrevia ali vem das próprias tabuinhas, que sobreviveram aos milhares. Antes de ver a Babilônia cruzando a Bíblia, é preciso saber que lugar era esse: que terra, que gente, que escrita. Este capítulo percorre três coisas: a cidade que o barro construiu, os dezessete séculos em que ela subiu, caiu e subiu de novo, e a escrita em cunhas com que os babilônios contaram tudo a si mesmos. No fim, uma linha do tempo marca onde a Bíblia toca cada época.

01 — A TERRA ENTRE DOIS RIOSA cidade no meio do barro

A Babilônia ficava no sul da Mesopotâmia, à beira do Eufrates, onde hoje é o Iraque, uns 85 quilômetros ao sul de Bagdá, perto da cidade de Hilla. "Mesopotâmia" é palavra grega e quer dizer "terra entre rios": o Tigre e o Eufrates, que descem juntos das montanhas do norte até o golfo. A Bíblia a conhece por outro nome, como veremos logo adiante.

No sul, quase não chove. A vida dependia de canais que levavam a água dos rios aos campos de cevada e aos palmeirais de tâmara. Ao contrário do Nilo, que sobe todo ano na hora esperada, o Tigre e o Eufrates eram rios de cheia irregular: uma enchente a mais ou a menos podia decidir uma colheita. Ali também não há pedra nem madeira boa por perto. O que sobra é barro. Por isso a planície construiu com tijolo, seco ao sol ou queimado em forno, e com betume, um piche natural que brota do chão em alguns pontos do Eufrates. Heródoto (Histórias I, 179) conta que o betume usado em Babilônia vinha de uma cidade chamada Is, a oito dias de viagem; costuma-se identificá-la com a atual Hit.

Agora releia a receita de Gênesis, escrita por alguém que conhece a planície:

"E disseram uns aos outros: Eia, façamos tijolos e queimemo-los bem. E foi-lhes o tijolo por pedra, e o betume por cal." Gênesis 11.3

Tijolo no lugar da pedra, betume no lugar da cal. É exatamente o jeito de construir ali. A cidade que nasceu dessa receita era cortada ao meio pelo Eufrates, tinha muralhas em volta, templos de tijolo e uma grande rua de procissões. Mais adiante, neste livro, vamos entrar nela.

🔎 A palavra original

Em hebraico, a Mesopotâmia é Aram-Naharayim (אֲרַם נַהֲרַיִם), "Arã dos dois rios". É o nome que está por trás de Gênesis 24.10, onde a ACF traz "Mesopotâmia". O nome da cidade, Bavel (בָּבֶל), é a forma hebraica do acádio Bāb-ilim, que os babilônios liam como "porta de Deus". Muitos linguistas hoje acham que "porta de Deus" é uma releitura popular de um nome ainda mais antigo, de origem incerta. O livro de Gênesis faz outro jogo com o nome, que veremos no Capítulo 4. Já o povo é Kasdim (כַּשְׂדִּים), os "caldeus": a palavra vem do acádio Kaldu, nome de tribos do sul da Mesopotâmia, e passou ao grego como Khaldaioi.

👁️ Como era viver ali

A casa era de tijolo de barro, em geral de um andar e com um pátio no meio, onde se cozinhava e se recebia visita. O pão de cevada e a cerveja de cevada eram a base do dia a dia. Comiam-se tâmaras, cebola, peixe do rio. A água vinha do canal, e o canal era assunto de todo mundo: quem cuidava dele, quem limpava, quem tinha direito de abrir a comporta. O medo mais comum não era o rei, era a água: de menos, a seca; de mais, o rio na porta de casa.

🌱 Semente de sermão

A Babilônia tinha o melhor tijolo, o melhor betume e os melhores engenheiros da planície. A Bíblia não zomba disso. Ela só pergunta, em Gênesis 11.4, para quê: "façamo-nos um nome" Gn 11.4. Talento é dom de Deus; o problema começa quando a obra leva a nossa assinatura. Quem constrói com o que recebeu e assina com o próprio nome acaba, cedo ou tarde, construindo um monumento a si mesmo.

02 — DEZESSETE SÉCULOS, CINCO ATOSA cidade que subiu, caiu e subiu de novo

A Babilônia é antiga, e quase sempre a história que se conta dela é a do final. Mas ela teve vários começos. Uso aqui as datas da cronologia que os assiriólogos chamam de "média", a mais comum em livros de história para o tempo de Hamurabi. Há uma cronologia "curta", que baixa essas datas em mais ou menos sessenta anos. Por isso todas as datas antes do século VII a.C. vêm com "c.", de "cerca de".

Ato 1: de aldeia a capital (c. 2200–1595 a.C.). O nome da cidade aparece em textos de c. 2200 a.C., quando ela era uma cidade pequena sob o primeiro império mesopotâmico, o de Acádia. Depois, uma dinastia de origem amorita fez dela capital, a partir de c. 1894 a.C. O mais famoso desses reis é Hamurabi (c. 1792–1750 a.C.), que unificou boa parte do sul e do centro da Mesopotâmia e deixou a coleção de leis do próximo capítulo. A dinastia terminou quando um rei hitita, Mursili I, saqueou a cidade, c. 1595 a.C. Essa é a data tradicional, mas também é incerta.

Ato 2: os cassitas (c. 1595–1155 a.C.). Um povo vindo das montanhas do leste tomou o trono e o manteve por uns quatrocentos anos, a mais longa dinastia da história babilônica. Eles adotaram a língua e a religião da Babilônia, e a cidade continuou sendo o grande centro religioso do sul. Por volta de 1155 a.C., o reino de Elão, a leste, invadiu e levou embora vários monumentos, entre eles a estela de Hamurabi.

Ato 3: à sombra de Nínive (c. 1100–626 a.C.). Durante séculos, a Babilônia viveu entre reis fracos, tribos arameias, caldeus que pressionavam do sul e uma Assíria cada vez mais forte ao norte. É nesse tempo que a Bíblia a cita pela primeira vez como potência: Merodaque-Baladã, "rei de Babilônia", manda embaixadores a Ezequias 2Rs 20.12 (Capítulo 5). Em 689 a.C., o rei assírio Senaqueribe destruiu a cidade, e seu filho Esar-Hadom a reconstruiu a partir de c. 680 a.C.

Ato 4: o Império Neobabilônico (626–539 a.C.). Nabopolassar, um chefe que os historiadores costumam chamar de caldeu, assumiu o trono em 626 a.C. e, com os medos, derrubou Nínive em 612 a.C. Seu filho Nabucodonosor II (605–562 a.C.) subiu ao trono depois da batalha de Carquemis e fez da Babilônia uma das maiores cidades do mundo de então. Foi ele quem levou Judá para o exílio. Depois dele vieram três reis em seis anos (Amel-Marduque, Neriglissar e Labashi-Marduque) e, por fim, Nabonido (556–539 a.C.). É esse império de menos de noventa anos que domina a Bíblia, e ocupa a maior parte deste livro.

Ato 5: depois do império (539 a.C. em diante). Em 539 a.C., o persa Ciro tomou a cidade (Capítulo 9), que continuou sendo uma das grandes cidades do Império Persa. Em 331 a.C., Alexandre, o Grande, entrou nela, e em 323 a.C. morreu ali, no palácio de Nabucodonosor. Pouco depois, os reis selêucidas fortificaram uma nova capital às margens do Tigre, a Selêucia, e a Babilônia perdeu importância. No tempo de Augusto, o geógrafo grego Estrabão (Geografia XVI, 1, 5) já dizia que a maior parte da cidade estava deserta. A cidade da Bíblia terminou em ruína de tijolo, como começou em tijolo.

🏺 O que a pá encontrou

A lista dos reis da Babilônia vem de pedaços de argila. Os historiadores usam as Crônicas Babilônicas, tabuinhas que contam ano a ano os fatos do reino, e as listas de reis que os escribas guardavam. A cidade foi escavada por arqueólogos alemães, dirigidos por Robert Koldewey, de 1899 a 1917, e o que saiu da terra foi parar sobretudo em museus, como o de Berlim. Nos capítulos seguintes você vai ver os achados principais.

⚠️ As datas antes do século VII a.C. dependem de cronologia: a "média" e a "curta" diferem em umas seis décadas. Para o período neobabilônico, em que a Bíblia mais toca a Babilônia, as datas são bem mais firmes, porque estão ancoradas em observações astronômicas anotadas em tabuinhas da época.

03 — A ARGILA E AS LETRASCunhas, escribas e o nome "caldeu"

Os babilônios escreviam em tabuinhas de argila úmida, com um caniço de ponta cortada. O caniço deixava marcas em forma de cunha, e daí vem o nome da escrita: cuneiforme, do latim cuneus, "cunha". Depois a tabuinha secava ao sol ou era queimada, e um texto em argila dura milênios. Por isso o que sabemos da Babilônia vem tanto de cartas, contratos e listas de rações quanto das proclamações dos reis.

A língua do dia a dia era o acádio, na variante babilônica. O sumério, mais antigo, já era língua morta nos tempos de Hamurabi, mas os escribas continuaram a copiar textos em sumério durante mais de mil anos, como o latim das universidades de séculos atrás. Quem queria ser escriba passava anos copiando listas de sinais e provérbios. A partir dos séculos VIII e VII a.C., o aramaico, que se escreve com um alfabeto bem mais curto, foi se espalhando até virar a língua do dia a dia de boa parte do império. A Bíblia guarda esse momento: quando os sábios babilônios respondem ao rei em Daniel 2, o texto muda de hebraico para aramaico, no meio do verso:

"E os caldeus disseram ao rei em aramaico: Ó rei, vive eternamente! Dize o sonho a teus servos, e daremos a interpretação." Daniel 2.4

E o que os rapazes de Judá aprendiam, em Daniel 1.4, não era só uma língua. Era um sistema de escrita com centenas de sinais. Quem passava pelos três anos de preparo de Daniel 1.5 saía pronto para servir ao palácio.

Tabuinha de argila cuneiforme com uma carta particular, Período Babilônico Antigo
Carta de argila, Babilônia (c. 1632 a.C.) — tabuinha cuneiforme, Metropolitan Museum of Art (86.11.111). É uma carta particular, escrita com o caniço em argila úmida e depois seca. CC0.
🔎 A palavra original

"As letras e a língua dos caldeus" (Dn 1.4) é, no hebraico, סֵפֶר וּלְשׁוֹן כַּשְׂדִּים (sefer ul'shon Kasdim). A palavra sefer quer dizer "escrita, documento, livro". A palavra lashon, no fim, é "língua". No livro de Daniel, Kasdim tem dois sentidos. Em algumas passagens é o povo e a dinastia (Dn 5.30; 9.1). Em outras (Dn 2.2, 4 e 10) é um grupo de sábios, junto com magos e astrólogos. Esse segundo sentido também aparece em escritores gregos, como Heródoto (Histórias I, 181 e 183), que chama de "caldeus" os sacerdotes de Bel. Veja a diferença: "caldeus" pode ser a família do rei e pode ser a classe dos letrados.

Quando o Senhor manda contra Jeoiaquim "as tropas dos caldeus" 2Rs 24.2, são soldados do povo caldeu. Quando o rei manda chamar "os magos, os astrólogos, os encantadores e os caldeus" Dn 2.2, é o outro sentido. Um mesmo termo, duas ideias.

👁️ Como era viver ali

Ser escriba era ser alguém. Os escribas de Babilônia escreviam contratos de venda, empréstimos, cartas de família, relatórios do palácio, orações, presságios. Um jovem estrangeiro que aprendia a escrita virava, pouco a pouco, parte da máquina do reino. Daniel 1 mostra a pressão por trás disso: mudam seus nomes Dn 1.7, mudam sua comida Dn 1.5, mudam sua língua. Mas não conseguem mudar o que ele "propôs no seu coração" Dn 1.8.

🌱 Semente de sermão

Daniel aprendeu tudo: a língua, a escrita, a ciência da Babilônia. E o texto diz que foi Deus quem deu aos quatro jovens "o conhecimento e a inteligência em todas as letras" Dn 1.17. Ele não precisou queimar os livros do império para continuar fiel. Dá para aprender a língua do lugar onde você está sem trocar o seu Deus. O limite, no texto, aparece num ponto exato: a comida do rei Dn 1.8.

LINHA DO TEMPOA Babilônia inteira, com a Bíblia marcada

Datas aproximadas, na cronologia "média" para os tempos mais antigos. O símbolo 📖 marca onde o texto bíblico cruza com cada época.

c. 2200 a.C. — O nome aparece
Um texto do tempo de Sharkalisharri, rei de Acádia, menciona templos construídos na cidade. Era ainda uma cidade pequena.
c. 1894 a.C. — A dinastia amorita
Uma família de origem amorita faz da cidade a capital de um reino.
c. 1792–1750 a.C. — Hamurabi
Unifica o sul e o centro da Mesopotâmia e deixa a famosa coleção de leis. 📖 Estudiosos do passado ligaram seu nome ao "Anrafel, rei de Sinar" de Gênesis 14.1; a maioria hoje considera a ideia improvável (Capítulo 2).
c. 1595 a.C. — Mursili I
O rei hitita saqueia a cidade. Entram os cassitas, que governam c. 1595–1155 a.C.
c. 1155 a.C. — Elão invade
Os elamitas levam a estela de Hamurabi para Susa, onde ela seria achada em 1901.
c. 722–710 e 703 a.C. — Merodaque-Baladã
📖 O chefe caldeu que se rebela contra a Assíria e reina duas vezes na Babilônia. Manda embaixadores a Ezequias (2Rs 20.12-19; Is 39).
689 a.C. — Senaqueribe destrói a cidade
O rei da Assíria arrasa a Babilônia. Seu filho Esar-Hadom a reconstrói a partir de c. 680 a.C.
626 a.C. — Nabopolassar
O novo rei toma o trono. Em 612 a.C., com os medos, derruba Nínive.
605 a.C. — Carquemis
📖 O príncipe Nabucodonosor derrota o exército egípcio e sobe ao trono (Jr 46.2; Dn 1.1).
597 a.C. — Joaquim levado a Babilônia
📖 Jerusalém é tomada pela primeira vez (2Rs 24.10-17). A Crônica Babilônica dá o dia: 2 de adar.
586 a.C. — A queda de Jerusalém
📖 O templo é queimado e o povo, deportado (2Rs 25). Alguns estudiosos preferem 587 a.C.
561 a.C. — Joaquim é solto
📖 Amel-Marduque, o "Evil-Merodaque" da Bíblia, liberta o rei de Judá (2Rs 25.27-30).
556–539 a.C. — Nabonido e Belsazar
📖 O último rei e o filho que governa em seu lugar (Dn 5).
539 a.C. — Ciro
📖 A Babilônia cai sem grande batalha (Dn 5.30-31; Is 45; Ed 1).
323 a.C. — Alexandre morre em Babilônia
Pouco depois, com a fundação de Selêucia, a cidade começa a perder importância.

PARA FIXARO que ficou do capítulo

🧱

A cidade de tijolo

Sem pedra e sem madeira boa: barro, forno e betume. Gênesis 11.3 descreve a obra como quem conhece a planície.

⏳

Cinco atos

Amorita, cassita, a sombra assíria, o império de Nabucodonosor e o depois. A Bíblia entra quase toda no quarto.

✍️

Cunhas e caniços

Cuneiforme em argila, acádio no dia a dia, aramaico crescendo. Daniel aprende "as letras e a língua dos caldeus" Dn 1.4.

📛

Dois sentidos de "caldeu"

Povo e dinastia, de um lado; classe de sábios, do outro. A palavra vem do acádio Kaldu.

Próximo capítulo: Ur dos caldeus, Hamurabi e a coleção de leis mais famosa da Mesopotâmia, e o que ela tem (e não tem) a ver com a lei de Moisés.

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