Fumaça. De longe se vê uma fileira de fornos acesos na planície, e o cheiro de barro queimado. Homens carregam tijolos, outros passam betume nas fileiras. Todo mundo fala a mesma língua, e todo mundo entende a ordem do vizinho. É assim que Gênesis 11 começa: "E era toda a terra de uma mesma língua e de uma mesma fala" Gn 11.1.
Este capítulo cuida de uma das histórias mais curtas e mais famosas que a Bíblia conta sobre a Babilônia: a da torre. Ele olha para o texto, para o homem que Gênesis 10 liga ao começo da cidade, para a torre de verdade que existiu em Babilônia e para o debate honesto sobre a relação entre as duas coisas.
11 — O PRINCÍPIO DO REINONinrode e a terra de Sinar
Antes da torre, a Bíblia já cita a Babilônia, e de passagem. É na tabela dos povos, em Gênesis 10, dentro da família de Cão:
Ninrode é uma figura misteriosa. É filho de Cuxe, neto de Cão, "poderoso caçador" a ponto de virar provérbio. E o seu reino começa em Babel, junto com outras cidades de nomes conhecidos: Ereque (a Uruk dos textos mesopotâmicos), Acade (Acádia) e Calné. Depois ele "saiu à Assíria" e edificou Nínive e outras cidades Gn 10.11-12. O local é a "terra de Sinar", nome que a Bíblia usa para o sul da Mesopotâmia, e que Daniel 1.2 liga claramente à Babilônia: Nabucodonosor leva os utensílios do templo "para a terra de Sinar, para a casa do seu deus".
Quem foi Ninrode? Não se sabe. Os estudiosos propuseram várias identificações, nenhuma segura: o deus-caçador mesopotâmico Ninurta, o rei assírio Tukulti-Ninurta I (c. 1233–1197 a.C.) e reis de Acádia, como Sargão ou Naram-Sin. O texto só diz o que ele foi: quem "começou a ser poderoso na terra" e o fundador de um reino que começa em Babel.
Sinar, em hebraico, é Shin'ar (שִׁנְעָר). Muitos estudiosos propõem que o nome se liga ao Šumer, "Suméria", embora a ligação seja debatida. O que o resto da Bíblia mostra é o uso: Sinar é o nome antigo para a Babilônia. Em Josué 7.21, Acã esconde uma "boa capa babilônica" Js 7.21; no hebraico, é um manto de Shin'ar, e mostra que tecidos de luxo daquela terra já eram conhecidos em Canaã. Em Isaías 11.11, Sinar está na lista dos lugares de onde Deus trará de volta o remanescente do povo. E em Zacarias 5, uma mulher chamada "Impiedade", presa num cesto, é levada pelo ar "para lhe edificarem uma casa na terra de Sinar" Zc 5.11: um modo simbólico de dizer onde ela moraria.
12 — A TORREGênesis 11, verso a verso
A narrativa é curta. Vale lê-la inteira, devagar:
Quatro coisas se destacam no texto.
Os materiais. Já vimos no Capítulo 1: tijolo e betume, o jeito de construir na planície. O detalhe põe a cena na terra de Babilônia, a "terra de Sinar" do verso 2.
O motivo. Eles não dizem "façamos uma casa para Deus". Dizem: "façamo-nos um nome" Gn 11.4, para não serem espalhados. O medo era a dispersão, e o remédio, uma cidade grande e uma torre de fama. Compare com o chamado de Abraão logo adiante: a Abraão, Deus promete "engrandecerei o teu nome" Gn 12.2. Na Babilônia, o homem faz o nome para si. Em Abraão, Deus faz.
A ironia. A torre deve ter o cume tocando os céus Gn 11.4, e o Senhor tem de baixar para vê-la: "desceu o Senhor para ver a cidade e a torre" Gn 11.5. O narrador deixa o contraste à vista do leitor: o que parece enorme para quem constrói é pequeno aos olhos de Deus.
O jogo de palavras. O texto termina explicando o nome: "Por isso se chamou o seu nome Babel, porquanto ali confundiu o Senhor a língua" Gn 11.9. O hebraico faz um trocadilho entre o nome da cidade e o verbo "confundir".
O trocadilho é este. A cidade é Bavel (בָּבֶל) e o verbo "confundir" é balal (בָּלַל), que quer dizer "misturar, embaralhar". O verso 9 diz, em hebraico, ki-sham balal YHWH, "porque ali confundiu o Senhor". Para os leitores hebreus, o som de Bavel lembrava balal. Mas os babilônios entendiam o próprio nome de outro jeito: Bāb-ilim, "porta de Deus" (Capítulo 1). O texto bíblico responde ao nome orgulhoso com um nome zombeteiro: a "porta de Deus" é, para o narrador, a cidade da confusão.
Fazer tijolo era um trabalho que o povo todo conhecia. Barro, água e palha, socados e moldados em fôrmas, secos ao sol. Os mais duros iam ao forno, que queimava dias a fio. Por isso uma obra gigante de tijolo queimado exigia combustível sem fim e milhares de braços. Um judeu exilado em Babilônia, ouvindo essa história, tinha ao redor muralhas, palácios e um zigurate, tudo de tijolo, e não precisava de muita imaginação para sentir a escala do projeto.
A Bíblia não diz que Ninrode construiu a torre. Essa ligação vem de tradição. O historiador judeu Flávio Josefo (séc. I d.C., Antiguidades Judaicas I, 113–114) conta que Ninrode convenceu os homens a desafiar a Deus e a construir uma torre alta demais para uma nova enchente alcançá-la. Algumas versões aramaicas antigas de Gênesis 10, os Targuns, também pintam Ninrode como um rebelde diante de Deus. Já em Gênesis, ele é "poderoso caçador diante do Senhor" e nada mais.
⚠️ A imagem de Ninrode como líder da torre, ou como tirano, é tradição judaica posterior, não Escritura. O texto de Gênesis 10 e o de Gênesis 11 não se ligam por nenhuma frase. Quem os une é a leitura de séculos depois.
13 — A TORRE QUE EXISTIUEtemenanki, o zigurate de Marduque
Em Babilônia existiu, sim, uma torre enorme. Chamava-se Etemenanki, em sumério "a casa do alicerce do céu e da terra". Era o zigurate do deus Marduque, ao lado do templo dele, o Esagila. Um zigurate é uma torre em degraus de tijolo, com um santuário no alto. A leitura mais comum é que ele servia de elo entre o céu e a terra, mais do que de lugar de reunião do povo. A data da primeira construção é incerta. Depois que Senaqueribe destruiu a cidade em 689 a.C., o filho Esar-Hadom começou a reconstruí-la, Nabopolassar continuou, e Nabucodonosor II reergueu o zigurate. As inscrições reais do tempo dele registram a obra de restauração.
Como era? Há duas fontes antigas. A primeira é o grego Heródoto, que escreveu no século V a.C. e conta de uma torre com oito andares, empilhados um sobre o outro, uma subida por fora e, no alto, um grande templo (Histórias I, 181). É provável que tenha ouvido a descrição de segunda mão. A segunda é uma tabuinha cuneiforme, copiada em Uruk em 229 a.C., chamada de "tabuinha do Esagila" (hoje no Louvre, em Paris). Ela dá as medidas do templo e do zigurate: uma base quadrada de uns 91 metros de lado e sete andares, que somam também uns 91 metros de altura.
E o que a pá achou? O alemão Robert Koldewey e sua equipe confirmaram o lugar por volta de 1913. Acharam os alicerces de uma enorme base quadrada de tijolo, grandes escadarias do lado sul e uma porta ligando o zigurate ao Esagila. Hoje restam só esses alicerces; o tijolo da torre foi sendo retirado ao longo dos séculos. O Etemenanki que Koldewey achou confirma o essencial da descrição da tabuinha. Uma parte dos arquitetos hoje duvida da altura de 91 metros, porque tijolo de barro não sustentaria tanto; um estudo de 2005 (Fenollós, Vegas e Mileto) estima uns 54 metros para o zigurate e uns 66 contando o templo do alto.
Quando Alexandre, o Grande, entrou em Babilônia em 331 a.C., o Etemenanki estava em mau estado. O geógrafo Estrabão (Geografia XVI, 1, 5) conta que Alexandre quis reconstruir o chamado “túmulo de Belo”, que em geral se identifica com o zigurate, e mandou começar a limpar o entulho, mas morreu antes de ver a obra.
⚠️ A tabuinha do Esagila, Heródoto e as escavações de Koldewey provam que existia uma torre imensa de tijolo em Babilônia, com algo entre uns 66 e uns 91 metros de altura, dependendo da leitura. Elas não provam que essa torre é a de Gênesis 11. O texto bíblico não dá o nome do zigurate, e a escavação não achou nenhuma inscrição ligando-o à história do livro.
Então qual é a relação? Há três posições honestas.
A torre de Gênesis 11 é uma crítica à Babilônia. Muitos estudiosos entendem que a história foi escrita ou lida por judeus que conheciam os zigurates da Mesopotâmia, e talvez em especial o de Babilônia, durante o exílio. Eles notam a ênfase em tijolo e betume, o nome "Babel" e a zombaria do nome "porta de Deus". Para esses leitores, o Etemenanki é o que está por trás do texto, ao menos como imagem.
A torre de Gênesis 11 é uma obra antiga qualquer. Outros lembram que zigurates existiam desde mais de mil anos antes de Nabucodonosor, em Ur, Uruk e Eridu, e que o texto fala de uma cidade e de uma torre no começo da humanidade, sem relação com um prédio determinado. Para eles, o Etemenanki é um exemplo do mesmo tipo de obra, não a obra.
É um relato do que realmente aconteceu. Há quem leia Gênesis 11 como narrativa de um acontecimento real no começo da humanidade, de que as torres mesopotâmicas são lembrança. Para essa leitura, a Bíblia dá a origem das línguas e dos povos, e os zigurates são sinal dela.
⚠️ É debate aberto. Nenhum achado decide entre essas três leituras. O que o texto mostra com clareza é o movimento: gente que quer um nome feito por si mesma, e um Deus que desce, vê e dispersa.
Há ainda uma observação sobre a ordem. Gênesis 10, que vem antes, já fala de povos separados, "cada qual segundo a sua língua" Gn 10.5. A cena da torre, em Gênesis 11, parece então voltar atrás, para contar o como da dispersão que o capítulo anterior já descreve como fato. Muitos leitores percebem aí uma estrutura: primeiro a tabela, depois a cena que explica sua origem.
Em Babel, o homem diz: "façamo-nos um nome" Gn 11.4. Duas páginas depois, Deus diz a Abraão: "engrandecerei o teu nome" Gn 12.2. É o mesmo desejo, em duas mãos diferentes. Na primeira, é projeto; na segunda, é promessa. Muitos cristãos ainda veem em Pentecostes uma resposta a Babel: gente de muitas línguas que ouve, "em nossas próprias línguas", "as grandezas de Deus" At 2.11. O nome que a gente constrói some na confusão. O nome que Deus dá vira bênção.
PARA FIXARO que ficou do capítulo
Ninrode e Sinar
O "poderoso caçador" cujo reino começa em Babel, na terra de Sinar Gn 10.8-10. Quem foi, ninguém sabe.
"Façamo-nos um nome"
Tijolo, betume e medo de ser espalhado. O Senhor precisa "descer" para ver a torre Gn 11.4-5.
Bavel e balal
O nome da cidade ecoa o verbo "confundir". Para o babilônio era "porta de Deus"; para o hebreu, o lugar da confusão.
Etemenanki
Existiu uma torre assim em Babilônia, com uns 90 metros nas medidas antigas. Ligá-la a Gênesis 11 é uma leitura, não um achado.
Próximo capítulo: a Babilônia deixa a história remota e entra em cena no tempo dos reis de Judá: Merodaque-Baladã, os embaixadores de Ezequias, Nabopolassar e a batalha de Carquemis.
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