A beira de um rio, ao entardecer. Um grupo de homens e mulheres está sentado no chão, perto de alguns salgueiros. Os seus captores se aproximam e pedem uma canção. Ninguém canta. As harpas estão penduradas nos galhos. "Junto aos rios da Babilônia, ali nos assentamos e choramos, quando nos lembramos de Sião" Sl 137.1.
A Bíblia não conta o exílio como um evento, e sim como uma vida: cartas, visões, cantos de luto, rotina e, no fim, um rei que sai da prisão. Este capítulo percorre as vozes de quem estava na Babilônia, e o que as tabuinhas da própria Babilônia dizem deles.
21 — A CARTA"Edificai casas e habitai-as"
Pouco depois de 597 a.C., chegou à Babilônia uma carta de Jerusalém. Quem a trouxe foram dois enviados do rei Zedequias, Elasa e Gemarias, que iam a Nabucodonosor Jr 29.3. O remetente era Jeremias, e a mensagem era para "todos os do cativeiro" Jr 29.4. Quem esperava notícias de volta rápida se enganou. O profeta mandou dizer:
É um conselho que surpreende. Nada de rebelião, nada de espera de braços cruzados. Casa, jardim, casamento, filhos. E "procurai a paz da cidade", a cidade do conquistador, "e orai por ela ao Senhor" Jr 29.7. A frase seguinte é o motivo: "porque na sua paz vós tereis paz". Quem deveria odiar a Babilônia recebeu a ordem de rezar por ela.
Mas havia profetas que diziam o contrário. Jeremias cita dois pelo nome, Acabe e Zedequias (outro, não o rei), que "profetizam falsamente em meu nome" Jr 29.21. Eles prometiam que o cativeiro seria curto. Como castigo, o texto diz que seriam entregues a Nabucodonosor, e que a maldição viraria ditado entre os exilados: "O Senhor te faça como Zedequias, e como Acabe, os quais o rei de Babilônia assou no fogo" Jr 29.22. E Jeremias dá o prazo verdadeiro:
Esse segundo verso é um dos mais citados de todo o livro, em cartões, quadros e formaturas. Ele foi escrito para gente em cativeiro, com um aviso de setenta anos. Isso não o torna menos verdadeiro, mas lido com seu endereço certo, ele muda de cor: a promessa de "paz, e não de mal" não é uma garantia de que tudo dê certo amanhã. É a palavra de um Deus que diz a quem está no cativeiro que não o esqueceu, e que há um fim.
A palavra de Jeremias 29.7, que a ACF traduz por "paz", é shalom (שָׁלוֹם), que quer dizer também "bem-estar, saúde, inteireza". "Procurai a paz da cidade" é, em hebraico, dirshu et-shelom ha'ir: "busquem o bem-estar da cidade". O verbo darash, "buscar", é o mesmo que a Bíblia usa para a busca de Deus, como em "Buscai-me, e vivei" (Am 5.4).
O lugar para onde os exilados foram levados tinha nome acádio. Ezequiel 3.15 fala de "Tel-Abibe" Ez 3.15, em hebraico Tel Aviv, que soa como "colina da primavera". Muitos estudiosos pensam que por trás está o acádio til abūbi, "colina do dilúvio", o nome que os babilônios davam a ruínas antigas.
Os exilados tinham casas e líderes próprios. Ezequiel conta que estava "assentado na minha casa, e os anciãos de Judá assentados diante de mim" Ez 8.1. Plantavam, comiam o fruto, casavam os filhos. Não eram prisioneiros trancados, mas gente de outro país, sem poder de voltar, vivendo de cevada, tâmaras e trabalho para o reino. Muitos prosperaram o bastante para ficar: quando Ciro permitiu a volta, nem todos quiseram ir. A vida na Babilônia, depois de umas décadas, já era a vida deles.
Há tabuinhas babilônicas com nomes de judeus, e as mais importantes são as de Al-Yahudu, "a cidade dos judeus", um grupo de cerca de duzentas tabuinhas de contratos e empréstimos, datadas de 572 a 477 a.C., do reinado de Nabucodonosor II ao de Xerxes I. Elas vieram ao mercado de antiguidades sem origem confirmada, e uma parte importante foi publicada em 2014 pelas assiriólogas Laurie Pearce e Cornelia Wunsch (Documents of Judean Exiles and West Semites in Babylonia). Nelas aparecem pessoas com nomes hebraicos terminados em -yahu, que as tabuinhas escrevem com sinais acádios. Elas mostram judeus em povoados do interior da Babilônia, que alugavam terras, plantavam cevada e tâmara, faziam serviço de irrigação e de obra, emprestavam e tomavam prata. Resumos da pesquisa citam, entre os povoados onde viviam judeus exilados, Tel-Aviv, Tel-Melá e Tel-Harsa, nomes que se parecem com os de Ezequiel 3.15 e Esdras 2.59 (a identificação exata é discutida).
⚠️ Ninguém sabe onde ficava Al-Yahudu: propõem-se lugares perto de Borsipa, de Babilônia ou de Nipur. Como as tabuinhas vieram do mercado, sem escavação, perdemos o contexto. E elas são documentos econômicos: mostram trabalho, contratos e nomes (muitos com o nome de Yahweh dentro), mas não descrevem o culto. O que provam é que os exilados existiram, tinham nome, trabalharam e se integraram à economia babilônica, como Jeremias 29 manda.
22 — EZEQUIEL E O RIOVisões à beira do canal
O mais famoso profeta do exílio vivia à beira de um rio de nome estranho:
Quebar não era um rio no sentido do Eufrates. Em hebraico, nahar quer dizer rio e também canal. Textos babilônicos de contratos de Nipur, do século V a.C., falam de um canal chamado nāru kabari, "o grande canal", e muitos estudiosos o identificam com o Quebar. Se for isso, os exilados de Ezequiel estavam no sul da Babilônia, no coração da terra dos caldeus, como o texto diz.
As visões começaram no "quinto ano do cativeiro do rei Jeoiaquim" Ez 1.2 (o rei é Joaquim, ou Jeconias, de 2 Reis 24), ou seja, c. 593 a.C. Em Ezequiel há oráculos de condenação para Jerusalém, enquanto a cidade ainda de pé, e depois dela cair, há consolo. A virada tem data: "no ano duodécimo do nosso cativeiro, no décimo mês, aos cinco do mês, veio a mim um que tinha escapado de Jerusalém, dizendo: A cidade está ferida" Ez 33.21. Um fugitivo levou a notícia da queda de Jerusalém, e meses de caminhada separavam as duas cidades.
E o povo dizia, segundo Deus a Ezequiel, uma frase que resume o estado de espírito do exílio: "Os nossos ossos se secaram, e pereceu a nossa esperança; nós mesmos estamos cortados" Ez 37.11. É a introdução do vale de ossos secos, que Deus faz viver.
Em Ezequiel 11.16, Deus promete aos exilados: "lhes serei como um pequeno santuário, nas terras para onde forem" Ez 11.16. O hebraico é mikdash me'at (מִקְדָּשׁ מְעַט), e a expressão tem dois sentidos possíveis: "santuário pequeno" ou "santuário por pouco tempo". Os leitores dividem-se: uns veem um consolo (Deus os acompanha, sem templo); outros veem a promessa de que a falta do templo seria curta.
A tradição judaica leu esse "pequeno santuário" de um modo muito concreto. No Talmude da Babilônia (Megilá 29a), um rabino explica que são as sinagogas e as casas de estudo da Babilônia. Muita gente ouve também que a sinagoga nasceu no exílio: reunidos sem templo, os judeus teriam inventado a reunião para oração e leitura da Lei.
⚠️ Isso é tradição judaica posterior, não texto bíblico. A Bíblia mostra reuniões de anciãos com o profeta (Ez 8.1; 14.1; 20.1), mas não fala de sinagoga. Os historiadores discutem quando a sinagoga surgiu: as provas mais firmes são do período helenístico, séculos depois, e a ideia de que nasceu no exílio é uma hipótese, não um fato.
23 — AS CANÇÕES DO RIOO Salmo 137, as Lamentações e o consolo
O que os exilados cantaram, quando cantaram, ficou em poucos textos. O mais cru é o Salmo 137:
Ele continua, e vira outra coisa. Primeiro, a promessa: "Se eu me esquecer de ti, ó Jerusalém, esqueça-se a minha direita da sua destreza" Sl 137.5. Depois, a acusação contra Edom, que torceu pela queda da cidade Sl 137.7. E por fim, as últimas palavras do salmo, que quase ninguém lê em voz alta:
É um dos versos mais difíceis da Bíblia. Como ler? Há mais de uma resposta honesta. Muitos leitores veem aí o grito de quem viu a cidade queimar e as crianças morrerem, e o põem diante de Deus, em vez de agir. Para eles, o salmo é oração sincera, não manual de conduta. Outros notam que ele fala o mesmo tipo de linguagem que os profetas usam contra a Babilônia, como em Isaías 13.16: "suas crianças serão despedaçadas perante os seus olhos" Is 13.16. Outros ainda leem o final à luz de Jesus Mt 5.44. O texto não amacia, e a Bíblia conserva sem enfeite a dor de quem sofreu.
O outro grande texto do exílio é Lamentações. São cinco poemas, quatro deles em acróstico, em que os versos seguem a ordem das letras do alfabeto hebraico, de alef a tav. O poeta enfileira a dor em ordem, como quem precisa de forma para suportar o caos. O livro começa com uma pergunta que, em hebraico, é uma só palavra, Eikhah, "Como!":
E, no meio do livro, quando o poema chega ao centro, a voz muda, e aparece uma luz:
"Novas são cada manhã" vem do meio de uma cidade em ruínas. A tradição judaica e cristã mais antiga atribui o livro a Jeremias (a tradução grega antiga já traz essa introdução), mas o texto não diz o autor, e muitos estudiosos hoje o consideram obra anônima de um ou de vários poetas de Judá.
Os salgueiros do Salmo 137 não são o nosso salgueiro-chorão. Foi por causa desse salmo que o botânico Lineu deu ao salgueiro-chorão o nome científico Salix babylonica. Mas o hebraico 'aravim costuma ser traduzido por "choupos", e muitos botânicos o ligam ao choupo-do-Eufrates, árvore das margens dos rios da Mesopotâmia. Quem chorava debaixo dela tinha à volta canais e palmeirais, e uma cidade enorme de gente falando outras línguas. A saudade de Sião era feita de coisas pequenas: o cheiro do campo, o som do shofar, a língua das orações. Para um povo assim, a canção de Sião era sagrada demais para ser cantada de encomenda, como o próprio salmo sugere (v. 4).
E depois do luto, o consolo. Os capítulos 40 em diante de Isaías abrem com uma ordem:
Quem escreveu esses capítulos? Aqui há debate. A tradição, judaica e cristã, atribui o livro inteiro ao profeta Isaías do século VIII a.C., que teria visto o exílio com antecedência e escrito para consolar quem o viveria. A maioria dos estudiosos acadêmicos vê nos capítulos 40 a 55 a voz de um profeta anônimo do exílio, às vezes chamado de "Segundo Isaías". O que todos concordam é que esses capítulos falam à situação do cativeiro: nomeiam a Babilônia, o seu Bel e o seu Nebo (Is 46), e anunciam um libertador chamado Ciro (Is 44.28; 45.1).
Entre o Salmo 137 e Isaías 40, há uma distância de anos, e a Bíblia a deixou inteira: o luto sem pressa de acabar, e depois a ordem "Consolai, consolai o meu povo" Is 40.1. A mesma Bíblia traz o grito e o consolo. Quem tem pressa de consolar quem chora pula uma parte da Bíblia: a que dá a quem sofre o direito de lamentar.
24 — A CONTA DOS SETENTA ANOSQuando acaba um exílio?
Jeremias falou em setenta anos duas vezes. "Estas nações servirão ao rei de Babilônia setenta anos" Jr 25.11; e na carta, "passados setenta anos em Babilônia, vos visitarei" Jr 29.10. Daniel os cita ao ler Jeremias Dn 9.2, e Zacarias, depois da volta, pergunta ao anjo até quando Deus ficaria irado "estes setenta anos" Zc 1.12. Crônicas fecha a conta: a terra "repousou, até que os setenta anos se cumpriram" 2Cr 36.21.
De onde contar? Há três posições principais:
De 605 a 539/538 a.C. Do primeiro ano de Nabucodonosor (Jr 25.1) até a queda da Babilônia e o decreto de Ciro. Dão uns 66 a 67 anos, e "setenta" seria um número redondo.
De 586 a 516 a.C. Da destruição do templo até a sua reconstrução, no tempo de Dario. É exatamente setenta anos, e combina com Zacarias 1.12, datado de c. 519 a.C., que fala em "estes setenta anos" de ira contra Jerusalém.
Um número simbólico. Em textos antigos, setenta era a duração de um castigo divino. Um texto do rei assírio Esar-Hadom sobre Babilônia (c. 679 a.C.) diz que o deus Marduque decretou setenta anos de abandono para a cidade que Senaqueribe destruiu em 689, mas, aplacado, virou o número de cabeça para baixo e a restaurou depois de onze. O profeta Isaías também fala de setenta anos para Tiro (Is 23.15). Alguns estudiosos, como Mark Leuchter (2004), acham que Jeremias usa uma linguagem que seus ouvintes já conheciam, para dizer que o poder de Babilônia tinha prazo.
⚠️ Nenhuma das três posições é consenso. A Bíblia dá o número e não explica a conta. O que as três mostram é que o exílio foi pensado como tempo medido, com começo, meio e fim, nas mãos de Deus, e não como destino sem volta.
25 — O REI NA PRISÃOJeconias e a ração diária
O Segundo Livro de Reis termina com uma cena pequena, quase uma nota de rodapé. Trinta e sete anos depois da deportação de Joaquim, o rei de Judá, que estava preso em Babilônia, foi solto:
O novo rei de Babilônia chamava-se Amel-Marduque (a Bíblia o chama de "Evil-Merodaque"), filho de Nabucodonosor, que reinou de 562 a 560 a.C. e, segundo o historiador babilônico Beroso, foi assassinado por seu cunhado Neriglissar. A Bíblia diz que ele "levantou a cabeça de Joaquim, rei de Judá, tirando-o da casa da prisão" 2Rs 25.27. Jeremias 52.31-34 conta a mesma cena, com uma pequena diferença de dia: 27 do mês, em Reis; 25, em Jeremias. Os dois dizem o mesmo no essencial.
Como ler esse final? Também há duas respostas. Alguns estudiosos o leem como uma ponta de esperança: a linhagem de Davi ainda vive, e o rei está sentado à mesa. Outros o leem como um fim sem promessa: nada de volta, nada de trono, só uma ração diária. O texto não diz qual. Para quem vive no cativeiro, as duas leituras talvez sejam verdadeiras ao mesmo tempo.
"Levantar a cabeça" tem um detalhe de hebraico. A expressão nasa et-rosh (נָשָׂא אֶת־רֹאשׁ) aparece em Gênesis 40 com dois resultados opostos: o copeiro de Faraó tem a cabeça "levantada" e é restaurado Gn 40.13, e o padeiro tem a cabeça "tirada" e é pendurado Gn 40.19. A expressão só diz que o rei toma alguém em consideração, e o resultado depende do contexto. Em 2 Reis 25, o contexto é de honra.
Entre 1899 e 1917, Robert Koldewey achou, num prédio abobadado perto do Portão de Ishtar, tabuinhas que registram as rações de comida e de óleo entregues à gente ligada ao palácio. Foram publicadas por Ernst Weidner em 1939 e estão hoje no Museu de Pérgamo, em Berlim (VAT 16378 e outras). Datam de c. 595 a 570 a.C. Numa delas, "Ya'ukin, rei da terra de Iahudu", recebe dez silas de óleo (uns oito litros) e seus cinco filhos, juntos, duas silas e meia. Na mesma lista aparecem carpinteiros de Arvad, de Biblos e artesãos gregos, o que mostra uma capital cheia de deportados de várias terras.
⚠️ As tabuinhas são anteriores à libertação de 561 a.C. (a única com data conservada é de 592/591 a.C., o 13º ano de Nabucodonosor). Elas provam que Joaquim existiu, que foi chamado de "rei de Judá" mesmo no exílio e que o palácio o sustentou. Isso casa muito bem com 2 Reis 25.30. Mas não provam a cena da libertação, e a Bíblia é a única fonte para ela.
PARA FIXARO que ficou do capítulo
A carta de Jeremias
"Edificai casas... procurai a paz da cidade" Jr 29.5-7. Setenta anos, e um Deus que pensa "paz, e não de mal" Jr 29.11.
Ezequiel junto ao Quebar
O canal pode ser o nāru kabari, perto de Nipur. As tabuinhas de Al-Yahudu mostram judeus lavrando e emprestando prata.
Harpas penduradas
O Salmo 137 e as Lamentações dão voz ao luto. Isaías 40 responde com "Consolai".
A ração do rei
Tabuinhas de Babilônia citam "Ya'ukin, rei de Iahudu", com óleo para ele e os filhos. Reis termina com sua libertação 2Rs 25.27-30.
Próximo capítulo: Daniel na corte de Nabucodonosor. Nomes trocados, um sonho esquecido, uma fornalha e um rei que comeu capim.
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